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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Joab Jo Malungo



"Tentam diasporar nosso corpo, mas nosso corpo não pode ser diasporado. 
O Corpo não é o corpo. Só não existe. 
O pinote não é só pinote. O pinote é o pinote.
A capoeira não é só pinote. Não é só pulo. A capoeira pensa."
O corpo é o que não nos deixa perder de nos mesmo.
A gente nao perde o corpo nunca.
A colonização tentou nos separar de nosso próprio corpo." (Joab Jo)

terça-feira, 20 de março de 2018

A visão Bantu Kongo da sacralidade do Mundo Natural. Por Kimbwandende Kia Bunseki Fu­Kiau. Tradução portuguesa por Valdina O. Pinto

A visão Bakonga do Mundo Natural. Por Bunseki Fu Kiau . Tradução Makota Valdina
O mundo natural para o povo Bântu, é a totalidade de totalidades amarradas acima como um pacote (futu) por Kalunga, a energia superior e mais completa, dentro e em volta de cada coisa no interior do universo ( luyalungunu). Nossa Terra, o “pacote de essências/medicamentos” (futu dia n’kisi) para a vida na Terra, é parte dessa totalidade de totalidades. É vida. É o que é, visível e invisível. É a ligação do todo em um através do processo de vida e viver ( dingo­dingo dia môyo ye zinga). É o que nós somos porque nós somos uma parte disso. É o que mantém cada coisa na Terra e no Universo em seu lugar.
O conceito Bântu­Kôngo da sacralidade do mundo natural é simples e claro. Tem­se que deixá­ los definir o nosso planeta com suas próprias palavras: “Aos olhos do povo Africano, especialmente aqueles em contato com os ensinamentos das antigas escolas Africanas, a Terra, nosso planeta, é futu dia n’kisi diakânga Kalûnga mu diâmbu dia môyo ­ um sachet (pacote) de essências/remédios amarrados por Kalûnga com intenção de vida na Terra. Esse futu ou funda contém cada coisa que a vida precisa para sua sobrevivência: essências/remédios ( n’kisi / bilongo), comida (madia), bebida (ndwînu)”, etc1.
O mundo natural é o que nós vemos, tocamos, sentimos, saboreamos e ouvimos e ainda assim nós não podemos alcançar o significado em sua totalidade. É o mistério de todos os mistérios. É o cerne do que é espiritual e sagrado. É ligar e desligar (Kala ye Zima ) de todas as coisas, i.é., Nkingu Kibeni Wangudi Wa Kinenga mu biobio (a chave princípio de equilíbrio em tudo).
Todas essas coisas, de acordo com o conceito Bântu de sacralidade são seres (Kadi), com ou sem expressão, com ou sem poder de locomoção.
O povo Bântu, Kôngo e Luba, entre eles, aceitam o mundo natural como sagrado em sua totalidade porque, através dele, eles vêem refletida a grandeza de Kalûnga. A energia superior de vida, aquele que é inteiramente completo (lunga) por si próprio. Assim, quando um Mûntu (ser humano) vê um minúsculo cristal (ngêngele) ele/ela vê nele, não só sua sacralidade, mas também a presença divina de Kalûnga.
Além da atenção e admiração dadas a montanhas, vales, ao vento, ao céu e às mudanças do ciclo natural, o Mûntu dá especial atenção ao mundo da floresta porque, como se diz, “Mfinda Kasuka tufukidi”­ nós perecemos se as florestas são extintas. Por causa dessa visão popular entre os Bântu, o próprio ato de entrar na floresta torna­se um ritual sagrado.
Antes de alguém entrar na floresta deve preparar­se ritualmente, porque ir para dentro da floresta é entrar numa das mais ricas e bem documentadas bibliotecas vivas na Terra. Em seu leito e abaixo vivem centenas e centenas de criaturas, grandes e pequenas, visíveis e invisíveis, fracas e poderosas, amigáveis e hostís, conhecidas e desconhecidas. Em seu interior correm, serpenteando, rios dentro dos quais nadam multidões de peixes. E acima de suas folhagens podem­se ouvir sons e melodias de todos os tipos. Todas essas “coisas”, dentro da floresta, constituem assuntos de aprendizagens para Mûntu, das quais ele coleta dados que ele pode “engavetar” em sua memória para uso futuro. Esse é o processo de construir conhecimento ­ nzailu.
Por causa dos aspectos de hostilidade presentes na floresta, o Mûntu deve proteger­se antes de entrar na floresta. Para isso, ele algumas vezes tem que imunizar seu corpo ­kândika nitu antes de deixar a aldeia, especialmente durante a estação de caça.
O processo nkandukulu a nitu­ imunização do corpo consiste em esfregar preparação medicinal no corpo, introduzir algo no corpo através de pequenas incisões na pele ou através da boca. Até mesmo os cães de caça passam por esse processo e são imunizados antes deles serem conduzidos para dentro do mato.
Adentrar uma floresta familiar é percebido como andar nos passos dos ancestrais. É descobrir o que eles conheceram transmitiram para nós, mas também encontrar saída onde eles deixaram fechado de modo que possamos caminhar em direção as mais descobertas para as necessidades de nossas gerações e aquelas das gerações futuras. Porém lá é mais que isso.
Andar na mata durante a iniciação, é revisitar Makulu 2, onde cada coisa é possível de ser encontrada ­ Digamos aqui antes do trecho, que estudiosos Kôngo modernos estão usando este termo, makulu, nas suas conversações para significar biblioteca. Bem, não são as bibliotecas do mundo, coleções, em grandes parte, dos trabalhos dos mortos (bakulu), os ancestrais? Não é humanidade constituída por mais mortos do que vivos?
A revisita de makula tem um grande impacto na mente de ngudi­a­ngânga (mestre iniciadores) e seus seguidores (lândi) intelectualmente bem como espiritualmente. O processo em si mesmo é chamado “Mokina ye bafwa”­ conversar com o morto3.

Isso é, sumariamente:

.Reunião com os ancestrais, i.e., com a presença de sua energia (ngolo minienie miâu).

