Mostrando postagens com marcador a africa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador a africa. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de maio de 2018

A magica geometria sagrada dos Chokwe





Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus deu ao Sol uma galinha e disse: "Volte pela manhã antes de partir". 

De manhã, o frango cantou e acordou o sol. Quando o Sol foi para Deus, Deus disse: "Você não comeu o frango que eu lhe dei para o jantar. Você pode ficar com o frango, mas voltar aqui todos os dias." É por isso que o Sol circula a terra e sobe todas as manhãs.

A Lua também foi visitar Deus e recebeu uma galinha. De manhã, o frango cantou e acordou a lua. Mais uma vez, Deus disse: "Você não comeu o frango que eu lhe dei para o jantar. Você pode ficar com o frango, mas voltar aqui a cada vinte e oito dias". É por isso que o ciclo da Lua dura vinte e oito dias.

O humano também foi visitar Deus e recebeu uma galinha. Mas o humano estava com fome depois de uma longa jornada e comeu parte do frango para o jantar. Na manhã seguinte, o Sol já estava alto no céu quando o humano acordou, comeu o resto do frango e correu para ver Deus. Deus disse: "Eu não ouvi o corvo da galinha esta manhã". O humano respondeu com medo: "Eu estava com muita fome e comi". "Está tudo bem", disse Deus, "mas ouça: você sabe que o Sol e a Lua estiveram aqui, mas nenhum deles matou o frango que eu lhes dei. É por isso que eles mesmos nunca morrerão. Mas você matou o seu, e assim você deve morrer como aconteceu. Mas na sua morte você deve retornar aqui ".

E assim é.


desenho shona , cosmograma do surgimento do mundo para os Chokwe (Angola)


O povo Tchokwe habita predominantemente o nordeste de Angola e partes do noroeste da Zâmbia e as áreas adjacentes do sul do Congo. 


Eles são conhecidos por seu trabalho decorativo, incluindo uma variedade de arte e artesanato e particularmente desenhos de areia conhecidos como sona (singular lusona). Esses desenhos de areia fazem parte da tradição oral do Tchokwe. 

Eles servem principalmente como um dispositivo de estímulo da memória na narração de histórias. 

Os meninos aprendem a contar as histórias e os desenhos sona como parte de seus ritos de iniciação. 

Os aprendizes são ensinados por mestres de desenho, chamados akwa kuta sona. 

.
.
.

FONTE:
http://www.africafederation.net/Tchokwe_Art.htm

Gerdes, P. (1990). On Mathematical Elements in the Tchokwe Sona Tradition. For the Learning of Mathematics


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil


Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil

Em maio se comemora o mês da Áfrika. 🌹  Rosa Maria Egipcíaca é simplesmente a primeira africana-brasileira a ter escrito um livro, do qual restaram páginas manuscritas. 

A mulher negra e africana do século XVIII, tanto em África como na diáspora afro-americana e no Brasil, sobre quem se dispõe mais detalhes documentados sobre sua vida, sonhos, escritos e paixão. 

Hoje saiu texto em homenagem a esta mulher. Parece que a força dela anda reverberando pelas ruas da cidade. Nos levando a nos relembrar do que não podemos mais esquecer ...

Chamada por alguns de santa e por outros de puta, a preta Rosa Egipcíaca por aqui passou maus bocados com as pressões advindas da Igreja, mas também das próprias mulheres desta sociedade tradicional e opressora.

"Vou aprender a ler, para ensinar meus camaradas".

Abaixo um texto sobre a vida de Rosa baseada em um texto de Luiz Motti, o escritor do livro ROSA EGIPCÍACA: UMA SANTA AFRICANA NO BRASIL (Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993).

Rosa nasceu na Costa de Mina (nação Courana, também conhecida como Coura) e desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro, em 1725, aos 6 anos de idade. 

Rosa foi comprada por José de Souza Azevedo, que a mandou batizar na Igreja da Candelária. Era certamente a igreja carioca onde mais escravos eram batizados na época.

Dizem os manuscritos da Torre do Tombo que o senhor de Rosa, “após desonestá-la e tratar torpemente com ela”, vendeu-a para as Minas Gerais, quando ela tinha 14 anos. 

A viagem para as Minas – por volta de 500 quilômetros percorridos a pé, foi a segunda grande caminhada forçada na vida desta garota. 

caminhos negros da diáspora ...

Na Capitania das Minas, Rosa foi comprada pela mãe do literato Frei José de Santa Rita Durão, indo morar no Inficcionado, a duas léguas de Mariana. 

Rosa era a única mulher entre 77 escravizados. 

"Além dos cativos serem predominantemente africanos, eles também eram, em sua grande maioria, homens. Assim, as altas taxas de africanidade encontravam-se também com a alta razão de masculinidade. A necessidade da mão-de-obra masculina pela mineração contribuiu para aumentar as diferenças entre o tráfico de homens e mulheres". (Moacir Rodrigo de Castro Maia) 

Rosa chegou em Minas no auge da produção aurífera e
 passou a se prostituir. 

Segundo mais tarde confessou perante o Comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro, passou 15 anos “a se desonestar vivendo como meretriz.” 

Não é difícil imaginar todos os constrangimentos, violências e doenças que esta jovem africana deve ter sofrido, na condição de prostituta escravizada-africana, numa região abarrotada de todo tipo de homem aventureiro e carente de mulheres.

