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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Gonzalo Hidalgo: Arte, Permacultura e Comunidades Sustentáveis

Gonzalo Hidalgo nos fala sobre sua vida e seu trabalho que conecta as Artes e os fundamentos da Permacultura, em conversa realizada em janeiro de 2018, no Kilombo Tenondé.

Gonzalo Hidalgo . Permangola 2018 . Bahia 

Meu nome é Gonzalo Hidalgo. Eu sou chileno de nascimento, mas eu moro nos Estados Unidos há mais de 34 anos. Sou artista formado em performance e também em artes de impressão. E comecei a fazer permacultura há mais de 25 anos.

A permacultura me encontrou em uma viagem ... meu trabalho artístico tinha muito a ver com objetivos que eram ecológicos e sociais e comecei a pensar por muito tempo que as condições de museus e galerias artísticas não davam pra expressar o que eu queria fazer: interagir com mais gente, inclusive manifestar minha visão do mundo só através da arte. Fiquei com um compromisso de fazer um trabalho que tinha como objetivo ter mais contato com mais gente. Que ele fosse um veículo de transformação para mais gente, e a permacultura foi esse veículo. E eu fui um aprendiz e ainda sou aprendiz. Aqui ninguém tem qualidade para dizer que ficou maestro apenas. O verdadeiro maestro é aquela pessoa que pode aprender sempre. Eu acredito que isso é importante.

Mo: E como foi sua primeira experiência com a permacultura?

Gonzalo: Eu já tinha trabalhado com esculturas e sempre tive muita facilidade manual. E estava ensinando em uma universidade e me ofereceram um mestrado em cultura, ecologia e comunidades sustentáveis. Então eu fiz o mestrado e comecei a combinar uma situação que tinha muito a ver com meu trabalho artístico e meu trabalho social voluntário, em comunidades rurais, comunidades indígenas e também na parte urbana, eu trabalhava muito com crianças e juventude, transformando áreas que são abandonadas em jardins comestíveis.

Mo: Então para você o que é a Permacultura?

Gonzalo: Permacultura vem de um conceito da Nova Zelândia e da Austrália que era a agricultura permanente, que era satisfazer as necessidades da terra, observando os ciclos da terra, substituindo um plantio por outro plantio, depois substituir por um plantio que ficava na terra, para que a terra nunca deixasse de produzir e para que a terra não perdesse a microbiótica. Depois de um tempo, algumas pessoas como Bill Wallison e Scotch começaram a perceber que a permacultura não se tratava apenas de agricultura, mas também tinha a ver com sistemas … os sistemas também poderiam ser cíclicos, sistemas de água, de energia, inclusive sistemas humanos. Então assim se criou a permacultura, que é uma cultura permanente. 

A permacultura em si, como eu a entendo, é um sistema de éticas e de princípios aplicáveis a uma organização de construção, uma organização de casas, uma organização de um negócio, porque são princípios basicamente éticos, que tem a ver com três éticas importantes, que são: o cuidado com a terra, o cuidado com o ser humano e o compartilhamento de excedente, porque quando os ciclos se fecham e não são produtivos, eles criam excedentes. Então, ao invés de vender o excedente, você compartilha o excedente e faz a vida de outra pessoa melhor, aí acontece um crescimento porque essa pessoa vai ficar melhor e já serão duas pessoas que estão bem. E depois ficam 4, depois 6, depois 10 … depois milhões.  Então nós podemos criar um mundo que é muito mais sustentável.

Mo: E dentro de tudo o que você esta falando, como podemos usar a permacultura como uma ferramenta de descolonização?

Gonzalo: Acredito que na América Latina seja mais fácil a aplicação da permacultura do que em outros países … porque a gente já vive em um estágio de pobreza. E um estágio de pobreza necessita como um estágio de riqueza. É uma contradição, mas é interessante, porque você tem menos coisas materiais, você está mais sujeito a uma realidade que tem a ver com alimentação, com energia, sujeito a minimizar um gasto, né? E a permacultura tem a ver com isso, de sair de uma rede de consumo, seja consumo energético, de alimentação… um consumo necessário que é formulado através de uma publicidade, de uma estratégia de necessidade falsa. Então, precisamente a permacultura demonstra a você que você pode ser o dono dos sistemas alimentares, que você pode crescer e ter controle de sua alimentação. Você se liberta dos agroquímicos, você sustenta sua alimentação através do lixo orgânico, compostagem e a compostagem vai pra terra e isso realmente não tem custo nenhum. Só tem o custo do trabalho, que não é muito grande. E como são sistemas que vão fechando, o trabalho vem cada vez menos, em maior produção.

Por isso eu gosto de trabalhar muito na parte rural. Sem eletricidade, sem transporte … situação ideal para pensar na permacultura. Começar com mudanças pequenas, você demonstra que pode alcançar um benefício muito bom.

princípios da permacultura

Mo: Como levar e ampliar o alcance dessa tecnologia para o povo rural?