.Viver a experiência do tempo, como hoje é vivida bem como foi vivida no passado e como deve ser vivida no futuro.
.Andar no passado seguindo Kini Kia bakulu (a sombra dos ancestrais).
.Rever o laço da comunidade bio­genética ­ n’sing’a dikânda: como fortificá­lo e como expandir seus ensinamentos.
.É estar em contato espiritualmente bem como intelectualmente com a sabedoria tradicional Africana (kingânga) do passado.
.É entender as condições de vida e viver daquele tempo e de agora.
.Finalmente, é conversar com “bakulu”, ancestrais, numa experiência pessoal, i. É., sentindo sua presença entre nós hoje e amanhã.
Por causa da sacralidade do mundo natural como um real mundo vivo, tão ilustrado pela verdura de plantas e florestas, mawubi/ maghubi, a maioria das reuniões que dão poderes espiritualmente são mantidas em florestas. Por causa de sua importância para a vida e o viver, o mundo natural, e a floresta em particular, é percebido como um templo aberto para todos. As pessoas são conduzidas para dentro desse templo mais espiritualmente sagrado, essa biblioteca viva, para tornar­se de verdade homem/mulher através do processo de iniciação, i. É., Mu bulwa mèso ­ manter­se de olhos abertos. É um processo de aprender como vincular­se com a natureza em unidade com ela. É aprender o que as florestas armazenam (como conhecimento) para nós; o que as plantas são para nosso uso; que criaturas compartilham nosso ecossistema conosco. É descobrir em nosso ambiente o que é comestível ou medicinal e o que não é.
O mundo natural é o mais seguro e rico laboratório da raça humana. É um laboratório sem paredes, que os Bântu continuam a descobrir desde a sua mais tenra idade. O processo fundamental de aprendizagem para os jovens Bântu tem lugar dentro desses laboratórios sem paredes. As pessoas andam dentro deles silenciosamente, por causa da sua sacralidade, e elas ficam de pé ali assim como diante de monumentos.
O homem do remédio (ngânga), curador da comunidade, gasta maior parte do seu tempo dentro desse templos vivos, bibliotecas e laboratórios para “estudar” e coletar o remédio da comunidade. Para cada remédio ele canta uma cantiga com detalhes de como e quando o remédio é preparado e usado. Da mesma maneira, seus/suas seguidores (as) ­ bâna, literalmente “crianças”, aqueles a tornarem­se futuros ngânga, repetirão ­ kumbu lula aquelas mesmas cantigas de remédio, bem como as suas próprias. Cantar os remédios corretamente e perfeitamente é um método popular para manter a receita do medicamento e é uma das mais importantes responsabilidades de um m’buki ­ curador entre os Bântu. A arte de “cantar os remédios” é vista também como uma rotina diária espiritualmente sagrada do nganga.
Os pais Bântu sabem que ninguém pode criar uma família a menos que conheça o caminho que conduz ao trabalho da terra, especialmente na floresta, porque a maior parte dos alimentos são encontrados na floresta. Esses alimentos são os nossos primários e mais importantes remédios. Porque o que nós comemos é ambos: comida e remédio; deve­se ser cuidadoso com a quantidade de comida ingerida. Os alimentos têm que ser cultivados livres de toda contaminação química e mantidos naturalmente frescos.
Sendo as florestas, entre outras coisas, a mais documentada das bibliotecas de vida natural, o ser humano de todos os lugares corre em sua direção para obter comida, remédio, lazer e informação. “Mûntu nzo a binsansa bifuti zaduswa kwa ntôtila”­ “um ser humano é apenas um armazém com prateleiras para serem ocupadas com “a matéria prima coletada”, ensina o Kôngo.
As matérias primas coletadas (ntotila) necessárias para encher as prateleiras do armazém acima têm que vir de fora do armazém onde elas possam ser encontradas. Igualmente, desde o seu nascimento o Mûntu ­ ser humano é apenas um vão do armazém que será constantemente estocado com totwa ­ dados coletados para uso futuro. “Milongi Kasuka Ku mpemba”­ aprendizagem que termina com a morte, insiste o Kôngo ­ em outras palavras, aprendizagem é um dingo­dingo ­ processo de vida longa que termina somente com a morte.
Os Bântu­Kôngo acreditam e ensinam que os seres humanos estão apenas equipados, desde o ponto da concepção, com o poder de colocar dados. Eles não estão equipados com conhecimento (sua inteligência torna­se analiticamente ativa quando dados informativos são colocados dentro). Eles são computadores vivos carregando grandes, poderosos armazéns para serem cheios com dados ou informações. Seus movimentos em todos as direções (para frente, para trás, à direita, à esquerda, para cima, para baixo e para dentro de si) é intencionado essencialmente para coleção de dados. Esses dados ajudam ao Mûntu ­ Ser humano construir o que ele chama nzailu ­ conhecimento.
As escolas Bântu­Kôngo ensinaram que o conhecimento não está em nós. Está fora de nós.4 E como tal, as crianças Bântu em geral e o povo Kôngo em particular, eram ensinados desde a mais tenra idade, a andar no mato/floresta, a mais documentada biblioteca natural, onde eles podiam encontrar informação para sua sobrevivência. Esse processo de aprendizagem era realizado igualmente através de escolas especializadas ou através de grandes iniciações. “Para o Kôngo, a não ser pelas grandes iniciações, todo conhecimento era comunicado por meio de numerosas escolas que cada mestre, ngânga, ou artesão emérito organizava em volta dele próprio”.5