Em 1748, com quase 30 anos, passou a sofrer ataques, como convulsões e descontroles físicos e mentais.

Aos 30 anos passou a sofrer estranha enfermidade: ficava com o rosto inchado, sentia tumor no estômago e desmaiava. 

Aí é quando Rosa decide então mudar de vida: vende seus bens – jóias e roupas e distribui pros pobres. 

Vira beata e passa a se tornar assídua freqüentadora das liturgias nas igrejas barrocas mineiras. 

Numa de suas andanças conheceu o Padre Francisco Gonçalves Lopes (Xota-Diabos) realizando exorcismos inacreditáveis. 

Impressionada, Rosa revelou ao padre que ela própria estava possuída por sete demônios: sentia um caldeirão de água quente despejando sobre seu corpo ... e caiu desacordada ao chão, partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de São Benedito. 

Quando possuída por Satanás, falava grosso, caía desacordada e dizia ter visões celestiais, vendo por diversas vezes Nossa Senhora da Conceição, ouvindo coros de anjinhos que lhe ensinaram a rezar, recebendo até a revelação de uma fonte de água milagrosa ao pé de uma montanha, onde devia ser construída uma igreja em honra de Senhora Santana. 

O culto aos avós de Cristo substitui no imaginário místico de Rosa, a perda e desconhecimento de seus próprios ancestrais, culto tão forte na maior parte dos povos da Costa da África.

Após os exorcismos, Rosa dizia ser arrebatada por um misterioso vento: “quando saía de casa para ir à igreja, logo na rua sentia um vento tão forte que lhe impedia os passos e com grande violência a fazia retroceder para trás e se bater com o corpo em uma cruz, sendo em dias que não havia vento e só por virtude dos preceitos que punha o exorcista é que podia resistir ao dito vento e entrar na igreja.” 

A fama de visionária de Rosa espalha-se por Mariana, Ouro Preto, São João Del Rei, sempre acompanhada de padre Xota-Diabos. 

Certa feita, na Igreja do Pilar em São João Del Rei, Rosa Courana interrompe a pregação de um missionário capuchinho, gritando que ela era o próprio satanás ali presente.

Ela então é presa e mandada para a sede do Bispado, em Mariana, sendo flagelada no pelourinho e por pouco não morreu, ficando, contudo, para o resto da vida, com o lado direito do corpo semi-paralisado. 

Recuperada da tortura, procura o bispo da Diocese.  

Após uma série de provas – inclusive testando a resistência da pobre vexada à chama de uma vela, que por 5 minutos suportou acesa debaixo da língua! – concluem os teólogos que tudo não passava de fingimento, passando então o povo a chamá-la de feiticeira.

Para evitar novos problemas, Rosa foge para o Rio de Janeiro, sempre auxiliada e protegida pelo seu inseparável padre Xota-Diabos, agora seu proprietário legal, o qual nesta época passava dos 50 anos. 

Em vez de simplesmente Rosa, após uma visão celestial, agora apresentava-se como Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz.

Montada num cavalo, dormindo em estalagens, intercalava visões celestiais com tentações carnais tendo o Xota-Diabos como o eleito de seu coração, relação íntima insinuada e comentada pelos seus próprios contemporâneas.

Rosa instala-se inicialmente numas casas em frente à Igreja de Santa Rita, tendo sua primeira visão na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, aparecendo-lhe o Menino Jesus vestido de azul celeste, tendo na cabeça uma tiara pontifícia, “caindo no chão sem sentidos e como morta”. 

Por sugestão de uma beata das muitas que freqüentavam assiduamente os templos cariocas, Rosa revela sua vida atribulada e seus dons espirituais ao Provincial dos Franciscanos, Frei Agostinho de São José. 

A vida mística de Rosa impressiona vivamente os franciscanos, que a vêem cumprir todos os exercícios pios muito em voga nos séculos passados: jejuns prolongados, autoflagelação, uso de silício, comunhão freqüente. 

Dão à preta Rosa o título de "Flor do Rio de Janeiro".

É nestes meados do século XVIII que o papado estimula, por todas as partes do mundo escravista, o culto a São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia, Santo Antônio de Noto (ou Catigeró), todos negros como Rosa, todos exemplos de humildade, resignação e santidade. 

A beata Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, portanto, ex-prostituta como sua patrona Santa Maria Egipcíaca, vinha a calhar neste "despertar" da Igreja e poderia ser uma futura santa. 

Tão logo chega ao Rio, Nossa Senhora obriga a courana, através de uma visão celestial, a aprender a ler e escrever, sendo até agora a primeira africana de que se tem notícia em nossa história a ter aprendido os segredos do abecedário. 

Também por inspiração sobrenatural, Rosa Egipcíaca decide fundar um Recolhimento para “mulheres do mundo” que pretendiam como ela trocar o amor dos homens pelo do Divino esposo. Ajudada por polpuda doação de um sacerdote de Minas Gerais, seu devoto e admirador das virtudes da ex-escrava, em 1754 é lançada a primeira pedra do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, onde hoje se situa a Rua da Assembléia.

Chegou a abrigar moças-donzelas e ex-mulheres da vida, sendo metade delas negras. 

Madre Rosa – como então era chamada por dezenas de seus devotos – sofistica suas visões, passando a escrevê-las ou ditando para que suas escribas anotassem tudo o que via e ouvia, seja revelado pelos santos, por Maria Santíssima ou pela própria boca de Deus. 