Gonzalo: Essa tecnologia é uma tecnologia apropriada, que existiu por muito tempo. Agora é só recuperá-la. Quando eu faço uma apresentação numa comunidade rural, muita gente fala "Meu pai fazia isso", "Minha avó já praticava isso!" . Foram técnicas que foram desaparecendo, substituídas por técnicas que escravizaram o povo. Mas tem técnicas que são apropriadas e foram trazidas para o contexto moderno, mas são técnicas muito antigas, tanto na construção, na produção alimentar, na produção de energia … Então a permacultura não é uma coisa estranha, uma coisa que está fora do contexto, que se tem que aprender. Um problema que eu vejo entre muitos permacultores é que eles estão usando linguagens muito complexas e a verdade é que é só a linguagem, porque o trabalho é muito simples. De uma simplicidade incrível. Apenas precisamos conectar coisas e fechar os sistemas, por exemplo, para o sistema de água: você capta água da chuva, usa essa água no chuveiro, põe em um filtro natural e logo essa água jorra o jardim. Então com um ciclo você fecha três ciclos. Prestar atenção nas coisas que estão ao seu redor. Como as coisas foram feitas antes? Antes a gente não tinha fios de eletricidade, né? O sol era a energia, usávamos lâmpadas de oleo, esse tipo de coisa … agora é como um clique, você aperta o clique e a luz acende e você tem que pagar pela luz.  Então veio a energia solar agora, que está ficando cada vez mais abundante e mais barata. Também se trata de uma consciência de quanto que você precisa e assim começa a se criar um excedente. Não é “Quem tem mais, consume mais”. Mas sim “Quanto que você precisa?” Se eu estou produzindo mais do que preciso, eu compartilho meu excedente com outra pessoa. Ou faço uma troca, né? Posso trocar eletricidade por feijão, ou trocar qualquer coisa produzo e que me sobre um excedente, né? Criar independência na rede, na rede que você não controla, que ninguém sabe quem controla … Mas cada vez que você está consumindo algo que você não sabe de onde vem, está fazendo milionário a uma pessoa que não tem nenhum contato com você.

Mo: Como as pessoas que vivem nos grandes centros urbanos podem viver a permacultura?

Gonzalo: A permacultura é um sistema de éticas e princípios aplicáveis a fechar sistemas de produção e de trabalho. Sistemas de organizações que são aplicáveis ao campo mas também dentro do contexto urbano.

Você começa a fazer pequenas mudanças. Nos centros urbanos tem mais recursos materiais. Como a eletricidade mais abundante, a gasolina com valores mais baixos, e por isso, maior consume também … você consome mais eletricidade porque na cidade você tem muito mais coisas para pôr na tomada. Tem muito mais tomadas nas casas agora do que tinha antes. Se antes os construtores botavam uma tomada por quarto, hoje são cinco. E hoje tudo é elétrico. Então, eu estou envolvido em projetos que propõe criar jardins alimentícios nos tetos dos prédios. É possível usar áreas urbanas de alta densidade também como centros de captação de água ou produção alimentar, ou esse tipo de coisa. Então se tem a possibilidade de gerar crescimento de consciência dentro de um centro urbano também. Por exemplo, o uso das bicicletas como meio de transporte para ir para o trabalho.

Mo: Como você vê um evento como esse, o Permangola?

Gonzalo: O permangola nasce do conceito… Vou contar como conheci o Mestre Cobra Mansa. Tem uma FICA na cidade de Oakland (EUA), na California, onde vivo. Tem um ritual que é sempre em novembro, no qual os indígenas vão a Alcatraz, uma ilha que está no centro desta Bahia, uma ilha que foi uma prisão por muito tempo. Esse ritual se chama “Ritual da Saída do Sol” e vai muita gente, muitos indígenas mexicanos … se juntam de madrugada. Quando o sol nasce, todos começam a dançar e ficam horas dançando, uma coisa linda linda! Eu estava conversando com um grupo de amigos e precisava de um bilhete para entrar no ferry e chegar na ilha... entaão vejo um Rasta com uma garota, que me fala “tenho dois bilhetes aqui para vender”. Comprei o bilhete e fui conversar com outras pessoas. Logo estou na fila e vem um capoeirista do México e me saúda. De repente ele diz “Mestre, mestre! Este é o cara que te falei da Permacultura!” e aí me aparece o Rasta que me vendeu o bilhete! Era o Mestre Cobra Mansa. Então subimos no ferryboat, começamos a conversar e ficamos conversando por três dias! No ano seguinte eu tinha que vir a São Paulo e Cobra Mansa me falou do evento chamado “Permangola”, que levavam mais de três anos fazendo, naquela época. Eles propunham a união da Capoeira Angola com a Permacultura. Então, de Sao Paulo vim para Valença. Há 8 anos atrás … E aqui começamos a trabalhar … pensar no que o evento precisava para melhorar, o que precisava a localidade de Bonfim, em Valença … pensar no que o Kilombo precisava, analisar o presente e pensar no que podia ser feito para o futuro …

Eu gosto muito dessa essência que a permacultura apresenta … as estratégias de como manejar um terreno, como fazer um desenvolvimento sustentável … de encontro com a capoeira, que trás a disciplina e a espiritualidade, o que muitas vezes você não encontra em grupos de Permacultura.

A espiritualidade cria um movimento dentro da capacidade humana para as coisas que não são compreensíveis mas que são necessárias.


