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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil


Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil

Em maio se comemora o mês da Áfrika. 🌹  Rosa Maria Egipcíaca é simplesmente a primeira africana-brasileira a ter escrito um livro, do qual restaram páginas manuscritas. 

A mulher negra e africana do século XVIII, tanto em África como na diáspora afro-americana e no Brasil, sobre quem se dispõe mais detalhes documentados sobre sua vida, sonhos, escritos e paixão. 

Hoje saiu texto em homenagem a esta mulher. Parece que a força dela anda reverberando pelas ruas da cidade. Nos levando a nos relembrar do que não podemos mais esquecer ...

Chamada por alguns de santa e por outros de puta, a preta Rosa Egipcíaca por aqui passou maus bocados com as pressões advindas da Igreja, mas também das próprias mulheres desta sociedade tradicional e opressora.

"Vou aprender a ler, para ensinar meus camaradas".

Abaixo um texto sobre a vida de Rosa baseada em um texto de Luiz Motti, o escritor do livro ROSA EGIPCÍACA: UMA SANTA AFRICANA NO BRASIL (Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993).

Rosa nasceu na Costa de Mina (nação Courana, também conhecida como Coura) e desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro, em 1725, aos 6 anos de idade. 

Rosa foi comprada por José de Souza Azevedo, que a mandou batizar na Igreja da Candelária. Era certamente a igreja carioca onde mais escravos eram batizados na época.

Dizem os manuscritos da Torre do Tombo que o senhor de Rosa, “após desonestá-la e tratar torpemente com ela”, vendeu-a para as Minas Gerais, quando ela tinha 14 anos. 

A viagem para as Minas – por volta de 500 quilômetros percorridos a pé, foi a segunda grande caminhada forçada na vida desta garota. 

caminhos negros da diáspora ...

Na Capitania das Minas, Rosa foi comprada pela mãe do literato Frei José de Santa Rita Durão, indo morar no Inficcionado, a duas léguas de Mariana. 

Rosa era a única mulher entre 77 escravizados. 

"Além dos cativos serem predominantemente africanos, eles também eram, em sua grande maioria, homens. Assim, as altas taxas de africanidade encontravam-se também com a alta razão de masculinidade. A necessidade da mão-de-obra masculina pela mineração contribuiu para aumentar as diferenças entre o tráfico de homens e mulheres". (Moacir Rodrigo de Castro Maia) 

Rosa chegou em Minas no auge da produção aurífera e
 passou a se prostituir. 

Segundo mais tarde confessou perante o Comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro, passou 15 anos “a se desonestar vivendo como meretriz.” 

Não é difícil imaginar todos os constrangimentos, violências e doenças que esta jovem africana deve ter sofrido, na condição de prostituta escravizada-africana, numa região abarrotada de todo tipo de homem aventureiro e carente de mulheres.

Em 1748, com quase 30 anos, passou a sofrer ataques, como convulsões e descontroles físicos e mentais.

Aos 30 anos passou a sofrer estranha enfermidade: ficava com o rosto inchado, sentia tumor no estômago e desmaiava. 

Aí é quando Rosa decide então mudar de vida: vende seus bens – jóias e roupas e distribui pros pobres. 

Vira beata e passa a se tornar assídua freqüentadora das liturgias nas igrejas barrocas mineiras. 

Numa de suas andanças conheceu o Padre Francisco Gonçalves Lopes (Xota-Diabos) realizando exorcismos inacreditáveis. 

Impressionada, Rosa revelou ao padre que ela própria estava possuída por sete demônios: sentia um caldeirão de água quente despejando sobre seu corpo ... e caiu desacordada ao chão, partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de São Benedito. 

Quando possuída por Satanás, falava grosso, caía desacordada e dizia ter visões celestiais, vendo por diversas vezes Nossa Senhora da Conceição, ouvindo coros de anjinhos que lhe ensinaram a rezar, recebendo até a revelação de uma fonte de água milagrosa ao pé de uma montanha, onde devia ser construída uma igreja em honra de Senhora Santana. 

O culto aos avós de Cristo substitui no imaginário místico de Rosa, a perda e desconhecimento de seus próprios ancestrais, culto tão forte na maior parte dos povos da Costa da África.

Após os exorcismos, Rosa dizia ser arrebatada por um misterioso vento: “quando saía de casa para ir à igreja, logo na rua sentia um vento tão forte que lhe impedia os passos e com grande violência a fazia retroceder para trás e se bater com o corpo em uma cruz, sendo em dias que não havia vento e só por virtude dos preceitos que punha o exorcista é que podia resistir ao dito vento e entrar na igreja.” 

A fama de visionária de Rosa espalha-se por Mariana, Ouro Preto, São João Del Rei, sempre acompanhada de padre Xota-Diabos. 

Certa feita, na Igreja do Pilar em São João Del Rei, Rosa Courana interrompe a pregação de um missionário capuchinho, gritando que ela era o próprio satanás ali presente.

Ela então é presa e mandada para a sede do Bispado, em Mariana, sendo flagelada no pelourinho e por pouco não morreu, ficando, contudo, para o resto da vida, com o lado direito do corpo semi-paralisado. 

Recuperada da tortura, procura o bispo da Diocese.  

Após uma série de provas – inclusive testando a resistência da pobre vexada à chama de uma vela, que por 5 minutos suportou acesa debaixo da língua! – concluem os teólogos que tudo não passava de fingimento, passando então o povo a chamá-la de feiticeira.

Para evitar novos problemas, Rosa foge para o Rio de Janeiro, sempre auxiliada e protegida pelo seu inseparável padre Xota-Diabos, agora seu proprietário legal, o qual nesta época passava dos 50 anos. 

Em vez de simplesmente Rosa, após uma visão celestial, agora apresentava-se como Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz.

Montada num cavalo, dormindo em estalagens, intercalava visões celestiais com tentações carnais tendo o Xota-Diabos como o eleito de seu coração, relação íntima insinuada e comentada pelos seus próprios contemporâneas.

Rosa instala-se inicialmente numas casas em frente à Igreja de Santa Rita, tendo sua primeira visão na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, aparecendo-lhe o Menino Jesus vestido de azul celeste, tendo na cabeça uma tiara pontifícia, “caindo no chão sem sentidos e como morta”. 

Por sugestão de uma beata das muitas que freqüentavam assiduamente os templos cariocas, Rosa revela sua vida atribulada e seus dons espirituais ao Provincial dos Franciscanos, Frei Agostinho de São José. 

A vida mística de Rosa impressiona vivamente os franciscanos, que a vêem cumprir todos os exercícios pios muito em voga nos séculos passados: jejuns prolongados, autoflagelação, uso de silício, comunhão freqüente. 

Dão à preta Rosa o título de "Flor do Rio de Janeiro".

É nestes meados do século XVIII que o papado estimula, por todas as partes do mundo escravista, o culto a São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia, Santo Antônio de Noto (ou Catigeró), todos negros como Rosa, todos exemplos de humildade, resignação e santidade. 

A beata Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, portanto, ex-prostituta como sua patrona Santa Maria Egipcíaca, vinha a calhar neste "despertar" da Igreja e poderia ser uma futura santa. 

Tão logo chega ao Rio, Nossa Senhora obriga a courana, através de uma visão celestial, a aprender a ler e escrever, sendo até agora a primeira africana de que se tem notícia em nossa história a ter aprendido os segredos do abecedário. 

Também por inspiração sobrenatural, Rosa Egipcíaca decide fundar um Recolhimento para “mulheres do mundo” que pretendiam como ela trocar o amor dos homens pelo do Divino esposo. Ajudada por polpuda doação de um sacerdote de Minas Gerais, seu devoto e admirador das virtudes da ex-escrava, em 1754 é lançada a primeira pedra do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, onde hoje se situa a Rua da Assembléia.

Chegou a abrigar moças-donzelas e ex-mulheres da vida, sendo metade delas negras. 

Madre Rosa – como então era chamada por dezenas de seus devotos – sofistica suas visões, passando a escrevê-las ou ditando para que suas escribas anotassem tudo o que via e ouvia, seja revelado pelos santos, por Maria Santíssima ou pela própria boca de Deus. 

