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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Fela, O Conto Do Vento


Conto do Vento



A Noite Acabava De Parir O Dia. 
E Tudo Se Repetiria Mais Uma Vez, 
No Amanhecer.

Uma mulher deu um longo grito de prazer e dor, 
deixando escapar de suas mãos uma revoada de pássaros ...  

- Nasceu Sol Vivo … gemeu a Mãe - Nasceu Minino  ...  

Era outono e na Maloca de chão batido, 
Caiu guerreiro nos braços da Tia. 
.
.
(vai pra guerra  - sussurrou)

Tia foi, pegou, cortou o cordão e tomou a placenta. 
Enterrou tudo ali mesmo, debaixo do chão. 

Como ventava muito, ele ganhou o nome Fela. 
Como quem surge da Ventania. 

- Da vida, meu filho? Queremos Boi … 
A Mãe Ia falando e sentindo o Vento Arrodear sua saia.

- Pedimos Chuva pros bois Sobreviver … 
... (E o Vento Vinha) …. 
     Pedimos Chuva Pra molhar a Terra …  
... (E o Vento Ia) ... 
     Acendemos o Fogo 
     Tocamos e Dançamos 
... (para trazer Alegria pro Tempo ) ...
.
.
E Quando a Noite vem pra Parir O Dia, 
Tudo Se Repete Mais Uma Vez 

No Amanhecer 
Da vida

O que queremos, 
meu filho, 
são Bois ...



Filho? 
.
.
.
.
Desde novo que ele se preocupava 
Com seu pai e sua Mãe 
- quem lhe fez Nascer.
Mas quando completou certa idade, 
jogou os pés no mundo em busca de inspiração.
aprendendo a acompanhar os Passos dos Dias,
a caminhar Na Fecunda Solidão.

De seu Povo 
levava o Amor Pela Chuva e Pelos Bois. 
No Fundo Ele Sentia que Sempre Seria Assim 
- Um homem Levando Bois para Pastar ... 
Aboiando ... Pastor de Bois e de Ventos ...

Certa feita, 
chegou a um descampado e decidiu fazer ali sua Morada. 
Era um lugar verde, banhado pelas águas de um Rio.

Se Lembrou de que Foram os Ventos Dela 
que Lhe trouxeram até Ele
... Foram Os ventos Dela ... 


(Mas isso foi lá atrás. 
Agora era 
Tempo de Voltar à Terra. 
Tempo de Voltar aos Bois ...
Tempo de Aprender com as Águas ... 
Tempo de Desapegar-se … )

.
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Toda vez que Ele se olhava nas Águas do Rio, 
via um Espelho Cheio de Gente Dentro. 

E foi assim que Ela Chegou 
- saltando do seu próprio Reflexo nas águas daquele Rio. 

.
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Ela.
.
.
Chegou
Cantando estórias em Língua Antiga.
Trouxe uma Sacola Cheia de Vento
E Depois de um Tempo 

Desapareceu
Em Brisa. 
.
.
.
Deixou a casa revirada, 
Ele numa encruzilhada, 
Esperando o barco 
que nunca chegava ...

Vish Maria

Às vezes ele se perguntava: 
Como podia ser que um e outro tenham se conhecido no mesmo instante, 
se olhando de um lado e de outro de um mesmo espelho … 
( que nada mais era do que as Águas de um Rio? )

Nenhum deles entendeu bem. 
Mas Por dias e noites, 
- Ela de lá e Ele de cá - 
Os dois se viram e se miraram ... 
Se tornaram amigos 
Mesmo sem nunca ter se visto 
em Matéria. 

.
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- Os búzios te dizem para não se envolver. 

- Mas ... pergunta se isso pode mudar ?

- Qual o nome Dela mesmo?

BUZIOS 

- Ah…. sim … Pode Mudar. Ela está Aberta para o Seu Amor.
  Mas Não se Entregue ... demais

(...)

- Vocês Vão Se Conhecer Perto de Um Rio ou De Um Mar...


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Um dia Ele acordou cedo .  
Ao seu lado escorria mel de abelha pelo chão afora . 
Resolveu então perguntar para Ela, 
mirando seu Reflexo nas Águas do Rio:  

- Você vive no Mar ou Na Mata? 

- No Mar.

- Melhor Assim, porque na Mata seria Perigoso.
(Caçador toca para Enfeitiçar a Caça Dentro da Mata)


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E Foi Assim que eles Começaram a se Querer.

- Te quero.

- Te amo.

- Você Nem Me Conhece

.

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Era Tempo de Ventanias ....
Na cabeça Dele, 
Parecia que uma Força Maior os Conectava. 
Como uma mulher lavando linha num lago limpo. 
Céu Laranja Rosa Amarelado Azuis. 
.
.
.
você está bem?
- daqui a pouco te falo. fui roubada. 

me Levaram os Bois ...
.
.
Já Era Madrugada. 

