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Povo do Baú |
“Ele ta dando ajuste, mas ainda não acabou não”
A frase acima foi proferida por Pedro de Alexina, 81 anos, morador do povoado de Quartel do Indaiá, no documentário "Terra Deu, Terra Come", dirigido por Rodrigo Siqueira. Ele se refere ao morto, que ainda está quente, que não fez a passagem. Seu Pedro é um dos únicos descendentes de escravos que ainda se lembra dos Vissungos, os cantos herdados dos escravos africanos trazidos para trabalhar na mineração de ouro e diamante entre os séculos XVII e XVIII. Os Vissungos são cantos rituais misturando dialetos africanos de origem Bantu, como o Umbundo e o Quimbundo e o português arcaico. Alguns eram entoados em ocasiões fúnebres e outros em situação de trabalho.
Além de Pedro só existe mais um cantador de vissungos vivo, seu Ivo Silvério, com 77 anos, morador de Milho Verde, distrito de Serro.
O filme, com cerca de 1h30 de duração aborda o universo simbólico em torno do personagem, misturando técnicas documentais e ficção de uma forma muito habilidosa. Percebi um curioso acordo tácito entre os críticos que é não revelar o grande desfecho, o segredo velado do corpo presente. Para descobrir do que se trata é necessário assistir à película.
Vencedor do “É Tudo Verdade” e da “Mostra Panorâmica de Gramado”, o filme entrou em cartaz no Cine Humberto Mauro, que é tradicionalmente uma sala voltada para o público cinéfilo e depois ficou algumas semanas numa sala de cinema comercial com uma programação de filmes de arte – o Cineclube Savassi. Foi lá que assisti, acompanhado de outros seis expectadores.
Comecei a freqüentar a região do Alto Jequitinhonha há cerca de 15 anos atrás, quando era uma aventura sair de Belo Horizonte e chegar de carona a Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras passando pela Serra do Cipó. Nesse período eu fui quase todos os anos e desde o início me intrigava o sotaque de alguns moradores, carregados de expressões de origem africana desconhecidas no resto do estado.
Fui buscando mais informação, conhecendo os moradores. Me falaram do povoado do Baú onde eu encontraria falantes de quimbundo. Atravessei o Jequitinhonha próximo da nascente a cavalo e cheguei no remanescente de quilombo. Não levei gravador, fiz fotos e anotações, como a que ilustra esse texto.
Mais tarde encontrei um livro que é uma das principais referências nos estudos de dialetologia africana no estado, chamado “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais” onde estão registrados música e letra de 65 Vissungos recolhidos pelo pesquisador Aires da Mata Machado Filho em 1928 no povoado de Quartel do Indaiá e São João da Chapada, distrito de Diamantina, no norte de Minas Gerais.
Essas anotações serviram de base para a gravação do disco “O Canto dos Escravos”, de 1982 que reuniu Geraldo Filme, Tia Doca e Clementina de Jesus, num registro de 14 daqueles cantos. O link para baixar o disco está aqui:
Além de Pedro só existe mais um cantador de vissungos vivo, seu Ivo Silvério, com 77 anos, morador de Milho Verde, distrito de Serro.
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