Sempre aplaudida e venerada pelo Padre Francisco Gonçalves Lopes, pelo seu frade confessor e por um capuchinho italiano, ela escreve mais de 250 folhas do livro “Sagrada Teologia do Amor de Deus Luz Brilhante das Almas Peregrinas”, onde diz que o Menino Jesus vinha todo dia mamar em seu peito e, agradecido, penteava sua carapinha; que Nosso Senhor trocara seu coração com o dela, e que no seu peito trazia Jesus Sacramentado; que morrera e tinha ressuscitado; que Nossa Senhora era Mãe de Misericórdia e que ela, Rosa, recebera de Deus o título e encargo de Mãe de Justiça, dependendo de seu arbítrio o futuro de todas as almas, se iam para o céu ou para o inferno; que ela própria era a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo.

Além do hábito de pitar cachimbo, Rosa comandava certas cerimônias onde é nítido o sincretismo afro-católico: “Numa ocasião, conta a recolhida Irmã Ana do Coração de Jesus, negra crioula, natural de Ouro Preto, que na noite da festa Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, estando a comunidade rezando a novena no coro, saiu Rosa de joelhos, e cantando o Ave Maris Stella (Ave Estrela do Mar), começou a dançar em frente do altar, fazendo muitas visagens, até cair desmaiada no chão. Levantou-se então e de um balainho pequenino tirou quatro papelinhos trazidos à maneira de sorte e deu cada um a quatro irmãs, (três negras e uma branca) onde estavam escritos São Mateus, São Lucas, São Marcos e São João, dizendo que elas eram evangelistas…” 

“Na capela do Parto, Rosa tirava às vezes algumas imagens do altar, dizendo que [ela] era Deus, e metia as imagens na mão de algumas irmãs e ia dançando até ao pé delas, e lá as deixava e ia buscar outra, e entrava a apertar a dança, arrodeando-as, e caía no colo de alguma irmã e ficava como estava fora de si, e depois de muito tempo, se tornava a si e começava a perguntar aquilo o que era, quem a tinha trazido para ali, e isto era quase sempre, e se não críamos, levantando-se da sua passividade, roncando, se agarrava pela goela e entrava a bater pelo chão, dando murros…” (Luiz Motti)

“entrou Rosa no coro com uma vara de marmelo dando na cabeça das recolhidas, dizendo: ABC com o que, mataste o meu Iapê, com uma vara de dimpê… Explicando que Iapê era Nosso Senhor e a vara de dimpê era a contradição que as recolhidas tinham.” 

Outro aspecto da religiosidade de Rosa Egipcíaca revelador do sincretismo afro-católico, remete-nos ao próprio espírito que passou a acompanhá-la desde que se converteu: uma entidade que por mais de quinze anos vexou-a, primeiro identificado como Lúcifer, mas depois referido como Afecto. 

"Tal espírito faz-nos pensar em Avrektu – cuja semelhança fonética com Afecto é evidente, um anjo ou mensageiro de luz da cultura Jeje da Nigéria, vizinha próxima da região natal de Rosa Coura. O Avrektu é um misto de mensageiro do além e espírito protetor, através do qual Rosa profetizava o futuro."

No recolhimento do Parto, as freiras entravam em transe quase diariamente, as vezes, diversas vezes por dia. 

Quando o Espírito baixava na comunidade, “sempre ficava ao menos uma ou duas espiritadas sem estar atacada”.

Muitos fiéis freqüentavam o Recolhimento do Parto, alguns para ouvir os conselhos da Mestra, outros para buscar suas relíquias, notadamente uma espécie de biscoito feito com a saliva de Rosa, amassada com farinha, que era guardada para esse fim, e a que seus devotos reputavam o poder de curar todas as enfermidades. 

Profetizando que o Rio de Janeiro ia ser inundado e destruído do mesmo modo como acontecera em 1755 com o terrível terremoto de Lisboa, Madre Rosa convence dezenas de famílias a refugiarem-se no Recolhimento, garantindo que seriam os únicos sobreviventes ao dilúvio e que essa nova Arca de Noé iria cruzar o mar oceano para encontrar-se com o Rei D. Sebastião – desaparecido há dois séculos nas areias do Marrocos , o qual tinha escolhido a negra Rosa para sua esposa, e que deste matrimônio e de seu ventre nasceria o novo Redentor da humanidade. Rosa foi dentre todos os sebastianistas, a que mais ousou em suas profecias!

Não foram tanto os vaticínios não cumpridos nem seus êxtases e revelações de características epileptóides a causa da derrota de Madre Egipcíaca: seu erro foi indispor-se com o clero carioca por ter ralhado com alguns sacerdotes que davam mau exemplo conversando na igreja durante as cerimônias sacras, sendo denunciada ao Bispo sobretudo após ter retirado à força da igreja de Santo Antônio uma senhora da sociedade que se comportava com menos compostura. 

Dezenas de testemunhas passam a denunciar as excentricidades da preta beata: aí então se revelam todos os seus desatinos religiosos, como dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a Santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos.

Após quase um ano presos no aljube do Rio de Janeiro, Rosa e o padre Xota-Diabos são enviados para Lisboa, sendo ouvidos pelo Santo Ofício, em 1763. 

O padre em poucas sessões do inquérito declara ter sido enganado pela falsidade da negra, alegando ser pouco letrado em teologia e ter-se fiado na boa opinião que o Provincial dos Franciscanos dela fazia. 

Pede perdão de sua boa-fé e excessiva credulidade: tem como pena o degredo de cinco anos para o extremo sul do Algarve, além de perder o direito de confessar e exorcizar. Se verdadeira ou falsa sua arrenegação da fé em sua ex-escrava, filha espiritual e possível amante, nunca poderemos saber.

Rosa, por sua vez, insiste em muitas sessões que nunca mentiu nem inventou coisa alguma: confirma que todas suas visões, revelações e êxtases foram reais. De fato, ela acreditava ser uma predestinada e que Deus em sua misericórdia a tinha escolhido para revelar ao mundo seus desígnios. 

Enquanto os inquisidores insistem para que diga a verdade, revelando tudo não ter passado de fingimento para chamar atenção sobre sua pobre figura, Rosa diz ao contrário: “Tudo vi e ouvi!” 

Quatro de junho de 1765 é a última sessão de perguntas à vidente afro-brasileira: neste dia ela narra uma de suas visões. Que estando para comungar ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: “Tu serás a abelha-mestra recolhida no cortiço do amor. Fabricareis o doce favo de mel para pores na mesa dos celestiais banqueteados, para o sustento e alimento dos seus amigos convidados.”

"A partir daí, inexplicavelmente, interrompe-se o processo de Rosa. Dos mais de mil processos de feiticeiras, sodomitas, bígamos, falsas santas e blasfemos que pesquisei, não encontrei outro que ficasse inconcluso, pois sempre os inquisidores eram muito minuciosos em anotar o desfecho do julgamento: a pena a que foi condenado o réu, se morreu de doença no cárcere, se houve suicídio, se foi mandado para a fogueira ou para o degredo, etc. Inexplicavelmente, o processo de Rosa tem como última página este registro dos inquisidores: “Por ser avançada a hora lhe não foram feitas mais perguntas, e sendo lidas estas anotações e por ela ouvidas e entendidas, disse estar escrita na verdade, e assinou com o Senhor Inquisidor, depois do que foi mandada para o seu cárcere.” ( Luiz Motti)

Comparando suas culpas com a de outras beatas e embusteiras processadas pelo Santo Ofício da Inquisição, avaliamos que deveria ser condenada à pena dos açoites e degredada por cinco anos para o Algarve, aliás, como foi o caso de outra afro-brasileira, a angolana Luiza Pinta, esta sim, verdadeira “mãe-de-santo” de um calundu, muito mais ligada às raízes africanas do que Madre Rosa.

Duas hipóteses quanto ao inédito fim desta história: ou a preta Rosa, como era depreciativamente referida no processo inquisitorial, ex-Madre Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, morreu incógnita no cárcere inquisitorial, de doença natural ou velhice, esquecendo-se pela sua insignificância, o notário ou o médico do Santo Ofício de registrar no processo o seu falecimento, ou, então, quem sabe, o próprio Menino Jesus encarregou-se de libertar e levar sua velha mãe-de-leite direto para o céu, agradecido e saudoso do aconchegante colo de sua preta tão querida!

