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domingo, 21 de outubro de 2018

Mestre Môa do Katendê e as Represas do Tempo

Moa do Katendê

O povo bakongo diz que onde não há mambu (dúvidas, conflitos, problemas) o tempo não está se movendo: assim como não existe moyo (vida). 

Apenas quando os fatos (dunga) acontecem, as “coisas” se movem e o caminho da linha do tempo torna-se clara. 

Mataram Mestre Môa do Katendê!!! Mande tocar Iúna, na boca da mata, que hoje o céu e a terra choram, a Bahia e todos nós choramos, Chora o couro, a cabaça, chora o agogô!

Mataram a mim, mataram você. Mataram nossos avós. Mataram nossos vizinhos. Mataram até a moça que vende pipoca no Jardim. 

Estão nos matando a cada dia. Mulheres, Pretas, Pretos, Homossexuais, Travestis, Idosos, Pobres, Analfabetos, Crianças ... 

E ninguém se atreve a chamar de guerra o que estamos vivendo. 

Enquanto isso, a faca cortou a pele macia do mestre. E foram doze!!! As facadas pelas costas. Coisa de capitão do mato, ecos coloniais que se estendem em nossas vidas até os dias de hoje. 

O Tempo .... 

Era dia de eleição. No Brasil. E era dia da festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Era dia 7 de outubro de 2018. 

Era Mestre Moa do Katendê. Salvador, útero desta nação. Moa Griô, Moa Mestre de Capoeira, Moa Músico, compositor, dançarino, ogã, artesão, educador, fundador do Afoxé Badauê e Amigos do Katendê.

Moa se ancestralizou! Não é qualquer um que morre que se ancestraliza ... o ancestral faz sua passagem através da linha da kalunga e, por haver deixado em vida ações que transformaram não apenas a sua vida, mas a vida de sua comunidade em um lugar mais evoluído, então, um ancestral vai ser sempre lembrado nesta comunidade. 

Mestre Môa se foi assim... Um ser potente, um ser rocha, um baobá, água cristalina. 

Mestre Môa ... mas você assim é perigoso: Tão lindo, tão preto, consciente, criativo, ritmado, mandingueiro, pura arte-medicina em movimento ....

Mestre Môa ... você assim bate de frente com a essência racista do povo brasileiro.

Mestre Môa ... você assim é um risco para os padrões deste Brasil machista xenofóbico, facista, misógeno, um país racista racista!!!! 

Estamos passando por uma crise impressionante na historia deste país. 

São tempos de intensidade e desconforto. Uma eleição cheia de bizarrices, trazendo à tona toda a podridão que está nas bases da formação do povo brasileiro e no inconsciente coletivo ANESTESIADO. 

Esta semana que antecede o segundo turno das eleições nos deixa tristes, amargos, abalados estruturalmente. E ainda não sabemos para onde estamos indo... mas também ... se não sabemos de onde viemos ... como direcionar os nossos passos para um futuro mais promissor?

Mataram Mestre Môa do Katendê. Sua morte foi reverberação das contradições e calamidades pelas quais estamos passando nos últimos séculos e nos últimos anos neste país. 

Reverberação da lama tóxica que destruiu Bento Rodrigues e o Rio Doce, rio sagrado pro povo Krenak e pra tantos ribeirinhos que dele dependiam para a sobrevivência ... 

Reverberação do fogo ardente que destruiu o Museu Nacional do Brasil, quando vimos nossa historia da arte e do cotidiano desaparecer em poucas horas ... 

Reverberação do assassinato de Marielle Franco ...


Museu Nacional em Chamas

Os bakongo concebem o tempo como "O movimento da energia consciente dentro da matéria biológica/corpo, no caminho tanto individual, quanto do ciclo cósmico universal da vida e dos sistemas sociais". 

Falar sobre o tempo é falar sobre suas “REPRESAS DO TEMPO” (nascimentos, guerras, casamentos, funerais, caçadas, colheitas e assim por diante).

Assim, ESTAR NO TEMPO não é APENAS IR ATRAVÉS DELE, mas também experimentar a vida caminhando pelas REPRESAS DO TEMPO. 

Dentro dos movimentos do tempo, estamos vivendo o que o povo bakongo chama de "REPRESA DO TEMPO" ("n´kama mia ntangu"), momento que é um marco. 