Sempre aplaudida e venerada pelo Padre Francisco Gonçalves Lopes, pelo seu frade confessor e por um capuchinho italiano, ela escreve mais de 250 folhas do livro “Sagrada Teologia do Amor de Deus Luz Brilhante das Almas Peregrinas”, onde diz que o Menino Jesus vinha todo dia mamar em seu peito e, agradecido, penteava sua carapinha; que Nosso Senhor trocara seu coração com o dela, e que no seu peito trazia Jesus Sacramentado; que morrera e tinha ressuscitado; que Nossa Senhora era Mãe de Misericórdia e que ela, Rosa, recebera de Deus o título e encargo de Mãe de Justiça, dependendo de seu arbítrio o futuro de todas as almas, se iam para o céu ou para o inferno; que ela própria era a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo.

Além do hábito de pitar cachimbo, Rosa comandava certas cerimônias onde é nítido o sincretismo afro-católico: “Numa ocasião, conta a recolhida Irmã Ana do Coração de Jesus, negra crioula, natural de Ouro Preto, que na noite da festa Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, estando a comunidade rezando a novena no coro, saiu Rosa de joelhos, e cantando o Ave Maris Stella (Ave Estrela do Mar), começou a dançar em frente do altar, fazendo muitas visagens, até cair desmaiada no chão. Levantou-se então e de um balainho pequenino tirou quatro papelinhos trazidos à maneira de sorte e deu cada um a quatro irmãs, (três negras e uma branca) onde estavam escritos São Mateus, São Lucas, São Marcos e São João, dizendo que elas eram evangelistas…” 

“Na capela do Parto, Rosa tirava às vezes algumas imagens do altar, dizendo que [ela] era Deus, e metia as imagens na mão de algumas irmãs e ia dançando até ao pé delas, e lá as deixava e ia buscar outra, e entrava a apertar a dança, arrodeando-as, e caía no colo de alguma irmã e ficava como estava fora de si, e depois de muito tempo, se tornava a si e começava a perguntar aquilo o que era, quem a tinha trazido para ali, e isto era quase sempre, e se não críamos, levantando-se da sua passividade, roncando, se agarrava pela goela e entrava a bater pelo chão, dando murros…” (Luiz Motti)

“entrou Rosa no coro com uma vara de marmelo dando na cabeça das recolhidas, dizendo: ABC com o que, mataste o meu Iapê, com uma vara de dimpê… Explicando que Iapê era Nosso Senhor e a vara de dimpê era a contradição que as recolhidas tinham.” 

Outro aspecto da religiosidade de Rosa Egipcíaca revelador do sincretismo afro-católico, remete-nos ao próprio espírito que passou a acompanhá-la desde que se converteu: uma entidade que por mais de quinze anos vexou-a, primeiro identificado como Lúcifer, mas depois referido como Afecto. 

"Tal espírito faz-nos pensar em Avrektu – cuja semelhança fonética com Afecto é evidente, um anjo ou mensageiro de luz da cultura Jeje da Nigéria, vizinha próxima da região natal de Rosa Coura. O Avrektu é um misto de mensageiro do além e espírito protetor, através do qual Rosa profetizava o futuro."

No recolhimento do Parto, as freiras entravam em transe quase diariamente, as vezes, diversas vezes por dia. 

Quando o Espírito baixava na comunidade, “sempre ficava ao menos uma ou duas espiritadas sem estar atacada”.

Muitos fiéis freqüentavam o Recolhimento do Parto, alguns para ouvir os conselhos da Mestra, outros para buscar suas relíquias, notadamente uma espécie de biscoito feito com a saliva de Rosa, amassada com farinha, que era guardada para esse fim, e a que seus devotos reputavam o poder de curar todas as enfermidades. 

Profetizando que o Rio de Janeiro ia ser inundado e destruído do mesmo modo como acontecera em 1755 com o terrível terremoto de Lisboa, Madre Rosa convence dezenas de famílias a refugiarem-se no Recolhimento, garantindo que seriam os únicos sobreviventes ao dilúvio e que essa nova Arca de Noé iria cruzar o mar oceano para encontrar-se com o Rei D. Sebastião – desaparecido há dois séculos nas areias do Marrocos , o qual tinha escolhido a negra Rosa para sua esposa, e que deste matrimônio e de seu ventre nasceria o novo Redentor da humanidade. Rosa foi dentre todos os sebastianistas, a que mais ousou em suas profecias!

Não foram tanto os vaticínios não cumpridos nem seus êxtases e revelações de características epileptóides a causa da derrota de Madre Egipcíaca: seu erro foi indispor-se com o clero carioca por ter ralhado com alguns sacerdotes que davam mau exemplo conversando na igreja durante as cerimônias sacras, sendo denunciada ao Bispo sobretudo após ter retirado à força da igreja de Santo Antônio uma senhora da sociedade que se comportava com menos compostura. 

Dezenas de testemunhas passam a denunciar as excentricidades da preta beata: aí então se revelam todos os seus desatinos religiosos, como dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a Santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos.

Após quase um ano presos no aljube do Rio de Janeiro, Rosa e o padre Xota-Diabos são enviados para Lisboa, sendo ouvidos pelo Santo Ofício, em 1763. 

O padre em poucas sessões do inquérito declara ter sido enganado pela falsidade da negra, alegando ser pouco letrado em teologia e ter-se fiado na boa opinião que o Provincial dos Franciscanos dela fazia. 