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Fontes: 

https://luizmottblog.wordpress.com/artigos/rosa-egipciaca-uma-santa-africana-no-brasil/

http://diamantina.cedeplar.ufmg.br/portal/download/diamantina-2006/D06A001.pdf

http://www.koinonia.org.br/oq/artigos-detalhes.asp?cod=12663

ROSA EGIPCÍACA: UMA SANTA AFRICANA NO BRASIL, Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993, 750 p. Luiz Motti.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Bwit e Ngombi. Música e Ritual bakongo

Ritual Bwit, do Gabão

A linha de Kalunga, os fluxos desta Kalunga vão me levando pelos mares atlânticos.....
Vou seguindo as linhas de navegação sem pressa, honrando e agradecendo. 
Comecei por lá de cima do continente e parece que fui descendo, descendo. Até que a vida me levou para os caminhos da Áfraka Bakonga.
Tudo partiu do campo da filosofia e da capoeira. E se adentrou de uma maneira tão profunda nas pesquisas musicais que agora sinto-me em um labirinto em que não consigo mais sair. Mas pouco a pouco, dia após dia vou sintonizando minha mente às mensagens dos ancestrais e me entregando ao caminho. Aceitando e agradecendo.
Estou há um tempo concebendo uma vivência que une filosofia bantu, música e consciência corporal. Percebendo a necessidade de ancorar os trabalhos desta vivência em uma família de instrumentos musicais, minha caminhada vem me levando aos arcos africanos.
Cheguei desta vez, depois de muita meditação, ao precioso instrumento musical chamado Ngombi, um instrumento de cordas, uma harpa, muito comum no Gabão. O Ngombi é usado durante os rituais de Bwit, religião do povo Mitsogo, neste país.
A África é muito conhecida por seus tambores, mas pouco se fala da riqueza das cordas africanas. Isso bem me disse um amigo de Guiné Bissal.
Mas a Harpa existe desde os tempos do antigo Egito, Kemet, a terra negra. As antigas harpas de Kemet datam de mais de 5.000 anos e eram usadas no dia a dia e nos rituais desta antiga civilização.

Harpa do Antigo Egito 

Pouco falamos sobre um país tropical chamado Gabão, situado na costa atlântica na África Equatorial Central, fazendo fronteira com Camarões, Congo e Guiné Equatorial.
Parte do Império Bakongo, o Gabão é herdeiro de inúmeras tradições ancestrais, dentre estas um instrumento chamado Ngombi, instrumento que parece ter originado das antigas harpas do antigo Kemet, e que participa dos rituais religiosos Bwiti, comum tanto nas selvas do interior do país, quanto na costa.


Gabão, África
Conta-se que nos últimos 20 anos o Bwiti, antiga religião, atravessou fronteiras e chegou a Camarões, Congo, Zaire e Guiné. Considerado por seus membros como uma religião universal monoteísta, acessível a qualquer pessoa, o Bwiti é um ritual que envolve o transe através da música e do uso do Iboga, uma planta com propriedades alucinógenas (possui DMT, mesmo princípio presente no Ayawasca).
De acordo com a cosmogonia Bwitista, as propriedades alucinógenas do iboga foram descobertas pela primeira vez pelos pigmeus no interior da selva. Estes passaram seu conhecimento para os Apindji e os Mitsogo, que iniciaram os primeiros rituais Bwitistas. Mais tarde, estes conhecimentos foram transmitidos para os Fang, Eshira e outros grupos étnicos em todo o sul do Gabão. (Samorini, Giorgio. "The Bwiti Religion and the psychoactive plant Tabernanthe Iboga (Equatorial Africa).)
Devido à sua contínua reforma, o Bwiti original assumiu certas características de outro culto ancestral chamado de Byeri, em cujos rituais foi usado um alucinógeno diferente, o alan (plural, melan).
O Byeri defende um culto privado praticado pelos descendentes de famílias patrilineares. No clímax da cerimônia de iniciação, o iniciado, sob a influência de uma dose forte da raíz, é apresentado para o crânio de seus antepassados, e a partir daí, ele poderia se comunicar com os espíritos do morto.
Por muito tempo o Bwiti foi considerado um culto ancestral e até hoje, a palavra Bwiti é traduzida como morto ou antepassado. No entanto, a etmologia pode vir de "Mbouiti", o nome de um grupo de pigmeus atualmente ocupando uma região entre o Gabão e o Zaire.
O ngoze, ou cerimônias noturnas costumeiras são tempo de fervor religioso, coletivo, alegria, banquete, quando preparam o iboga. Também momento de amar uns aos outros.
Durante a noite, os participantes dançam, brincam e cantam. Vestem-se com diferentes cores, branco, azul, amarelo, de acordo com as cores de sua própria comunidade ou o dia da semana. Com os rostos pintados por um pó branco, caem sob os efeitos do iboga e dançam, tocam e cantam por longas horas e exaustivas danças do mais puro espírito tribal afrakano.
As danças são guiadas por esquemas coreográficos precisos. A dança mais comum é uma longa fila de pessoas que se movem no interior do homem-templo. Cada pessoa repete o movimento da pessoa na frente. Tudo isso ao ritmo de vários instrumentos musicais: o arco musical, bastões e outros instrumentos de percussão e durante a segunda parte da noite, a harpa sagrada (ngombi). De vez em quando eles descansam, bebem, riem e ficam felizes.

Ngombi, instrumento de cordas da Áfraka Equatorial Central
Durante a última parte da cerimônia nas primeiras horas da manhã, toda a comunidade experimenta um fluxo coletivo de emoções, resultando no que os Bwitis chamam de "nlem myore" (um só coração), um estado em que as pessoas se entendem e tornam-se um em comunhão.
Na mitologia Bwitista está a existência de um único Deus, Nzame Mebeghe, um deus semelhante ao cristão, ainda menos irritado e vingativo (não existe um inferno). No começo dos tempos, Nzame criou um ovo do qual nasceram Eyene, None e Gningone.
Gningone é uma entidade feminina, considerada a mãe da raça negra. Entre os Fang, bem como entre outros grupos africanos, tudo relacionado à mãe - terra, ao princípio feminino mantém seu valor primário ligado à fecundidade.
A história de Muma, a história da descoberta de iboga e a origem do Bwiti tem diferentes versões, não apenas entre os Fangs, mas também entre os Apindgi, Mitsogho e Eshira.

Fontes:
www.myeboga.com/eboga/the-bwiti-iniciation
www.ibogaine.mindvox.com/articles/bwiti-religion/


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Kindezi: a cura para a família Africana e sua reconstrução cultural




"A resposta para a reconstrução cultural africana encontra-se em Sankofa, a recuperação dos processos que tornam-se os fios de nossa colcha de retalhos cultural. Kindezi é o mais valioso bem primário para a (re)socialização, para o afro-centrismo, a cura para a família Africana e sua reconstrução cultural. Kindezi diz-lhe como ensinar seus filhos (e você mesmo) A SER AFRICANO!" (intro Kindezi por Marimba Ani) :::
"As pessoas idosas nas sociedades bantu em geral, e entre os Kôngo em particular, constituem uma força social poderosa da antiga arte de Kindezi, a arte sem traço no mundo acadêmico. Se os idosos são fisicamente fracos e não podem mais participar economicamente como uma força produtiva na comunidade, eles ainda são mental e espiritualmente fortes e sábios o suficiente, não apenas para manter a comunidade unida, mas sobretudo para construir a base moral da comunidade jovem e das gerações vindouras. Uma pessoa idosa, como uma pessoa jovem, é considerada em África para ser uma parte completa da comunidade, não importa quão fisicamente fraca esta pessoa se torna. Esta pessoa nunca está isolada da sociedade". Kindezi, a arte bakogo de cuidar de crianças". por K. Kia Bunseki Fu Ki.Au e A.M. Lukondo-Wamba

sábado, 1 de julho de 2017

Plantio de Cabaças e Estudo de Kindezi na Sala Verde

Walèmbwa leia kalèndi bakula ntoko za môyo ngâtu za buta mu zola ko. “Quem jamais cuidar de um bebê” – diz um provérbio Kôngo, “nunca entenderá a beleza da vida nem a de educar com amor”.