Grandes iniciações ou alta aprendizagem era dada por três razões principais:
.Era, biologicamente , um processo social requerido, através do qual se alcançava a posição social de mulher/homem adulta (o) ­ Kimbuta.
.Era, intelectualmente, um processo através do qual deve­se ter os olhos abertos ­ bulwa mèso ­ aos princípios fundamentais de vida e viver ­ nkîngu miangudi mia lutufu lwa môyo ye zingu, especialmente aqueles relacionados às leis naturais ­ n’siku miamena.
.Finalmente era, espiritualmente , um processo através do qual tinha­se que descobrir o círculo de vida ­ dikenga dia môyo ­ e seu centro ­ didi ­ interiormente e exteriormente, a descoberta de sua própria visão de mundo e o poder de levantar­se verticalmente­ telama lwîmba­ngânga ­ nos seus pés antes de andar horizontalmente para encontrar os desafios do mundo ­ ntembe za nza.
Infelizmente, a situação virou de alto a baixo com a invasão dos poderes coloniais. O Mûntu foi, à força, impedido de mover­se no seu próprio ambiente e vizinhanças e perdeu não somente o seu poder de aprendizagem, o poder de coletar e guardar dados, mas também seu criativo poder de cura ­ lendo kiamvângila ye kiambukila. Submetido aos poderosos, o ser humano que construiu impérios, reinos, pirâmides, etc, foi declarado sem inteligência pelo invasor.
No topo disso veio o mais inumano e pecaminoso negócio oposto ao auto­desenvolvimento que tomou lugar em África ­ a escravidão, i. E., o tráfico de seres humanos. Isso tornou­se a mais vergonhosa e desastrosa morte para o ser humano no continente africano. Nós sabemos, pessoas que viajam mais freqüentemente a diferentes partes do mundo, vão a bibliotecas (incluindo as bibliotecas naturais), escutam notícias, lêem jornais e, agora, quem trabalha com cadeia de emissoras no computador sabe mais do que aqueles que não o fazem. Isso é o “poder de engavetar planos, idéias”, a chave para a ativa aprendizagem. Sem ela Mûntu ­ o ser humano torna­se submetido a permanente aprendizagem passiva que é o agente condutor à ignorância. E colonização, escravidão, opressão e prisão têm conduzido muitos nesse vicioso ciclo de vida.
A abolição do tráfico de escravos e descolonização não libertou completamente o povo africano em todas as partes onde eles são encontrados. Cadeias, prisões e projetos de alojamentos incrementados com grande rapidez são feitos não somente para controlar seus movimentos, mas para mantê­los fora das bibliotecas naturais, escolas e empregos. Tudo isso acontece no período que prepara para a entrada da zona criativa ­ lubata wa mvângila, o período de aprendizagem. Agora armas de fogo e drogas estão sendo despejados em toda parte do continente para desestabilizar o processo de aprendizagem que deveria estar tomando o lugar nas comunidades Africanas. Conceitos de valor e sacralidade de vida e mundo estão se deteriorando.
Para os Bântu, o mundo natural é secreto e sagrado. Esses dois insondáveis epítetos para o nosso mundo natural, ampînda ­ secreto e anlôngo ­ sagrado são cuidadosamente passados de geração a geração como o único meio de manter a mãe Terra segura e sadia para continuar a fornecer a vida na Terra. E, por causa de ambos o segredo ­ mpînda/bumpînda e a sacralidade ­nlôngo/bulôngo, é um perigo para toda vida na terra se Mûntu ­ o ser humano devido ao seu conhecimento cuidadosamente não “Longuka bwè mu kanga ye kutula makolo ma n’siku miamena” aprender como codificar e decodificar os segredos das leis naturais. Esses makolo (laços) podem ser qualquer coisa, genes ou elementos químicos.
Nós somos “sagrados” porque nosso mundo natural é sagrado. Nossas moradias e nossos pertences são sagrados, porque são feitos de matérias primas tiradas do mundo natural, do mundo sagrado. Qualquer coisa feita do equilíbrio ­ Kinenga do mais interno do solo é sagrado e nào pode perturbar a vida dentro e em torno de nós. E muito mais, diria um Mûntu, nós somos sagrados porque nosso solo é sagrado e inalienável. Por causa dessa sacralidade e inalienabilidade desse solo (seu mundo natural particular), os Bântu mantinham seu solo, o sustento de todas as vidas , como uma inalienável comunidade. Ninguém podia colocar um preço nele. Era a precaução para evitar abuso e ganância: “o solo não era mercadoria para ser comprada e vendida; o solo era inalienável no sistema tradicional. Cada domínio era ganho por uma certa matrilinearidade (ou patrilinearidade) que podia, de fato, permitir o uso de uma parte dessa área ao parente ou mesmo ao estranho/estrangeiro..., mas isso não significava que dava direito sobre esse solo.6
Reconhecer a sacralidade do mundo natural é o começo de nosso entendimento de ser um com a natureza; ou é ou não é. E dingo­dingo dia kala ye zima, o processo de viver (ser, aparecer, surgir no mundo natural) e morrer (sair, desligar­se do mundo natural) ou seja acender e apagar, ligar e desligar. Um não existe sem o outro.
Nosso mundo natural é sagrado porque ele carrega ambos vida e morte em perfeito equilíbrio para manter toda existência nele em movimento. Destruir esse equilíbrio, sua sacralidade, é causar um fim para ele e para todos nós.

