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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Árvore da Memória: Do outro lado de cá, com Malungo Joab Jo


Joab Joó Malungo e Helena Tenderini . registro de Christina Shung
Meu nome é Joab Jo Malungo Jundiá. A capoeira faz parte da minha vida. Meu primeiro contato 
com a capoeira foi com 12 anos, mas aos 15 foi quando eu comecei a treinar realmente. E desde 
lá eu nunca parei. Percorri vários caminhos … caminhos que eu preferi seguir… caminhos que eu
preferi voltar e pegar outro caminhos, mas todos eles, mesmo os caminhos que eu voltei, foram 
me dando bagagem para eu hoje estar aqui.

Então é isso ... minha vida é Capoeira …. Gostaria de dizer isso sem ressalva, mas talvez infelizmente 
ou não… eu não consigo dizer isso sem ressalva, dizer eu sou Capoeira. a gente tem que acrescentar 
uma série de coisas e tal … mas é isso, porque a capoeira me possibilita uma série de coisas que pra 
mim continua Capoeira. 

Desde pensar o mundo, sentir o mundo… pensar, tocar, escrever, minha relação com a minha família.

Eu tive 8 filhos e 7 são vivos. Um nasceu e chegou retornando … e todos eles fazem capoeira. E eles não lembram quando iniciaram a capoeira, porque foi desde muito pequeno. Eles são duas mulheres e cinco homens.

É isso … eu não posso falar de mim sem falar de meus filhos e sem falar dos meus avôs, meu pai, 
minha mãe.

Eu sou natural de Nazaré da Mata, cidade aqui da zona da mata de Pernambuco. Meu pai é natural 
de um engenho, é uma região de canavial, de cana de açúcar, tem muitos engenhos … e meu pai é 
natural do engenho Joá e minha mãe tá ligada ao Engenho Kutumguba, minha família também tá 
ligada a outro engenho chamado Engenho Olho D’água. 

Mas é isso… isso são minhas referências. Eu sou de uma região do Maracatu, né? Que hoje se usa 
esse termo Maracatu. Toda região é de maracatu. 

Eu não brinco maracatu desde pequeno, porque houve uma ruptura aí, né? Porque meu pai e minha mãe se converteram à Igreja Batista, então há um apagamento do que a família …. mas meu avô era caboclo, tenho um irmão mais velho que foi caboclo. Meus tios sempre tiveram envolvidos com o maracatu. E isso aqui é uma coisa muito comum…. uma banalidade.

Danço desde pequeno, danço muito.

Sou um caboclo. Eu prefiro não me chamar de Caboclo de Lança. Eu digo que eu sou Caboclo. Até 
porque aquilo ali é uma guiada. O nome é guiada. Não é lança. Aos poucos foi ficando lança, lança… 
mas o nome é guiada.

Mo: Como toda sua experiência de vida, sua linhagem ancestral, o que vc aprende com seus filhos, 
como é que essa corporeidade tão especifica… como você trás tudo isso para sua capoeira?

Malungo: Eu não trago nada disso para a capoeira. Porque tudo já tá no meu corpo. É o meu corpo. Eu sou da Zona da Mata e vivi no Recife por muitos anos e sou de frevo, sou o que o pessoal chama de passista. Eu não me refiro muito como passista, mas faço frevo, danço frevo e a relação do frevo com a capoeira é muito presente. E sou caboclo de maracatu. Sambo maracatu. E isso é que já é em mim. Então quando eu jogo capoeira, tá tudo lá, tá tudo em mim. 

Não é uma coisa que eu faço e eu trago para me influenciar. Não é uma influência. É como se eu mesmo não posso me influenciar. Eu sou eu. Já está ali. É muito comum isso… uma coisa que eu trago pra capoeira, essa munganga, essa mandinga, né? Esses trejeitos, esses pantins que eu faço na capoeira e que por onde eu ando chama a atenção, as pessoas notam… principalmente as pessoas que fazem a partir da Bahia a capoeira chamada de Capoeira Angola. Mas não é que traga para a capoeira. Eu já sou isso, né?

Joab Joó Malungo e Helena Tenderini . registro de Christina Shung
Mo: Parece que hoje em dia tem um padrão de jogo, de movimentos quase mecânicos, né? E quando 
uma pessoa se depara com o seu jogo é muito impactante. Eu pelo menos, toda a vez que eu te vejo 
jogar me marca profundamente. A sua corporeidade está muito livre mas você esta ali com total 
respeito com a essência da capoeira. Você percebe que hoje em dia as pessoas estão jogando de 
uma maneira muito padronizada?

Malungo: Tá tudo padronizado. Tudo padronizado. Às vezes até a maneira da gente dizer que tá 
tudo padronizado é uma padronização. A gente diz isso, mas quando a gente age, a gente age a 
partir de determinado padrão, mesmo para considerar o padrão que já tá enquadrado ali. 

Então, assim é o mundo, são as ciladas, essas armadilhas que tem e a capoeira não escapa disso. 
Agora, a capoeira também é um jogo de cilada, é um jogo de malícia e tal … então, eu me vejo 
possível a dar uma balançada nessa coisa da padronização … dar uma padronizada no sentido de 
desmanchar algo que seja padronizado. 

E isso que eu tô dizendo agora é racional. Mas quando você joga não há muita separação entre o 
racional e o que você sente na Capoeira, mas o coração é muito forte, então, quer queira quer não, 
vai rompendo com determinados padrões … e eu gosto disso… não que a capoeira que eu faça… essa 
corporeidade que eu apresento ali jogando a capoeira … o objetivo dela seja despadronizar… ela 
não tem objetivo. Porque seria já uma coisa muito política, muito racional “ah… eu tô fazendo dessa forma para despadronizar…” então automaticamente, aquilo viraria um padrão… e não é isso. E eu não tô dizendo que a gente não deva despadronizar… claro que a gente deve… claro que a gente deve perceber que essa coisa do padrão do jeito único de fazer a coisa - e nesse caso a capoeira - é uma coisa nociva para as nossas relações humanas, porque cada pessoa é diferente da outra, dentro de uma própria família, é diferente a relação que se tem com cada um. Na capoeira também. A vida e a capoeira … a capoeira é um reflexo da vida… então assim… quando eu jogo daquele jeito não é pautado em despadronizar … eu jogo porque eu jogo daquele jeito. Eu não me deixo ser padronizado.