E desta vez, um marco que transcende apenas a vida de uma pessoa, em seus rituais vitais essenciais. 

Estamos vivendo um marco para todas as pessoas de um país e ouso dizer do mundo também, já que estamos todos conectados pelas ondas da globalização ..

Como estamos vivendo estes tempos? Estas represas do tempo? 

Estamos presentes no próprio tempo? Estamos "Afinados com o fluir da energia viva, compartilhando sua melodia?" (FUKIAU) "Estou no tempo presente a fim de entender o enrolar o desenrolar do pergaminho do tempo".

Se aprendemos que o tempo é sentido, concebido e entendido apenas através destas represas e acontecimentos do tempo, que ocorrem no caminho de uma linha de tempo sequencialmente visível apenas em nossas mentes (ntona), estamos trabalhando com as “represas do tempo” ou tentando controlá-las? 

Através do rolar e desenrolar do pergaminho do tempo, o passado vai e volta para nós no tempo presente; através do desenrolar do pergaminho do tempo, nós descobrimos o futuro, o passado do amanhã. 

Os bakongo dizem que "através do enrolar e desenrolar do pergaminho do tempo, o futuro vem até nós". 

Através dos processos diários da vida, o homem pode trazer para si mesmo, no tempo presente, o melhor e o pior tanto do passado quanto do futuro. 

Em outras palavras, viver (zinga) e estar (kala) no tempo é ser capaz de se mover livremente pra frente e pra trás no desenrolar do tempo.

Um novo ciclo do tempo vai se movimentar até que outra colisão lhe interrompa, para realizar um novo começo, para que um novo movimento do tempo se inicie. 

"Isso começa no tempo e testemunha as marcas de suas “represas” e fatos, um processo que também pode diminuir ou aumentar nosso poder de cura.

Estar no tempo e com o tempo, isso é, respondendo à ocorrência de suas “represas”, é ao mesmo tempo um processo de regeneração de energia e um processo de cura, uma caminhada mental pelo caminho cósmico do Dikenga." (FU KI.AU) 

Significa também marcar e experimentar as represas do tempo na linha perpétua do tempo, especialmente quando “na vertical” (telama lwimba-nganga) em seus quatro principais pontos de marcação: musoni, kala, tukula e luvemba. 

Esses são os pontos das grandes colisões, não apenas nos processos de transformação planetária, mas também na vida biológica dos indivíduos, um processo que é necessário para a transformação (nsobolo) acontecer.

Para o povo Bantu, não existe algo como estar “atrasado” (ao menos que aconteça da pessoa ter sido educada fora da África). Deve-se aprender a ser paciente. 

“Mvula kasukina mu matuti, n´kaku” – “se a chuva não alcança o solo (terra)” diz o Kongo, “deve haver alguma barreira”. 

Um entendimento dessas REPRESAS (n´kaku) é central para o real entendimento do conceito do tempo e suas funções entre o povo Bantu, porque o tempo por si próprio é inútil, mas suas represas não o são (Ka ntangu kibeni ko kansi n´kama miandi mivwidi lukumu). 

"Rolar e desenrolar o pergaminho do tempo, ou seja, entender e interpretar o presente, desenrolando e revisando parte do pergaminho que contem a experiência do aprendizado e se posicionar para prever o futuro (o passado do amanhã) enrolando ou revelando as partes escondidas do pergaminho no qual n´kama miampa mia ntangu (novas represas do tempo) serão impressas pelo ser humano ou pela natureza".

Como estamos agindo? Que impressões estamos deixando nos seres vivos e na natureza?

O Tempo é cíclico, assim como a vida e todas as suas ramificações, que fazem com que as mudanças sejam possíveis através dos processos que deixam marcas nas “represas do tempo”.

Ma´kwenda! Ma´kwiza – “o que está acontecendo (agora) voltará (depois)” – o que flui através de movimentos cíclicos seguirá movendo-se. 

Está na hora de mudarmos os caminhos do tempo dentro de nós e nas comunidade em que vivemos. 

Ou uma represa do tempo se romperá mais um vez levando lama tóxica pelos rios do mundo. E outra. E mais outra. E outra mais. 