Para finalizar, eu gostaria de estender o convite às pessoas que terão acesso a essa conversa, que se aproximem da Permacultura, que se aproximem do Permangola, onde a permacultura se encontra com a capoeira angola e ficam nessa dimensão … conectando agro-floresta, bioconstrução, captação de água, plantio, espiritualidade e interação humana ... Todo o propósito do que fazemos tem a ver com interação entre pessoas … temos que entender o que é o outro … que o outro não é um estranho … o outro é parte de nós. Todos Somos Um. Eu reconheço em você minha pessoa, minha necessidade e minha intenção.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Árvore da Memória: Mestra Tina: Guardiã da Cultura Popular da Paraíba

Mestra Tina da Paraíba nos fala um pouco sobre sua vida e seus caminhos na Cultura Popular Nordestina

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Mestra Tina: Meu nome é Jocilene Cunha. As pessoas me conhecem por Tina. Tenho 39 anos de idade e faço parte da Capoeira Angola Comunidade, sou aluna de Mestre Naldinho desde 1996, lá em João Pessoa, na Paraíba. 

Já tenho 21 anos na prática, nessa vivência dentro do grupo. E não só faço parte da capoeira, mas também do outro lado da cultura popular de raíz, onde faço parte de um grupo chamado "Cavalo Marinho Infantil Sementes do Mestre João do Boi". 


Mestra Tina, da Paraíba
Antes não tinha este nome "sementes". Foi colocado depois da morte do meu Mestre, que é o João Antônio do Nascimento Pereira, também conhecido como João do Boi. O cavalo marinho infantil de lá tem uma resistência e existe desde 1968 nessa base e após o falecimento do meu mestre, eu tô dando continuidade ao brinquedo, a pedido dele. Ele pediu pra não deixar a brincadeira acabar e hoje eu tô na responsabilidade de manter a tradição viva nessa cultura maravilhosa, genuinamente brasileira, lá na Paraíba.

A gente faz ensaios todos os sábados, apresentações em vários lugares, eventos de capoeira, festival em faculdade, aniversário, onde quer que esteja, dia de reis, quando a gente comemora a nossa brincadeira. Eu já conhecia um pouquinho o cavalo marinho, em apresentações, no próprio bairro que eu moro, em João Pessoa. E até então eu era apenas parte do público. Eu via o grupo se apresentar e gostava muito de ver o pessoal brincando, se divertindo. 

Em 2005 o meu mestre me chamou para ajudar a organizar o grupo, ele já estava numa certa idade e ele estava precisando de alguém. Outras pessoas já tinham passado pelo grupo para tentar organizar mas até então eles não aguentaram ficar. Então eu aceitei o convite de ir e fazer parte e comecei a organizar o grupo dele de uma forma que as pessoas passaram a perceber uma mudança muito boa para a continuidade da brincadeira dele até porque pessoas da família participavam da dança mas não queriam ter a responsabilidade de organizar o grupo, deixar tudo bonitinho e organizado. E aí aceitei.

Ele faleceu em janeiro de 2012, e antes dele falecer ele me pediu para não deixar acabar a brincadeira. 

Inclusive a gente tem DVD, antes do falecimento dele ele registrou estes depoimentos, né? Dizendo "No dia em que eu for embora, quem vai cuidar da brincadeira é essa menina aqui." E aí eu tô aqui até hoje. Quando ele se foi acrescentamos o nome Cavalo Marinho Infantil Sementes do Mestre João do Boi, com Mestra Tina e Brincantes. 

Digo Mestra Tina, porque o pessoal da cultura popular está me considerando Mestra na brincadeira. Fora o cavalo marinho, eu faço parte de outro grupo também chamado Ciranda do Sol, que é do Mestre Manoel Baixinho, também da mesma cidade, do mesmo bairro que eu moro, na Paraíba. Foi na mesma época que eu comecei a organizar o grupo do cavalo marinho, o mestre Manoel Baixinho fazia parte do grupo do cavalo marinho, era um dos tocadores que respondia o coro e na mesma hora que o Mestre João me convidou, o Mestre Manoel me fez o mesmo convite para organizar o grupo da Ciranda dele. Então ele falou que só tinha os tocadores, precisava dos dançantes e os cirandeiros para formar o grande círculo, que o pessoal dança de mãos dadas, no sentido anti-horário do relógio. 

E aí eu fiquei pensando o que eu ia fazer porque era um mestre de cultura popular que estava precisando de pessoas com experiência em questão de organizar. Então ele falou: "Preciso de você também". Mas aí eu falei: "Eu não posso, eu tenho a capoeira, o cavalo marinho"... Ele falou: "Dá um jeito aí"!

Eu fiquei pensando: "O que eu vou fazer da minha vida, com três grupos? 

Eu disse: "Certo, Mestre, eu vou tentar" Eu decidi enfrentar. Se não for tudo no mesmo dia, no mesmo horário, tudo bem. Eu tomo conta de todos os documentos do grupo. Ele não sabe trabalhar a questão da administração dos documentos.

Então eu faço parte destas três brincadeiras. Uma hora eu tô na capoeira, no cavalo marinho, na ciranda … 

Às vezes coincide de todos os grupos se apresentar no mesmo local, só que em horários diferentes. Aí eu tenho que me transformar em três. Em capoeirista. Aí eu corro e tenho que me transformar em brincante do Cavalo Marinho. Aí quando termina, eu tenho que me transformar em cirandeira. 