Kindezi: Arte Kôngo de Cuidar de Crianças
Nessa lua cheia de julho vai dançar a SALA VERDE KINDEZI com o BOI TUTU MARAMBÁ na comunidade de Barra Grande, na Ilha de Itaparica.
A Sala Verde Kindezi nasce no bairro da Mata dos Leões.
Além do auto do boi, vamos ter roda de conversa sobre KINDEZI (a arte bakongo de cuidar de crianças) com plantio de sementes de cabaça, pra futura produção de berimbaus e instrumentos ancestrais afroameríndios. Quem vai nos ensinar a plantar vai ser Lourdes Santiago e Celine Ruggeri Lima , moradora da comunidade de Barra Grande.
Se vier para acampar, traga sua barraca.
A comida será feita entre todos, então traga sua colaboração. Não se esqueça da água, frutas e repelente.
Para participar do evento, a contribuição é voluntária.
Cuidado com o lixo, com os animais nativos e com a natureza.
Bahia mãe terra precisa de mãos fortes para lhe cuidar. Foram muitos anos de exploração já.
Programação:::
08.07. ::: Na tarde de sábado
PLANTIO DE SEMENTES com Lourdes Santiago e Celine Ruggeri Limacom TAMBORES
ENSAIO E CRIAÇÃO DE FIGURINOS para o auto de TUTÚ MARAMBÁ. colaboração do músico Zezinho Molinari
09.07. ::: Domingo
RODA DE CONVERSA sobre a pedagogia KINDEZI (A arte Bakongo de cuidar de crianças)
APRESENTAÇÃO do auto de TUTÚ MARAMBÁ
RODA DE CAPOEIRA
A SALA VERDE é um universo de criação e pensamento
onde trabalhamos buscando unir ecologia, artes, capoeira, permacultura, cultura popular para atuar como centro de formação para a comunidade de barra grande, da ilha de itaparica e do mundo.

Essa sala verde está nascendo agora. Estamos na busca de potencializar o melhor das pessoas ao nosso redor, em harmonia com a natureza da ilha e para criarmos um lugar que gera nossa formação e de nossos filhos para os filhos de seus filhos.
Estamos começando os estudos sobre a pedagogia KINDEZI, que QUE SE TRATA DA ARTE DE CUIDAR DE CRIANÇAS, BASEADA NA FILOSOFIA DOS ANTIGOS POVOS BANTUS.
Como poderemos trazer essa pedagogia de ensino para a comunidade e trabalhar seus fundamentos? Vamos aprendendo pelo caminho.
Outra coisa importante de dizer é que trabalhamos em parceria com o Movimento Mulheres do Mar, da comunidade de Barra Grande, que é um movimento de capoeira e gênero, coordenado por CM Brisa Do Mar e Ale Matt .
BASES PEDAGÓGICAS: ARTE, CAPOEIRA, SAÚDE POPULAR, CULINÁRIA, PERMACULTURA, KINDEZI, CULTURA POPULAR, MARCENARIA, COSMÉTICA NATURAL
KINDEZI,
Walèmbwa leia kalèndi bakula ntoko za môyo ngâtu za buta mu zola ko. “Quem jamais cuidar de um bebê” – diz um provérbio Kôngo, “nunca entenderá a beleza da vida nem a de educar com amor”.

Capoeira Angola

             


Para falar de capoeira, é preciso pedir licença antes. Porque para nós capoeiristas a capoeira é uma coisa sagrada.

Cada pessoa tem seu próprio jeito de jogar. Cada pessoa, conforme seu corpo/espírito vai aprendendo sua própria maneira de desenvolver seu ngolo.

Mestre Damião
Mestre Paulo Brasa
Mestre Cobra Mansa e Mestre Lua Rasta
Mestre Pastinha


CAPOEIRA ANGOLA, por MESTRE PASTINHA

"Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meu avós é a lei da lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus". 
"O que eu gosto de lembrar sempre é que a capoeira apareceu no Brasil como luta contra a escravidão. Nas músicas que ficaram até hoje se percebe isso. Entenda quem quiser, está tudo ai nesse versos o que a gente guardou daqueles tempos". 
"Mas o que serve para a defesa também serve para o ataque. A Capoeira é tão agressiva quanto perigosa. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar, eu me lembrava do Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira e queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo." 
"Quem não sabe lutar é sempre apanhado desprevenido. Agora que o ritmo está mais apressado, sinto a agilidade desses dois homens e imagino raiva, medo, despeito, desespero empurrando esses pés... uma vez vi um capoeirista afugentar uma patrulha inteira". 
"Não se pode esquecer do berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga ao corpo da gente. o Conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno, não, é coisa dos princípios. Bom capoeirista, além de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar."
"Saem daqui da Academia sabendo tudo. Sabendo que a luta é muito maliciosa e cheia de manhas, que a gente tem de ter calma. Que não é uma luta atacante, ela espera. Capoeirista nunca dizia a ninguém que lutava. Era homem astuto e ardiloso, como a própria luta, que se disfarçou com a dança para sobreviver depois que chegou de Angola. Capoeirista é mesmo muito disfarçado. Contra a força só isso mesmo. Está certo."
"O Capoeirista é um curioso, tem mentalidade para muita coisa, sabendo aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar. E a Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa. O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada um. Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um."
"E jogar precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão. Quando eu jogo, até pensam que o velho está bêbado, porque fico todo mole desengonçado, parecendo que vou cair. Mas ninguém ainda me botou no chão, nem vai botar."
"Ninguém pode mostrar tudo o que tem. As entregas e revelações têm de ser feitas aos poucos. Isso serve na capoeira, na família, na vida. Há segredos que não podem ser revelados a todas as pessoas. Há momentos que não podem ser divididos com ninguém."
"Os negros usavam a capoeira para defender a sua liberdade. No entanto, malandros e gente infeliz descobriram nesses golpes um jeito de assaltar os outros, vingar-se de inimigos e enfrentar a polícia. Foi um tempo triste da capoeira. Eu conheci, eu vi. Nas bandas das docas... luta violenta, ninguém a pôde conter. Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da Capoeira, mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica ? E a faca ? E os canhões ? E as bombas ? A capoeira angola parece uma dança, mas não é não. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência". 

Mestre Pastinha



Então, Mestre Pastinha é o ancestral da capoeira que mais influencia minha capoeiragem. Uma grande referência, um bisavô, uma grande árvore. Conta-se que certa feita Pastinha conheceu um artista de Angola que lhe contou que em sua terra se jogava uma dança parecida com a capoeira, chamada Ngolo.

Pastinha também é considerado o "filósofo" da capoeira. Seu livro "Capoeira Angola" é uma grande lição e inspiração para os capoeiristas compreenderem mais sobre essa arte e essa luta de resistência.


Capoeira Angola, Mestre Pastinha

CONEXÕES ENTRE A CAPOEIRA E O NGOLO:




A capoeira é uma arma de auto-conhecimento para o povo brasileiro. A capoeira é nossa aula de resistência, nossa aula de libertação. 

Capoeira: Luta do Negro pela Libertação

CONEXÕES ENTRE A CAPOEIRA E A FILOSOFIA DA ÁFRICA BAKONGA, por Fu Ki.Au:

O texto abaixo foi gentilmente cedido por Daniel Mattar, treinel da FICA. O texto foi transcrito a partir de fitas K7 contendo a gravação da palestra do Dr. Fu Kiau, realizada em Salvador (1997) no III ENCONTRO INTERNACIONAL DE CAPOEIRA ANGOLA Fundação Internacional de Capoeira Angola - FICA
Palestra do Dr. Fu-Kiau (Lemba Institut - New York/USA) Salvador/Ba, agosto de 1997.