Pede perdão de sua boa-fé e excessiva credulidade: tem como pena o degredo de cinco anos para o extremo sul do Algarve, além de perder o direito de confessar e exorcizar. Se verdadeira ou falsa sua arrenegação da fé em sua ex-escrava, filha espiritual e possível amante, nunca poderemos saber.

Rosa, por sua vez, insiste em muitas sessões que nunca mentiu nem inventou coisa alguma: confirma que todas suas visões, revelações e êxtases foram reais. De fato, ela acreditava ser uma predestinada e que Deus em sua misericórdia a tinha escolhido para revelar ao mundo seus desígnios. 

Enquanto os inquisidores insistem para que diga a verdade, revelando tudo não ter passado de fingimento para chamar atenção sobre sua pobre figura, Rosa diz ao contrário: “Tudo vi e ouvi!” 

Quatro de junho de 1765 é a última sessão de perguntas à vidente afro-brasileira: neste dia ela narra uma de suas visões. Que estando para comungar ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: “Tu serás a abelha-mestra recolhida no cortiço do amor. Fabricareis o doce favo de mel para pores na mesa dos celestiais banqueteados, para o sustento e alimento dos seus amigos convidados.”

"A partir daí, inexplicavelmente, interrompe-se o processo de Rosa. Dos mais de mil processos de feiticeiras, sodomitas, bígamos, falsas santas e blasfemos que pesquisei, não encontrei outro que ficasse inconcluso, pois sempre os inquisidores eram muito minuciosos em anotar o desfecho do julgamento: a pena a que foi condenado o réu, se morreu de doença no cárcere, se houve suicídio, se foi mandado para a fogueira ou para o degredo, etc. Inexplicavelmente, o processo de Rosa tem como última página este registro dos inquisidores: “Por ser avançada a hora lhe não foram feitas mais perguntas, e sendo lidas estas anotações e por ela ouvidas e entendidas, disse estar escrita na verdade, e assinou com o Senhor Inquisidor, depois do que foi mandada para o seu cárcere.” ( Luiz Motti)

Comparando suas culpas com a de outras beatas e embusteiras processadas pelo Santo Ofício da Inquisição, avaliamos que deveria ser condenada à pena dos açoites e degredada por cinco anos para o Algarve, aliás, como foi o caso de outra afro-brasileira, a angolana Luiza Pinta, esta sim, verdadeira “mãe-de-santo” de um calundu, muito mais ligada às raízes africanas do que Madre Rosa.

Duas hipóteses quanto ao inédito fim desta história: ou a preta Rosa, como era depreciativamente referida no processo inquisitorial, ex-Madre Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, morreu incógnita no cárcere inquisitorial, de doença natural ou velhice, esquecendo-se pela sua insignificância, o notário ou o médico do Santo Ofício de registrar no processo o seu falecimento, ou, então, quem sabe, o próprio Menino Jesus encarregou-se de libertar e levar sua velha mãe-de-leite direto para o céu, agradecido e saudoso do aconchegante colo de sua preta tão querida!

.
.

Fontes: 

https://luizmottblog.wordpress.com/artigos/rosa-egipciaca-uma-santa-africana-no-brasil/

http://diamantina.cedeplar.ufmg.br/portal/download/diamantina-2006/D06A001.pdf

http://www.koinonia.org.br/oq/artigos-detalhes.asp?cod=12663

ROSA EGIPCÍACA: UMA SANTA AFRICANA NO BRASIL, Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993, 750 p. Luiz Motti.

sábado, 28 de abril de 2018

Kandia Kouyate, Jelimuso: A música é a arma do futuro

Kandia Kouyate, Jelimuso do Mali 

Nascida na cidade de Kita, a oeste do Mali, em 1959, Kandia Kouyaté é uma mulher que nos inspira. 

Ela é uma Jelimuso, uma mulher griô. Ela é uma Kora Folá, uma tocadora de Kora. 

Kandia Kouyaté pertence a uma família muito antiga de griots, os Kouyate, descendentes de Bala Fasseke Kouyaté, considerado um dos primeiros griôs Mandingo.

Kita Kan é uma expressão Malinké que significa Voz de Kita. Ela é uma das maiores cantoras do Mali, reverenciada em toda a África Ocidental.

Kandia Kouyate nasceu pouco antes da independência do Mali. Seu pai era um brilhante tocador de balafone e pensando no futuro de sua filha, enviou-a para uma escola de missionários católicos, onde ela estudou até o 8º ano. 

Paralelamente à escola, ela ia desenvolvendo seus talentos como JELIMUSO (griô), aprendendo as técnicas de sua mãe, seu pai e seu tio. 

A doença do pai obrigou-a a deixar a escola e dedicar-se, desde cedo, à música para sustentar sua família. 

Ela foi para Bamako para se juntar a um dos grupos mais populares dos anos 70, APOLLOS, dirigido na época por seu tio - Mady Sylla Kouyaté.

Aos 18 anos ela se casou com um JALI (griot) de Kayes. 

Kayes, uma bela cidade localizada no noroeste do Mali, se tornará sua nova pátria. Mas Kayes tem sua própria musicalidade, cujas músicas são diferente das de Kita. 

A Música KASSONKE.

Felizmente, sua sogra ensina várias músicas e a apresenta aos segredos de JALIYA.

Os anos 80 verão o nascimento de uma geração JELIMUSO da qual Kandia Kouyaté fará parte, assim como Tata Bambo Kouyate e Ami Koita.