                                      

Na Ciranda eu toco o Bombo, tem gente que chama de Zabumba, mas lá na cultura popular a gente chama de Bombo. O meu mestre Naldinho toca caixa ou tarol. E eu também dou resposta na Ciranda, tocando e cantando. E os outros tocadores também dão resposta enquanto estão tocando e dançando. 

Hoje eu tô aqui no Kilombo Permangola, do Mestre Cobrinha, mas tô com a preocupação com meu mestre, desde o dia 31 de dezembro ele está hospitalizado, teve um avc, mas parece que ele está quase tendo alta.

Eu respeito muito os mestres da cultura popular de raíz. Também respeito e considero as pessoas que tem um trabalho folclórico, mas o meu foco maior é a cultura de raíz. Eu gosto de beber água da fonte, com os mestres, que começaram com 5, 7 anos de idade e até os 70, 80 anos eles continuam brincando, mantendo a cultura viva. A cultura popular tá no meu sangue. Meu espírito é brincalhão, pra fazer diversão tanto minha quanto do povo, eu gosto de brincar. Eu já brinquei de tudo um pouco, no meio de rua, no campo, eu já participei de muita brincadeira, de futebol, de cantigas de roda, de pula corda, rouba bandeira, de peão, de bolinha de gude, que dependendo da região tem outro nome. No Rio Grande do Norte por exemplo, tem o nome de Biloca. Vamo Jogar Biloca? Brinquei muito e pra mim tudo serve como aprendizado…

Também já fiz parte de uma tribo indígena chamada Xavantes. Se não me engano eu tava com 12 anos de idade. Meu mestre se chamava Pindoba. Hoje não faço parte mais da tribo indígena, porque o tempo foi se passando e eu não sei explicar porque eu não dei continuidade. Os Xavantes sempre fazem ensaios para o carnaval, em fevereiro. Tem os encontros de tribos indígenas. Tem os africanos, os Papa Amarelo, os Tupinambás, os Pele Vermelha … então é diferente dos Torés … A tocada, a dança, nas pisadas que eles fazem de caboclo … Então eu fiz parte por um ano, ensaiei, aprendi a fazer meu cocar e fui para as festas dos carnavais, né? E na época, antes de ter o dia do encontro das tribos a gente fazia os ensaios e nos dias dos carnavais, a gente saía nas ruas do bairro dançando e aí era muito interessante. Depois de fazer toda a apresentação, às vezes parava numa casa e ficava tocando … a dona da casa se achava interessante, oferecia uma contribuição em dinheiro. Dançava, dançava e dançava e recebia essa contribuição …. aí lá na frente tinha uma outra casa, que queria contribuir, e aí ia …  Não faço mais parte da tribo indígena porque eu conheci a capoeira e não tenho como estar na tribo indígena mais.

Hoje o meu mestre, que era o chefe da tribo, o Pindoba, era o chefe dos Xavantes. Com o passar dos anos ele achou melhor vender a tribo que ele tinha, que era o Xavante e fez um africano. Hoje ele é africano. É muito bonito. Ele já ganhou primeiro lugar. Então meu mestre Pindoba é um camarada de valor, tem uma potência muito grande. E quando chega na época de carnaval a galera todo fica encantada com a apresentação deles.

Mo: Como vocês mantém os grupos de cultura popular q você participa?

Mestra Tina: É uma boa pergunta. A gente não tem patrocínio de nada. A gente não tem uma ajuda de um prefeito, órgão do governo, de ong nem de nada … A gente é a gente mesmo. Às vezes o grupo é contratado pra fazer uma apresentação, mas assim… não é essa coisa toda. Até porque a cultura popular a cada dia que se passa está sendo mais desvalorizada. Às vezes aparece algum prefeito que é ligado à cultura popular mas aí vem a mudança de prefeito, a gente fica procurando apoio e não encontra … E quando os grupos de cultura popular são chamados para fazer uma apresentação na cidade, às vezes recebe um cachezinho que infelizmente não dá pra comprar o  que a gente necessita para manter o grupo. Então é você ter o peixe e você não poder dar o valor pra mercadoria. Quem tem que dar o valor da mercadoria é a pessoa que tá te contratando: "Ah, eu te posso dar tanto…" . Você vê que é pouco e não sobra … "Poxa, eu fiquei com o dinheiro pra confeccionar ou reformar o boi, que precisa. Precisa comprar cola, tecido chitão, bastão, pistola, emborrachado, é um monte de coisas … quando você juntar e comprar tudo isso não sobra nada. E o mestre não precisa se alimentar? Não precisa se manter? Então o que faz a brincadeira ainda existir e permanecer ali, persistindo nos ensaios… quem faz isso são os próprios brincantes que ficam cobrando, perguntando: "Amanhã vai ter ensaio?" Tem mestres de cultura popular que ficam com vontade de desistir porque não tem um incentivo. O incentivo maior pra se manter é a insistência dos próprios brincantes, dos próprios dançantes … A gente não tem um cachê bom.

Mo: Antes de você já teve mestras mulheres nos grupos que você participa ou você é a primeira?