NOTAS:
FU­ KIAU, 1991: Self Healing Power e Therapy (p.111), Vantage Press, Inc.,N.Y.
O termo makulu significa: a) antiga aldeia, velha cidade, ruínas onde o passado ou história (kikulu) está oculto (a); b) a cidade dos ancestrais, mundo espiritual (Ku mpemba); c) hoje também significa “biblioteca”, então Harvard University Library seria dito “Makulu ma Luyalungunu, lwa Harvard” na língua Kikongo.
É também o título do trabalho de FU­KIAU Mokina ye Bafwa / la conversation avec les morts. Luyalungunu lwa Kûmba ­ nsi, Kûmba, 1991.
Poucas semanas depois de minha palestra sobre um assunto relacionado a esse tópico na 24 Conferência Anual de Ensino do Comportamento Organizacional (OBTC), Case Western Reserve University, Cleveland, OH., em 13 de junho de 1997 um assistente da palestra telefonou­me, no terceiro dia depois do desembarque do Pathfinder em Março e deixou a seguinte mensagem na minha secretária eletrônica: “Dr. Fu­Kiau, seu ensinamento está provado! Nós desembarcamos em Março. Nós estamos agora engavetando dados para o nosso futuro. O conhecimento não está em nós. Obrigado outra vez, Dr. Fu­Kiau.

Balandier, 6.,1969: Daily Life In Kingdom of Kôngo/From The Sixteenth to the Eighteenth Contury (p.225); Meridian Books, N.Y.
6 Kajsa, E.,1972: Power And Prestige; The Rise And Fall Of The Kongo Kingdom, (p.71); Upp sala,Sweden.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO BANTU – ACBANTU COMUNIDADES ORGANIZADAS DA DIASPORA AFRICANA ­ Rede KÔDYA
Parceira Fome Zero No 067 

*Texto original em Inglês 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Reflexão sobre o RedBull paranauê, por Mestre Cobra Mansa

 
Estamos simplesmente replicando o pensamento opressor?

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. ( Paulo Freire ).

Poderíamos facilmente trocar a palavra educação por capoeira, ao almejar ocupar o lugar do opressor, inconscientemente o indivíduo deseja a manutenção da estrutura social ampla na qual ele hoje se sente oprimido, na esperança que um dia seja ele a oprimir. Estaria a mentalidade colonial tão incutida dentro de nós que não conseguimos nem mais refletir quem fomos, o que somos ou o que estamos fazendo para as futuras gerações? Estamos simplesmente replicando o pensamento opressor?