E isso continuará se repetindo perpetuamente, até que muitas pessoas juntas decidam realizar dentro delas mesmas a transformação que elas esperam viver no mundo. 

E aí sim ... quando essa outra represa volte a explodir, vai explodir para instaurar a tão esperada transformação que a natureza que habita no mundo e em nós tanto precisa.

Mataram o Nego mas não vão nos calar!!!
É possível saber quantas sementes há em uma maçã . Mas não quantas maçãs cabem numa semente ...








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Mo Maiê, Mariana, outubro de 2018


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Fonte: 
Ntandu Tandu kolo: O Conceito Bantu-Kongo do Tempo. Bunseki Fu Ki-Au

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Árvore da Memória: Do outro lado de cá, com Malungo Joab Jo


Joab Joó Malungo e Helena Tenderini . registro de Christina Shung
Meu nome é Joab Jo Malungo Jundiá. A capoeira faz parte da minha vida. Meu primeiro contato 
com a capoeira foi com 12 anos, mas aos 15 foi quando eu comecei a treinar realmente. E desde 
lá eu nunca parei. Percorri vários caminhos … caminhos que eu preferi seguir… caminhos que eu
preferi voltar e pegar outro caminhos, mas todos eles, mesmo os caminhos que eu voltei, foram 
me dando bagagem para eu hoje estar aqui.

Então é isso ... minha vida é Capoeira …. Gostaria de dizer isso sem ressalva, mas talvez infelizmente 
ou não… eu não consigo dizer isso sem ressalva, dizer eu sou Capoeira. a gente tem que acrescentar 
uma série de coisas e tal … mas é isso, porque a capoeira me possibilita uma série de coisas que pra 
mim continua Capoeira. 

Desde pensar o mundo, sentir o mundo… pensar, tocar, escrever, minha relação com a minha família.

Eu tive 8 filhos e 7 são vivos. Um nasceu e chegou retornando … e todos eles fazem capoeira. E eles não lembram quando iniciaram a capoeira, porque foi desde muito pequeno. Eles são duas mulheres e cinco homens.

É isso … eu não posso falar de mim sem falar de meus filhos e sem falar dos meus avôs, meu pai, 
minha mãe.

Eu sou natural de Nazaré da Mata, cidade aqui da zona da mata de Pernambuco. Meu pai é natural 
de um engenho, é uma região de canavial, de cana de açúcar, tem muitos engenhos … e meu pai é 
natural do engenho Joá e minha mãe tá ligada ao Engenho Kutumguba, minha família também tá 
ligada a outro engenho chamado Engenho Olho D’água. 

Mas é isso… isso são minhas referências. Eu sou de uma região do Maracatu, né? Que hoje se usa 
esse termo Maracatu. Toda região é de maracatu. 

Eu não brinco maracatu desde pequeno, porque houve uma ruptura aí, né? Porque meu pai e minha mãe se converteram à Igreja Batista, então há um apagamento do que a família …. mas meu avô era caboclo, tenho um irmão mais velho que foi caboclo. Meus tios sempre tiveram envolvidos com o maracatu. E isso aqui é uma coisa muito comum…. uma banalidade.

Danço desde pequeno, danço muito.

Sou um caboclo. Eu prefiro não me chamar de Caboclo de Lança. Eu digo que eu sou Caboclo. Até 
porque aquilo ali é uma guiada. O nome é guiada. Não é lança. Aos poucos foi ficando lança, lança… 
mas o nome é guiada.

Mo: Como toda sua experiência de vida, sua linhagem ancestral, o que vc aprende com seus filhos, 
como é que essa corporeidade tão especifica… como você trás tudo isso para sua capoeira?

Malungo: Eu não trago nada disso para a capoeira. Porque tudo já tá no meu corpo. É o meu corpo. Eu sou da Zona da Mata e vivi no Recife por muitos anos e sou de frevo, sou o que o pessoal chama de passista. Eu não me refiro muito como passista, mas faço frevo, danço frevo e a relação do frevo com a capoeira é muito presente. E sou caboclo de maracatu. Sambo maracatu. E isso é que já é em mim. Então quando eu jogo capoeira, tá tudo lá, tá tudo em mim. 

