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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Árvores e Portas da Memória e do Esquecimento

baobá, a árvore da memória ancestral
A travessia da #kalunga é a travessia da própria linha da vida. Renascer, crescer e mergulhar no desconhecido mundo das forças invisíveis com consciência é permitir-se retomar a própria historia, reconectar com as raízes da ancestralidade, reconectar-se com elos perdidos pelos movimentos do tempo e dos fluxos de dominação a que os antepassados foram submetidos e que nós mesmos estamos sendo submetidos, novos processos com roupagem nova, mas com a mesma essência de escravidão e miséria humana . Somos chamados a nos libertar! 

Somos convidados a nos relembrar. Ativar a memória de nossos cromossomos. De nossos átomos. Ativar nossa memória mineral. Nossa memória pré-fetal. Nossa memória vegetal.

No Brasil, no estado de Pernambuco, existe uma cidadezinha chamada "Porto de Galinhas". Para esta cidade vieram muitos afrikanos escravizados, que chegaram para serem vendidos clandestinamente no Brasil. Vinham escondidos embaixo de engradados de galinhas d'angola. 

Por ser em uma época onde, teoricamente, o tráfico negreiro já havia sido proibido, os traficantes usavam como código a senha "Tem Galinha Nova No Porto" para anunciar um novo carregamento de humanos traficados. Por causa disso, essa cidade que outrora se chamava "Porto Rico" (devido à abundância de pau Brasil), ficou conhecida por "Porto de Galinhas".

Tempos depois, esta cidade virou um pólo turístico onde os principais monumentos são estátuas de galinhas de variadas cores e tamanhos.

Não existe nesta cidade um único monumento público em memória a todas as levas de afrakanos que chegaram para serem vendidos como seres escravizados na nova terra.

Perto desta vila, no entanto, existe uma pequena cidade chamada Conceição do Ó, onde na praça principal ainda está de pé uma enorme e centenária Baobá. 

Esta árvore, que é considerada a mais sagrada das árvores em vários países afrikanos, é reverenciada como morada dos espíritos ilustres dos ancestrais e considerada um altar natural nas cosmovisões de várias religiões de matriz afrikanas, trazendo consigo também o simbolismo da manutenção da memória primordial.

Conta-se que estas mágicas árvores eram usadas como portais para o esquecimento do povo afrikano. Tanto lá quanto aqui. Os escravizados eram obrigados a dar sete voltas (no caso de serem homens) ou nove voltas (no caso de serem mulheres) ao redor das baobás para se esquecerem de todas as suas raízes, de toda sua ancestralidade e se tornarem humanos mais maleáveis às exigências dos colonizadores e traficantes.

Na Áfrika, além das árvores, eram também utilizados grandes portais para as mesmas manobras.

Estas portas eram conhecidas como "Portas do Não-Retorno", pois se dizia que quem através delas passavam, jamais voltariam a pisar nos solos da mãe Afrika.

Existe uma "Porta do Não-Retorno" em Senegal, na Ilha de Goré, com o nome de Casa dos Escravos. 

Casa dos Escravos, em Senegal. Ao fundo, a Porta do Não Retorno
Também existe uma "Porta do Não-Retorno" em Ouidah, no Benin, onde se pode ler em uma placa: "Simboliza a última etapa da maior deportação jamais conhecida na humanidade - o comércio negreiro". 

A cada ano, no dia 10 de janeiro, desde 1992, o povo beninense comemora uma grande festa de culto Vodum em memória a todos aqueles que partiram e nunca mais voltaram.

Porta do Não Retorno, no Benin. Ouidah
No entanto, a trajetória dos "retornados" - Agudás (Benin), do povo Tabom (Gana) e dos Brasileiros (Nigéria) - demonstram que a história acontece através de movimentos contínuos-intermináveis, dialéticos e, a menudo, surpreendentes

Assim, as mesmas portas do "Não-Retorno" tiveram que se abrir para os "Retornados".

Os "retornados" foram afrikanos ou afro-descendentes já nascidos nos novos territórios da diáspora que voltaram ao continente, mesmo que nem sempre para o seu lugar de origem. Estes caminhos de volta eram comuns entre as comunidades afrodescendentes dos Estados Unidos e do Reino Unido e, sobretudo a partir de 1840, no Brasil também começou a ser uma prática recorrente.

No Vai e Vem das águas de #Kalunga, o destino destes #retornados foram os locais que mais haviam fornecido mão de obra escrava ao Brasil: as cidades portuárias do Golfo da Guiné, onde hoje estão Gana, Benin e Nigéria.