FITA 1 - LADO A

Dr. FU-KIAU: Eu vou falar pra vocês do nascimento do mundo da capoeira na terra Congo. São alguns fatos que nós temos que conhecer antes de começar qualquer coisa. Entre 1500 A.C., essa área particular que chama Angola e Congo foi visitada por fenícios. Essa visita foi a primeira registrada fora do continente africano, então foi a primeira visita conhecida pelos ocidentais. Entre esse período que nós falamos e o século XIII há um silêncio total, não sabemos nada. Depois deste tempo, o século XIII, que o reino do Congo-Angola cresceu. Esse reino era muito poderoso nesse momento particular (nessa época) . Esse reino era tão poderoso que era conhecido... era tão conhecido, que tinham livros escritos sobre esse reino. Vários professores universitários pesquisaram sobre esse reino, na Europa. Um deles chama-se Lopes, de Portugal; um outro chama-se George Balandier, da França, e George Balandier é um dos mais conhecidos dessa época da história do Congo, porque é dentro da pesquisa dele que nós encontramos (buscamos) as informações sobre o reino do Congo. Ele foi o primeiro europeu a reconhecer que o reino do Congo era tão poderoso, reconhecendo a existência de quatro universidades nesse local. Um deles foi conhecido como Instituto Lemba; o segundo conhecido como Instituto Kimpassi; o terceiro conhecido como Instituto Kikumbi, e o quarto, Instituto Welo (ou Uelo). Urna dessas universidades foi feita para o treino de mulheres. É muito importante insistir nesse fato. Por que essa existência de uma universidade prá mulheres? Porque o Congo acredita que a mulher é (ou está) mais perto de Deus. Porque a existência humana é impossível sem a presença da mulher. Esse reino do Congo, como era conhecido na época, é hoje conhecido com três nomes diferentes. O Ocidente descobriu a importância desse reino e não quis que este permanecesse unido, então dividiram esse espaço em três poderes: o sul deste reino foi para Portugal, conhecido hoje como Angola; o centro foi para a Bélgica, hoje conhecido como Zaire, ou República do Congo; o norte do reino foi dado para a França, e é conhecido também como República do Congo. Mais de 40% dos escravos trazidos para as américas vieram desta região particular. É bem infeliz para nós, porque o mercado de escravo destruiu totalmente este reino. Os maiores mestres que existiam nesse reino foram levados. Todos os jovens entre 15 e 25 anos também foram levados, e o pior, quando eles chegaram no Novo Mundo, por causa do tratamento que eles receberam, esses mestres... todos esses mestres que tinham esse conhecimento, tiveram que morrer. Eles morreram durante a travessia do Atlântico; quando chegaram na terra foram submetidos a trabalhos forçados, e os que não queriam se submeter tiveram que lutar. E como eles não tinham armas como os senhores, eles começaram a se organizar de maneira secreta Nessa medida eles começaram a entender os poderes que eles tinham adquirido na África E a mesma capoeira nasceu na América do Sul e no Brasil. Esta mesma prática existiu no norte da América Não conheci pelo mesmo nome. O ensinamento do que nós conhecemos como capoeira foi conhecido por outro nome, mais conhecido pelos seus aspectos de igreja, e se chamava mong. Então são esses dois nomes: capoeira e mong, o que era a capoeira no Congo-Angola Como eu disse mais cedo, Congo-Angola foi a terra da origem da capoeira, e então no caso o Brasil ter conhecido a capoeira não foi errado, não foi mal conduzido. Achou seu caminho. Temos que entender as crenças e a visão de mundo destes povos. O povo bantu acredita que existem quatro níveis na vida O início de tudo, que nós conhecemos como big bang, é o nível 1, ali embaixo, conhecido como mussoni. Depois do big bang veio o processo de resfriamento, o mundo foi solidificado, e temos o nosso planeta Terra. Esta aí é a etapa 2. É nesta etapa 2 que a vida começa no seu nível mais baixo. E aí vem a etapa 3 onde os animais começam a surgir. É na etapa 4 que os seres humanos surgeim (Anne: eu falei vida no 2, mas eu acredito que seja vida vegetal). Eaí a vida é (se) completa na face da Terra. É nesse esquema que o povo bantu-congo tem como bases os seus ensinamentos, e acreditam que nada na Terra foge dessa base, desse esquema. Biologicamente, nós somos concebidos na etapa 1, nascemos na etapa 2 , amadurecemos na etapa 3 e morremos na etapa 4. E esse processo continua através do Universo. E eles explicam porque a lua é nua para eles. A lua está nua nessa etapa, sem vida nenhuma, porque ela está na etapa 2. Nesse processo nós vamos também descobrir o que é a vida. Todos os ensinamentos seguem o mesmo esquema. O povo bantu, devido o ensinamento nessas quatro partes (etapas), tem um tempo que nós temos que entender a origem da vida, como a vida na Terra é concebida, e o que é o nascimento. O que é também ser maduro e um líder, e o que é morrer. Para os bantu, a morte não é o fim, porque a morte é um processo como qualquer outro processo, e porque é um processo eles veem como música. Nós nascemos sob música e morremos sob música, porque dentro de nós temos uma percussão que é o coração. Então os instrumentos que fazemos fora de nós são iguais, e é por isso que é importante para qualquer pessoa envolvida com capoeira. Para entender o conceito da música dentro da capoeira, esse candidato tem que entender que a música é o seu coração biológico. Vou tentar explicar isso com os slides. Para os bantu, especialmente os congo, viver é um processo emocional, de movimento. Viver é movimentar, e movimentar é aprender. Você avança, você se movimenta para trás, você se movimenta prá esquerda e você se movimenta para a direita, e essas são as quatro direções. Mas, tem mais três. Temos que aprender a se movimentar para cima, temos que movimentar para baixo. São as seis direções. Um candidato à capoeira deve descobrir a sétima direção. E essa direção é muito importante. Temos que entender que dançar e se movimentar é se movimentar dentro de um ovo. O capoeirista se movimentando tenta quebrar essa casca de ovo. O capoeirista (candidato a capoeira) é como um pintinho dentro do ovo, tentando quebrar a casca. Ele tenta bater prá cirna, bater prá esquerda, bater prá direita, bater pra frente, bater pra trás, bater pra baixo, mas a coisa mais importante é bater pra dentro (por dentro). É por isso que o capoeirista quando jogando, não pode perder o centro. É por isso que na vida temos que também ter essa consciência de não perder o centro para ter saúde e riqueza. O Movimento na vida é muito importante, e temos que descobrir o valor da vida Se você prestar atenção aqui, você tem um centro e temos essas direções. E eu falei que se movimentar é aprender. Os movimentos que você faz na capoeira é um movimento, e não é limitado a aula que você está aprendendo (no caso, aprendendo capoeira). É parte da sua própria vida. Você tem que conhecer pessoa fora. Você precisa encontrar (conhecer) as pessoas vivas e as pessoas mortas. Esse conceito não é muito conhecido no Ocidente, e por isso que o Ocidente não entendeu muito bem a cultura africana. Nós aprendemos mais com os mortos do que com os vivos. Isto é muito comum dentro do povo africano. Isto é ilustrado na maneira como os africanos respeitam os mortos. E é verdade também... mas eles não enxergam, não percebem nessa (ordem). Se você for em qualquer livraria, você vai ver mais livros escritos por mortos do que escritos por vivos. E os bantu falam: nós escutamos e aprendemos mais dos mortos. É por isso que os bantu falam: escutem mais os mortos que os vivos, porque os mortos se tornaram pedras, e os vivos são capim. Eles podem ser facilmente pisados, enquanto os mortos, que são pedras, não podem ser destruídos tão facilmente. Então isso aí é muito importante na nossa vida quando descobrimos a.....

Daniel Dawson: Alô. Eu acho que muitos de vocês já viram a apresentação de Dr. Fu-Kiau antes, mas certamente vocês podem ouvir isso novamente. Dr. Fu-Kiau é importante como pesquisador, como estudioso, e como um líder de tradição. Ele tem duas formações: uma formação em sistemas tradicionais africanos, tais como LEMBA, e várias outras. Ele também foi educado da forma ocidental. Ele é um doutor em Educação, e tem vários mestrados. Atualmente é o diretor do serviço de biblioteca numa prisão de Boston (USA), onde ele ensina cursos sobre cultura africana. Ele também foi um dos primeiros africanos a abrir um instituto dedicado à cultura africana, e muitos dos mais importantes estudiosos, como Robert F. Tompson..........aprenderam suas informações vindas dele. Pelo fato do Instituto dele ser dedicado ao registro e a discussão da cultura africana, ele é uma enciclopédia dessa cultura Nós deveríamos nos beneficiar de algum dos conhecimentos dele, hoje. Muito deste conhecimento vem do Instituto Lemba. Lemba foi importante em todas as Américas. É importante também no Candomblé de Angola porque existe um nkisi chamado Lemba; é importante no Haiti porque uma parte do seu vodum é chamado vodum Lemba; é importante também em Cuba. Então Lemba é uma das instituições mais importantes, e vocês vão poder ter contato com isso, porque não só ele é uma pessoa iniciada em Lemba, mas ele tem um estudo ocidental dedicado a isso, e tem o processo iniciatório. Também serão beneficiados pela tradução de Eneida. Dr. Fu-Kiau.