Não é uma coisa que eu faço e eu trago para me influenciar. Não é uma influência. É como se eu mesmo não posso me influenciar. Eu sou eu. Já está ali. É muito comum isso… uma coisa que eu trago pra capoeira, essa munganga, essa mandinga, né? Esses trejeitos, esses pantins que eu faço na capoeira e que por onde eu ando chama a atenção, as pessoas notam… principalmente as pessoas que fazem a partir da Bahia a capoeira chamada de Capoeira Angola. Mas não é que traga para a capoeira. Eu já sou isso, né?

Joab Joó Malungo e Helena Tenderini . registro de Christina Shung
Mo: Parece que hoje em dia tem um padrão de jogo, de movimentos quase mecânicos, né? E quando 
uma pessoa se depara com o seu jogo é muito impactante. Eu pelo menos, toda a vez que eu te vejo 
jogar me marca profundamente. A sua corporeidade está muito livre mas você esta ali com total 
respeito com a essência da capoeira. Você percebe que hoje em dia as pessoas estão jogando de 
uma maneira muito padronizada?

Malungo: Tá tudo padronizado. Tudo padronizado. Às vezes até a maneira da gente dizer que tá 
tudo padronizado é uma padronização. A gente diz isso, mas quando a gente age, a gente age a 
partir de determinado padrão, mesmo para considerar o padrão que já tá enquadrado ali. 

Então, assim é o mundo, são as ciladas, essas armadilhas que tem e a capoeira não escapa disso. 
Agora, a capoeira também é um jogo de cilada, é um jogo de malícia e tal … então, eu me vejo 
possível a dar uma balançada nessa coisa da padronização … dar uma padronizada no sentido de 
desmanchar algo que seja padronizado. 

E isso que eu tô dizendo agora é racional. Mas quando você joga não há muita separação entre o 
racional e o que você sente na Capoeira, mas o coração é muito forte, então, quer queira quer não, 
vai rompendo com determinados padrões … e eu gosto disso… não que a capoeira que eu faça… essa 
corporeidade que eu apresento ali jogando a capoeira … o objetivo dela seja despadronizar… ela 
não tem objetivo. Porque seria já uma coisa muito política, muito racional “ah… eu tô fazendo dessa forma para despadronizar…” então automaticamente, aquilo viraria um padrão… e não é isso. E eu não tô dizendo que a gente não deva despadronizar… claro que a gente deve… claro que a gente deve perceber que essa coisa do padrão do jeito único de fazer a coisa - e nesse caso a capoeira - é uma coisa nociva para as nossas relações humanas, porque cada pessoa é diferente da outra, dentro de uma própria família, é diferente a relação que se tem com cada um. Na capoeira também. A vida e a capoeira … a capoeira é um reflexo da vida… então assim… quando eu jogo daquele jeito não é pautado em despadronizar … eu jogo porque eu jogo daquele jeito. Eu não me deixo ser padronizado.

A capoeira não vai de encontro, ela vai ao encontro dessa coisa que tá em todo canto. Eu 
converso com pessoas de outras brincadeiras e você vê que o bojo de relação tem vários furos, é um 
bojo furado com vários furos. 

São infinitos furos que dá pra gente ir ao encontro e se relacionar de uma maneira peculiar, de uma
maneira individual, característica, que cada um já é. Um pé de manga nunca é igual outro pé de 
manga. 

Um Baobá não é um pé de jurema… tudo é diferente, por mais que sejam parecidos, mas cada coisa 
é diferente da outra. Então isso é uma coisa que é, não é algo racional.

A minha barca é a capoeira. Eu não vejo muita diferença com outros portos que eu chego. A minha 
barca é a Kalunga. A Kalunga é as águas e a Kalunga também é a barca. Então é desse princípio, 
desse bojo de relação que eu tô falando. Então isso pra mim é muito forte quando você faz uma 
dança luta como a capoeira. Eu acho ate que a gente minimiza quando a gente diz isso. É uma dança 
luta. Você dança pra lutar. Bota a cabeça no chão e ri e tira onda e tem a picardia toda ... e tem sua 
peculiaridade. É uma dança, embora a sambada do caboclo seja uma coisa mais dura aparentemente, 
mas cada caboclo tem sua peculiaridade, tem sua característica e também é uma dança luta. Mesmo
com o cacete na mão, batendo o cacete, mesmo quando brincam duas pessoas, dois caboclos sem 
cacete, é uma dança luta. 