Mestra Tina: Assim como na capoeira, quando eu comecei não tinham mulheres treinando capoeira. E o cavalo marinho também não tinha mulher fazendo parte dessa brincadeira. Todos os brincantes eram homens. Não tinha mulher participando, assim como na capoeira. Com o passar do tempo, as mulheres foram começando a aparecer na capoeira, a aparecer no cavala marinho, foi abrindo esse espaço e hoje como mulher eu faço parte dessa cultura. Na ciranda eu não posso dizer nada porque a ciranda e para todo mundo. Todo mundo misturado. Então, eu só conheci uma cirandeira, Teka que e do coco, que quem toca ciranda toca coco, Mestra Lenita, de Joao pessoa. 

Mo: Você vê por parte das crianças, dos adolescentes, interesse pelo brinquedo?

Mestra Tina: Olha só: eu não posso dizer todas as crianças, mas as vezes a gente conta no dedo das crianças que tem interesse de fazer parte da cultura, né? Porque o cavalo marinho chama muita atenção da criançada por causa das figuras que tem, tem o burrinho, tem o cavalo, tem o boi, tem o jaraguá, a margarida … eles ficam encantados pela brincadeira e quando uma criança vê a outra, uma vai chamando a outra, daqui a pouco eles estão começando a acostumar ali com aquele ritmo, com aquela tradição, com aquela manifestação, daqui a pouco tem um bocado brincando… mas não são todas as crianças. Até porque tem crianças que tem vontade de brincar, mas às vezes os pais não deixam… Hoje em dia tem muitas pessoas que estão virando evangélicas … Mesmo gente que fazia parte de cultura africana, de cultura popular e depois muda, vira evangélico e começa a dizer que aquilo ali faz parte do demônio, do satanás, que não quero meu filho naquela brincadeira, que aquilo ali não é muito bom pra ele. Eu conheço um grupo de Lapinha, Lapinha Jesus Nazaré, de Mestre Maciel, também de Joao Pessoa, na Paraíba, que é muito bonito você ver a Lapinha se apresentar. A Lapinha de adolescentes, da terceira idade … Então o que aconteceu com a Lapinha de criança e adolescente lá? Abriu uma igreja do lado, onde ele faz os ensaios e os irmãos da igreja começaram a fazer convite para o pessoal que participa da Lapinha para ir pra igreja, começaram a conquistar e o grupo da Lapinha acabou. O mestre ficou preocupado porque colocaram na cabeça das mães, dos responsáveis, que aquilo ali não é coisa de Deus … eu acho que não tem nada a ver pessoas que já fizeram parte de manifestações culturais dizerem que aquilo ali é tudo o que não presta … Se você é evangélica e me vê tocando o tambor, vai dizer que eu sou da sacanagem porque tou tocando o tambor … Eu não quero generalizar todos, porque tem evangélicos que respeitam. Mas tem outros que não respeitam, que não quer saber … o que eles querem é que o povão fique ali, idolatrando eles … Quanto mais gente tiver ali, mais nome o camarada vai ter. Quanto mais gente ele puder tirar da brincadeira, que ele diz ser coisa do demônio, para ele é uma vitória. Hoje em dia eles estão usando nos cultos o pandeiro, o tambor, o timbal … mas como assim? Você antes não podia ver ninguém tocar uma lata que falava que isso era coisa não sei de onde, e agora vocês tão usando o instrumento dentro da igreja, até berimbau usam …

Mo: É possível encontrar o trabalho de vocês na internet?

Mestra Tina: Sim, é só procurar Cavalo Marinho Sementes do Mestre João do Boi.

Mo: Eu agradeço muito.

Mestra Tina: Eu que agradeço pelas perguntas porque vai relembrando das coisas e vamos colocando em prática estes aprendizados. Aqui no Kilombo Tenondé já são duas vezes que eu venho participar do Permangola. Sou muito grata ao Mestre Cobra Mansa pelo respeito, pela receptividade, pela atenção.
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Conversa realizada em janeiro de 2018, no Permangola, no Kilombo Tenondé. 
Valença, Bahia, Brasil.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Árvore da memória: Dimitri Dracius e os Caminhos da Mandinga

Aula de Ladja e Danmye . Permangola 2018

Dimitri Dracius nos fala um pouco sobre sua vida e sua conexão com a Capoeira e a Ladja, luta marcial da Martinica, seu país de origem, janeiro de 2018, no Kilombo Tenondé.
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Meu nome é Dimitri Dracius. Nasci na Martinica.

Sempre fui uma criança que gostava de dançar. Eu gosto do ritmo. Meu pai era apaixonado de salsa, apaixonado de percussão. Então eu nasci numa casa que tinha muita música.  Principalmente do Caribe.

A Martinica é um lugar com 95% de negros. Então, uma cultura musical, uma cultura de dança. A gente tem várias danças. Tem o Zouk, tem música tradicional, mas ao mesmo tempo eu não tinha muita ligação com isso. 

Eu nasci dançando. Quando cheguei na idade de 13, 14, 15 ... gostava de brincar um pouco de imitar as pessoas da Ladja com amigos. A gente tentava fazer o golpe para imitar eles, 

mas neste tempo a gente não valorizava nossa cultura.

Com 18, 19 anos eu fui pra Canadá. 