Ela gravou seu primeiro cassete em Abidjan, acompanhado dos melhores músicos que ela havia recrutado em Kita

No seu regresso da Costa do Marfim, em 1983, mudou-se para Bamako, onde foi descoberta pelo rico comerciante Ségou Amary Daou, que irá relançar a sua carreira, com o album "Amary Daou apresenta Kandia Kouyaté".

A voz alta e baixa de Kandia Kouyate faz o Mandé vibrar no coração de cada um dos fãs! Essa voz a classifica na mesma categoria das rainhas do American Gospel. Esta voz é única entre os Jalimuso do Mali.

Em 1986, Kandia criou um novo grupo musical em que o virtuoso jogador de "KORA" Toumani Diabaté e o brilhante guitarrista Bouba Sacko. O grupo fará um tour pelo Gabão.

Na época, ela ganhou o apelido de "NGARA", que significa MESTRE NA ARTE DE CANTAR, um título cobiçado por muitos cantores do Mali.

Em 1987, Kandia gravou nos estúdios da Radio Mali seu terceiro cassete "PROJET DABIA", que recebeu o mesmo sucesso que os dois anteriores. No mesmo ano, ela participou do Festival "Music of Royal Courts", organizado pela BBC Television, em Londres.

De 1988 a 1994 ela e seu conjunto (agora a kora e guitarra elétrica Ballaké Sissoko Modibo Diabate) vai fazer uma turnê mundial intitulada "AFRICA OYE", que irá levá-los para a Austrália, EUA e Hong Kong. 

Em 1994 ela gravou seu quarto cassete "Sa kunu sa" ".

Em 1996, o cantor guineense Sekouba Bambino, que é seu grande fã, convidou-a para cantar um dueto com ele em seu CD "KASSA". Do resultado nasceu a famosa canção "DIOMAYA", alternância de cordas vocais e cordas de violão e kora.

Em seu primeiro CD "KITA KAN", Kandia Kouyate convida Sekouba Bambino para um segundo dueto. Eles celebram juntos, na música FOLILALU, a união de JALI Mandé.

Na música MANDENKALOU, ela revoluciona a música mandinga. A música HOMMAGE que ela dedica à memória de Amary Daou e a todos os artistas desaparecidos fecha esta grande saga Mandinga!

A maneira densa, emocional e hipnótica de Kouyaté de cantar e seus talentos líricos ganharam grande aclamação em Mali, embora ela permanecesse relativamente pouco conhecida fora da África, devido à disponibilidade extremamente limitada de suas gravações. 


Em 2004, ela sofreu uma paralisia que afetou metade do corpo, o que sugeria que ela pode não seria capaz de cantar mais.

Mas em 2015, mais um vez provando a força que move seu ser, ela se superou e voltou aos estudios para gravar novamente.


.

                                      

.
.
Kandia Kouyate, Renascence

Kandia Kouyate, Sa Kunu Sa

Kandia Kouyate, Kita Kan

Kandia Kouyate, Amary Daou


.
fontes:
http://www.africansuccess.org/visuFiche.php?id=365&lang=fr
https://www.allmusic.com/artist/kandia-kouyate-mn0000360273/biography
https://www.youtube.com/watch?v=YgYq-TnY9CE

terça-feira, 20 de março de 2018

A visão Bantu Kongo da sacralidade do Mundo Natural. Por Kimbwandende Kia Bunseki Fu­Kiau. Tradução portuguesa por Valdina O. Pinto