Eu creio que só por esse fato de ser uma dança luta, o bojo de relação que eu falei antes, brilha mais
ainda. Porque mostra e não exclui as contradições.  E não excluir as contradições, talvez se a gente forçar um pouquinho seja não excluir as coisas. Uma dança luta não da pra sair por aí excluindo. 

Até porque luta gosta de incluir pra lutar, né? Com quem quer que seja. E uma dança você dança pra você, mas dança pros outros também. Então isso para mim fortalece esse bojo de relações. Essa coisa da dança luta, que eu vejo na capoeira e também na sambada de cabôco, uma dança luta. E a relação que eu vejo é essa. A barca da Kalunga. A Kalunga é a barca e a Kalunga é o mar. Kalunga é a boneca. Kalunga são os ancestrais. Kalunga é companheiro. Kalunga é Malungo também. Quando se tá trabalhando aqui na região, por exemplo: Kalunga de caminhão. Kalunga de caminhão é o cara que carrega e descarrega o caminhão. O companheiro, o malungo. Ele não é só, tem outros carregando com ele também. Então para mim, esse bojo de relação é também isso que eu chamo das águas da Kalunga, da barca da Kalunga, dos amigos, companheiros da Kalunga, dos ancestrais da Kalunga. Eu sou assim. Eu sinto dessa forma. Então o jogo da capoeira para mim é isso: não tá dissociado nem tá associado. Não tá dissociado nem associado. Ele é aquilo mesmo. Não é o meu jogo da capoeira que tá associado à sambada do caboclo, do maracatu de caboclo. Não tá associada, nem tá desassociada, ela é daquele jeito. Eu não me associo a essas coisas. Essas coisas são. Não é esforço. É porque é assim.

Mo: Malungo, como você vive, quando você trás essa coisa do é e não é, do ser e não ser, do estar 
mas não esta … do existir sem ser criado … isso tudo mexe muito com a gente, provoca a gente a 
quebrar muita coisa, mesmo que não seja essa sua finalidade…

Joab: O padrão se quebra … eu acho isso mesmo … o padrão se quebra. Se quebra sem a gente fazer 
muito esforço nem sacrifício. Eu não to dizendo que se quebra do nada. você se movimenta do jeito 
que você é. Por exemplo: uma pessoa que é capoeira pode ser atingida por varias forcas adversas, 
demandas, momentos ruim na vida, seja na relação com as pessoas, seja na relação comigo mesmo, 
seja na relação com as arvores, os animais … tudo … com as crianças, com as mulheres, com esse 
mundo, com o racismo, o machismo … com tudo ai … com essa violência policial, com essa escola 
que cumpre seu papel direitinho … a policia cumpre seu papel direitinho … eu não vou exigir que a policia cumpra outro papel, porque o papel dela é esse… eu nem exijo que a escola cumpra outro papel, porque me parece que o papel da escola é esse… mas eu sou atingido por tudo isso. sou atingido. minha família é atingida. minhas filhas, minha mulher é atingida pelo machismo. nos somos atingidos pelo racismo. nos somos atingidos pela violência policial. nos somos atingidos por essa escola. nos somos atingidos pelo cristianismo. eu não to dizendo que a gente é atingido pelo cristianismo ruim, não. To dizendo que a gente é atingido de maneira nociva, contundente por todas essas coisas. Agora, como eu sou capoeira, quando eu reajo a isso, é diferente de um cabra que tá totalmente integrada a tudo isso. E quando eu digo integrada não é apenas não ligar pra essas mazelas, essas coisas ruim que tem no mundo. Mas eu como capoeira, eu reajo diferente. eu não to integrado a isso. Então a reação a tudo isso é diferente. Isso é uma característica do meu jogo. E como é que se vê tudo isso que eu to falando? Quando eu to jogando! Quando eu to jogando… Não é de outra maneira, não é de outro jeito.  Não é eu falando aqui. Mas é eu falando aqui também. Mas quando eu to jogando, isso fica mais claro, visível … tá mais sentido… então como eu reajo a tudo isso … a corporeidade … o meu corpo é isso. Não é esforço. Esse padrão que tá aí quer prender a gente. A gente se movimenta, não para fugir do padrão. Isso é uma mandinga. Eu não me movimento pra fugir do padrão, que padroniza, que aprisiona todo mundo. Não … eu não me movimento pra isso. Eu me movimento porque eu tô vivo. Porque eu sou vivo. Porque se eu digo que me movimento pra não deixar o padrão me prender, toda minha referencia de movimento é a partir daquela fuga. O padrão tá no centro… e não é isso. Eu me movimento porque eu me movimento. E se a gente não tiver esse enxergamento, a gente mesmo sendo contra uma verdade, a verdade única … a gente vai tá fortalecendo ela. Porque se eu me movimento porque aquele padrão tenta me aprisionar … outra pessoa que é diferente de mim se movimenta fugindo daquele padrão, outra pessoa se movimenta também fugindo daquele padrão … seja na capoeira, no maracatu, no jongo, no bumba meu boi, na poesia, na dança, nas artes, na educação, na medicina, na historia, na espiritualidade e tudo … são pessoas diferentes e são ações diferentes. Se essas pessoas não partirem de si próprias, a partir das suas ações, que são diferentes de outras ações, essa pessoa que quer fugir do padrão, que aprisiona, que prende , aí padroniza … eu me movimento porque eu me movimento. porque eu to vivo. e quando eu me movimento porque eu tô vivo, sou vivo … eu vou me movimentar do jeito que eu to vivo, que eu sou vivo. Não é pra fugir do padrão. Agora, o padrão se quebra. se quebra mesmo. E a capoeira possibilitou pra mim esse enxergamento. Hoje eu enxergo dessa maneira, amanhã talvez eu enxergue diferente, não sei … de outras formas … eu enxergo assim, eu sinto dessa forma.