Lá eu descobri a Capoeira Angola e ao mesmo tempo, um amigo me iniciou realmente no Danmye, porque antes disso eu fazia só para brincar.

Quando fiz a primeira aula, me senti em casa. Senti que era minha expressão natural.

Quando eu dançava as pessoas me falavam “você dança de um jeito diferente, mais roots.” Eu não gostava de dançar de um jeito refinado. Mas nesse tempo eu me apaixonei pela capoeira angola. Então eu coloquei todo meu fogo na capoeira angola mas ao mesmo tempo eu praticava Ladja, eu fazia parte de um grupo de dança tradicional da Martinica e da Guadalupe e fazia as danças, apresentações, eu apresentava Ladja, Danmye. O Danmye sempre estava lá, só que eu praticava mais a capoeira. 

Eu fugia um pouco do Danmye para não me perder.

Danmye é a forma da arte marcial da Martinica que é a vadiação, que você não faz golpes para machucar o outro, para acertar de verdade. A Ladja é a forma marcial para os iniciados, é para matar se é necessário, é para machucar e tem muita magia envolvida com isso, muita preparação espiritual, por isso que é para iniciados, pessoas que tem um conhecimento de várias coisas, conhecimento espiritual, conhecimento da medicina. Você se machucava tanto, que você precisava se cuidar, com ervas, com banhos de folhas ... e, claro, conhecimento da arte da Ladja.

Mo: E quando você voltou pra sua terra, o que você sentiu?

Dimitri:  Meus pais estavam presentes na cultura. Meu pai era tocador de tambor e minha mãe dançava. Ela dança, mas meu pai faleceu em 2016. Minha mãe ainda não voltou a dançar, mas ela dança em casa. Então, sempre tive essa relação com a cultura martinicana. Eu voltava para casa e acompanhava eles para dançar. Mas eu fugia da Ladja, eu fugia do Danmye, eu falava com o pessoal “Eu sou da capoeira”. Mas minha vida me mostrava que eu tinha uma ligação com isso.

Em 2008 tinha um grande evento em Salvador, o Ginga Mundo. Eles convidaram pessoas da Martinica, do Danmye para fazer uma troca com as pessoas da capoeira. E aí eu tava lá, sem querer... E a pessoa que fazia a apresentação, chamou no público alguém para dançar. As pessoas que sabiam que eu era da Martinica me empurraram para jogar. Aí foi um jogo fantástico. Foi muito forte esse jogo. E eles precisavam de uma pessoa, porque tinham uma pessoa machucada no grupo, então eles precisavam de mim, na verdade.

Então, no dia seguinte, eu fiz uma apresentação com eles, com João Grande, jogando Danmye também ... foi um momento muito forte, troca de culturas, com grandes mestres .... Eu presenciei isso, sem querer. Mas eu não queria saber a resposta.

Então, meu pai faleceu em 2016. Eu tinha que ir para Martinica para o velório dele. Lá tinha muitas pessoas tocando música tradicional, muitas pessoas de nome lá da Martinica.
A música do Danmye tem uma vibração muito profunda, bem melancólica, mas não é essa palavra. Aí começou a tocar e tinha muitas pessoas querendo falar para mim. Mas eu não falava mais com ninguém. Eu fui diretamente perto dos tambores. Tinha um cantador muito, muito bom. Tinha uma voz com muito dendê. Aí eu entrei para jogar. Talvez as pessoas pensavam que eu não ia jogar porque eu tava triste, mas eu pensei “Meu pai seria feliz de me ver jogando”... aí eu entrei e joguei Ladja. Quase o primeiro dia que eu cheguei na Martinica. Então, isso foi um sinal para mim. Então, esse tempo na Martinica, como eu tinha quase 17 anos de capoeira, na Martinica eu sou mais uma referência de capoeira. Então quando eu volto o pessoal quer me ver para dar aula, então eu comecei a me envolver com a capoeira, comecei a dar aulas para crianças.  E aí chegou esse conflito, porque eu dava aula de capoeira com a musica, com a história do Brasil. E eu comecei a achar isso muito estranho: de passar uma outra cultura, sem passar a minha cultura.

Aí eu tinha um amigo que fazia Ladja e era capoeirista e ele sempre me falava: “Como você é martinicano e não faz Ladja, não fala da sua cultura ... só fala do Brasil?” E eu concordava com ele mas pensava “Bom... não é por acaso que eu fiz tantos anos de capoeira ... Talvez é o meu caminho ... talvez meu caminho não é Ladja”. Eu fugia da Ladja ainda.

Aí uma amiga me convidou para uma aula de Ladja.

Eu pensei: “Bom ... Você não pode fugir, não é certo fugir da sua cultura assim.”

Então eu comecei a treinar. Os passos já estavam lá porque, mesmo não praticando muito, já estava dentro de mim.  O pessoal percebeu. Eu recebi muito incentivo dos mestres que me falavam “Continua, continua!”.

Mas ainda estava um pouco fora. E aí nesse processo do falecimento do meu pai, muita negociação para recuperar o dinheiro do meu pai, com os bancos, a segurança social. Minha mãe tava muito cansada. E minha irmã propôs de fazer uma viagem no Caribe de cruzeiro. Não era muito meu estilo ir num cruzeiro, mas eu fui porque a gente realmente precisava sair um pouco da Martinica.