Como lutar por uma decoloneidade corporal, mental e social quando convertemos os nossos símbolos de resistência em simples eventos, espetáculos, porque quando isso acontece converte-se também o que era originalmente perigoso em algo limpo seguro e domesticado, pois retiramos o seu poder de rebeldia.
Nós capoeiristas estamos lutando por um projeto decolonial, com a intenção de provocar um posicionamento contínuo de transgredir e insurgir?  
Um projeto decolonial implicar em uma luta contínua. A dimensão estética da capoeira quando é apropriada e controlada pela indústria cultural massificante nos leva a um processo de alienação da nossa própria cultura ancestral.
Então este reconhecimento estético/cultural reduzido ao exotismo espetacular realmente nos interessa ?
Mesmo assim, alguns capoeiristas bem ou mal intencionados acreditam que, mesmo com a dominação das mega indústrias criativas capitalistas, poderemos conseguir trazer algum benefício para a capoeira.

Ou satisfazem apenas as vaidades pessoais e as imposições do sistema opressor, racista, machista e colocam a capoeira dentro da lógica da espetacularização, do show, do entretenimento, da competição que caracteriza a sociedade contemporânea, capitalista, patriarcal, heteronormativa, colonizadora …


A Capoeira perde a sua função de resistência e ser tornar vulnerável, tombada (caída), domesticada, colonizada. Por que temos que continuar com essas competições em que somos obrigados a competir entre nós simplesmente para divertir os outros e distrair a atenção para os verdadeiros problemas sociais que atingem a capoeira e a nossa sociedade atual? Os defensores desses mega espetáculos argumentam que a capoeira finalmente tem um apoio que merece, ou seja, temos uma grande empresa multinacional para se fazer um trabalho com tamanha desenvoltura. Não estariam eles simplesmente surfando na onda da capoeira que, com suor, sangue e lágrimas conseguiu depois de séculos sendo discriminada, trilhar seus próprios caminhos ?

Acredito que Red Bull oferece uma plataforma para que aqueles que querem fazer um espetáculo. 

A questão que gostaria de refletir com os organizadores é: até quando vamos continuar fazendo espetáculos só pra divertir, sem consciência?
Fica uma pergunta: se essas grandes empresas realmente gostariam de fazer um trabalho em que a capoeira pudesse mostrar todo o seu potencial, poderíamos tentar alguma proposta diferente como eleger com prêmios e patrocínios o melhor trabalho social de capoeira, o trabalho mais completo de capoeira com educação? A escola ou grupo mais completo em trabalhos sociais, para o desenvolvimento da capoeira de forma integral? Uma bolsa de estudos integral para os estudantes de capoeira da periferia que mais se destacarem nos estudos dentro da capoeira e na escola pública?

A capoeira durante toda a sua trajetória tem demonstrado um histórico diferente das outras modalidades marciais. O capoeirista, tanto do presente como do passado, procurou mostrar que a capoeira é uma arte multidisciplinar. O histórico da capoeira já provou que por mais que essa sociedade não queira, que não cabemos dentro das pequenas caixas impostas por essa sociedade moderna. Depois de tantas lutas e sacrifícios de nossos ancestrais acredito que está na hora de nós, capoeiristas, mostrarmos quem somos e o que queremos, buscando apoio e aliança daqueles que querem estar conosco nessa luta de forma integral.
Como queremos ser lembrados? Qual é o legado que deixaremos para as futuras gerações de capoeiristas? Estamos cumprindo os desejos de nossos ancestrais? Como estamos construindo a nossa ancestralidade dentro e fora da capoeira? 
Já paramos pra pensar que capoeira nós estamos ensinando para nossas futuras gerações?

Ao invés de unir contra uma exploração social, cultural será que estamos por livre e espontânea vontade entregando a capoeira ao sistema capitalista?

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Este artigo foi escrito por Mestre Cobra Mansa

Mestre de Capoeira Angola
Doutorando do DMMDC - UFBA e membro da Rede Africanidades - BA

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Árvore da Memória: Xan Marçall ... Poéticas e Encantarias de uma Parauára

Xan Marçal: Poéticas, Encantarias e Ancestralidade de um Parauára
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Mo: Estamos aqui na Rádio Ki.Anda, invadindo a casa do multi-artista Xan Marçall (paraense radicado na Bahia) e eu nem sei por onde começar, porque Xan Marçall nos trás tantas histórias ..

Xan: Eu sou Xan Marçall, sou Parauára, de Belém do Pará. Nasci dia 28 de fevereiro de 1986, sou pisciana e filha de Alda Barros de Oliveira e Pedro Paulo Pires Moura. 

Sou do Pará e tenho toda uma ligação mística com a história do nascer, porque acho que as pessoas antes de nascer já escolheram nascer nesse lugar. Então ... antes da gente encarnar a gente já tinha consciência de todo trajeto que a gente queria percorrer nessa vida. É como se fosse uma espécie de Déja Vu, sabe? Não sei se estou falando loucura, sabe? Mas é como se a gente já tivesse visto tudo o que ia acontecer … na verdade, existem também as possibilidades de tu escreveres o teu caminho a partir de uma coisa que já foi vista, entendeu? Mas eu tenho impressão de que a gente é o total, então a gente já viu tudo, todas as possibilidades, só que a gente não tem consciência disso. Eu acho que a gente tem esse insight espiritual, essa visão espiritual de que a gente tem a visão de todas as possibilidades que a gente pode assumir na vida, só que quando a gente tá aqui nesse momento carne, osso, físico, nessa fisicalidade a gente não tem mais essa consciência, então a gente acha que o fato da gente ter escolhido um caminho foi também algo que tivesse fora de um acontecimento que a gente tivesse ciência, entendeu? Eu acho que a gente é muito desatento, descuidado … Nem sei porquê eu to falando tudo isso…

Mo: Tem a ver, porque tudo isso se conecta com o ponto inicial do nosso encontro, que é a questão da ancestralidade. Parece que tudo volta a esse ponto…

Xan: Exato. Parece que histórias de familiares se repetem na nossa vida. Tipo de traumas que nossos avós, bisavós, pais, mães não conseguiram resolver e que reverbera de alguma forma na nossa vida também. Aí tem gente que vai falar que é memória e que isso também tá na memória do dna também, que a gente acaba incorporando. Então todas essas impressões, percepções, experiências que nossos ancestrais passaram estão também na nossa história agora, estão no nosso sangue, estão nas informações genéticas, moleculares, na nossa vida.