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Do outro Lado de Cá. Filosofia Africana em Terra de Cabôco
Tracunhaém, Pernambuco
Sítio Malokambo
Março de 2018

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lila - Derdeba : Cosmogonia Gnaoua

Os Gnaouas são o povo que descende de negros da África Ocidental, levados para trabalhar como escravos no norte do Sahara, para dar suporte ao Império Almohade, trabalhando no exército e na construção de edifícios e fortificações.

Muitos se instalaram no Marrocos, onde seus descendentes ainda hoje mantêm as tradições gnaoua, que se fundiram com práticas islâmicas sufistas e beribéris, mantendo parte de suas práticas animistas. Essaouira, cidade portuária marroquina possui a mais importante reunião de músicos Gnaouas de todo o Marrocos, com relevante visibilidade artística e agenda cultural; em sua décima quinta edição, também sedia o Festival de Gnaoua e Músicas do Mundo (ver http://www.festival-gnaoua.net/fr/).

Mulher em transe, durante ritual Gnaoua
Os gnaouas possuem um ritual místico de transe (chamado de "Lila" - que em árabe quer dizer noite - ou "Derdeba") onde a música é o principal elemento de união de seus adeptos com suas divindades.

Durante toda a noite, ao som do guembre (baixo acústico de madeira) e dos krakabs  (castanholas de ferro), os músicos cantam e invocam mluks (as entidades sobrenaturais).

A dança de transe , os aromas especiais e o uso da simbologia das cores fazem desse ritual uma sessão terapêutica que cura a alma e o corpo dos participantes.

Uma Derdeba (a LILA) dura uma noite, desde o pôr do sol até o amanhecer. Há lilas de três ou SETE dias, dependendo da intenção do encontro, se é um mussem (peregrinação) ou se a Lila se fará em uma Zaouia ( templo de santo). As lilas de adeptos comuns dura uma noite, e as Lilas de videntes ou mestres (mokdema,  mokdem ou maalems) são mais intensas. É um ritual de transformação, é a passagem da vida pela morte, e a volta pela ressureição.

Um Maalem . Djeli . Jeli . Griot . Gnaoua

Geralmente o mestre da cerimônia faz um sacrifício, de um bode preto, ou galinhas: este é o sangue oferecido às entidades. Além do sangue, cada entidade pede uma comida, um elemento, um insenso, uma cor (os adeptos dançam  em transe com suas cabeças cobertas por um tecido da cor correspondente a sua entidade).