Foi nessa viagem que eu comecei a visitar ilhas, ilhas, ilhas ... comecei a sentir muita identidade do Caribe. Pensei “Eu sou de Caribe” .

Aí a Ladja começou a entrar ... Eu comecei a sentir que a Ladja começava a tomar o primeiro lugar no meu coração, e a capoeira começava a descer para o segundo.

E eu não aceitava isso.

Aí quando eu voltei era o Carnaval e o Carnaval tem muitas rodas de Danmye, Ladja.  Aí eu fui em uma, eu fui em duas ...  E lá eu entrei, comecei a sentir que era isso ... mas foi difícil.

Aí quando eu voltei no Brasil eu não era a mesma pessoa em relação à capoeira.  Eu voltei no Brasil com o tambor do meu pai e levei muito tempo para fazer ele sair da capa. Era muito forte fazer esse tambor sair e ficar na minha frente. Mas sentia que na casa tinha o coração da Martinica. O Coração ancestral. O tambor dos ancestrais. E aí eu resolvi começar a dar aula. Foi assim.

Mo: Que forte...  Na Martinica em que contexto acontecem os jogos?

Dimitri: O Danmye, estes rituais para mim são muito evoluídos. Muita gente acha que os escravos eram pessoas sem conhecimento, mas muitos eram Ngangas, iniciados ... pessoas que tinham muito conhecimento. Dançar com música é uma coisa muito profunda. Resolver problemas com uma pessoa de uma forma ritual é uma coisa muito forte. Na Martinica a Ladja vem de uma cultura que entende as forças. Lutar com música é uma forma de transcender, de entrar em contato com o espírito.  Esses rituais são feitos para acessar a nossa essência.  Não é uma atividade que é separada da espiritualidade. No Danmye, o objetivo é de entrar quase em transe. Os antigos falam de se transformar em um bicho, transcender a mente. O africano entendeu que a dança e a música é uma forma de quebrar a barreira da mente. É um ritual muito profundo. As pessoas no Brasil tem o costume de pensar que a dança apareceu para disfarçar a luta, mas para mim isso é diminuir a capoeira, muito. As pessoas acham que a música está lá, mas ela não tem tanta importância. Mas a importância da música é fundamental. E uma forma de se conectar com nossa essência, com nosso potencial máximo. Então, no Danmye o objetivo é esse: acessar a nossa essência. Isso é muito forte. Um caminho espiritual. Na Martinica eles falam “o caminho do Danmye” – chimen Danmbien em creoule – então é o caminho para atingir a nossa essência.

Mo: De onde vieram as maiores influencias dos territórios africanos?

Dimitri: Benin, Mali, Senegal, Kongo, Cameroon.... os escravos vem de lá. E o voodoo que é a base da espiritualidade afro-martinicana e do Haiti também é muito ligado com o Benin. Então, a gente vem de lá. Depois teve muitas pessoas do Kongo também. Aí ninguém sabe realmente de onde vem o Danmye. Mas no Senegal tem lutas que são parecidas. Mas acho que algumas lutas também sumiram da Afrika. Vem da fusão, do sincretismo de várias etnias africanas. Tinha influencias também do povo da India, os indianos chegaram depois da escravidão. A India que também é uma cultura muito forte. Algumas pessoas falam que o toque de tambor tem uma influência da India. Alguns passos da Ladja parecem da India também. Também teve influência de chineses, japoneses, porque a Martinica era um porto, uma entrada para a América do Sul. Mas esses povos todos passavam lá. E tem influencia do box também. É uma leitura, mas acho que essas lutas já estavam prontas na Afrika. A luta é muito africana, a luta que vem do Egito. Acho que a Ladja é 90% da Afrika.

Mo: E não tem nenhuma influencia dos povos nativos da ilha?

Dimitri: Teve um genocídio antes da escravidão. Então ... mas eu acredito que tem, espero que tem, seria muito bom ... É difícil, porque nada foi escrito. É  uma história só oral.

Na Martinica tem outras lutas. Tem uma luta com bastões e uma luta dentro da água que se chama Wolo. Tem uma luta na praia que parece muito com a capoeira. Então é um lugar no mundo que ... eu sinto que a nossa ilha foi escolhida para alguma coisa relacionada com guerreiros. Como você me falava hoje que não faz sentido que a gente seja francês colonizados. Parece que a gente foi escolhido para ser uma cultura guerreira, eu acho a mesma coisa, que o povo deveria acordar, porque acho que isso não é por acaso.  Acho que somos guerreiros, que a gente perdeu isso ... isso tá escondido.

Mo: A capoeira surge de ambientes de mato, de cais, ambientes que não estão em um centro da sociedade.  E com o passar do tempo, acaba se tornando símbolo da luta e da resistência do povo brasileiro.  Vem sendo ensinada para crianças ... a Ladja é ensinada para crianças?

