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domingo, 26 de novembro de 2017

Maafa, por André Barata

MAAFA

TEXTO ESCRITO POR ANDRÉ BARATA
A cultura portuguesa ostenta, ainda hoje, escassíssima consciência de um facto histórico indisputável: Portugal escravizou ao longo de três séculos um número de pessoas bem superior ao da sua população à data da abolição da escravatura e foi responsável por quase metade de toda a escravização africana ao longo do período colonial.  Milhões, pelo menos três — talvez cinco ou mesmo seis —, são a nossa conta no multissecular facto a que a antropóloga africanista Marimba Ani chamou em Swuali ‘Maafa’: o grande desastre.
Depois, há este outro facto: a desmemorização que o nosso antigo regime fomentou e que vai passando incólume por revoluções, descolonizações, pelas décadas de democracia para além das décadas de autoritarismo. A culpa não é dos historiadores. Logo em 1963, em “Relações Raciais no Império Colonial Português”, Charles Boxer desmistificou essa ideia de cordialidade multirracial alimentada por Salazar. Mas história e memória não se cosem com as mesmas linhas. E o facto é que fomos educados por uma representação identitária de povo de brandos costumes, sob a qual ganha sentido esta imagem de império colonial pouco colonialista, mais propenso à miscigenação e a comércios do que à conquista de terras ou à dominação de gentes. Que parte significativa desse comércio fosse de pessoas, milhões de pessoas, sujeitas à mais extrema dominação, empilhadas até não caberem em navios negreiros, é uma incongruência que não faz sentido no quadro mais amplo desta suposta e inquestionada bonomia do carácter nacional.
A desmemorização é um processo muito mais subtil do que o revisionismo histórico. Não adultera os factos, mas o quadro em que os interpretamos. Aqui, é como se a escravização massiva e multissecular fosse apenas um detalhe da história económica portuguesa: os escravos metidos no mesmo saco das especiarias e do ouro — nada que tivesse, portanto, a menor relevância para a memória colectiva dos portugueses e para a compreensão do que possa significar a lusofonia que tanto apregoamos e tentamos hoje em dia pôr a render como um capital simbólico que nos deixe bem nuns tantos cantos do mundo.
No tempo do outro senhor, esta desmemorização visava justificar a existência anacrónica de um Portugal de províncias ultramarinas numa era já pós-colonial. Nos dias que correm, o anacronismo não é o do Portugal ultramarino que (não) era um país pequeno, mas o de uma representação que continua a servir, sem verdade e sem inocência.
Paradoxalmente, esta é uma representação que nos nega culturalmente. Porque isto não se confina a Portugal e à assunção da sua história, mas ao conjunto de países que entre si partilham a língua portuguesa e que também partilham uma história de escravização. Se a língua portuguesa é globalmente tão falada é também em razão desta história, e certamente muito mais falantes do português participam dela pelo lado das vítimas do que pela dos escravizadores. Esta foi a base em que se construíram os alicerces da sociedade brasileira, como bem notou o politólogo e membro da Academia Brasileira de Ciências, José Murilo de Carvalho, quando se celebraram os 500 anos do achamento do Brasil
As representações identitárias explicam muita da inércia cúmplice do colonialismo. Mas nem tudo se deve a inércia. Também faltou em Portugal, mais do que noutras metrópoles imperiais, uma representação social da escravização que pressionasse no sentido do seu reconhecimento histórico. Até o abolirem, os ingleses fizeram passar o seu comércio escravo por portos de Inglaterra, ao passo que os portugueses, entre 1761 (data do decreto do Marquês de Pombal) e 1869, comerciaram milhões de pessoas longe da vista da ocidental praia, o que lhes garantiu todas as vantagens: as de um dos negócios mais miseráveis na história da humanidade e as de uma consciência tão tranquila ao ponto de fazer boa figura comparada com os racismos ásperos que singraram por essa Europa oitocentista de nações cheias de identidade na guelra.
Verdade dita, os Ingleses pararam de traficar escravos por pressão do seu parlamento. Os portugueses pararam por pressão dos ingleses. Verdade dita, não fomos o último império colonial por sermos pouco colonialistas, mas pelas mesmas razões por que já fôramos os últimos a largar o negócio dos escravos.
Que fazer com esta desmemorização tão incrustada? Primeiro, identificá-la. Segundo, muito mais importante que fazermo-nos herdeiros de uma culpa colectiva é responsabilizarmo-nos colectivamente por um trabalho de memória da escravização até agora inexistente. Nos currícula escolares de História, e das áreas relacionadas com a cultura e a língua portuguesa, as menções à problemática e aos factos da escravização são desproporcionadamente escassas. Não há um museu da escravização e do comércio escravo em Portugal. Não há uma data — que devia ser comum a toda a CPLP — que recorde oficialmente o holocausto africano, o tráfico escravo e a base escravista da sociedade brasileira. Não há uma percepção pública de números, histórias, sofrimentos relevantes.
Mas por mais que a verdade importe ao passado, é ao futuro que ela faz falta. Encorajar a rememorização das origens desta lusofonia real, que ligou Portugal e duas costas do Atlântico Sul a uma história de escravos, é um trabalho da cultura, nas suas expressões literárias, artísticas, musicais, académicas, passadas, presentes ou futuras. Mas não pode servir para resgatar uma lusofonia bacoca de imenso Portugal, agora escondido atrás da sua língua, da sua literatura, da sua diáspora. Serve para nos reconhecermos numa comunidade larga em que, mais do que falarmos a mesma língua, temos uma história comum demasiado vivida para que a possamos ignorar sem nos ignorarmos.
TEXTO ESCRITO POR ANDRÉ BARATA