Mo: Quais são as suas maiores inquietações existenciais?

Xan: Minhas inquietações são várias. Por exemplo, me inquietam as histórias que não foram contadas para uma grande parcela da sociedade e que eu tenho acesso, então eu quero contar essas histórias porque eu quero que as pessoas conheçam essa outra lógica, este outro imaginário, outra forma de se relacionar com o mundo, de convívio, que seria uma forma de vida mais democrática, mais respeituosa, sabe? Eu também tô nesse processo de entendimento, sabe? De respeito à natureza, de cultuar, respeitar a natureza, respeitar mais as pessoas … acho que essa é uma das coisas que eu tenho vontade de falar. 

Outras inquietações perpassam pelo imaginário, de psicologia, de arquétipo, por exemplo, tem coisas que fazem sentido para mim agora justamente porque eu acessei histórias que não permitiram que eu tivesse contato, mas que em algum momento da minha vida eu acessei. Por exemplo: quando eu era criança e me via uma criança totalmente diferente das outras crianças ou dos outros menininhos. Eu não era diferente porque eu era especial. Eu era diferente porque eu não era o mesmo modelo de todos os meus amigos e era uma merda. Enfim, vários intercruzamentos que passaram em minha vida e essa coisa do nome também é interessante. Porque eu comecei a pensar que o nome que alguém te dá é o nome como essa pessoa construiu que tu fosses. É o nome que seus pais ou seus avós construíram essa imagem dessa pessoa. Então acho que é interessante que a gente passe por algum batismo em algum momento de nossa vida que a gente re-signifique a nossa existência e dê um outro nome pra gente.

Mo: E você passou por isso, né? Você quer falar um pouco sobre seu nome?

Xan: A história do Xan Marçall foi uma coisa que eu fui exercitando aos poucos. Primeiramente, a partir de assinar uns trabalhos de ilustração como Xan Marçall. Fazendo referência a uma cantora, que tem uma grafia totalmente diferente da grafia que eu escrevo, que mais se aproxima daquilo que seria uma fonética indígena, apesar de que eu não sei se eu poderia usar essa palavra. Aí eu descobri que Xan é o nome de um pássaro, o pica pau, que é conhecido como "Xan Xan". Que cruzamento! Me encontrei com este encantado pássaro e antes disso eu tinha entendido que meu totem é uma arara vermelha, uma ave. 

Mo: Como você descobriu o seu totem?

Xan: Primeiro, foi num sonho. Não sei também se é uma imagem arquetípica, mas a imagem era de que meu corpo estava morto e tinha uma ave me picando e era uma arara. E era uma arara que eu via há muito tempo em Belém. Porque em Belém no bosque e no Museu da Residência viviam araras soltas, vermelhas vermelhas vermelhas, e super dóceis. Aí essa imagem me acompanha. Pode ser tudo invenção, mas é uma imagem que me acompanha. Eu não sei se é exatamente um totem, mas é um animal que me acompanha, um animal de poder. 

Depois que eu fui pro México eu descobri um pássaro também ligado a divindades sagradas, a ritos sagrados. E em várias etnias do Brasil, da América do Norte até a América do Sul, a arara vermelha tá ligada a rituais de morte e renascimento. As penas vermelhas delas serviam para afastar toda a energia negativa e eu pensei: "Veado! Tá tudo se conectando!" 

Mo: Você tem um trabalho profundo de investigação sobre a  morte, né?

Xan: Pois é. Eu já pesquisava esses caminhos da morte e fui descobrir essas coisas sobre as araras … aí mana, todas as coisas começaram a fazer sentido pra mim. Eu me lembro que quando tinha 16 anos eu comprei um cocar em Belém, de arara vermelha e um cordão com penas de arara vermelha e sementes de mará mará. Incrível, porque foi antes de eu começar a ter todas essas informações … Eu adoraria ter uma arara vermelha … Depois fui descobrindo várias coisas sobre as araras. Na umbanda, na encantaria, a arara é a representação de uma entidade, uma mulher que se transforma em uma arara. Então as coisas estão se conectando … Tem gente que pode  falar "A bicha tá muito mística", mas são conexões que eu vou fazendo e vai fazendo sentido na minha vida. 

Mo: Vai fazendo sentido porque você é um caboclo, né, Xan Marçal?

Xan: Mana, eu sou, porque eu sou neto de caboclo, bisneto de caboclo, então eu acho que eu tenho assumido cada vez mais isso, só que ainda é muito estranho eu falar sobre isso, sobretudo porque existe um imaginário sobre o que é ser caboclo, que foi difundido e, pelas questões que a gente tem debatido na contemporaneidade sobre a afirmação da raça, da etnia, do gênero, então … eu sou mestiço e o caboclo é, sobretudo, um mestiço. 

Mo: Ontem eu estava com você quando alguém te falou que para você ser índio, você tem que ter uns pontos de melanina a mais na pele. Essa fala talvez reflita um pouco isso que você esta falando … como você tem trabalhado isso? 

Xan: Então, segundo algumas leituras de antropólogos que vão lá na origem da palavra caboclo, alguns defendem que caboclo vem de ka'á bok, aquele que vem do mato, em tupi. Então, esse termo designava a priori as pessoas que viviam em uma região não urbana, que naquela época, eram pessoas indígenas que viviam ao redor da cidade. Eu tô pegando a experiência do Pará, da Amazônia, de um texto que eu li. Segundo estes antropólogos, algumas etnias designavam outras etnias como ka'á bok, aquele que vem do mato. Só que outros autores foram falar que caboclo queria dizer a miscigenação do branco com o nativo, os ancestros de Pindorama, enfim … não sei se essas são as palavras certas, mas pelo menos, são palavras que eu tento me aproximar melhor, enfim … 

Mo: E no seu próprio conceito?