A capoeira não vai de encontro, ela vai ao encontro dessa coisa que tá em todo canto. Eu 
converso com pessoas de outras brincadeiras e você vê que o bojo de relação tem vários furos, é um 
bojo furado com vários furos. 

São infinitos furos que dá pra gente ir ao encontro e se relacionar de uma maneira peculiar, de uma
maneira individual, característica, que cada um já é. Um pé de manga nunca é igual outro pé de 
manga. 

Um Baobá não é um pé de jurema… tudo é diferente, por mais que sejam parecidos, mas cada coisa 
é diferente da outra. Então isso é uma coisa que é, não é algo racional.

A minha barca é a capoeira. Eu não vejo muita diferença com outros portos que eu chego. A minha 
barca é a Kalunga. A Kalunga é as águas e a Kalunga também é a barca. Então é desse princípio, 
desse bojo de relação que eu tô falando. Então isso pra mim é muito forte quando você faz uma 
dança luta como a capoeira. Eu acho ate que a gente minimiza quando a gente diz isso. É uma dança 
luta. Você dança pra lutar. Bota a cabeça no chão e ri e tira onda e tem a picardia toda ... e tem sua 
peculiaridade. É uma dança, embora a sambada do caboclo seja uma coisa mais dura aparentemente, 
mas cada caboclo tem sua peculiaridade, tem sua característica e também é uma dança luta. Mesmo
com o cacete na mão, batendo o cacete, mesmo quando brincam duas pessoas, dois caboclos sem 
cacete, é uma dança luta. 

Eu creio que só por esse fato de ser uma dança luta, o bojo de relação que eu falei antes, brilha mais
ainda. Porque mostra e não exclui as contradições.  E não excluir as contradições, talvez se a gente forçar um pouquinho seja não excluir as coisas. Uma dança luta não da pra sair por aí excluindo. 

Até porque luta gosta de incluir pra lutar, né? Com quem quer que seja. E uma dança você dança pra você, mas dança pros outros também. Então isso para mim fortalece esse bojo de relações. Essa coisa da dança luta, que eu vejo na capoeira e também na sambada de cabôco, uma dança luta. E a relação que eu vejo é essa. A barca da Kalunga. A Kalunga é a barca e a Kalunga é o mar. Kalunga é a boneca. Kalunga são os ancestrais. Kalunga é companheiro. Kalunga é Malungo também. Quando se tá trabalhando aqui na região, por exemplo: Kalunga de caminhão. Kalunga de caminhão é o cara que carrega e descarrega o caminhão. O companheiro, o malungo. Ele não é só, tem outros carregando com ele também. Então para mim, esse bojo de relação é também isso que eu chamo das águas da Kalunga, da barca da Kalunga, dos amigos, companheiros da Kalunga, dos ancestrais da Kalunga. Eu sou assim. Eu sinto dessa forma. Então o jogo da capoeira para mim é isso: não tá dissociado nem tá associado. Não tá dissociado nem associado. Ele é aquilo mesmo. Não é o meu jogo da capoeira que tá associado à sambada do caboclo, do maracatu de caboclo. Não tá associada, nem tá desassociada, ela é daquele jeito. Eu não me associo a essas coisas. Essas coisas são. Não é esforço. É porque é assim.

Mo: Malungo, como você vive, quando você trás essa coisa do é e não é, do ser e não ser, do estar 
mas não esta … do existir sem ser criado … isso tudo mexe muito com a gente, provoca a gente a 
quebrar muita coisa, mesmo que não seja essa sua finalidade…

Joab: O padrão se quebra … eu acho isso mesmo … o padrão se quebra. Se quebra sem a gente fazer 
muito esforço nem sacrifício. Eu não to dizendo que se quebra do nada. você se movimenta do jeito 
que você é. Por exemplo: uma pessoa que é capoeira pode ser atingida por varias forcas adversas, 
demandas, momentos ruim na vida, seja na relação com as pessoas, seja na relação comigo mesmo, 
seja na relação com as arvores, os animais … tudo … com as crianças, com as mulheres, com esse 
mundo, com o racismo, o machismo … com tudo ai … com essa violência policial, com essa escola 
que cumpre seu papel direitinho … a policia cumpre seu papel direitinho … eu não vou exigir que a policia cumpra outro papel, porque o papel dela é esse… eu nem exijo que a escola cumpra outro papel, porque me parece que o papel da escola é esse… mas eu sou atingido por tudo isso. sou atingido. minha família é atingida. minhas filhas, minha mulher é atingida pelo machismo. nos somos atingidos pelo racismo. nos somos atingidos pela violência policial. nos somos atingidos por essa escola. nos somos atingidos pelo cristianismo. eu não to dizendo que a gente é atingido pelo cristianismo ruim, não. To dizendo que a gente é atingido de maneira nociva, contundente por todas essas coisas. Agora, como eu sou capoeira, quando eu reajo a isso, é diferente de um cabra que tá totalmente integrada a tudo isso. E quando eu digo integrada não é apenas não ligar pra essas mazelas, essas coisas ruim que tem no mundo. Mas eu como capoeira, eu reajo diferente. eu não to integrado a isso. Então a reação a tudo isso é diferente. Isso é uma característica do meu jogo. E como é que se vê tudo isso que eu to falando? Quando eu to jogando! Quando eu to jogando… Não é de outra maneira, não é de outro jeito.  Não é eu falando aqui. Mas é eu falando aqui também. Mas quando eu to jogando, isso fica mais claro, visível … tá mais sentido… então como eu reajo a tudo isso … a corporeidade … o meu corpo é isso. Não é esforço. Esse padrão que tá aí quer prender a gente. A gente se movimenta, não para fugir do padrão. Isso é uma mandinga. Eu não me movimento pra fugir do padrão, que padroniza, que aprisiona todo mundo. Não … eu não me movimento pra isso. Eu me movimento porque eu tô vivo. Porque eu sou vivo. Porque se eu digo que me movimento pra não deixar o padrão me prender, toda minha referencia de movimento é a partir daquela fuga. O padrão tá no centro… e não é isso. Eu me movimento porque eu me movimento. E se a gente não tiver esse enxergamento, a gente mesmo sendo contra uma verdade, a verdade única … a gente vai tá fortalecendo ela. Porque se eu me movimento porque aquele padrão tenta me aprisionar … outra pessoa que é diferente de mim se movimenta fugindo daquele padrão, outra pessoa se movimenta também fugindo daquele padrão … seja na capoeira, no maracatu, no jongo, no bumba meu boi, na poesia, na dança, nas artes, na educação, na medicina, na historia, na espiritualidade e tudo … são pessoas diferentes e são ações diferentes. Se essas pessoas não partirem de si próprias, a partir das suas ações, que são diferentes de outras ações, essa pessoa que quer fugir do padrão, que aprisiona, que prende , aí padroniza … eu me movimento porque eu me movimento. porque eu to vivo. e quando eu me movimento porque eu tô vivo, sou vivo … eu vou me movimentar do jeito que eu to vivo, que eu sou vivo. Não é pra fugir do padrão. Agora, o padrão se quebra. se quebra mesmo. E a capoeira possibilitou pra mim esse enxergamento. Hoje eu enxergo dessa maneira, amanhã talvez eu enxergue diferente, não sei … de outras formas … eu enxergo assim, eu sinto dessa forma.