Os músicos chegam cedo, tomam chá, conversam, ajudam no sacrifício de um animal (às vezes o sacrifício deve ser feito um dia antes). A vidente toma o primeiro sangue derramado do sacrifício, é um sangue puro e cheio de magia. Depois deste primeiro sangue, tomado pela mokdema (vidente) o resto do sangue é impuro, e pertence à terra.
Há quem prepare a carne do sacrifício para o jantar, e há quem descarta essa carne (normalmente galinhas são descartadas). As cozinheiras preparam o jantar, que é servido entre dez e onze da noite. 
Antes disso, todos cantam, tomam chá com biscoitos, e esperam, esperam, esperam. Até antes do jantar, nada é completamente sagrado, tudo é um pouco profano. Muitos dizem que os espiritos só chegam quando sentem o perfume dos incensos (bror).  

A partir de meia-noite, o Maalem (o mestre) chama os muluks (entidades).

A Lila Gnaoua, ou Derdeba,  está dividida em três partes:

1-    Aada – Os tambores tocam para chamar os espíritos na porta da casa onde se fará a cerimônia. Cantam “ Al Efô”, o canto do sacrifício, do defloramento, da penetraçao.
2-    Uqba- O jogo de maos. Parte feminina, todos batem palmas, e chamam todos os santos. Bater palmas é a representaçao da vida, do início, quando o ferro ainda nao existia. Por esta razao, os musicos utilizam as palmas, e nao os krakabs (castanholas de ferro): unem a mao direita(a vida) e a esquerda(representando a morte) e cantam os 99 nomes de Alla.
3-    Meksa – o ferro, o sacrifício. Os músicos começam entao a utilizar os krakabs, o ferro alquímico do sacrifício. A Lila é um ritual de morte e ressureiçao, onde o adepto passa pela vida, morte, e renascimento. A Lila é a Transformaçao. A Aada é muito especial, na porta da casa, é um convite. É a chamada dos espiritos, é o início. As mulhes seguram velas, que iluminam o início do ritual. O incenso perfuma a rua, e todos os presentes.Todos tomam uma colherada de leite (o sopro da vida, o esperma que fecunda) e comem uma tâmara (representa o sangue, o sacrifício). Os tambores vibram de maneira especial: os corações batem ao ritmo deles!! As pernas tremem, o corpo vibra, algumas pessoas sentem escalafrios. Antes de chamarem as entidades para o transe(mluk), escutamos as canções profanas, de Kuyu, quando os músicos cantam e dançam fazendo acrobacias.

É comum também, após este momento, que um gnaoui comece a invocar a Alla pela saúde dos adeptos, neste momento, cada um que deseje, dá um baraka (uma oferenda, dinheiro) para os músicos. A baraka te dá prosperidade, saúde.

Muitos doentes chegam às Lilas. Para curar-se com o transe, ou apenas para estar presente no ritual, já é uma forma de abençoar-se.

A Lila é terapêutica. A maioria dos adeptos são as mulheres, que vêm em busca um momento de transe, de cura, de fertilidade, de milagres para suas famílias. As mulheres colocam suas melhores roupas, e seguramente investem dinheiro no momento da baraka. Depois deste momento, de doação de dinheiro, de pedir a cura, vem a pausa do café ou chá.
Os músicos entram numa sala preparada só para eles. Quando voltam, acendem a brasa do salaban (um pote com carvão em brasa) e jogam pedras de incenso. Os muluks serão chamados. Há uma sequencia de cores para chamar as entidades, dependendo da cidade ou região do Marrocos.

Quase todos os lugares, começam pelo branco. Existem três cores fundamentais em uma lila: BRANCO: A vida, a espuma, o esperma, a paz, o início. VERMELHO: O sangue, o sacrifício, o casamento, o sexo, a penetração, a violência, o fogo. PRETO: O fim, o vazio, a morte, a escuridão, o tenebroso. Tudo é NEGRO em origem, e se torna branco quando se exterioriza. Sabemos que o branco é a mistura das cores do prisma... 

A Lila segue esta lei, é uma representação cosmogônica, é a dança das sete cores do universo. 

É o início, o meio e o fim.