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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Djambê . A Alma do Oeste Afrikano

Djambé

Acredita-se que o Djambe tenha surgido nos anos 900 AC, entre o povo Maninka, embora alguns dados fazem parecer que este instrumento tenha originado em 1300 AC, no território hoje chamado Mali.

Com o tempo, o Djembe emigrou para outras áreas, como Senegal, Nigéria, Guiné, Costa do Marfim e Burkina Faso. 

Acredita-se que tenha sido criado por artesãos Numu, considerados os guardiões de certos poderes. Eles foram responsáveis ​​por esculpir o corpo de djembes e tocá-los.

O djembe é conhecido em tais lugares como o tambor de cura pela sua grande potência, que foi utilizado em ritos sagrados, nascimentos, casamentos e enterros, acompanhados por outros instrumentos, tais como a dum dum, o balafone e o Shekere.

Conta a tradição oral, que em momentos de guerras e lutas entre diferentes clãs, os djambefolás (tocadores de djambé) ficavam na vanguarda, na linha de frente dos ataques às suas comunidades ... tocavam o couro do instrumento, anunciando o terror, clamando para que os que pudessem fugir, corressem ... enquanto eles mesmos davam suas vidas pelo seu povo.

Em sua terra natal, o djambe é tocado em diferentes ritmos, como Mandiany (tocado em trabalhos agrícolas), o Dounumba (tocado na dança dos homens fortes), o Wolosodon (tocado em batismos). 

Os ritmos tradicionais do djembe foram se transformando ao longo do tempo, adaptando-se aos tempos modernos e integrando com outros tipos de música. 

A maneira pela qual ritmos como o Sunu ou o Doundumba têm sido transmitidos de geração a geração durante séculos, tem sido através do complexo sistema silábico e vocal das línguas afrikanas. 

Os professores cantaram os ritmos para os alunos e os praticaram. 

A primeira expansão desta linguagem ocorreu no século 18, através do povo Diola, que eram comerciantes.

Mas foi em 1950 que o djembe ficou conhecido no mundo inteiro graças à turnê que realizou os ballets Africains guineense Keita Fobeda. Este grupo teve um impacto considerável e fez o djembe tornar-se conhecido além de suas fronteiras tradicionais. 

As migrações para a Europa e os Estados Unidos também ajudaram a popularizar esse instrumento.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Djorolen . Oumou Sangare, Sangare kono


Djorolen . “Cries out in the forest/ The worried songbird/ Her thoughts go far away/ The worried songbird/ cries out in the forest/ The worried songbird/ Her thoughts go far away/ For those of us who have no father/ Her thoughts go out to them”
"Em muitas de suas canções, Oumou Sangare (Mali), refere-se a si mesma como 'Sangare kono'. Sangare, SongBird. 

Fazê-lo é um privilégio especial de músicos de Wassoulou, no sul do Mali. 

A sabedoria na poderosa letra de Oumou brota de suas experiências crescendo na capital do Mali, Bamako. 

Sua mãe foi abandonada pelo pai quando ela tinha apenas 2 anos de idade, uma represa do tempo muito traumática. Seu pai abandonou a família e foi viver com uma segunda esposa. 

Sua mãe caiu em depressão. Ela era musicista profissional: cantava em casamentos e batizados. 

Depois que o marido a deixou, ela ficou muito desanimada e cansada para cantar. Mas quando o fazia, Oumou a acompanhava e, a partir dos 5 anos, Oumou começou a juntar-se à sua mãe, cantando e ajudou a mãe a ganhar algum dinheiro. 


Oumou se apaixonou pela música Wassolou. Quando sua voz impressionante foi ouvida em um sumu quando ela tinha 16 anos, Oumou tornou-se parte do grupo Djoliba Percussions e teve a chance de fazer uma turnê pela Europa. Ela era a solista e depois formou sua própria banda. 

Alguns anos mais tarde, aos 21 anos, Oumou gravou seu primeiro álbum, Moussoulou (Women), lançado em 1990. 

Isso causou uma grande agitação por causa dos temas nas letras que não eram geralmente expressos publicamente, mais notavelmente seu grande sucesso 'Diaraby Nene (The Shivers of Passion)'.

As músicas de Oumou usam o ressonante som do kamalengoni - a versão jovem da harpa do caçador. 

A missão radical de suas canções é destacar as questões que as mulheres no Mali enfrentam, especialmente a poligamia."