Xan: Para mim os dois são interessantes, porque de fato eu venho de uma ancestralidade paterna que eu estou re-significando agora porque tem uma relação de afeto estranha, distante e de histórias de violências e violações dentro desta família e eu acho que e tudo uma questão de não reconhecimento de sua história ancestral, de sua força, seu potencial… então acho que  Ka'á bok me dá uma ideia interessante, já que parte da minha ancestralidade paterna veio do mato, nativos. Claro que tem portugueses também na família do meu pai. Mas tem indígenas numa escala de ancestralidade ascendente muito próximas, que não tá há 400 anos … mas que tá há 100, 80 anos atrás. Então é muito novo. E o caboclo me interessa porque eu tenho a pele clara, mas eu sou descendente de nativos da Amazônia. Então, eu posso entender que eu faço parte de uma linhagem de caboclos, também. Ou de uma linhagem de nativos da Amazônia porque a história da minha família é muito recente. Na verdade, eu tenho esse elo que ainda não se perdeu. 

Mo: E sua família tem essa consciência?

Xan: Tem a consciência, mas é uma consciência … Meu avô Macaco, se tu visse meu avô … ele tinha uma cara de um pajezão … tinha uma carrancona … e claro que ele tinha essa consciência. Eu ouvia ele dizer "É caboclo! Num sei quem é caboclo!" Tem esse linguajar muito próprio em Belém, de alguns senhores, mais velhos, a galera mais nova está perdendo "Ê caboclo! Eu sou caboclo, me respeite!" . Eu ouvi isso! Do meu avô, dos meus tios mais velhos, uns cabocão assim, sabe? E aí tem a família da minha mãe, também, mas a linhagem da família da minha mãe é mais uma coisa portuguesa.  Eu tenho a impressão de que tem gente que veio do oriente. Que eu acho necessário também eu falar dessa parte da minha mãe, que quase que eu não falo, sabe? Minha avó fala que minha bisavó Aurea falava com os desencarnados … Então, toda a minha trajetória de vida e a trajetória de meus antepassados tem essa experiência do místico, do sacro, do simbólico, do representativo, do sensível. Da cosmopercepção, só que o cotidiano, a contemporaneidade, com o que acontece na vida na cidade, as coisas vão se perdendo, e vão se perdendo cada vez mais. Na minha infância, na década de 90, eu ainda era uma pessoa muito curiosa por saber coisas da minha avó e dos meus tios, mas às vezes eu percebo que as crianças hoje não estão mais interessadas em saber histórias antigas. 

Mo: E você é um contador de histórias, né? Como você faz essa ponte entre as encantarias, as suas influências e raízes e as histórias que você conta?

Xan: A minha vida são minhas histórias. Para mim as coisas só fazem sentido enquanto coisas que me atravessam, filmes, literaturas, imagens … se tenho algum sentimento com aquilo que tá sendo falado, sendo lido. Mas eu preciso exercitá-las na ação. Acho que isso tem muito a ver também com o fato de eu ser uma pessoa que antes de fazer teatro, sempre quis vivenciar possibilidades de existência. Desde que estas possibilidades de existências me permitissem um exercício de liberdade e transbordamento. Voltando a esta palavra TRANS, daquilo que me foi imposto enquanto pessoa, enquanto ser no mundo, então por que eu não posso usar um lenço na cabeça se eu sou mulher? Por que eu não posso ser mulher ? Por que eu não posso ser bicha? Por que eu não posso ser um tatu bola? Uma arara vermelha? Uma arara piranga quando eu quiser ser? Por que eu não posso adornar o meu corpo? Por que eu não posso dar um sentido estético pra minha vida, pro meu corpo?  Então, acho que as coisas vão também se encontrando com essas minhas querências, sabe? E elas fazem sentido pra mim. Eu acredito que estou numa fase de transbordamento daquilo que se compreende enquanto um gênero binário, entre ser homem e ser mulher. E quando eu paro para pensar isso sempre me acompanhou, sempre. Mas por alguns motivos de acessibildade eu acessei um gênero que talvez correspondesse mais a uma norma que tivesse mais a ver com o meu orgão genital e aquilo que foi criado e imaginado de papel masculino que eu deveria desenvolver. Mas eu me senti muitas vezes extremamente reprimido quando eu era criança e essas coisas fazem muito mais sentido para mim agora porque a gente tá falando mais disso. E as bichas estão se degladiando por coisas bobas e segregado cada vez mais e isso tem me irritado tanto … não são só as bichas, são os movimentos todos, sabe? De periferia, de lugares considerados marginais. A gente tá se degladiando por questões tão bestas, sabe? A gente tá no mesmo corre e nos mesmos enfrentamentos. Cada um com suas dores e suas frequências de loucuras, de entrega pra vida, pra existência, mas nós somos as fudidas e os inimigos são outros. E as bichas muitas que eu conheço nesses corres de Salvador, de Belém, tão cada uma se querendo se degladiar, porque quer fazer a melhor performance … Não é, gente! é a vida! Vamos nos ajudar umas às outras. Eu acho que isso é o mais importante. É o momento que eu estou acessando porque essa literatura me foi possibilitada, por pessoas que estudaram isso e difundiram e reverberaram esse discurso, que chegou para mim só agora, aos 31 anos, enquanto americano latino, sul americano, Nortista, Parauára, Amazônida, agora nordestina. Então de fato as informações que chegam no Rio, São Paulo, não são as mesmas informações que chegam ao mesmo tempo aqui em Salvador, em Belem, ou no Acre… em comunidades que vivem na fronteira entre o Brasil e a Colombia. Quando a gente vai ver essas historias dos mitos … Hermes e Afrodite, do ciborgue, do andrógeno, os mitos de algumas etnias indígenas, a gente vai ver que estas historias sempre existiram e eles não nos deixaram ter acesso e se a gente tivesse acesso desde que éramos crianças, talvez eu não tinha sido uma criança que sofresse tanto bullyng por ser uma criança diferente. Eu não era uma criança que me travestia, mas eu era uma criança que tinha uma fala que era diferente dos outros amigos, eu tinha uma gestualidade, uma corporeidade diferente dos meus amigos que eram considerados machos dentro de um padrão do que é ser macho, do que é ser homem. Eu era a bichinha, mulherzinha … minha mãe ate me falou: "Eu nunca soube disso". E eu falei "Claro, mãe, eu nunca quis te falar sobre isso … essas coisas eu resolvia na escola". E eu ainda passava por esse tipo de coisa dentro de casa, porque meu pai foi um opressor nesse sentido também. Independente de todas as conquistas e toda a trajetória dele enquanto um rapaz negro, de periferia, filho de caboclo, neto de índio, então ele reproduziu esse sistema machista patriarcal comigo e quando meus pais separaram foi o momento de maior liberdade da minha vida. Porque eu pude, dentro dos meus condicionamente (porque eu tava condicionado) vivenciar minha liberdade. Por exemplo: eu fui transar com 19 anos porque eu tava condicionado a muitas questões sobre o sexo, sobretudo porque eu era o primeiro filho, que devia ser comportado dentro de uma lógica machista heteronormativa. E quando eu comecei a fazer teatro me ajudou bastante e comecei a entender que existe um gesto social para tudo. Então, existe uma gestualidade para demarcar também esses espaços do feminino, do masculino, do trans, do underground… do bizarro, do grotesco, e são coisas que a gente pode vivência na nossa vida, sabe? porque o ser é apenas a possibilidade das coisas. o Ser é possibilidade e eu acho que a gente tá vivendo esse momento, mas é também um momento que a gente deve ter muito cuidado para não segregar mais as manas que tão num processo de entendimento, que não se encaixam, não se vêem encaixadas nesses padrões do que a gente compreende de literatura transgênero. Eu acho que é o caminho das possibilidades, entendeu? eu gosto muito do termo não binário, assim como eu gosto do termo travestilidade. Mas eu acho que a gente é o que a gente é e só temos esse corpo, essa matéria, para exercitar todas as nossas possibilidades mesmo de existir. E eu tô nesse momento que essa mitologia, essa representação, imagens da loba, da cobra, da sereia, do boto, da vampira, da encantaria tem feito muito sentido na minha vida, na minha existência. Mas eu também certos lugares neste corpo que agora nesse momento eu não quero transbordar, transgredir e isso é super natural também. Me pergunto sempre ate que ponto esses discursos de transgredir esse corpo matéria é um discurso de liberdade. Aí eu volto à história do HIV: esse corpo que depende de hormônios, de fármacos, é um corpo que está sempre dependente. E isso é horrível, porque e no dia que não tiver? No dia que eles quiserem boicotar? No dia que eles quiserem não dar acesso? Quantas psicoses vão haver, quantas loucuras vão aparecer na vida? Enfim … é isso!  
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Fevereiro de 2018. 
Salvador da Bahia, Brasil
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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A poética da Cabaça