A visão Bakonga do Mundo Natural. Por Bunseki Fu Kiau . Tradução Makota Valdina
O mundo natural para o povo Bântu, é a totalidade de totalidades amarradas acima como um pacote (futu) por Kalunga, a energia superior e mais completa, dentro e em volta de cada coisa no interior do universo ( luyalungunu). Nossa Terra, o “pacote de essências/medicamentos” (futu dia n’kisi) para a vida na Terra, é parte dessa totalidade de totalidades. É vida. É o que é, visível e invisível. É a ligação do todo em um através do processo de vida e viver ( dingo­dingo dia môyo ye zinga). É o que nós somos porque nós somos uma parte disso. É o que mantém cada coisa na Terra e no Universo em seu lugar.
O conceito Bântu­Kôngo da sacralidade do mundo natural é simples e claro. Tem­se que deixá­ los definir o nosso planeta com suas próprias palavras: “Aos olhos do povo Africano, especialmente aqueles em contato com os ensinamentos das antigas escolas Africanas, a Terra, nosso planeta, é futu dia n’kisi diakânga Kalûnga mu diâmbu dia môyo ­ um sachet (pacote) de essências/remédios amarrados por Kalûnga com intenção de vida na Terra. Esse futu ou funda contém cada coisa que a vida precisa para sua sobrevivência: essências/remédios ( n’kisi / bilongo), comida (madia), bebida (ndwînu)”, etc1.
O mundo natural é o que nós vemos, tocamos, sentimos, saboreamos e ouvimos e ainda assim nós não podemos alcançar o significado em sua totalidade. É o mistério de todos os mistérios. É o cerne do que é espiritual e sagrado. É ligar e desligar (Kala ye Zima ) de todas as coisas, i.é., Nkingu Kibeni Wangudi Wa Kinenga mu biobio (a chave princípio de equilíbrio em tudo).
Todas essas coisas, de acordo com o conceito Bântu de sacralidade são seres (Kadi), com ou sem expressão, com ou sem poder de locomoção.
O povo Bântu, Kôngo e Luba, entre eles, aceitam o mundo natural como sagrado em sua totalidade porque, através dele, eles vêem refletida a grandeza de Kalûnga. A energia superior de vida, aquele que é inteiramente completo (lunga) por si próprio. Assim, quando um Mûntu (ser humano) vê um minúsculo cristal (ngêngele) ele/ela vê nele, não só sua sacralidade, mas também a presença divina de Kalûnga.
Além da atenção e admiração dadas a montanhas, vales, ao vento, ao céu e às mudanças do ciclo natural, o Mûntu dá especial atenção ao mundo da floresta porque, como se diz, “Mfinda Kasuka tufukidi”­ nós perecemos se as florestas são extintas. Por causa dessa visão popular entre os Bântu, o próprio ato de entrar na floresta torna­se um ritual sagrado.
Antes de alguém entrar na floresta deve preparar­se ritualmente, porque ir para dentro da floresta é entrar numa das mais ricas e bem documentadas bibliotecas vivas na Terra. Em seu leito e abaixo vivem centenas e centenas de criaturas, grandes e pequenas, visíveis e invisíveis, fracas e poderosas, amigáveis e hostís, conhecidas e desconhecidas. Em seu interior correm, serpenteando, rios dentro dos quais nadam multidões de peixes. E acima de suas folhagens podem­se ouvir sons e melodias de todos os tipos. Todas essas “coisas”, dentro da floresta, constituem assuntos de aprendizagens para Mûntu, das quais ele coleta dados que ele pode “engavetar” em sua memória para uso futuro. Esse é o processo de construir conhecimento ­ nzailu.
Por causa dos aspectos de hostilidade presentes na floresta, o Mûntu deve proteger­se antes de entrar na floresta. Para isso, ele algumas vezes tem que imunizar seu corpo ­kândika nitu antes de deixar a aldeia, especialmente durante a estação de caça.
O processo nkandukulu a nitu­ imunização do corpo consiste em esfregar preparação medicinal no corpo, introduzir algo no corpo através de pequenas incisões na pele ou através da boca. Até mesmo os cães de caça passam por esse processo e são imunizados antes deles serem conduzidos para dentro do mato.
Adentrar uma floresta familiar é percebido como andar nos passos dos ancestrais. É descobrir o que eles conheceram transmitiram para nós, mas também encontrar saída onde eles deixaram fechado de modo que possamos caminhar em direção as mais descobertas para as necessidades de nossas gerações e aquelas das gerações futuras. Porém lá é mais que isso.
Andar na mata durante a iniciação, é revisitar Makulu 2, onde cada coisa é possível de ser encontrada ­ Digamos aqui antes do trecho, que estudiosos Kôngo modernos estão usando este termo, makulu, nas suas conversações para significar biblioteca. Bem, não são as bibliotecas do mundo, coleções, em grandes parte, dos trabalhos dos mortos (bakulu), os ancestrais? Não é humanidade constituída por mais mortos do que vivos?
A revisita de makula tem um grande impacto na mente de ngudi­a­ngânga (mestre iniciadores) e seus seguidores (lândi) intelectualmente bem como espiritualmente. O processo em si mesmo é chamado “Mokina ye bafwa”­ conversar com o morto3.

Isso é, sumariamente:

.Reunião com os ancestrais, i.e., com a presença de sua energia (ngolo minienie miâu).