 fonte: http://www.africanmusiciansprofiles.com/oumousangare.htm

sábado, 28 de outubro de 2017

Processos (Dingo Dingo) de Confecção de Instrumentos Musicais Ancestrais

Origem
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Outro dia chegou aqui em casa um pastor daqui de Barra Grande, que também é #luthier de instrumentos musicais. Ele veio curioso, querendo conhecer meu trabalho. Falando sobre seu processo de criação, ele me disse que às vezes se deitava para conversar com Deus e bolar dentro de sua própria cabeça o instrumento, antes de concebê.lo no mundo físico. Como gosto das coisas ditas, eu também lhe expliquei sobre meu próprio processo, que passa por um caminho bem espiritual também, de conexão com a origem do instrumento e com o entorno cultural de onde ele foi criado. 
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O pastor me ouvia em silêncio e, para minha surpresa, sempre encontrava alguma referência na Bíblia que justificava e amparava o que eu mesma estava dizendo.
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Como minha grande paixão são os instrumentos tradicionais afrikanos, eu tenho que reverenciar a Áfrika em meus processos de criação. Outro dia mesmo, me peguei em transe, trançando mais um #xekere. Eu senti profundamente a alma da #cabaça. Ela ainda não estava cortada, então senti que, sempre que cortasse uma cabaça para fazer um instrumento, deveria agir como alguém que mata um animal para fazer uma oferenda espiritual.
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Devo prestar atenção nestes detalhes porque nunca estive presencialmente na #Áfraka Bambara ou Mandengue, onde nasceu a Kora, o Ngoni, os xekeres ... nem ainda estive na Afraka bantu, terra dos arcos musicais afrakanos. Ou seja: eu nunca fui iniciada por um mestre ou uma mestra afrikana para poder trabalhar com estes instrumentos. Essa espécie de missão de realizar este tipo de trabalho chegou para mim através de sonhos. Então eu respeito e honro. Porque, mesmo que isso não seja racionalmente explicado, através dos sonhos os espíritos ancestrais podem se manifestar em nossas vidas se estamos alinhados com nosso próprio caminho.
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Um outro outro dia, conversava com um mestre da arte da luthieria, justamente sobre fazer um instrumento sem conhecer sua cultura na raíz (ou seja, sem nunca haver estado em sua terra natal, no seu entorno original, sem nunca ter tocado com as mãos as ferramentas tradicionais usadas para sua confecção, nem sentido o cheiro da matéria prima normalmente usada ...). Sim, eu lhe comentava como vinha percebendo que um instrumento musical não nasce falando, assim como nós .... vamos tocando cordas, teclas, fazendo ajustes, reajustes, fazendo vibrar a caixa de ressonância, timidamente tirando um som ... e pouco a pouco o canto do instrumento passa a ecoar harmoniozo pela natureza..... num processo dingo.dingo de construção que não termina quando o trabalho mecânico termina. Porque não se trata apenas de uma materialidade mecânica. Se trata de uma organicidade conectada com densa espiritualidade.
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Assim, me vêm à cabeça o cuidado que devemos ter com estes novos movimentos de criação, que surgem tendo como suporte de referência esta Kalunga pós moderna: Digital, como a Internet, onde navegamos através das ondas do WIFI, convidados a nos emanciparmos dos caminhos tradicionais de aprendizado dos saberes tradicionais com mestres e mestras da tradição. Assim, cada vez mais somos encorajados a aprender técnicas e tecnologias ancestrais através de meios digitais e tecnológicos contemporâneos, nos distanciando de sua raíz ancestral numa hipotética linha do tempo.
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Sim, cá estou no Brasil, do outro lado do transatlântico, com a mirada voltada para as terras de onde se originaram estes belos instrumentos musicais que me cercam por todas as partes aqui em casa.
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Me lembrando do tempo em que levas e levas de afrikanos chegaram nas Américas quase sem roupa, sem ferramentas, apenas trazendo dentro de si as sementes dos ritmos, da concepção e execução dos instrumentos... Aqui me vem o pensamento de que somos herdeiros deste caminho de criação. Distanciados na origem, mas sempre tendo que voltar os olhos e os coraçōes para esta mesma origem, a fim de nos conectarmos com estes saberes, ainda que não da maneira natural e orgânica como acontece com uma pessoa que lá está, dentro desta comunidade original.... Transcendendo a imposição das novas formas da criação contemporânea, nunca se esquecendo da importância desta busca pelos ensinamentos do passado. Que talvez encontremos mais facilmente nos sentando embaixo de uma grande árvore, ouvindo o vento ou sentindo as ondas do mar, do que assistindo dez mil horas de video aula, na internet.....
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Um instrumento é também um símbolo, podendo ser uma representação físico-sonora de uma cosmovisão de mundo. Em geral, um instrumento musical faz parte da essência de um povo, de sua espiritualidade e também de aspectos fundamentais de seu cotidiano. Muitas das vezes estes instrumentos musicais ancestrais têm função mágica e abrem pontes entre o mundo dos vivos e dos ancestrais. 



confeccionar um instrumento ancestral me conecta com sua origem
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Em várias sociedades originárias (na Afrika Bakongo, por exemplo), uma comunidade é formada pelos vivos e pelos ancestrais. Nos momentos de grande tensão ou de resolver algum problema na tribo, os ancestrais serão acessados, porque fazem parte da sociedade, tanto quanto as pessoas vivas, na condição da atemporalidade. E a vibração dos instrumentos musicais fazem esta conexão, servem de meio, de ponte, entre o mundo físico e o mundo imaterial. 
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Um atabaque faz os pés de um nkise encarnado dançar, assim como as cordas vibrantes de um ngoni podem materializar a opinião de um ancestral sobre uma desavença na comunidade. 
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Assim, que aqui ainda estou, buscando compreender o que fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. 
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Sei que preciso, cada vez mais, fazer uma viagem real à Afraka, a fim de amparar estas pesquisas e criaçōes, revisitando sua fonte primordial original.
Pouco a pouco vou abrindo meus sentidos e minhas percepçōes ultra-sensoriais para ouvir esse sopro dos ensinamentos dos ancestrais para pisar neste solo sagrado que é o lugar da criação, que pressupōe caminhar por sendas invisíveis entre estes mundos sagrados.
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Mo Maiê, Barra Grande de Itaparica, outubro de 2017