Dr. FU-KIAU: É um grande prazer prá mim estar aqui. Esta é a segunda vez, segundo dia que eu experiencio algo que me faz chorar. A primeira vez eu fui para uma celebração, e nessa particular celebração eu ouvi canções que não eram em português, mas canções que eram na minha língua. E aqui novamente, eu ouvi algumas canções, não em português, não em inglês, nenhuma outra língua européia, mas em minha língua e em iorubá. E uma dessas canções fez o meu coração bater tão rápido. Essa música era KALUUNGA KULUMUKA. Kalunga é uma palavra chave na religião congo. A palavra significa o oceano; também significa imensidão; significa também a energia maior que existe. É também a palavra que significa Deus. Então pra mim ouvir Kalunga Kulumuka, todo o meu corpo mudou. Eu vi os céus descendo entre nós. É uma pena que muitos não tenham essa mesma experiência em particular que eu tive. A segunda canção, foi a canção na qual os cantores estavam tentando enviar suas lágrimas como uma chuva, ao contrário do que acontece conosco quando ela vem dos céus. E depois dessas duas canções, eu disse pra mim, dentro de mim: "se eu tiver algum poder de falar aqui, talvez fosse apenas o fato de eu sentar e ouvir mais. Mas porque me foi pedido prá falar, eu tenho que dizer algumas coisas.

O Brasil, na minha experiência é o meu país. Porque, em qualquer outro lugar que eu for agora, eu vejo as pessoas retomando prá casa. Mesmo aqui, as canções, os tambores... da mesma forma que são tocados e cantados de volta na minha casa. Uma terceira canção que eu mencionaria aqui, que foi a canção... e nessa canção tem algumas palavras, na verdade são duas palavras, e essa canção foi NGOMA MALEMBE, que significa: "tambores toquem devagar, não nos acelere, não nos façam andar- rápido. Nós não vamos compreender suas vibrações". Essas são coisas profundas prá mim.

Eu tenho muito orgulho de ter sido permitido de visitar o Brasil, e eu agradeço a esta senhora chamada SIMBI VALDINA e Mestre Cobrinha. Sem eles eu não poderia estar aqui. Eles são as portas para que eu possa estar aqui. Nós estamos vivendo um tempo diferente agora. Por quatro ou cinco centenas de séculos nós estivemos separados. Nada nos separa agora: nem o oceano, nem a terra, nem inesmo as línguas. Nós somos um, hoje. E pelo fato de termos nós tornado um, nós temos que aprender uns dos outros. Eu vim aprender de vocês, e eu espero que vocês venham aprender de nós. O mundo tornou-se uma única vila (aldeia), uma vila global. E nessa vila, nós teremos as tendas (as barracas) dentro das quais teremos irmãos de sangue, pessoas brancas, pessoas amarelas, pessoas vermelhas e talvez pessoas verdes e amarelas [talvez em referência às cores das bandeirolas verdes e amarelas que decoram o Terreiro Catendê]... a gente ainda não sabe (Risos), porque o universo está se expandindo. Há apenas algumas semanas atrás um homem enviou uma máquina que aterrissou em Marte, e a gente sabe que as máquinas continuarão a ser enviadas para mais outros lugares, e que provavelmente nós encontraremos seres vivos nesses outros planetas. E esses seres também serão aceitos nessa vila global. Nós vamos aprender suas línguas e eles vão aprender as nossas línguas, mas primeiro precisamos encontrar o nosso círculo, a nossa fonte, como a nossa casa Na sua casa você está seguro e você está protegido. Sem o seu próprio centro, sem a sua casa, você não pode está seguro. Você vai estar sempre com medo em qualquer lugar que você esteja. Lá fora, e mesmo dentro do prédio mais bonito. Se você não tem o seu centro dentro desse edifício, você não vai estar seguro. É importante para nós, povo africano, descobrir as nossas próprias raízes. Essas raízes, não necessariamente têm que ser encontradas na África. Existem muitas coisa que estão neste momento faltando na África, da mesma forma que muitas coisas estão faltando no Novo Mundo, pelo lato de que houve um tempo em que muitos Estados na África foram destruídos pelo tráfico de escravos. A maioria dos maiores mestres que existiam realmente naqueles países foram aniquilados. Eles foram capturados e transformados em escravos. Muitos poucos dentre eles chegaram a alcançar o Mundo Novo, e muitos morreram nessa travessia do oceano; e como tal, muitos conhecimentos da África foram tomados, levados da África. É por isso que nós precisamos nos reunir, porque uma parte desse conhecimento var ser encontrado no Mundo Novo [a imagem do caleidoscópio: pedaços que se espalham formando novas configurações se, contudo, perder- o colorido, ou a beleza], e uma outra parte será encontrada no Mundo Antigo, na África. Eu escutei muitas palavras nesse país, que são canções que não existem mais na África hoje, e que nós sabemos que são canções Lemba. E eu sei que são canções Lemba porque eu sou um iniciado Lemba. Quando eu era jovem eu não conhecia essas canções, mas quando eu fui iniciado eu aprendi essas canções. E quando eu cheguei no Mundo Novo, eu encontrei essas mesmas canções, e as palavras chaves mais importantes nos ensinamentos da África, são encontradas aqui também. A minha conversa com vocês vai abarcar muitas coisas, e urna delas será a visão de mundo do bantu; como é que o bantu vê o seu mundo. É muito importante você compreender esse mundo bantu. A palavra bantu foi introduzida no Mundo Novo através de estudos antropológicos, e como tal esta palavra é mal-compreendida. BANTU significa, em primeiro lugar, pessoa. E esse é o plural. O singular disto é MUNIU. Então o bantu, ele não é aperras encontrado na África Eu sou um MUNTU, e vocês todos são bantu. Existe um ditado, quando os homens brancos entraram na África, na área bantu, em todos os lugares ouviam estas palavras: muntu e bantu. Aí o homem branco disse: ah! eles são bantu. E quando os homens bantu descobriram que os homens brancos estavam chamando eles de bantu, eles ficaram surpreendidos e disseram: Bom, se nós somos bantu, então vocês não são bantu. Então nós podemos lhes colocar em qualquer categoria que nós quisermos. Em animais, em árvores, em pássaros, ou até mesmo vocês podem ser uma terra Mesmo assim esse erro foi cometido e a gente não consegue corrigir isso hoje. Mas nós fazemos, precisamos descobrir o centro de nós. E nós podemos ir a qualquer lugar se nós protegemos o nosso centro. Nos tornamos hoje em dia mais doentes porquê estamos perdendo o nosso centro, porquê geralmente as pessoas fora se sentem desprotegidas. Sentem medo quando saem de casa, e protegidas quando estão dentro de casa. Seu poder interior é a chave da sua extensão fora. Nós não podemos ter medo se acaso a capoeira está se expandindo, tão longe, enquanto estiver ligado ao centro.

Mestre Acordeon: Muito obrigado Dr. Fu-Kiau, é uma analogia muito bonita. Acredito que a música é: ai ai Aidê

FIM DO LADO A

FITA 3 : LADO A

* Palestra do Dr. FU-KIAU no Terreiro Catendê. Festa de TEEMPO Salvador, 17/08/97

Macota Valdina Pinto: ... é da cultura bantu, e dar à ela o lugar que ela merece , ao lado da cultura iorubá e da cultura ewê-ewê fon. Entre nós, a cultura tem sido deixada, tem sido transmitida através da oralidade, quando nós nos iniciamos num terreiro. E nós aprendemos com os mais velhos, através dos exemplos, através das repetições, através da participação, traços de culturas tradicionais. O jeito como nós fazemos aqui no Brasil, pode estar distante da África tradicional, mas é o que nos liga e o que nos dá identidade africana, é o que nos é passado através da religião. Então, uma língua africana que foi impedida de se falar, o nome, que dá identidade a um ser humano, e que também foi proibido de se ter, nós resgatamos no candomblé. Então, o candomblé é muito mais do que uma religião pra nós. O candomblé é o espaço onde a gente afirma, onde a gente resgata uma identidade que nos foi tirada. Eu acho que é muito mais... não sei se Mutá, mas muito mais nós estamos aqui hoje prá aprender com nganga Fu-Kiau. Pra mim representa minha ancestralidade aqui presente, e eu estou aqui mais para beber as palavras de Fu-Kiau.