quarta-feira, 1 de março de 2017

Reflexões de uma quarta-feira de cinzas



Estou em estado de ebulição. Em busca. Em busca de movimentos e sonoridades que me ajudem a conectar com minhas raízes ancestrais, bem como com as raízes ancestrais do povo brasileiro.

Sou um ser híbrido, em busca de me entender dentro do caldeirão cultural/social/político chamado Brasil.

Necessito sobreviver neste corpo. Nesta ilha. Neste país. 

Por isso, busco dentro de mim este lugar-grito, este lugar-útero, esse lugar-ouvido, este lugar-rito, onde consiga criar mecanismos de auto-libertação de padrões e códigos coloniais, que por muito tempo congelaram nossos corpos brasileiros e nos separaram em estratos sociais, impedindo que houvesse uma real igualdade social e racial em nosso país, bem como a valorização da participação fundamental da comunidade africana e afro-descendente na criação da história, da cultura e da identidade do Brasil. 

(Por enquanto estou falando de africanidades. Mas ainda nem comecei a falar na questão indígena. Guardarei essas reflexões para outro momento.)

O resultado histórico dessa realidade é a herança do povo brasileiro e sua balança humanitária sempre em desequilíbrio - todos já estamos carecas de saber mas muitos fingem não haver percebido: a realidade é a falta de representatividade negra nos principais cargos políticos do país, o alto índice de morte do povo negro, a presença majoritária nas prisões brasileiras, a falta de representatividade do negro na mídia e o uso de sua imagem como estereótipos, em frente a valores "embranquecedores" presentes nesta sociedade, onde até os dias de hoje o negro encontra-se à margem. À margem. Em estados liminares. Em estados que ainda não foram compreendidos. Mas que começam a ser questionados. Já era tempo!

Percebo que estamos no momento onde essa realidade está se transformando. 

Fu Ki-Au, pensador e estudioso congolês nos fala que, para o povo Bakongo, "onde não há problema, a vida não acontece". 

Então é sobre isso que venho refletindo muito nos dias atuais e durante este carnaval (em que passei em estado de reclusão, cuidando de sete crianças): as frequentes discussões sobre atitudes de preconceito, de racismo, apropriação de cultura, formação de identidade cultural/social que nos bombardeiam as redes sociais, estão no fundo nos mostrando que algo está se transformando no Brasil. 

Que a noção estrutural herdada do período escravocrata do "Dominado/Dominante" está sendo questionada porque já é insustentável. Estamos no século XXI e precisamos resolver esses aspectos podres da estrutura da sociedade brasileira para passarmos para uma nova página. Para que não nos aconteça mais de vivermos em país democrata, onde a ditadura se instaura de um dia para o outro e o povo simplesmente dá de cara com essa triste realidade que vem desde os primórdios, desde os tempos da invasão das américas: os políticos que estão no poder (em sua maioria homens brancos) não conhecem a realidade e as necessidades do povo, não estão prontos para representar essa nação.