Em Gana ficaram conhecidos como "Tabons", porque quando lá chegaram, para quase tudo o que lhes perguntavam respondiam "Tá Bom", por não dominarem as línguas africanas locais. 

No Benim, foram chamados de "Agudás"

Na Nigéria, os retornados ficaram conhecidos como "Brasileiros".

De volta ao continente mãe, em sua re-inserção social, os "retornados" obviamente passaram por vários processos de exclusão social e crises identitárias - já que nos territórios afrikanos não eram mais considerados afrikanos, e sim afro-americanos ... 

Com o passar do tempo, no entanto, foram sendo aceitos e, afinal firmaram-se socialmente como exímios artesãos, comerciantes, construtores e arquitetos.

Os números não nos deixam cair na ilusão. Estima-se que cerca de 14 milhões de afrikanos foram levados para as Américas e outros tantos milhões foram levados ao Oriente.

"Só nas Américas, o número de afro-descendentes ultrapassa 200 milhões e muitos deles vivem sob terríveis circunstâncias. Estão frequentemente entre os mais afetados pela pobreza, desemprego e condições precárias de vida. Este não é um mero acidente do destino. Precisamos reconhecer que na raíz desta deplorável realidade está a discriminação estrutural, que teve origem em lugares como a ilha de Gorée." (http://unicrio.org.br/o-legado-da-porta-sem-retorno/)

Somos convidados a dar voltas de libertação ao redor das árvores sagradas, escrever e re-escrever nossa própria história. 

Assim ... Plantemos nossas Baobás, invoquemos a ativação de nossa memória coletiva ancestral para que as "Portas do Não Retorno" não obedeçam às leis do "Eterno Retorno" e possamos nos Relembrar. 

Possamos escrever juntos uma nova história pan-africanista, que não vai funcionar apenas na Afrika, que demanda conexão e trans-diálogo entre todos os territórios envolvidos na diáspora negra. Nos reconhecermos lá para nos conhecermos aqui. Nos conhecermos aqui para nos reconhecermos lá.

Apenas assim vamos conseguir reunir de volta as peças espalhadas deste grande quebra-cabeças. Apenas assim vamos realizar a cura destas mazelas ancestrais.

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Mo Maiê, Mariana (MG), dezembro de 2017.

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#cosmovisão #cosmopercepção #bakongo #bantu #Kala#mussoni #tukula #luvemba #kianda #filosofiaAfricana #capoeiraAngola#descolonização #capoeira #ancestralidade #roots 
. fontes:
Alcione M. Amos, « Afro-Brazilians in Togo », Cahiers d’études africaines [En ligne], 162 | 2001, mis en ligne le 12 juin 2004, consulté le 28 décembre 2013. http://etudesafricaines.revues.org/88
http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/11-lugares-de-memoria-da-escravidao-na-africa-e-no-caribe/
http://unicrio.org.br/o-legado-da-porta-sem-retorno/

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Bwit e Ngombi. Música e Ritual bakongo

Ritual Bwit, do Gabão

A linha de Kalunga, os fluxos desta Kalunga vão me levando pelos mares atlânticos.....
Vou seguindo as linhas de navegação sem pressa, honrando e agradecendo. 
Comecei por lá de cima do continente e parece que fui descendo, descendo. Até que a vida me levou para os caminhos da Áfraka Bakonga.
Tudo partiu do campo da filosofia e da capoeira. E se adentrou de uma maneira tão profunda nas pesquisas musicais que agora sinto-me em um labirinto em que não consigo mais sair. Mas pouco a pouco, dia após dia vou sintonizando minha mente às mensagens dos ancestrais e me entregando ao caminho. Aceitando e agradecendo.
Estou há um tempo concebendo uma vivência que une filosofia bantu, música e consciência corporal. Percebendo a necessidade de ancorar os trabalhos desta vivência em uma família de instrumentos musicais, minha caminhada vem me levando aos arcos africanos.
Cheguei desta vez, depois de muita meditação, ao precioso instrumento musical chamado Ngombi, um instrumento de cordas, uma harpa, muito comum no Gabão. O Ngombi é usado durante os rituais de Bwit, religião do povo Mitsogo, neste país.
A África é muito conhecida por seus tambores, mas pouco se fala da riqueza das cordas africanas. Isso bem me disse um amigo de Guiné Bissal.
Mas a Harpa existe desde os tempos do antigo Egito, Kemet, a terra negra. As antigas harpas de Kemet datam de mais de 5.000 anos e eram usadas no dia a dia e nos rituais desta antiga civilização.