FITA 1 : LADO B

Dr. FU-KIAU: Se você encontrar um ainigo que você não viu há dez anos, o que você faz? Dá uni abraço. Essa aí é a chave da vida. Quando nós encontramos amigos forníamos um V(<), para cumprimentá-lo. Isso significa que a pessoa que você vai encontrar também vai formar um V(>). Então as duas juntas formam um diamante ( <> ). Cada um leva a sua energia paia o centro do diamante, e se tornam um. Hoje a América não é mais só. Tampouco a África. Nos tornamos um, porque nós nos encontramos. Ou pela comida que nós comemos; ou então viajando; ou nos livros que lemos da África e da América; ou porque nos encontramos numa festa... nos tornamos Um. Esta forma (formato), na vida, é a chave principal para a vida e para viver. Temos que tentar viver para formarmos esta forma de diamante. Se podemos tentar proteger esta forma na nossa vida, teremos a capacidade para criar, para formar uma família forte, porque isto aqui é a chave de qualquer casamento. Quem entende essa forma vai conhecer a formação da sociedade africana. Dentro dessa forma temos dois "i" (a letra i). Um i é fêmea e o outro i é macho. Esses dois formam um casamento. Esses dois i criam o nascimento para outros i. Quando um i é nascido desses dois i, temos que ter muito cuidado. Não imporia o que aconteceu, não leva a sua briga para esse terceiro i, porque a vida desse terceiro i depende dos dois primeiros. É importante, como estudantes de capoeira para entender verdadeiramente que um capoeirista é um ser humano dentro de um ovo. Temos que saber como se movimentar. Então não teremos que usar um martelo para quebrar a casca, porque você é poderoso. Você pode não saber disso, mas o poder tá dentro de você. Como capoeirista, pode destruir facilmente se usado de maneira errada. Mas, o poder dentro de você, como capoeirista, se usado de maneira apropriada, você pode construir muito mais do que você acha. Precisamos dessa energia hoje para poder construir uma nova aldeia, uma aldeia global, aonde todo mundo vai (boiar), cada um dentro do seu próprio ovo, sem quebrá-lo, por outros ... (Inaudível) a menos que nós queiramos. Como eu disse, esta foi uma palestra breve... falei demais? Se for o caso eu paro aqui. Se tiverem alguma pergunta, podemos respondê-la aqui ou fora. Muito obrigado. .APLAUSOS.

Cobrinha: O Daniel vai apresentar o Dr. Fu-Kiau.

Daniel Dawlson: O Dr. Fu-Kiau é um tipo raio de estudioso. Ele nasceu em Manianga, Zaire, hoje República do Congo. É um local muito importante para as tradições do Congo. Dr. Fu-Kiau também tem duas educações. Ele tem o doutorado numa universidade ocidental, mas também ele foi educado nos ensinamentos tradicionais africanos. Ele foi iniciado em três academias diferentes, na África. Um que um dos mais importantes capoeiristas cantou sobre. O nome desse local é Lemba. É um local muito importante na África para o conhecimento tradicional. Muito desse material (ensinamentos) que nós vemos agora vem desse... Lemba. Ensinamento Lemba. Ele foi também um dos primeiros africanos a abrir um instituto na África, em 1963, para coletar informações sobre culturas tradicionais na África. Foi a primeira instituição criada por um africano. Muitos destes estudiosos jovens, aprendem destas instituições...

Cobrinha: Muitos destes estudiosos jovens aprenderam sobre cultura tradicional através deste instituto, desse material coletado.

Daniel Dawlson: Ele escreveu seis livros. Ele é considerado escritor predominante sobre a cultura congo. Obrigado.

DEBATE

Mestre Acordeon: Em primeiro lugar, parabéns Dr. Fu-Kiau, aprendi bastante. Obrigado pela palestra, nós temos sempre que aprender, mas eu gostaria de fazer também alguns comentários. Quero pedir a permissão dele, com todo respeito que faço, não somente por ele, pela palestra dele, como também pelo conhecimento que ele tem. Eu tenho morado nos Estados Unidos por 18 anos, e tenho a oportunidade de intervir de alguma forma como nós apresentamos, nós estudamos alguns desses aspectos que se relaciona com a nossa cultura. No específico da capoeira, durante esse tempo nos Estados Unidos, eu recolhi muitas teses de doutorado, de mestrado... eu tenho examinado por algum tempo, e naturalmente capoeira é importante, porque é uma arte africana em essência, e interessa a muita gente, mas eu tenho dificuldades em alguns aspectos. A capoeira tem uma história longa no Brasil, não somente através da tradição oral como também através de registros escritos. Eu tenho examinado que existe uma tendência, nos Estados Unidos, dessas teses, desses trabalhos destes estudiosos, de se classificar a capoeira dentro de uma perspectiva que não leva em consideração essa trajetória histórica da capoeira no Brasil. A maioria desses trabalhos, dessas pessoas, que escrevem, que falam, que estudam capoeira, não conhecem suficientemente da língua portuguesa para examinar essa literatura que nós temos, nem a nossa história. Então o pessoal se baseia dentro da literatura, em inglês, sobre artes africanas, sobre história africana, sobre rituais africanos. Eu acredito que o estudo desta literatura sobre temas africanos, sobre as artes africanas, filosofia e tudo o mais, é de fundamental importância para nós entendermos a... brasileira, para nós entendermos a nossa herança cultural africana, mas na verdade, estes estudos não explicam... Através de a capoeira se apresentou de forma diferente, e foi uma questão de sobrevivência da capoeira (>>>>) Então eu pergunto: quanto válido é se aplicar o modelo africano que nós levantamos através do estudo, da literatura e do material desta ...sobre capoeira que é uma arte essencialmente africana, em termos de elementos foimativos, mas que através do tempo mudou tanto, se apresentou com tanta roupagem, se nós já reconhecemos, já registramos, existe, está na literatura, só que não é disponível para (inaudível). Então eu perguntei pro Dr. Fu-Kiau qual é a validade de se aplicar genérico de uma arte, de forma tão mutável, porquê a meu ver é (me esqueci do termo em português...) um erro metodológico de pesquisas, de trabalhos em termos de estudos antropológicos, em termos de deduções analíticas...

Dr. Fu-Kiau: Sua questão é muito importante. É uma semente viva que você tá jogando aí. É muito difícil responder esta pergunta, só se Makindê estivesse aqui... o que é uma coisa muito difícil... Mas eu vou tentar responder o que pode fazer parte da minha resposta Porque minha resposta não vai ter só uma parte, não vai se resumir em uma parte só. Alguém aqui está com seu filho ou filha aqui? (....) Isto aí é muito importante, isto aí é que é uma das coisas que eu encontrei em toda a minha vida nos Estados Unidos. Na África, nenhum ensinamento vai ocorrer sem a presença das crianças, porque as crianças são nosso futuro.(....) Esta aí é Vera, e Vera é parte de Gabriel. Gabriel não pode ser sem Vera. Ela até que poderia ter tido este filho com um homem que não visse mais. Talvez o pai não fosse nem reconhecer o filho. Mas este homem, não importa aonde ele esteja, este homem tem uma ligação com Gabriel. Ele aceite esta ligação ou não, ele é parte de Gabriel. Como tal, ele é ligado a Vera. Gabriel não será uma semente inteira dentro da comunidade, sem estas duas forças, estes dois V's, protegendo Gabriel. Eles podem ser separados, mas eles têm as responsabilidades para proteger Gabriel. Este aí é o processo de passar o conhecimento. Temos que reconhecer a fonte, porque todas as fontes são sementes, e todas as sementes podem se tornar árvores. Não importa como são os galhos. Estes galhos têm que ser alimentados pelas raízes do tronco, porque eles são parte desta semente. Essas galhos podem ser grandes e bonitos.