Em alguns momentos, é preciso botar lenha na fogueira, sim. É preciso chamar a guerra e guerrear. Porque temos traumas históricos que não foram resolvidos. Temos dívidas cármicas que não foram ressarcidas. 

Nosso sistema político/social é falido e enquanto não compreendermos que, se não tratarmos dos traumas sociais que essa nação viveu desde o começo da invasão de Pindorama, nada vai mudar. 

Por isso, precisamos conhecer a história das principais culturas que marcaram a criação de nosso povo brasileiro. E criar sistemas de educação que valorize estas culturas que até então foram marginalizadas, estiveram à margem desta sociedade. Mas não simplesmente trazer alguns símbolos destas culturas para um dito "centro" e deixar seus herdeiros primordiais à margem. Não. Precisamos falar desta história. Destas culturas e abrir o fluxo para o povo preto do Brasil poder caminhar para qualquer lado destas estruturas sociais. Se quiser chegar ao centro, que chegue, se quiser chegar à periferia, que chegue. Se quiser, e não simplesmente porque historicamente assim foi imposto aos seus pais, aos seus avós, bisavós, tataravós. Precisamos ter caminho livre para fluir. Para nos reencontrarmos, nos conhecermos de outra maneira. Sem preconceito. Sem racismo. Sem muros que nos impuseram e nunca pensamos sobre eles.

Aqui não se trata de nos apropriarmos de uma cultura que não tem nada a ver conosco. Somos todos filhos da fusão. Ainda que não tenhamos a pele negra, são poucos os brasileiros que não possuem ancestralidade negra, preta, como diria Roberto Oswaldo Griot, grande amigo e pensador da "Arte Preta". Griot sempre falava que ser brasileiro é ter uma energia própria. Potencialmente, temos a energia da transformação que o mundo precisa. No entanto, tal potência encontra-se adormecida, porque insistimos em permanecer em nosso estado de letargia, uns contra os outros, assim como fizeram os traficantes negreiros: colocando pessoas de diferentes povos dentro de um mesmo barco, pensando que assim, eles não poderiam se falar. Mas o resultado foi o contrário: do encontro de africanos de línguas diferentes nasceu outra língua! E na linguagem da música, nasceu o samba! Foi assim que a arte serviu para unir povos distintos que caíram em um mesmo barco. Estamos todos juntos num mesmo barco e não podemos mais jogar uns contra os outros. Porque é isso que o sistema quer: nos ver fracos, inimigos, enfraquecidos, porque quando o povo está debilitado, é mais fácil dar o golpe. Porque o povo não tem união. Brigamos entre nós mesmos, enquanto poderíamos nos aliar, dando o valor que cada um merece e assim, mais fortes, lutar contra os verdadeiros inimigos.

Sabe, finalizando essa reflexão quero aqui declarar meu amor pela cultura popular brasileira. Porque foi aqui nesse lugar onde eu renasci como brasileira e como ser humano. Foi aqui onde comecei a questionar alguns padrões comportamentais que costumava obedecer, vindo desta realidade de mulher fenotipicamente branca, de classe média no Brasil, de uma família que sempre teve que lutar pra pagar as contas, mas que, sem ter consciência, possuía ainda assim privilégios sociais que me deram condição de me formar em uma universidade, nunca passar forme enquanto estive na casa de meus pais, nem nunca ter sido parada pela polícia pelo simples fato de minha pele ser colorida.

Foi na cultura popular que percebi que meu pai não é uma pessoa branca, e que meu avô menos ainda. Foi por causa da cultura popular, que fui levada a conhecer minhas raízes profundas, a buscas histórias de minhas avós indígenas e meus ancestrais árabes. Foi aqui que eu me entendi como ser híbrido, mestiço, misturado e que eu passei a ter um amor incontrolável por estas raízes. Foi aqui onde me tornei uma pessoa mais forte, mais preparada para educar minha filha, fora dos padrões da segregação e desvalorização de uma cultura em detrimento da outra. Eu sou filha de misturas. 

Posso estar enganada, mas sinto que, quando o povo brasileiro conectar-se com a força de sua cultura popular, aí sim poderá encontrar as respostas verdadeiras para a transformação do país. É na cultura popular onde o povo pode se encontrar, se re-conhecer, se entender, se respeitar em sua diversidade e diferença. E criar novas realidades para as gerações vindouras.

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Mo Maiê, Barra Grande de Itaparica, Março de 2017