.Viver a experiência do tempo, como hoje é vivida bem como foi vivida no passado e como deve ser vivida no futuro.
.Andar no passado seguindo Kini Kia bakulu (a sombra dos ancestrais).
.Rever o laço da comunidade bio­genética ­ n’sing’a dikânda: como fortificá­lo e como expandir seus ensinamentos.
.É estar em contato espiritualmente bem como intelectualmente com a sabedoria tradicional Africana (kingânga) do passado.
.É entender as condições de vida e viver daquele tempo e de agora.
.Finalmente, é conversar com “bakulu”, ancestrais, numa experiência pessoal, i. É., sentindo sua presença entre nós hoje e amanhã.
Por causa da sacralidade do mundo natural como um real mundo vivo, tão ilustrado pela verdura de plantas e florestas, mawubi/ maghubi, a maioria das reuniões que dão poderes espiritualmente são mantidas em florestas. Por causa de sua importância para a vida e o viver, o mundo natural, e a floresta em particular, é percebido como um templo aberto para todos. As pessoas são conduzidas para dentro desse templo mais espiritualmente sagrado, essa biblioteca viva, para tornar­se de verdade homem/mulher através do processo de iniciação, i. É., Mu bulwa mèso ­ manter­se de olhos abertos. É um processo de aprender como vincular­se com a natureza em unidade com ela. É aprender o que as florestas armazenam (como conhecimento) para nós; o que as plantas são para nosso uso; que criaturas compartilham nosso ecossistema conosco. É descobrir em nosso ambiente o que é comestível ou medicinal e o que não é.
O mundo natural é o mais seguro e rico laboratório da raça humana. É um laboratório sem paredes, que os Bântu continuam a descobrir desde a sua mais tenra idade. O processo fundamental de aprendizagem para os jovens Bântu tem lugar dentro desses laboratórios sem paredes. As pessoas andam dentro deles silenciosamente, por causa da sua sacralidade, e elas ficam de pé ali assim como diante de monumentos.
O homem do remédio (ngânga), curador da comunidade, gasta maior parte do seu tempo dentro desse templos vivos, bibliotecas e laboratórios para “estudar” e coletar o remédio da comunidade. Para cada remédio ele canta uma cantiga com detalhes de como e quando o remédio é preparado e usado. Da mesma maneira, seus/suas seguidores (as) ­ bâna, literalmente “crianças”, aqueles a tornarem­se futuros ngânga, repetirão ­ kumbu lula aquelas mesmas cantigas de remédio, bem como as suas próprias. Cantar os remédios corretamente e perfeitamente é um método popular para manter a receita do medicamento e é uma das mais importantes responsabilidades de um m’buki ­ curador entre os Bântu. A arte de “cantar os remédios” é vista também como uma rotina diária espiritualmente sagrada do nganga.
Os pais Bântu sabem que ninguém pode criar uma família a menos que conheça o caminho que conduz ao trabalho da terra, especialmente na floresta, porque a maior parte dos alimentos são encontrados na floresta. Esses alimentos são os nossos primários e mais importantes remédios. Porque o que nós comemos é ambos: comida e remédio; deve­se ser cuidadoso com a quantidade de comida ingerida. Os alimentos têm que ser cultivados livres de toda contaminação química e mantidos naturalmente frescos.
Sendo as florestas, entre outras coisas, a mais documentada das bibliotecas de vida natural, o ser humano de todos os lugares corre em sua direção para obter comida, remédio, lazer e informação. “Mûntu nzo a binsansa bifuti zaduswa kwa ntôtila”­ “um ser humano é apenas um armazém com prateleiras para serem ocupadas com “a matéria prima coletada”, ensina o Kôngo.
As matérias primas coletadas (ntotila) necessárias para encher as prateleiras do armazém acima têm que vir de fora do armazém onde elas possam ser encontradas. Igualmente, desde o seu nascimento o Mûntu ­ ser humano é apenas um vão do armazém que será constantemente estocado com totwa ­ dados coletados para uso futuro. “Milongi Kasuka Ku mpemba”­ aprendizagem que termina com a morte, insiste o Kôngo ­ em outras palavras, aprendizagem é um dingo­dingo ­ processo de vida longa que termina somente com a morte.
Os Bântu­Kôngo acreditam e ensinam que os seres humanos estão apenas equipados, desde o ponto da concepção, com o poder de colocar dados. Eles não estão equipados com conhecimento (sua inteligência torna­se analiticamente ativa quando dados informativos são colocados dentro). Eles são computadores vivos carregando grandes, poderosos armazéns para serem cheios com dados ou informações. Seus movimentos em todos as direções (para frente, para trás, à direita, à esquerda, para cima, para baixo e para dentro de si) é intencionado essencialmente para coleção de dados. Esses dados ajudam ao Mûntu ­ Ser humano construir o que ele chama nzailu ­ conhecimento.
As escolas Bântu­Kôngo ensinaram que o conhecimento não está em nós. Está fora de nós.4 E como tal, as crianças Bântu em geral e o povo Kôngo em particular, eram ensinados desde a mais tenra idade, a andar no mato/floresta, a mais documentada biblioteca natural, onde eles podiam encontrar informação para sua sobrevivência. Esse processo de aprendizagem era realizado igualmente através de escolas especializadas ou através de grandes iniciações. “Para o Kôngo, a não ser pelas grandes iniciações, todo conhecimento era comunicado por meio de numerosas escolas que cada mestre, ngânga, ou artesão emérito organizava em volta dele próprio”.5
Grandes iniciações ou alta aprendizagem era dada por três razões principais:
.Era, biologicamente , um processo social requerido, através do qual se alcançava a posição social de mulher/homem adulta (o) ­ Kimbuta.
.Era, intelectualmente, um processo através do qual deve­se ter os olhos abertos ­ bulwa mèso ­ aos princípios fundamentais de vida e viver ­ nkîngu miangudi mia lutufu lwa môyo ye zingu, especialmente aqueles relacionados às leis naturais ­ n’siku miamena.
.Finalmente era, espiritualmente , um processo através do qual tinha­se que descobrir o círculo de vida ­ dikenga dia môyo ­ e seu centro ­ didi ­ interiormente e exteriormente, a descoberta de sua própria visão de mundo e o poder de levantar­se verticalmente­ telama lwîmba­ngânga ­ nos seus pés antes de andar horizontalmente para encontrar os desafios do mundo ­ ntembe za nza.
Infelizmente, a situação virou de alto a baixo com a invasão dos poderes coloniais. O Mûntu foi, à força, impedido de mover­se no seu próprio ambiente e vizinhanças e perdeu não somente o seu poder de aprendizagem, o poder de coletar e guardar dados, mas também seu criativo poder de cura ­ lendo kiamvângila ye kiambukila. Submetido aos poderosos, o ser humano que construiu impérios, reinos, pirâmides, etc, foi declarado sem inteligência pelo invasor.
No topo disso veio o mais inumano e pecaminoso negócio oposto ao auto­desenvolvimento que tomou lugar em África ­ a escravidão, i. E., o tráfico de seres humanos. Isso tornou­se a mais vergonhosa e desastrosa morte para o ser humano no continente africano. Nós sabemos, pessoas que viajam mais freqüentemente a diferentes partes do mundo, vão a bibliotecas (incluindo as bibliotecas naturais), escutam notícias, lêem jornais e, agora, quem trabalha com cadeia de emissoras no computador sabe mais do que aqueles que não o fazem. Isso é o “poder de engavetar planos, idéias”, a chave para a ativa aprendizagem. Sem ela Mûntu ­ o ser humano torna­se submetido a permanente aprendizagem passiva que é o agente condutor à ignorância. E colonização, escravidão, opressão e prisão têm conduzido muitos nesse vicioso ciclo de vida.
A abolição do tráfico de escravos e descolonização não libertou completamente o povo africano em todas as partes onde eles são encontrados. Cadeias, prisões e projetos de alojamentos incrementados com grande rapidez são feitos não somente para controlar seus movimentos, mas para mantê­los fora das bibliotecas naturais, escolas e empregos. Tudo isso acontece no período que prepara para a entrada da zona criativa ­ lubata wa mvângila, o período de aprendizagem. Agora armas de fogo e drogas estão sendo despejados em toda parte do continente para desestabilizar o processo de aprendizagem que deveria estar tomando o lugar nas comunidades Africanas. Conceitos de valor e sacralidade de vida e mundo estão se deteriorando.
Para os Bântu, o mundo natural é secreto e sagrado. Esses dois insondáveis epítetos para o nosso mundo natural, ampînda ­ secreto e anlôngo ­ sagrado são cuidadosamente passados de geração a geração como o único meio de manter a mãe Terra segura e sadia para continuar a fornecer a vida na Terra. E, por causa de ambos o segredo ­ mpînda/bumpînda e a sacralidade ­nlôngo/bulôngo, é um perigo para toda vida na terra se Mûntu ­ o ser humano devido ao seu conhecimento cuidadosamente não “Longuka bwè mu kanga ye kutula makolo ma n’siku miamena” aprender como codificar e decodificar os segredos das leis naturais. Esses makolo (laços) podem ser qualquer coisa, genes ou elementos químicos.
Nós somos “sagrados” porque nosso mundo natural é sagrado. Nossas moradias e nossos pertences são sagrados, porque são feitos de matérias primas tiradas do mundo natural, do mundo sagrado. Qualquer coisa feita do equilíbrio ­ Kinenga do mais interno do solo é sagrado e nào pode perturbar a vida dentro e em torno de nós. E muito mais, diria um Mûntu, nós somos sagrados porque nosso solo é sagrado e inalienável. Por causa dessa sacralidade e inalienabilidade desse solo (seu mundo natural particular), os Bântu mantinham seu solo, o sustento de todas as vidas , como uma inalienável comunidade. Ninguém podia colocar um preço nele. Era a precaução para evitar abuso e ganância: “o solo não era mercadoria para ser comprada e vendida; o solo era inalienável no sistema tradicional. Cada domínio era ganho por uma certa matrilinearidade (ou patrilinearidade) que podia, de fato, permitir o uso de uma parte dessa área ao parente ou mesmo ao estranho/estrangeiro..., mas isso não significava que dava direito sobre esse solo.6
Reconhecer a sacralidade do mundo natural é o começo de nosso entendimento de ser um com a natureza; ou é ou não é. E dingo­dingo dia kala ye zima, o processo de viver (ser, aparecer, surgir no mundo natural) e morrer (sair, desligar­se do mundo natural) ou seja acender e apagar, ligar e desligar. Um não existe sem o outro.
Nosso mundo natural é sagrado porque ele carrega ambos vida e morte em perfeito equilíbrio para manter toda existência nele em movimento. Destruir esse equilíbrio, sua sacralidade, é causar um fim para ele e para todos nós.