.
A cada noite Ela lhe levava 
a desconhecidos Infra.Mundos. 
Ele tinha vontade de lhe dar um xêro, 
de gritar este amor.
sentia que precisava gritar



- amo, amo. amo. então ELE sussurrou. 
- falou 3 vezes, é feitiço! ELA sorriu. 
.
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- não, ELE Respondeu. 
  Não estou fazendo feitiço para você ... 
  Deixo Livre este Amor.
.
.
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AO
.
Tempo.

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(- Morre … 
Ela se contorcia no chão, 
invocando os poderes de falar com os espíritos, 
que tinha herdado das linhagens 
de suas ancestrais.)

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A Cada Noite Que Passava, 
Aquele Homem ia compreendendo que o Encontro entre eles 
era coisa tramada pelos Espíritos que protegiam a Ela e a Ele. 
Ele sonhava com portas de memórias, estados de queda, 
volta, fim, renascimento, ruínas abandonadas...

Até que um Dia, Ele Decidiu 
que tudo aquilo só podia estar Acontecendo 
no Mundo dos Espíritos. 

Se Foi lá (no mundo dos Espíritos) que eles se Conheceram, 
se Encantaram, 
se Cuidaram... 

Se Foi lá que Eles Mergulharam num mundo de Palavras Mágicas 
e Viram Sol Nascer, Crescer, Morrer  
No espelho d'água da beira do Rio ...

O Tempo foi se passando 
O desejo de sentir aquela mulher 
crescia a cada Dia Dentro Dele. 

Decidido, 
Ele pegou uma Canoa, 
atravessou o Rio e Chegou ao Mar. 
A Maré era Alta.
Quando em FIm se Conheceram,
Nem se Olharam no Fundo dos Olhos
e no balanço das águas, 
foram levados para as montanhas 
- Terra de Transmutação e Seca. 

Sentiu que já tinha sonhado com tudo aquilo, 
principio sem fim … 

Ele estava ali, 
mas Ela não lhe via. 

Ela Só olhava 
Pro Seu Próprio Reflexo 
Nas Águas do Rio, 
Aos Pés da Montanha. 

Foi.se o Tempo e
No fim da Noite, finalmente ficaram a sós.
conseguiram se olhar Dentro dos Olhos. 

Como Nunca Antes Nem Nunca mais Depois. 
Apenas naquele momento instante já 
- enquanto tudo aconteceu.  

Se tocaram 
entre
Pele, 
Corpo, 
Saliva. 

Ela se Lembrou de sua Essência de Chuva, 
Mulher Serpente que Corre pelo Céu, 
Derramando Aguacêro. 

Ele Ouviu o Coração Dela
E Seu Corpo Líquido Transbordou
Rios
Lagos 
Marés 
.

Ela Gozou e 
seu Gozo era Bonito

Depois que se amaram, 
as mesmas Águas levaram 
Cada um de Volta pro seu Lugar.  

De Cócoras, 
Ele Viu Aquele Amor Morrer

Bem Na Beira do Rio.


Ele de cá
Ela de lá

de lá ...

        ela se foi
.

E Ele, Ainda de Cócoras, 
Começou a bebericar da Água do Rio, 
como se de repente tivesse sido tomado 
por uma Sede Incontrolável. 

Bebeu, 
chupou, 
derramou 
toda a Água do Rio, 
Até saciar sua sede ...

E Quando o Rio já era quase Terra Seca, 
Ele deu um longo grito de dor, 
deixando escapar de suas mãos 
Uma Revoada de Pássaros 

Finalmente Conseguiu Estancar 
O feixe de desamparo 
e placenta 
que acompanhava o rastro de seus passos …

.
. Parauára . 
  Renascido do Rio

.
Nas Últimas gotas d'Água, 
ainda conseguiu ver o reflexo dEla, 
que ia de Costas, 
seguindo Seu Caminho ...


… Ela sabia deixar Morrer ... 



E foi Assim que Tudo aconteceu, 
como num Dia Qualquer, 
em que uma Mulher Leva seus Bois para Pastar.

Vem o Ontem … e se vai o Amanhã … num Ciclo sem Fim ... 

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Que os bois Nasçam, 
que minha Aldeia tenha boas Danças, 
que a sua Aldeia Também.

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E quando voltar a amanhecer, 

tudo se repetirá mais uma vez ... 