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Do outro Lado de Cá. Filosofia Africana em Terra de Cabôco
Tracunhaém, Pernambuco
Sítio Malokambo
Março de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Árvore da Memória: Xan Marçall ... Poéticas e Encantarias de uma Parauára

Xan Marçal: Poéticas, Encantarias e Ancestralidade de um Parauára
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Mo: Estamos aqui na Rádio Ki.Anda, invadindo a casa do multi-artista Xan Marçall (paraense radicado na Bahia) e eu nem sei por onde começar, porque Xan Marçall nos trás tantas histórias ..

Xan: Eu sou Xan Marçall, sou Parauára, de Belém do Pará. Nasci dia 28 de fevereiro de 1986, sou pisciana e filha de Alda Barros de Oliveira e Pedro Paulo Pires Moura. 

Sou do Pará e tenho toda uma ligação mística com a história do nascer, porque acho que as pessoas antes de nascer já escolheram nascer nesse lugar. Então ... antes da gente encarnar a gente já tinha consciência de todo trajeto que a gente queria percorrer nessa vida. É como se fosse uma espécie de Déja Vu, sabe? Não sei se estou falando loucura, sabe? Mas é como se a gente já tivesse visto tudo o que ia acontecer … na verdade, existem também as possibilidades de tu escreveres o teu caminho a partir de uma coisa que já foi vista, entendeu? Mas eu tenho impressão de que a gente é o total, então a gente já viu tudo, todas as possibilidades, só que a gente não tem consciência disso. Eu acho que a gente tem esse insight espiritual, essa visão espiritual de que a gente tem a visão de todas as possibilidades que a gente pode assumir na vida, só que quando a gente tá aqui nesse momento carne, osso, físico, nessa fisicalidade a gente não tem mais essa consciência, então a gente acha que o fato da gente ter escolhido um caminho foi também algo que tivesse fora de um acontecimento que a gente tivesse ciência, entendeu? Eu acho que a gente é muito desatento, descuidado … Nem sei porquê eu to falando tudo isso…

Mo: Tem a ver, porque tudo isso se conecta com o ponto inicial do nosso encontro, que é a questão da ancestralidade. Parece que tudo volta a esse ponto…

Xan: Exato. Parece que histórias de familiares se repetem na nossa vida. Tipo de traumas que nossos avós, bisavós, pais, mães não conseguiram resolver e que reverbera de alguma forma na nossa vida também. Aí tem gente que vai falar que é memória e que isso também tá na memória do dna também, que a gente acaba incorporando. Então todas essas impressões, percepções, experiências que nossos ancestrais passaram estão também na nossa história agora, estão no nosso sangue, estão nas informações genéticas, moleculares, na nossa vida.

Mo: Quais são as suas maiores inquietações existenciais?

Xan: Minhas inquietações são várias. Por exemplo, me inquietam as histórias que não foram contadas para uma grande parcela da sociedade e que eu tenho acesso, então eu quero contar essas histórias porque eu quero que as pessoas conheçam essa outra lógica, este outro imaginário, outra forma de se relacionar com o mundo, de convívio, que seria uma forma de vida mais democrática, mais respeituosa, sabe? Eu também tô nesse processo de entendimento, sabe? De respeito à natureza, de cultuar, respeitar a natureza, respeitar mais as pessoas … acho que essa é uma das coisas que eu tenho vontade de falar. 

Outras inquietações perpassam pelo imaginário, de psicologia, de arquétipo, por exemplo, tem coisas que fazem sentido para mim agora justamente porque eu acessei histórias que não permitiram que eu tivesse contato, mas que em algum momento da minha vida eu acessei. Por exemplo: quando eu era criança e me via uma criança totalmente diferente das outras crianças ou dos outros menininhos. Eu não era diferente porque eu era especial. Eu era diferente porque eu não era o mesmo modelo de todos os meus amigos e era uma merda. Enfim, vários intercruzamentos que passaram em minha vida e essa coisa do nome também é interessante. Porque eu comecei a pensar que o nome que alguém te dá é o nome como essa pessoa construiu que tu fosses. É o nome que seus pais ou seus avós construíram essa imagem dessa pessoa. Então acho que é interessante que a gente passe por algum batismo em algum momento de nossa vida que a gente re-signifique a nossa existência e dê um outro nome pra gente.