Harpa do Antigo Egito 

Pouco falamos sobre um país tropical chamado Gabão, situado na costa atlântica na África Equatorial Central, fazendo fronteira com Camarões, Congo e Guiné Equatorial.
Parte do Império Bakongo, o Gabão é herdeiro de inúmeras tradições ancestrais, dentre estas um instrumento chamado Ngombi, instrumento que parece ter originado das antigas harpas do antigo Kemet, e que participa dos rituais religiosos Bwiti, comum tanto nas selvas do interior do país, quanto na costa.


Gabão, África
Conta-se que nos últimos 20 anos o Bwiti, antiga religião, atravessou fronteiras e chegou a Camarões, Congo, Zaire e Guiné. Considerado por seus membros como uma religião universal monoteísta, acessível a qualquer pessoa, o Bwiti é um ritual que envolve o transe através da música e do uso do Iboga, uma planta com propriedades alucinógenas (possui DMT, mesmo princípio presente no Ayawasca).
De acordo com a cosmogonia Bwitista, as propriedades alucinógenas do iboga foram descobertas pela primeira vez pelos pigmeus no interior da selva. Estes passaram seu conhecimento para os Apindji e os Mitsogo, que iniciaram os primeiros rituais Bwitistas. Mais tarde, estes conhecimentos foram transmitidos para os Fang, Eshira e outros grupos étnicos em todo o sul do Gabão. (Samorini, Giorgio. "The Bwiti Religion and the psychoactive plant Tabernanthe Iboga (Equatorial Africa).)
Devido à sua contínua reforma, o Bwiti original assumiu certas características de outro culto ancestral chamado de Byeri, em cujos rituais foi usado um alucinógeno diferente, o alan (plural, melan).
O Byeri defende um culto privado praticado pelos descendentes de famílias patrilineares. No clímax da cerimônia de iniciação, o iniciado, sob a influência de uma dose forte da raíz, é apresentado para o crânio de seus antepassados, e a partir daí, ele poderia se comunicar com os espíritos do morto.
Por muito tempo o Bwiti foi considerado um culto ancestral e até hoje, a palavra Bwiti é traduzida como morto ou antepassado. No entanto, a etmologia pode vir de "Mbouiti", o nome de um grupo de pigmeus atualmente ocupando uma região entre o Gabão e o Zaire.
O ngoze, ou cerimônias noturnas costumeiras são tempo de fervor religioso, coletivo, alegria, banquete, quando preparam o iboga. Também momento de amar uns aos outros.
Durante a noite, os participantes dançam, brincam e cantam. Vestem-se com diferentes cores, branco, azul, amarelo, de acordo com as cores de sua própria comunidade ou o dia da semana. Com os rostos pintados por um pó branco, caem sob os efeitos do iboga e dançam, tocam e cantam por longas horas e exaustivas danças do mais puro espírito tribal afrakano.
As danças são guiadas por esquemas coreográficos precisos. A dança mais comum é uma longa fila de pessoas que se movem no interior do homem-templo. Cada pessoa repete o movimento da pessoa na frente. Tudo isso ao ritmo de vários instrumentos musicais: o arco musical, bastões e outros instrumentos de percussão e durante a segunda parte da noite, a harpa sagrada (ngombi). De vez em quando eles descansam, bebem, riem e ficam felizes.

Ngombi, instrumento de cordas da Áfraka Equatorial Central
Durante a última parte da cerimônia nas primeiras horas da manhã, toda a comunidade experimenta um fluxo coletivo de emoções, resultando no que os Bwitis chamam de "nlem myore" (um só coração), um estado em que as pessoas se entendem e tornam-se um em comunhão.
Na mitologia Bwitista está a existência de um único Deus, Nzame Mebeghe, um deus semelhante ao cristão, ainda menos irritado e vingativo (não existe um inferno). No começo dos tempos, Nzame criou um ovo do qual nasceram Eyene, None e Gningone.
Gningone é uma entidade feminina, considerada a mãe da raça negra. Entre os Fang, bem como entre outros grupos africanos, tudo relacionado à mãe - terra, ao princípio feminino mantém seu valor primário ligado à fecundidade.
A história de Muma, a história da descoberta de iboga e a origem do Bwiti tem diferentes versões, não apenas entre os Fangs, mas também entre os Apindgi, Mitsogho e Eshira.

Fontes:
www.myeboga.com/eboga/the-bwiti-iniciation
www.ibogaine.mindvox.com/articles/bwiti-religion/