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Mo Maiê, Barra Grande De Itaparica, Dezembro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

portas da memória. assim nasce uma kora brasileira. fela kala kora

Kora. Fela. nasce mais uma kora brasileira

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Toda diáspora é a passagem de um mundo de unidade para multilicidade. É isso o que é importante em todos os movimentos do mundo. é o que diz Edouard Glissant
Sete cordas curam o passado.
Sete cordas harmonizam o presente. 
Sete cordas protegem o futuro.
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A cabaça é a terra.
A pele, os animais.
As cordas, as plantas e árvores.
O aro do metal, a magia.
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Pelo que se tem notícia, a Kora nasce na Afrika Ocidental Mandengue Malinké. É um instrumento sagrado em territórios africanos, envolto por uma aura de magia e espiritualidade. Está ligada à sabedoria divina e, ao mesmo tempo, conecta o céu com a terra, com o cotidiano e a continuidade da vida tribal, por ser suporte sonoro espiritual dos rituais de canto e contação de histórias dos Djelis ou griôs, como chamamos por aqui no Brasil. 
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A Kora, com sua beleza e delicadeza abrange e perpassa diversos aspectos da sociedade tribal malinké, como: Educação, Saúde, Cultura, Ancestralidade, História, Preservação, Continuidade, Filosofia, Justiça.
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Conta.se que na origem dos dias o espírito fez.se humano e pôs.se a falar numa linguagem estranha, cheia de imagens e floreios. Este homem, considerado louco, foi jogado no mar e foi devorado por um peixe. Um pescador pescou este peixe e o comeu feliz da vida. Mas com o passar do tempo, começou a falar numa linguagem estranha, cheia de floreios, que ninguém de sua aldeia compreendia. Este homem foi apedrejado e enterrado, o tempo passou e alguns restos de seu corpo foram parar no cuscus de um caçador. Aquele caçador então passou a falar coisas estranhas, cheias de imagens e floreios. Sua tribo por achar seu comportamento estranho, o apedrejou e o caçador acabou virando pó. Um homem que tocava sua kora na floresta recebeu uma rajada de vento e respirou pequenos grãos de poeira que sobraram do corpo do caçador. Logo ele começou a cantar e acompanhar a kora, cantava e contava histórias lindas, comovendo os de sua tribo que, por isso, o deixaram viver.
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Assim o Djeli ou Griô pode criar e ao mesmo tempo ser fiel à tradição.
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Alguns dizem que a kora surgiu em Gabu, onde hoje se encontra Guiné Bissal, por volta do século XIII, sucedendo o instrumento chamado Tonkoron, sendo que este, por sua vez, veio da bolonbata, e foram sendo reinventados, até surgir a Kora, com 21 cordas.  
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Outros acreditam que a Kora pertenceu a uma mulher.gênio, que morava em cavernas de #Kansala, na #Gambia. Ao ouvir esta mulher tocando o instrumento, um grande guerreiro chamado Tiramakhan Traoré decide tomar o instrumento da mulher e dar a um Djeli pertencente ao grupo #Djelimaly. Este transmitiu o conhecimento de tocar a fazer a kora para seu filho, #Kamba. E assim foi se passando de pai para filho, até chegar ao Tilimaghan Diabaté, que o levou a #Mali.
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Mali.
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no prumo desta kalunga, aceitar que certos encontros na vida são encontros de passagem. mesmo que intensos e profundos enquanto existam.
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assim estou. agora aqui em casa, na ilha, botando as cordas na nova kora que acaba de nascer. são 21 cordas que me levam a uma essência muito ancestral da mãe #Afraka e de todas as sonoridades do mundo. uma vibração feminina ancestral. 
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este instrumento aqui na minha frente nasceu de um amor que veio nas asas do vento. em um inverno frio e chuvoso. ventoso. dos pés de minha cama brotou mel e tive que atravessar o mar para ir a feira olhar umas cabaças para a encomenda de um trabalho e quando chego na feira, encontro a cabaça perfeita para fazer uma #kora. há anos que eu tava buscando essa cabaça. mas eu tive que esperar pelo tempo certo, pelo vento certo para realizar o que me mandou um homem djeli em sonhos, há anos atrás. eu precisava tocar uma kora. mas como não pude comprar, tive que fazer.
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foi um #DingoDingo poderoso. foram mais de dois meses de um lado pro outro do mar e do rio e do ar. as fibras desta kora foram tecidas com as linhas de um amor que veio e que foi e que vem e que vai e que vai... 
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agora tenho aqui em minha frente este instrumento de linhagem ancestral das #Afrakas #mandengue, #malinke 
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eh um ser feminino que tenho aqui em minha frente. é um ser lunar. é um instrumento pra voar soave. enquanto o #ngoni é para mim uma arma para caçar... 
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vou colocar as cordas. o amor se foi e me deixou cá esta kora. pela manhã, ainda em salvador, uma gata deu a luz a vários filhotes. a lua está nova. as sementes na água para germinar. a vida segue seu rumo. é preciso encontrar um maneira de não naufragar. a vida vem me ensinando através de movimentos repetidos e repetitivos. é preciso reaprender a respirar dentro d'água. buscar essa memória embrionária de um impulso de resistência e sobrevivência. é preciso aprender a cair. é preciso aceitar o peso que puxa nossos corpos para baixo para entender que é preciso fazer força para cima para seguir vivo. 
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a kora foi enviada pelos céus para @s human@s enfrentarem as dores da própria existência. para conseguirem atravessar a rua. entender o passar do tempo e nos inspirar a imaginar formas de impedir que os avanços da tecnologia e da ganância destruam o mundo.