Mo: E você passou por isso, né? Você quer falar um pouco sobre seu nome?

Xan: A história do Xan Marçall foi uma coisa que eu fui exercitando aos poucos. Primeiramente, a partir de assinar uns trabalhos de ilustração como Xan Marçall. Fazendo referência a uma cantora, que tem uma grafia totalmente diferente da grafia que eu escrevo, que mais se aproxima daquilo que seria uma fonética indígena, apesar de que eu não sei se eu poderia usar essa palavra. Aí eu descobri que Xan é o nome de um pássaro, o pica pau, que é conhecido como "Xan Xan". Que cruzamento! Me encontrei com este encantado pássaro e antes disso eu tinha entendido que meu totem é uma arara vermelha, uma ave. 

Mo: Como você descobriu o seu totem?

Xan: Primeiro, foi num sonho. Não sei também se é uma imagem arquetípica, mas a imagem era de que meu corpo estava morto e tinha uma ave me picando e era uma arara. E era uma arara que eu via há muito tempo em Belém. Porque em Belém no bosque e no Museu da Residência viviam araras soltas, vermelhas vermelhas vermelhas, e super dóceis. Aí essa imagem me acompanha. Pode ser tudo invenção, mas é uma imagem que me acompanha. Eu não sei se é exatamente um totem, mas é um animal que me acompanha, um animal de poder. 

Depois que eu fui pro México eu descobri um pássaro também ligado a divindades sagradas, a ritos sagrados. E em várias etnias do Brasil, da América do Norte até a América do Sul, a arara vermelha tá ligada a rituais de morte e renascimento. As penas vermelhas delas serviam para afastar toda a energia negativa e eu pensei: "Veado! Tá tudo se conectando!" 

Mo: Você tem um trabalho profundo de investigação sobre a  morte, né?

Xan: Pois é. Eu já pesquisava esses caminhos da morte e fui descobrir essas coisas sobre as araras … aí mana, todas as coisas começaram a fazer sentido pra mim. Eu me lembro que quando tinha 16 anos eu comprei um cocar em Belém, de arara vermelha e um cordão com penas de arara vermelha e sementes de mará mará. Incrível, porque foi antes de eu começar a ter todas essas informações … Eu adoraria ter uma arara vermelha … Depois fui descobrindo várias coisas sobre as araras. Na umbanda, na encantaria, a arara é a representação de uma entidade, uma mulher que se transforma em uma arara. Então as coisas estão se conectando … Tem gente que pode  falar "A bicha tá muito mística", mas são conexões que eu vou fazendo e vai fazendo sentido na minha vida. 

Mo: Vai fazendo sentido porque você é um caboclo, né, Xan Marçal?

Xan: Mana, eu sou, porque eu sou neto de caboclo, bisneto de caboclo, então eu acho que eu tenho assumido cada vez mais isso, só que ainda é muito estranho eu falar sobre isso, sobretudo porque existe um imaginário sobre o que é ser caboclo, que foi difundido e, pelas questões que a gente tem debatido na contemporaneidade sobre a afirmação da raça, da etnia, do gênero, então … eu sou mestiço e o caboclo é, sobretudo, um mestiço. 

Mo: Ontem eu estava com você quando alguém te falou que para você ser índio, você tem que ter uns pontos de melanina a mais na pele. Essa fala talvez reflita um pouco isso que você esta falando … como você tem trabalhado isso? 

Xan: Então, segundo algumas leituras de antropólogos que vão lá na origem da palavra caboclo, alguns defendem que caboclo vem de ka'á bok, aquele que vem do mato, em tupi. Então, esse termo designava a priori as pessoas que viviam em uma região não urbana, que naquela época, eram pessoas indígenas que viviam ao redor da cidade. Eu tô pegando a experiência do Pará, da Amazônia, de um texto que eu li. Segundo estes antropólogos, algumas etnias designavam outras etnias como ka'á bok, aquele que vem do mato. Só que outros autores foram falar que caboclo queria dizer a miscigenação do branco com o nativo, os ancestros de Pindorama, enfim … não sei se essas são as palavras certas, mas pelo menos, são palavras que eu tento me aproximar melhor, enfim … 

Mo: E no seu próprio conceito?

Xan: Para mim os dois são interessantes, porque de fato eu venho de uma ancestralidade paterna que eu estou re-significando agora porque tem uma relação de afeto estranha, distante e de histórias de violências e violações dentro desta família e eu acho que e tudo uma questão de não reconhecimento de sua história ancestral, de sua força, seu potencial… então acho que  Ka'á bok me dá uma ideia interessante, já que parte da minha ancestralidade paterna veio do mato, nativos. Claro que tem portugueses também na família do meu pai. Mas tem indígenas numa escala de ancestralidade ascendente muito próximas, que não tá há 400 anos … mas que tá há 100, 80 anos atrás. Então é muito novo. E o caboclo me interessa porque eu tenho a pele clara, mas eu sou descendente de nativos da Amazônia. Então, eu posso entender que eu faço parte de uma linhagem de caboclos, também. Ou de uma linhagem de nativos da Amazônia porque a história da minha família é muito recente. Na verdade, eu tenho esse elo que ainda não se perdeu. 

Mo: E sua família tem essa consciência?

Xan: Tem a consciência, mas é uma consciência … Meu avô Macaco, se tu visse meu avô … ele tinha uma cara de um pajezão … tinha uma carrancona … e claro que ele tinha essa consciência. Eu ouvia ele dizer "É caboclo! Num sei quem é caboclo!" Tem esse linguajar muito próprio em Belém, de alguns senhores, mais velhos, a galera mais nova está perdendo "Ê caboclo! Eu sou caboclo, me respeite!" . Eu ouvi isso! Do meu avô, dos meus tios mais velhos, uns cabocão assim, sabe? E aí tem a família da minha mãe, também, mas a linhagem da família da minha mãe é mais uma coisa portuguesa.  Eu tenho a impressão de que tem gente que veio do oriente. Que eu acho necessário também eu falar dessa parte da minha mãe, que quase que eu não falo, sabe? Minha avó fala que minha bisavó Aurea falava com os desencarnados … Então, toda a minha trajetória de vida e a trajetória de meus antepassados tem essa experiência do místico, do sacro, do simbólico, do representativo, do sensível. Da cosmopercepção, só que o cotidiano, a contemporaneidade, com o que acontece na vida na cidade, as coisas vão se perdendo, e vão se perdendo cada vez mais. Na minha infância, na década de 90, eu ainda era uma pessoa muito curiosa por saber coisas da minha avó e dos meus tios, mas às vezes eu percebo que as crianças hoje não estão mais interessadas em saber histórias antigas. 