olhar: não é ver . ouvir: não é escutar.

ao passo que refinamos nossos sentidos, adentramos num mergulho sinestésico na natureza mais profunda das coisas do universo.

Cabaça. Este nome (que em árabe - kara bassasa - quer dizer "abóbora lustrosa") designa uma das primeiras plantas a serem cultivadas no mundo, não apenas para uso alimentar, como para uso  doméstico, culinário e também espiritual. 

À primeira vista uma cabaça pode não te dizer nada. Mas para muitas cosmovisões afrikanas e indígenas, a cabaça tem significados reveladores e metafísicos sobre a própria existência humana.

Na mitologia yorubana a cabaça está presente em Ytans de mais diversos orixás, sendo associado à Oduduá, às Ya Mis, a Obaluaê, a Nanã, a Orumilá, a Exu ...

Aqui uma lenda yorubá chamada Igbadu (A Cabaça da Existência), belíssimo texto de Adilson de Oxalá:

(...) Devo lembrar-te de que, se hoje és detentor do poder sobre os 16 destinos, deves a mim este privilégio, ou por acaso te esqueceste da forma como adquiriste este poder? perguntou Exú.
Mais calmo, aceitando a meia cabaça de água que lhe estendia seu interlocutor, Orumilá acomodou-se sobre uma esteira estendida no chão e se pôs a lembrar daquilo que Exú estava se referindo.
... Desde muito jovem, Orumilá ansiava pelo saber e foi informado de que, para obtê-lo, deveria conquistar os favores de uma musa chamada Sabedoria, que se encontrava encarcerada em algum lugar na imensidão do Orun.
... Partiu sozinho, numa aventura cujas consequências não podia avaliar. De concreto, sabia apenas que muitos outros já haviam partido com a mesma intenção e que jamais haviam retornado.
... Depois de já haver caminhado por dias, encontrou um mendigo que, estendendo-lhe a mão pediu um pouco de comida.
Metendo a mão em seu embornal, dele retirou um pouco de farinha de inhame e, de uma pequena cabaça que levava na cintura, um pouco de dendê, misturando tudo e dividindo com o mendigo, comendo, ele mesmo, uma pequena parte do alimento.
Depois de alimentar-se, o mendigo, sem revelar seu nome, ofereceu ao jovem, em sinal de agradecimento, o bastão de marfim entalhado, dizendo - Bem sei o motivo pelo qual penetraste nesta floresta. Segue somente tua intuição, deixa-te guiar pela vontade de vencer e, em breve, irás deparar-te com uma enorme construção de pedra na qual entrarás com muita facilidade. Os perigos com os quais irás te defrontar estão em seu interior, portanto preste a atenção no que agora vou te dizer. Com este bastão de marfim, denominado Irofá deverás bater em cada uma das portas dos 16 quartos, pois só assim elas abrirão. Do interior de cada porta ouvirás uma voz que te perguntará: "Quem bate?" e tu te identificarás, dizendo que és Ifá, O Senhor do Irofa. 
A voz lhe perguntará então o que estás procurando, e tu dirás, estando longe da porta do primeiro quarto, que desejas conhecer a vida e que queres conquistá-la em nome de EJIOGBÉ. A porta então se abrirá e conhecerás os mistérios da vida que pertencem a Ejiogbe, o primeiro dos 16 Odus de Ifá.
No segundo... depois de haveres te identificado como da forma anterior, dirás que desejas conhecer IKU, a Morte e que desejas dominá-lo. A porta se abrirá e conhecerás a Morte, seus horrores e mistérios, que pertencem a Oveku Meji, o segundo Odu de Ifá. Se não demonstrares medo em sua presença, haverás de adquirir domínio absoluto sobre ele ...
Na terceira porta encontrarás um guardião denominado Iwori Meji, que depois de reverenciado, te colocará diante dos olhos e mistérios da vida espiritual e dos nove Oruns, onde habitam os Deuses, demônios e todas as classes de espíritos que irás conhecer de forma íntima, descobrindo seus gostos e maneira correta de apaziguá-los.
Na quarta porta, reclamarás por conhecer o jugo da matéria sobre o espírito, e o guardião desta porta, ODI MEJI, a quem deverás mostrar respeito e submissão, te ensinará tudo o que for concernente a questão, é necessário que não te deixes encantar pelas maravilhas e pelos prazeres que se descortinarão diante dos teus olhos, pois podem escravizar-te para sempre, interrompendo a tua busca. Lembra-te ainda que a matéria que sequer foi criada dominará o universo.
Já na quinta porta, quando fores indagado, dirás que procuras pelo domínio do homem pelos seus semelhantes, pelo uso da força e da violência, da tortura, do derramamento de sangue. Aprenda tudo que Irosumen Meji ... tem para te ensinar. Mas não utilizes as técnicas ali reveladas, para não te tornares, tu mesmo, vítima delas. Aí tomarás conhecimento dos planos de Olorun em relação à criação de um ser dotado de corpo material.
Na sexta porta ... um gigante do sexo feminino te saudarás pelo nome de Oworin Meji, e a quem solicitarás ensinamentos relativos ao equilíbrio que deve existir no Universo, e então compreenderás o valor da Vida e a necessidade da Morte. O mistério que envolve a existência das montanhas e das rochas. Ali serás tentado pela possibilidade de obter riquezas, mulheres, filhos e bens inenarráveis. Resiste a essas tentações ou verás tua vida reduzida a uns poucos dias de luxúria.
Diante da sétima porta. O habitante deste quarto chama-se OBARA MEJI, é velho e de aparência bonachona. Poderá te ensinar prodígios de cura e soluções para seus problemas mais intrincados. Dará a ti a possibilidade de realizar todos os anseios e os desejos de realizações humanas. Toma cuidado, no entanto, pois os domínios destes conhecimentos pode conduzir-te à prática da mentira, à falta de escrúpulos e à loucura total
No oitavo aposento deverás solicitar permissão a OKARAN MEJI para conheceres o poder da fala Humana, que infelizmente será sempre muito mais usada na prática do Mal do que do Bem. Este guardião te falarás em muitas línguas e de sua boca só ouvirás  queixas e lamentações. Aprende depressa e foge deste local, onde impera a falsidade e a traição.
Diante da nona ... guardião OGUNDÁ MEJI, para conheceres a corrupção e a decadência, que podem levar o ser humano aos mais baixos níveis da existência. Naquele quarto, conhecerás todos os vícios que assolarão a humanidade e que a escravizarão em correntes inquebrantáveis. Verás o assassinato, a ganância, a traição, a violência, a covardia e a miséria humana, brincando de mãos dadas, com muitos infelizes que se tornaram seus servidores.
No décimo aposento, deverás apresentar reverências a uma poderosa feiticeira, cujo nome é OSÁ MEJI. Ela vai ensinar-te o poder que a mulher exerce sobre o homem e o porquê deste poder. Conhecerás seres portentosos que funcionam na prática do Mal. Todos os demônios denominados Ajés se curvarão diante de ti e te oferecerão seus serviços maléficos que, caso aceites, farão de ti o ser mais poderoso e odiado sobre a face da Terra. Aprenderás a dominar o Fogo e a utilizar o poder dos atros sobre o que acontece no Mundo, principalmente a influência da Lua sobre os seres vivos. Cuida para que estes conhecimentos não te transformem num bruxo maldito.
Na décima primeira porta, seu guardião IKÁ MEJI, o gigante em forma de serpente, te fará estremecer. Saúda-o respeitosamente e solicita dele permissão para descortinar o mistério que envolve a reencarnação, o domínio sobre os espíritos ABIKU, que nascerão para morrer imediatamente. Aprende a dominar estes espíritos e, desta forma, poderás livrar muitas famílias do luto e da dor.
A décima segunda ... seu guardião se chama OTURUKPON MEJI, é do sexo feminino e possui forma arredondada, mais se parecendo com uma bola de carne. Poderá revelar-te todos os segredos que envolvem a criação da terra, além de ensinar-te como obter riquezas impensáveis. Aprende com ele o segredo da gestação humana e a maneira de como evitar abortos e partos prematuros.
Décima terceira, bate com cuidado e respeito. Neste aposento reside um gigante que costuma comunicar-se ... com a Deusa da criação do mundo. Aprende agora como é possível separar as coisas. Domina o mistério de dissociar os átomos, adquirindo assim, pleno poder sobre  a matéria. Aprende também a utilizar a força mágica que existirá nos sons da fala humana, mas usa esta força terrível com muita sabedoria. Este gigante chama-se OTURA MEJI.
Décima quarta porta, irás defrontar-se com IRETE MEJI, que nada mais é que o Ilê, a Terra. Faz com que te revele os seus mais íntimos segredos. Agrada-o, presta-lhe permanentemente reverência e sacrifício. Contata por seu intermédio, os espíritos da terra e transforma-os em seus aliados. Conhece os segredos de Sakpata, o Vodu da peste que mata e cura da forma que melhor lhe aprouver. Aprende com ele o poder da cura, já que matar é tão mais fácil.
Na décima quinta, serás recepcionado por Ose Meji, que irá falar-te de degeneração, decomposição, putrefação, doenças e perdas. Aprende a sanar estes males e sai dali o mais depressa possível, para não seres também vitimado por tanta negatividade, que foi gerada em uma relação incestuosa.
Finalmente, a décima sexta porta ... Aí reside OFUN MEJI, o mais velho e terrível dos 16 gênios guardiões. Saúda com terror gritando Hêpa Babá! Só assim poderás aplacar sua ira. Contempla-o com respeito, mas não o encares de frente. Observa que ele não é um gênio como os que conhecestes nas 15 portas que precediam esta. Este é OFUN MEJI, aquele que gerou os demais, que nele habitam e que dele se dissociam apenas de forma ilusória. Conhecê-lo é conhecer todo o Segredo do Universo. É isto que buscava, Oh Orumilá! Domina e resgata para ti a bela donzela chamada Sabedoria!


FONTES:
Livro Igbadu, a Cabaça da Existência, de Adilson de Oxalá

https://angicoesuaslendas.blogspot.com.br/2016/03/cabaca.html
http://asombradosobreiro.blogspot.com.br/2013/11/lenda-da-cabaca-dos-bijagos.html
http://filhosdeantoniotosun.blogspot.com.br/2011/08/lendas-de-igbadu-cabaca-da-existencia.html
https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86937/bastos_mab_me_ia.pdf?sequence=1
https://angicoesuaslendas.blogspot.com.br/2017/01/beneficios-cabaca.html
https://www.editoraareiadourada.com.br/produto/as-cabacas-do-akpalo-autor-josue-g-de-araujo-edmagazine-gibi.html

https://conexaoafrica.com/page/2/