NOTAS:
FU­ KIAU, 1991: Self Healing Power e Therapy (p.111), Vantage Press, Inc.,N.Y.
O termo makulu significa: a) antiga aldeia, velha cidade, ruínas onde o passado ou história (kikulu) está oculto (a); b) a cidade dos ancestrais, mundo espiritual (Ku mpemba); c) hoje também significa “biblioteca”, então Harvard University Library seria dito “Makulu ma Luyalungunu, lwa Harvard” na língua Kikongo.
É também o título do trabalho de FU­KIAU Mokina ye Bafwa / la conversation avec les morts. Luyalungunu lwa Kûmba ­ nsi, Kûmba, 1991.
Poucas semanas depois de minha palestra sobre um assunto relacionado a esse tópico na 24 Conferência Anual de Ensino do Comportamento Organizacional (OBTC), Case Western Reserve University, Cleveland, OH., em 13 de junho de 1997 um assistente da palestra telefonou­me, no terceiro dia depois do desembarque do Pathfinder em Março e deixou a seguinte mensagem na minha secretária eletrônica: “Dr. Fu­Kiau, seu ensinamento está provado! Nós desembarcamos em Março. Nós estamos agora engavetando dados para o nosso futuro. O conhecimento não está em nós. Obrigado outra vez, Dr. Fu­Kiau.

Balandier, 6.,1969: Daily Life In Kingdom of Kôngo/From The Sixteenth to the Eighteenth Contury (p.225); Meridian Books, N.Y.
6 Kajsa, E.,1972: Power And Prestige; The Rise And Fall Of The Kongo Kingdom, (p.71); Upp sala,Sweden.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO BANTU – ACBANTU COMUNIDADES ORGANIZADAS DA DIASPORA AFRICANA ­ Rede KÔDYA
Parceira Fome Zero No 067 

*Texto original em Inglês