Mo: E você é um contador de histórias, né? Como você faz essa ponte entre as encantarias, as suas influências e raízes e as histórias que você conta?

Xan: A minha vida são minhas histórias. Para mim as coisas só fazem sentido enquanto coisas que me atravessam, filmes, literaturas, imagens … se tenho algum sentimento com aquilo que tá sendo falado, sendo lido. Mas eu preciso exercitá-las na ação. Acho que isso tem muito a ver também com o fato de eu ser uma pessoa que antes de fazer teatro, sempre quis vivenciar possibilidades de existência. Desde que estas possibilidades de existências me permitissem um exercício de liberdade e transbordamento. Voltando a esta palavra TRANS, daquilo que me foi imposto enquanto pessoa, enquanto ser no mundo, então por que eu não posso usar um lenço na cabeça se eu sou mulher? Por que eu não posso ser mulher ? Por que eu não posso ser bicha? Por que eu não posso ser um tatu bola? Uma arara vermelha? Uma arara piranga quando eu quiser ser? Por que eu não posso adornar o meu corpo? Por que eu não posso dar um sentido estético pra minha vida, pro meu corpo?  Então, acho que as coisas vão também se encontrando com essas minhas querências, sabe? E elas fazem sentido pra mim. Eu acredito que estou numa fase de transbordamento daquilo que se compreende enquanto um gênero binário, entre ser homem e ser mulher. E quando eu paro para pensar isso sempre me acompanhou, sempre. Mas por alguns motivos de acessibildade eu acessei um gênero que talvez correspondesse mais a uma norma que tivesse mais a ver com o meu orgão genital e aquilo que foi criado e imaginado de papel masculino que eu deveria desenvolver. Mas eu me senti muitas vezes extremamente reprimido quando eu era criança e essas coisas fazem muito mais sentido para mim agora porque a gente tá falando mais disso. E as bichas estão se degladiando por coisas bobas e segregado cada vez mais e isso tem me irritado tanto … não são só as bichas, são os movimentos todos, sabe? De periferia, de lugares considerados marginais. A gente tá se degladiando por questões tão bestas, sabe? A gente tá no mesmo corre e nos mesmos enfrentamentos. Cada um com suas dores e suas frequências de loucuras, de entrega pra vida, pra existência, mas nós somos as fudidas e os inimigos são outros. E as bichas muitas que eu conheço nesses corres de Salvador, de Belém, tão cada uma se querendo se degladiar, porque quer fazer a melhor performance … Não é, gente! é a vida! Vamos nos ajudar umas às outras. Eu acho que isso é o mais importante. É o momento que eu estou acessando porque essa literatura me foi possibilitada, por pessoas que estudaram isso e difundiram e reverberaram esse discurso, que chegou para mim só agora, aos 31 anos, enquanto americano latino, sul americano, Nortista, Parauára, Amazônida, agora nordestina. Então de fato as informações que chegam no Rio, São Paulo, não são as mesmas informações que chegam ao mesmo tempo aqui em Salvador, em Belem, ou no Acre… em comunidades que vivem na fronteira entre o Brasil e a Colombia. Quando a gente vai ver essas historias dos mitos … Hermes e Afrodite, do ciborgue, do andrógeno, os mitos de algumas etnias indígenas, a gente vai ver que estas historias sempre existiram e eles não nos deixaram ter acesso e se a gente tivesse acesso desde que éramos crianças, talvez eu não tinha sido uma criança que sofresse tanto bullyng por ser uma criança diferente. Eu não era uma criança que me travestia, mas eu era uma criança que tinha uma fala que era diferente dos outros amigos, eu tinha uma gestualidade, uma corporeidade diferente dos meus amigos que eram considerados machos dentro de um padrão do que é ser macho, do que é ser homem. Eu era a bichinha, mulherzinha … minha mãe ate me falou: "Eu nunca soube disso". E eu falei "Claro, mãe, eu nunca quis te falar sobre isso … essas coisas eu resolvia na escola". E eu ainda passava por esse tipo de coisa dentro de casa, porque meu pai foi um opressor nesse sentido também. Independente de todas as conquistas e toda a trajetória dele enquanto um rapaz negro, de periferia, filho de caboclo, neto de índio, então ele reproduziu esse sistema machista patriarcal comigo e quando meus pais separaram foi o momento de maior liberdade da minha vida. Porque eu pude, dentro dos meus condicionamente (porque eu tava condicionado) vivenciar minha liberdade. Por exemplo: eu fui transar com 19 anos porque eu tava condicionado a muitas questões sobre o sexo, sobretudo porque eu era o primeiro filho, que devia ser comportado dentro de uma lógica machista heteronormativa. E quando eu comecei a fazer teatro me ajudou bastante e comecei a entender que existe um gesto social para tudo. Então, existe uma gestualidade para demarcar também esses espaços do feminino, do masculino, do trans, do underground… do bizarro, do grotesco, e são coisas que a gente pode vivência na nossa vida, sabe? porque o ser é apenas a possibilidade das coisas. o Ser é possibilidade e eu acho que a gente tá vivendo esse momento, mas é também um momento que a gente deve ter muito cuidado para não segregar mais as manas que tão num processo de entendimento, que não se encaixam, não se vêem encaixadas nesses padrões do que a gente compreende de literatura transgênero. Eu acho que é o caminho das possibilidades, entendeu? eu gosto muito do termo não binário, assim como eu gosto do termo travestilidade. Mas eu acho que a gente é o que a gente é e só temos esse corpo, essa matéria, para exercitar todas as nossas possibilidades mesmo de existir. E eu tô nesse momento que essa mitologia, essa representação, imagens da loba, da cobra, da sereia, do boto, da vampira, da encantaria tem feito muito sentido na minha vida, na minha existência. Mas eu também certos lugares neste corpo que agora nesse momento eu não quero transbordar, transgredir e isso é super natural também. Me pergunto sempre ate que ponto esses discursos de transgredir esse corpo matéria é um discurso de liberdade. Aí eu volto à história do HIV: esse corpo que depende de hormônios, de fármacos, é um corpo que está sempre dependente. E isso é horrível, porque e no dia que não tiver? No dia que eles quiserem boicotar? No dia que eles quiserem não dar acesso? Quantas psicoses vão haver, quantas loucuras vão aparecer na vida? Enfim … é isso!  
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Fevereiro de 2018. 
Salvador da Bahia, Brasil
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Árvore da memória: Dimitri Dracius e os Caminhos da Mandinga

