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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

IMANI Ensemble estréia concerto no I Festival Holístico Vivazen

No Arquipélago de Tinharé, na Ilha de Cairú, acontece o I Festival Holístico Vivazen que receberá o concerto do IMANI Ensemble, conjunto formado pelos músicos multi-instrumentistas Mo Maiê, Ejigbo e Issa Mulumba, já conhecidos na cena alternativa de Salvador, o grupo, que vem sendo gestado desde meados de 2017, alinha as pesquisas dos integrantes numa perspectiva de descolonização. No repertório de canções autorais os artistas exploram as possibilidades que vão além de fronteiras linguísticas ao apresentar canções com melodias baseadas no poder dos fonemas, tudo isso aliado a um corpo instrumental orgânico que lança mão de instrumentos como Kalimba, Mbira, Balafon e Ngoni, dentre outros de origem africana. O concerto conta ainda com a participação do percussionista uruguaio Marcel Morón.
Os ingressos estão disponíveis no site:

IMANI ENSEMBLE: Música Universal

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A dimensão espiritual das relações na etnia Dagara, por Sobonfu Somé. Artigo escrito por Issa Mulumba

Qualquer que seja, a filosofia africana é um caminho para analisar em sua particularidade aquilo que é bom e aquilo que nem tanto para o projeto de descolonização e busca da afrocentricidade como meio de garantia de existência dos africanos do continente e da diáspora. Podemos analisar de maneira afrocentrada a economia da nossa comunidade e o modo como o dinheiro circula entre os nossos, as oportunidades e capacidade que os negros têm de fazer algo, os aspectos culturais que mantêm as nossas tradições vivas e também as nossas relações interpessoais, de amizade e amor na comunidade.
Certo de que muitas das nossas práticas de vivência em comunidade precisam se manter vivas e cientes também das nossas peculiaridades enquanto africanos da diáspora devemos, se quisermos, problematizar o nível das nossas relações, as possibilidades de envolvimento emocional e como isso está atrelado à nossa ancestralidade e saúde coletiva na comunidade. Quais seriam as perspectivas de relacionamento afetivo entre pessoas negras? A liberdade tão pregada nos moldes de relacionamento de pessoas não negras nos contempla?
Sobonfu Somé, foto: Nut Tmu-ankh

À luz da filosofia Dagara, uma das mais de dez etnias conhecidas de Burkina Faso, a professora e filósofa Sobonfu Somé nos traz as possibilidades de relacionamento de acordo com a espiritualidade africana. Sobonfu, que saiu ainda jovem de sua comunidade para ensinar na Califórnia, nos explica que aqui no ocidente, de algum modo, a espiritualidade não é considerada como participante do relacionamento, e que essa perspectiva de relação baseada na romantização do parceiro pode ser motivo para grande frustração. Para a professora, o relacionamento é um acordo que os espíritos ancestrais já fizeram no plano espiritual antes mesmo de cada pessoa nascer, e cada ser humano veio para uma trajetória ou mais com determinadas pessoas, às vezes cobramos dos nossos parceiros um excesso de romance, uma prova cabal de amor desmedido para que nós possamos nos sentir verdadeiramente amados, a custo de abdicações e privações do parceiro. O alto da colina é definido no livro “O Espírito da Intimidade: Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar.” como o momento inicial das relações vividas no ocidente, em que, embebidos de grande paixão, os companheiros não tem outro lugar para atingir no relacionamento senão rolar colina abaixo e prematuramente chegar ao fim, sem dar lugar à vontade espiritual que os uniu, para que um relacionamento seja saudável deveria começar de baixo, da base da colina, levando em consideração o tempo e sua força espiritual para condução das relações. Partilhar uma jornada de companheirismo com alguém é convidar essa pessoa para uma jornada espiritual em busca da felicidade, onde objetivos estejam alinhados, onde o respeito, o companheirismo e ajuda mútua na busca dos objetivos devem ser a tônica da relação, proporcionar ao parceiro ou parceira as condições necessárias para alçar os objetivos nessa caminhada juntos, alinhados espiritualmente num acordo que leve em consideração a construção na vida de ambos, algo que parece bem distante nesse ocidente em que estamos não é mesmo?

Sobonfu Some, especialista em rituais da África Ocidental 

Parece encantamento e é; até sermos todos configurados como civilização o mundo sempre foi encantado e o encantamento sempre foi fundamental nas comunidades tradicionais africanas e aqui no Brasil nos povos indígenas, sempre houve a dimensão espiritual na forma de estabelecermos nossas relações, como trazer esses ensinamentos de espiritualidade e ancestralidade para nossas relações afim de que tenhamos também nesse ponto uma postura afrocentrada e voltada a nossos termos enquanto africanos da diáspora? Nem todos nós somos praticantes de religiões afro-brasileiras, mas nós que somos, estamos olhando para o ‘ngunzo’ e ‘asé’ presente nas nossas cabeças e na energia de criação que comungamos com nossos corpos? Sentimos nossa espiritualidade de modo libertador ou aprisionador? Longe de propor uma solução para nossas relações afetivas Sobonfu nos alerta para os possíveis males da modernidade e do ocidente nas nossas relações trazendo a espiritualidade como uma possibilidade de fazermos reflexões e inflexões acerca das nossas jornadas amorosas, um manifesto de leveza contra hipervelocidade com que enxergamos nossos irmãos e irmãs, negros e negras, esquecendo do nosso fundo do fundo de subjetividade.
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Este artigo foi escrito por Issa Mulumba