Dimitri: Muito pouco. A Ladja é mal vista, porque era uma coisa pesada, coisa de “vienenguem”, uma expressão que quer dizer “negros brutais”. E não é totalmente falso isso. Era um meio bem pesado, com álcool, com lutas brutais e verdade que um meio que dava medo para algumas pessoas. Mas não tudo era assim. Teve um momento que eram muito populares. Tinha muitas competições entre as diferentes regiões. Cada região tinha um Major, o Major era um lutador de Ladja. Tinha competições entre diferentes vilas. Mas isso sumiu talvez na década de 60, ou um pouco antes. Aí nos anos 70 teve um movimento para resgatar isso, para fazer entender que isso era nossa identidade, nosso tesouro, nossa cultura. Então, quando eu cresci eu olhava isso como uma coisa de “vienenguem”, coisa de pessoas brutais. E isso não atrai a juventude. E não atraía. Mas agora que vários lugares do mundo passam por uma crise de identidade, vários povos buscam por sua cultura. Na Martinica isso esta acontecendo. Só que ainda e muito fraco. E não é só culpa da mente colonizada. Porque era um meio bem fechado também, bem perigoso.  Mas agora começou a abrir vários jovens tão chegando, mas é muito pouco ainda. Quando a capoeira chega na Martinica, a capoeira seduz todo mundo. O Danmye  tem mais dificuldade.

A Ladja tem toda a parte da luta que precisa de muito treino. Tem que ter o corpo forte, também, muita técnica.

Com certeza a capoeira é mais avançada no processo de divulgação, de politização. Então a capoeira me deu vinte anos de adianto com a Ladja. A Ladja, o Danmye é como a capoeira talvez há trinta anos atrás. Então eu posso ver os caminhos que o Danmye não devia tomar. As pessoas querem fazer competições com o Danmye, envolver academias ... e o que está acontecendo com a capoeira me dá mais clareza para ver qual caminho faria mal para o Danmye. Mas como eu não estou na Martinica, não participo das reuniões, não tenho tanto poder, ainda não tenho esse peso para falar também.

Mas a última vez que eu tava na Martinica, eles tavam organizando competição ... falando em colocar proteção na cabeça e luva de boxe nas mãos ... Não faz sentido ... Eles tão perdendo o ritual ... não é um esporte, é um ritual. Toda uma cultura, toda uma espiritualidade envolvida, não é um esporte, não é uma coisa só física. Eles tão fazendo os mesmos erros que os mestres de capoeira ... mas eu não tenho poder ainda ... Eu tô no Brasil, iniciante de Ladja ... Mas quero voltar para lá para lutar. Lutar pelo meu país em diferentes aspectos, não é só pelo Danmye. A gente tem uma mente muito colonizada. A gente nunca foi independente. A gente tem que comer comida de fora que a gente poderia produzir na Martinica. O povo tá bem bipolar entre uma cultura africana e uma cultura francesa, que não tem muito a ver. Pelo menos no Brasil, vocês tem uma cultura africana, indígena e o português não é tão longe da África. O português tem uma coisa árabe, mas o francês é muito longe disso. Então no Brasil é mais fluido, mas na Martinica a gente é bem bipolar. Se comporta como um francês e de repente como um africano. Às vezes a transição é um pouco bruta.  Então eu tenho que voltar lá para fazer diferentes coisas, não só para o Danmye.

A parte espiritual do Danmye ainda é bem presente, as preparações ... o pessoal está querendo voltar para estes conhecimentos, que são bem forte ainda.

O Brasil tem muito para aprender, para dar para Martinica e Martinica tem muito para dar para o Brasil. São duas culturas que se complementam, uma tem que resgatar coisas da outra ... Eu me sinto privilegiado de estar entre as duas. Às vezes eu penso, Uau! Incrível! Eu sou uma ponte, falo as duas línguas, a língua da capoeira, a língua do Danmye, o Danmye me faz entender mais a capoeira, a capoeira me faz entender mais o Danmye. Então eu sou muito privilegiado.

Mo: Como é mesmo aquela frase?

Dimitri: Uei u pa Uei. Uei u pa Uei é a essência da Ladja. Você achou que viu, mas você não viu. Você viu minha mão, mas você não viu meu pé. É a mandinga.

Mo: Então a mandinga é uma conexão entre as culturas que você transita?

Dimitri: Sim. A mandinga é presente em cada arte marcial. Para acertar alguém, você tem que fazer ele acreditar que você vai fazer uma coisa, e faz outra. Mas na Capoeira, no Danmye, o foco é muito mais forte nisso. E a música incentiva muito isso. Tem muitos lutadores de boxe que começam a usar muito isso. Muitos africanos, você vê eles fazerem o boxe, mas você sente que eles precisam dançar ... tem alguns lutadores agora que fazem isso e é muito eficiente. A gente pode pensar: “será que a mandinga é eficiente?” Quando você vê um boxeador usando isso e isso funciona, você vê que é muito eficiente.

Mas tem vários níveis de mandinga. Tem a mandinga assim, mas tem a mandinga de verdade, que você enfeitiça o outro, de verdade. E isso é para os iniciados. Tem que enfeitiçar o outro. Ele tem que ficar perdido com você, sem saber o que está acontecendo.

Você pode fazer isso de uma forma bem física, ou de uma forma espiritual, com magia mesmo.  Mas isso é outro nível.  Por isso o Danmyeté é uma pessoa iniciada. Que antigamente não tinha essa coisa só física, tudo era junto. 

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Entrevista realizada no Permangola, Janeiro de 2018, no Kilombo Tenondé.