Aula de Ladja e Danmye . Permangola 2018

Dimitri Dracius nos fala um pouco sobre sua vida e sua conexão com a Capoeira e a Ladja, luta marcial da Martinica, seu país de origem, janeiro de 2018, no Kilombo Tenondé.
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Meu nome é Dimitri Dracius. Nasci na Martinica.

Sempre fui uma criança que gostava de dançar. Eu gosto do ritmo. Meu pai era apaixonado de salsa, apaixonado de percussão. Então eu nasci numa casa que tinha muita música.  Principalmente do Caribe.

A Martinica é um lugar com 95% de negros. Então, uma cultura musical, uma cultura de dança. A gente tem várias danças. Tem o Zouk, tem música tradicional, mas ao mesmo tempo eu não tinha muita ligação com isso. 

Eu nasci dançando. Quando cheguei na idade de 13, 14, 15 ... gostava de brincar um pouco de imitar as pessoas da Ladja com amigos. A gente tentava fazer o golpe para imitar eles, 

mas neste tempo a gente não valorizava nossa cultura.

Com 18, 19 anos eu fui pra Canadá. 

Lá eu descobri a Capoeira Angola e ao mesmo tempo, um amigo me iniciou realmente no Danmye, porque antes disso eu fazia só para brincar.

Quando fiz a primeira aula, me senti em casa. Senti que era minha expressão natural.

Quando eu dançava as pessoas me falavam “você dança de um jeito diferente, mais roots.” Eu não gostava de dançar de um jeito refinado. Mas nesse tempo eu me apaixonei pela capoeira angola. Então eu coloquei todo meu fogo na capoeira angola mas ao mesmo tempo eu praticava Ladja, eu fazia parte de um grupo de dança tradicional da Martinica e da Guadalupe e fazia as danças, apresentações, eu apresentava Ladja, Danmye. O Danmye sempre estava lá, só que eu praticava mais a capoeira. 

Eu fugia um pouco do Danmye para não me perder.

Danmye é a forma da arte marcial da Martinica que é a vadiação, que você não faz golpes para machucar o outro, para acertar de verdade. A Ladja é a forma marcial para os iniciados, é para matar se é necessário, é para machucar e tem muita magia envolvida com isso, muita preparação espiritual, por isso que é para iniciados, pessoas que tem um conhecimento de várias coisas, conhecimento espiritual, conhecimento da medicina. Você se machucava tanto, que você precisava se cuidar, com ervas, com banhos de folhas ... e, claro, conhecimento da arte da Ladja.

Mo: E quando você voltou pra sua terra, o que você sentiu?

Dimitri:  Meus pais estavam presentes na cultura. Meu pai era tocador de tambor e minha mãe dançava. Ela dança, mas meu pai faleceu em 2016. Minha mãe ainda não voltou a dançar, mas ela dança em casa. Então, sempre tive essa relação com a cultura martinicana. Eu voltava para casa e acompanhava eles para dançar. Mas eu fugia da Ladja, eu fugia do Danmye, eu falava com o pessoal “Eu sou da capoeira”. Mas minha vida me mostrava que eu tinha uma ligação com isso.

Em 2008 tinha um grande evento em Salvador, o Ginga Mundo. Eles convidaram pessoas da Martinica, do Danmye para fazer uma troca com as pessoas da capoeira. E aí eu tava lá, sem querer... E a pessoa que fazia a apresentação, chamou no público alguém para dançar. As pessoas que sabiam que eu era da Martinica me empurraram para jogar. Aí foi um jogo fantástico. Foi muito forte esse jogo. E eles precisavam de uma pessoa, porque tinham uma pessoa machucada no grupo, então eles precisavam de mim, na verdade.

Então, no dia seguinte, eu fiz uma apresentação com eles, com João Grande, jogando Danmye também ... foi um momento muito forte, troca de culturas, com grandes mestres .... Eu presenciei isso, sem querer. Mas eu não queria saber a resposta.

Então, meu pai faleceu em 2016. Eu tinha que ir para Martinica para o velório dele. Lá tinha muitas pessoas tocando música tradicional, muitas pessoas de nome lá da Martinica.
A música do Danmye tem uma vibração muito profunda, bem melancólica, mas não é essa palavra. Aí começou a tocar e tinha muitas pessoas querendo falar para mim. Mas eu não falava mais com ninguém. Eu fui diretamente perto dos tambores. Tinha um cantador muito, muito bom. Tinha uma voz com muito dendê. Aí eu entrei para jogar. Talvez as pessoas pensavam que eu não ia jogar porque eu tava triste, mas eu pensei “Meu pai seria feliz de me ver jogando”... aí eu entrei e joguei Ladja. Quase o primeiro dia que eu cheguei na Martinica. Então, isso foi um sinal para mim. Então, esse tempo na Martinica, como eu tinha quase 17 anos de capoeira, na Martinica eu sou mais uma referência de capoeira. Então quando eu volto o pessoal quer me ver para dar aula, então eu comecei a me envolver com a capoeira, comecei a dar aulas para crianças.  E aí chegou esse conflito, porque eu dava aula de capoeira com a musica, com a história do Brasil. E eu comecei a achar isso muito estranho: de passar uma outra cultura, sem passar a minha cultura.

Aí eu tinha um amigo que fazia Ladja e era capoeirista e ele sempre me falava: “Como você é martinicano e não faz Ladja, não fala da sua cultura ... só fala do Brasil?” E eu concordava com ele mas pensava “Bom... não é por acaso que eu fiz tantos anos de capoeira ... Talvez é o meu caminho ... talvez meu caminho não é Ladja”. Eu fugia da Ladja ainda.

Aí uma amiga me convidou para uma aula de Ladja.

Eu pensei: “Bom ... Você não pode fugir, não é certo fugir da sua cultura assim.”

Então eu comecei a treinar. Os passos já estavam lá porque, mesmo não praticando muito, já estava dentro de mim.  O pessoal percebeu. Eu recebi muito incentivo dos mestres que me falavam “Continua, continua!”.

Mas ainda estava um pouco fora. E aí nesse processo do falecimento do meu pai, muita negociação para recuperar o dinheiro do meu pai, com os bancos, a segurança social. Minha mãe tava muito cansada. E minha irmã propôs de fazer uma viagem no Caribe de cruzeiro. Não era muito meu estilo ir num cruzeiro, mas eu fui porque a gente realmente precisava sair um pouco da Martinica.

Foi nessa viagem que eu comecei a visitar ilhas, ilhas, ilhas ... comecei a sentir muita identidade do Caribe. Pensei “Eu sou de Caribe” .

Aí a Ladja começou a entrar ... Eu comecei a sentir que a Ladja começava a tomar o primeiro lugar no meu coração, e a capoeira começava a descer para o segundo.

E eu não aceitava isso.

Aí quando eu voltei era o Carnaval e o Carnaval tem muitas rodas de Danmye, Ladja.  Aí eu fui em uma, eu fui em duas ...  E lá eu entrei, comecei a sentir que era isso ... mas foi difícil.

Aí quando eu voltei no Brasil eu não era a mesma pessoa em relação à capoeira.  Eu voltei no Brasil com o tambor do meu pai e levei muito tempo para fazer ele sair da capa. Era muito forte fazer esse tambor sair e ficar na minha frente. Mas sentia que na casa tinha o coração da Martinica. O Coração ancestral. O tambor dos ancestrais. E aí eu resolvi começar a dar aula. Foi assim.

Mo: Que forte...  Na Martinica em que contexto acontecem os jogos?

Dimitri: O Danmye, estes rituais para mim são muito evoluídos. Muita gente acha que os escravos eram pessoas sem conhecimento, mas muitos eram Ngangas, iniciados ... pessoas que tinham muito conhecimento. Dançar com música é uma coisa muito profunda. Resolver problemas com uma pessoa de uma forma ritual é uma coisa muito forte. Na Martinica a Ladja vem de uma cultura que entende as forças. Lutar com música é uma forma de transcender, de entrar em contato com o espírito.  Esses rituais são feitos para acessar a nossa essência.  Não é uma atividade que é separada da espiritualidade. No Danmye, o objetivo é de entrar quase em transe. Os antigos falam de se transformar em um bicho, transcender a mente. O africano entendeu que a dança e a música é uma forma de quebrar a barreira da mente. É um ritual muito profundo. As pessoas no Brasil tem o costume de pensar que a dança apareceu para disfarçar a luta, mas para mim isso é diminuir a capoeira, muito. As pessoas acham que a música está lá, mas ela não tem tanta importância. Mas a importância da música é fundamental. E uma forma de se conectar com nossa essência, com nosso potencial máximo. Então, no Danmye o objetivo é esse: acessar a nossa essência. Isso é muito forte. Um caminho espiritual. Na Martinica eles falam “o caminho do Danmye” – chimen Danmbien em creoule – então é o caminho para atingir a nossa essência.

Mo: De onde vieram as maiores influencias dos territórios africanos?

Dimitri: Benin, Mali, Senegal, Kongo, Cameroon.... os escravos vem de lá. E o voodoo que é a base da espiritualidade afro-martinicana e do Haiti também é muito ligado com o Benin. Então, a gente vem de lá. Depois teve muitas pessoas do Kongo também. Aí ninguém sabe realmente de onde vem o Danmye. Mas no Senegal tem lutas que são parecidas. Mas acho que algumas lutas também sumiram da Afrika. Vem da fusão, do sincretismo de várias etnias africanas. Tinha influencias também do povo da India, os indianos chegaram depois da escravidão. A India que também é uma cultura muito forte. Algumas pessoas falam que o toque de tambor tem uma influência da India. Alguns passos da Ladja parecem da India também. Também teve influência de chineses, japoneses, porque a Martinica era um porto, uma entrada para a América do Sul. Mas esses povos todos passavam lá. E tem influencia do box também. É uma leitura, mas acho que essas lutas já estavam prontas na Afrika. A luta é muito africana, a luta que vem do Egito. Acho que a Ladja é 90% da Afrika.

Mo: E não tem nenhuma influencia dos povos nativos da ilha?

Dimitri: Teve um genocídio antes da escravidão. Então ... mas eu acredito que tem, espero que tem, seria muito bom ... É difícil, porque nada foi escrito. É  uma história só oral.

Na Martinica tem outras lutas. Tem uma luta com bastões e uma luta dentro da água que se chama Wolo. Tem uma luta na praia que parece muito com a capoeira. Então é um lugar no mundo que ... eu sinto que a nossa ilha foi escolhida para alguma coisa relacionada com guerreiros. Como você me falava hoje que não faz sentido que a gente seja francês colonizados. Parece que a gente foi escolhido para ser uma cultura guerreira, eu acho a mesma coisa, que o povo deveria acordar, porque acho que isso não é por acaso.  Acho que somos guerreiros, que a gente perdeu isso ... isso tá escondido.

Mo: A capoeira surge de ambientes de mato, de cais, ambientes que não estão em um centro da sociedade.  E com o passar do tempo, acaba se tornando símbolo da luta e da resistência do povo brasileiro.  Vem sendo ensinada para crianças ... a Ladja é ensinada para crianças?

Dimitri: Muito pouco. A Ladja é mal vista, porque era uma coisa pesada, coisa de “vienenguem”, uma expressão que quer dizer “negros brutais”. E não é totalmente falso isso. Era um meio bem pesado, com álcool, com lutas brutais e verdade que um meio que dava medo para algumas pessoas. Mas não tudo era assim. Teve um momento que eram muito populares. Tinha muitas competições entre as diferentes regiões. Cada região tinha um Major, o Major era um lutador de Ladja. Tinha competições entre diferentes vilas. Mas isso sumiu talvez na década de 60, ou um pouco antes. Aí nos anos 70 teve um movimento para resgatar isso, para fazer entender que isso era nossa identidade, nosso tesouro, nossa cultura. Então, quando eu cresci eu olhava isso como uma coisa de “vienenguem”, coisa de pessoas brutais. E isso não atrai a juventude. E não atraía. Mas agora que vários lugares do mundo passam por uma crise de identidade, vários povos buscam por sua cultura. Na Martinica isso esta acontecendo. Só que ainda e muito fraco. E não é só culpa da mente colonizada. Porque era um meio bem fechado também, bem perigoso.  Mas agora começou a abrir vários jovens tão chegando, mas é muito pouco ainda. Quando a capoeira chega na Martinica, a capoeira seduz todo mundo. O Danmye  tem mais dificuldade.

A Ladja tem toda a parte da luta que precisa de muito treino. Tem que ter o corpo forte, também, muita técnica.

Com certeza a capoeira é mais avançada no processo de divulgação, de politização. Então a capoeira me deu vinte anos de adianto com a Ladja. A Ladja, o Danmye é como a capoeira talvez há trinta anos atrás. Então eu posso ver os caminhos que o Danmye não devia tomar. As pessoas querem fazer competições com o Danmye, envolver academias ... e o que está acontecendo com a capoeira me dá mais clareza para ver qual caminho faria mal para o Danmye. Mas como eu não estou na Martinica, não participo das reuniões, não tenho tanto poder, ainda não tenho esse peso para falar também.

Mas a última vez que eu tava na Martinica, eles tavam organizando competição ... falando em colocar proteção na cabeça e luva de boxe nas mãos ... Não faz sentido ... Eles tão perdendo o ritual ... não é um esporte, é um ritual. Toda uma cultura, toda uma espiritualidade envolvida, não é um esporte, não é uma coisa só física. Eles tão fazendo os mesmos erros que os mestres de capoeira ... mas eu não tenho poder ainda ... Eu tô no Brasil, iniciante de Ladja ... Mas quero voltar para lá para lutar. Lutar pelo meu país em diferentes aspectos, não é só pelo Danmye. A gente tem uma mente muito colonizada. A gente nunca foi independente. A gente tem que comer comida de fora que a gente poderia produzir na Martinica. O povo tá bem bipolar entre uma cultura africana e uma cultura francesa, que não tem muito a ver. Pelo menos no Brasil, vocês tem uma cultura africana, indígena e o português não é tão longe da África. O português tem uma coisa árabe, mas o francês é muito longe disso. Então no Brasil é mais fluido, mas na Martinica a gente é bem bipolar. Se comporta como um francês e de repente como um africano. Às vezes a transição é um pouco bruta.  Então eu tenho que voltar lá para fazer diferentes coisas, não só para o Danmye.

A parte espiritual do Danmye ainda é bem presente, as preparações ... o pessoal está querendo voltar para estes conhecimentos, que são bem forte ainda.

O Brasil tem muito para aprender, para dar para Martinica e Martinica tem muito para dar para o Brasil. São duas culturas que se complementam, uma tem que resgatar coisas da outra ... Eu me sinto privilegiado de estar entre as duas. Às vezes eu penso, Uau! Incrível! Eu sou uma ponte, falo as duas línguas, a língua da capoeira, a língua do Danmye, o Danmye me faz entender mais a capoeira, a capoeira me faz entender mais o Danmye. Então eu sou muito privilegiado.

Mo: Como é mesmo aquela frase?

Dimitri: Uei u pa Uei. Uei u pa Uei é a essência da Ladja. Você achou que viu, mas você não viu. Você viu minha mão, mas você não viu meu pé. É a mandinga.

Mo: Então a mandinga é uma conexão entre as culturas que você transita?

Dimitri: Sim. A mandinga é presente em cada arte marcial. Para acertar alguém, você tem que fazer ele acreditar que você vai fazer uma coisa, e faz outra. Mas na Capoeira, no Danmye, o foco é muito mais forte nisso. E a música incentiva muito isso. Tem muitos lutadores de boxe que começam a usar muito isso. Muitos africanos, você vê eles fazerem o boxe, mas você sente que eles precisam dançar ... tem alguns lutadores agora que fazem isso e é muito eficiente. A gente pode pensar: “será que a mandinga é eficiente?” Quando você vê um boxeador usando isso e isso funciona, você vê que é muito eficiente.

Mas tem vários níveis de mandinga. Tem a mandinga assim, mas tem a mandinga de verdade, que você enfeitiça o outro, de verdade. E isso é para os iniciados. Tem que enfeitiçar o outro. Ele tem que ficar perdido com você, sem saber o que está acontecendo.

Você pode fazer isso de uma forma bem física, ou de uma forma espiritual, com magia mesmo.  Mas isso é outro nível.  Por isso o Danmyeté é uma pessoa iniciada. Que antigamente não tinha essa coisa só física, tudo era junto. 

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Entrevista realizada no Permangola, Janeiro de 2018, no Kilombo Tenondé.