Os Arcos Musicais


Em várias partes do continente africano, a cabaça é considerada como um dos instrumentos musicais mais antigos. 

Dizem que os instrumentos de sopro representam nossa mente, os percussivos, os membros e os de corda, o coração. Entretanto, na África, existe um quarto tipo de instrumento, os instrumentos corporais ou naturais, que representam o corpo inteiro. Assim são os arcos musicais ... 
Uma cabaça, um pedaço de arame e um pedaço de pau. Tão simples assim são os arcos musicais. De uns tempos pra cá venho me encantando profundamente por estes seres sonoros. Tanto por sua ressonância marcante e vibrante, que mexe lá no fundo da alma, quanto por suas conexões com a essência/resistência da força feminina no mundo. 
Foi através do mestre Cobra Mansa que vim a conhecer um pouco mais sobre. Quando ele mostrou um video de Madosini Mpahleni tocando seu "Umrhubhe" com a cabaça bem perto do coração, em um encontro de arcos musicais na África do Sul,  eu senti que nunca tinha visto um instrumento como aquele, que parecia que tinha sido feito pro corpo da mulher tocar. 
A Mestra Xhosa Madosini e seu Umrhubhe
Cobra Mansa e Madosini na África do Sul
Na África, dentre os tantos nomes e formas que recebe, estão os arcos chamados "mungongo" (da África Central), o "hungu" e o "m´bulumbumba" (de Angola), os "Ugubhu" e o "Uhadi" (África do Sul), entre outros. 
Madosini, uma mulher amagaba da tribo vermelho, Xhosa, diz que "os arcos musicais foram uma revelação de Deus para fazerem as pessoas se sentirem mais felizes. Os Umrhubhe (arcos musicais) são um instrumento feito para mulheres. As garotas AmaXhosa crescem fazendo som, antes elas não iam à escola. Sua escola eram o arcos musicais". Madosini diz que "Os arcos não concordavam em serem seguidos por muitas pessoas já que eles tinham voz tranquila, mas podiam ser tocados junto com outros instrumentos" (...) Uma mulher analfabeta, que nunca frequentou a escola, durante a entrevista Madosini aponta para seu  Umrhubhe e diz "Eu frequentei essa escola aqui. Foi esse arco que me ensinou sobre a vida. Esse era o nosso divertimento. Ensinava boas maneiras para as pessoas, te dizia "É assim que você deve segurar seu arco Umrhubhe quando você se encontra com uma pessoa mais velha: Molo Tata, Molo Mama (Ei Pai, Ei Mãe). Não ignorar quando seu pai ou sua mãe estiverem por perto". "Eu mesma fiz este Umrhubhe. Eu mesma cortei essa madeira."
Em sua tese/pesquisa chamada "Entre Gungas e Kalungas", o angolano Aristóteles Kandimba afirma que "existe um fato que goza certa autoridade, sendo que quando se pesquisa o berimbau africano, seja ele de que nome, origem ou tamanho for: é impossível ignorar que o gênero feminino desempenha um papel extremamente considerável em relação aos arcos musicais". Segue seu texto dizendo que "a mulher africana, apesar de viver em constante normas estritas e rigorosas, entre elas as responsabilidades matriarcais, no último centenário foi a que mais fortificou a presença e a popularização do berimbau africano para a platéia continental e internacional".
Foi então que tomei conhecimento de que o que senti intuitivamente quando ouvi Madosini tocando seu arco era certeiro: os "arcos musicais são uma parte integral da contemplação feminina da poética emocional das relações entre indivíduos, sociedade, estado". 
O arco musical era comumente usado para adivinhações. "Nosinothi Dumiso adoeceu e ficou cega de um olho. Isso foi interpretado como uma chamada dos ancestrais para ela se tornar uma adivinha (thwasa). O jeito que ela encontrou de se tornar uma médium foi começar a tocar o "uhdi" (arco musical). 
A. Kandimba (professor Totti Angola) em seu texto "Entre Gungas e Kalungas: A ancestralidade do Berimbau" diz que "através do som melódico e hipnotizante do instrumento de uma corda só, orgulhosamente canta-se cantigas de centenas de anos atrás, transmitidas pelos seus antepassados. Canções que contam estórias das glórias dos seus povos, sobre a felicidade, a tristeza, o amor, o ódio, a paixão, a traição, casamento e cantigas infantis. Não somente a mulher é tradicionalmente considerada a base da família, mas também compõe, canta e constrói os próprios instrumentos que toca."
Assim, os arcos musicais vieram da África para o Brasil. Aqui, casou-se com o caxixi e transformou-se em berimbau.  
Celebrando o mês da mulher, inspirada pelo movimento essencial de capoeira angola que finalmente está rolando entre Ouro Preto e Mariana, aqui venho oferecer esse texto a todas as mulheres capoeiristas do mundo. 
Que possamos cada vez mais conhecer e nos aprofundarmos na matriz de nossas manifestações culturais. Que nos inspiremos cada vez mais a tocar o berimbau com consciência de sua força verdadeira. 
Que nos inspire a cuidar cada vez mais dessa nossa herança, é ancestralidade que vem sendo transmitida pela humanidade e é medicina pra todos nós.


           
  

  H U N G U

            

FONTES:
http://www.afribeat.com/education/music/easterncape/easterncape.htm
http://kandimbafilms.blogspot.com.br/
A capoeira e o frevo:

Capoeira & Frevo
Alguma vez já passou por sua cabeça que o frevo e a capoeira têm alguma coisa em comum?
O frevo nasceu entre o final do século XIX e início do século XX, em Recife e Olinda (Pernambuco), época em que a capoeira foi proibida na região, vista como uma prática marginal, como mostra o recorte de uma publicação da época do Diário de Pernambuco (edição de 15 de dezembro de 1864), em que se transcreve um ofício do coronel comandante das armas:
"Pelo reprovado costume adotado pelos escravos nesta cidade, de acompanharem as músicas militares, dando a uma ou a outra vivas e morras, apareceram desagradáveis conflitos e isto há muito. Ontem, o partidista de uma dessas músicas - Melquíades - preto, escravo, deu, no meio dos gritos de um e outro lado, uma facada no pardo, também escravo Elias, dizendo-se ser o ofensor partidista de uma das músicas e ofensor de outra." 
De origem afrobrasileira, como não poderia deixar de ser, essa riquíssima manifestação surgiu do encontro da música com a dança nas comemorações carnavalescas. Era antes um ritmo musical, fusão entre maxixes, dobrados e as clássicas marchinhas. Era quente, botava o povo para ferver, "frever":
"Efervecência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direções opostas como pelo Carnaval" (recorte do livro "Vocabulário Pernambucano", de Pereira da Costa) 


Vocabulário Pernambucano
Pedro Abib, em seu texto "Festa, Capoeira, Frevo e Samba" diz que: "O frevo, que ao que tudo indica, surgiu a partir dos blocos carnavalescos do Recife e Olinda, no início do século XX, onde a rivalidade entre essas agremiações, fazia com que houvesse o enfrentamento entre elas, quando os caminhos se cruzavam durante a festa. Por isso, a necessidade de haver valentões dispostos a esses enfrentamentos – geralmente capoeiristas, que iam à frente desses cordões e, ao som das orquestras de metais e percussão, evoluíam com seus passos ágeis e coreografias bem desenhadas, dando origem à essa dança tão popular no carnaval de Recife e Olinda."
Durante os desfiles de carnaval, era costume que capoeiristas abrissem o caminho para que a bandinha instrumental passasse entre os foliões. Daí que vários golpes de capoeira foram incorporados na dança, que é uma das mais complexas que tenho notícias no Brasil, e possui mais de cem passos, sendo necessário bastante condicionamento físico e habilidade para ser executada. Os mais conhecidos destes Rabo de Arraia, Locomotiva, Dobradiça, Fogareiro, Capoeira, Tesoura, Mola, Ferrolho e Parafuso.
Outro elemento estético do atual frevo que teve sua origem na capoeiragem, foram as sombrinhas que outrora eram velhos guarda-chuvas rasgados, usados pelos capoeiristas como arma de ataque e defesa, já que a prática da capoeira estava proibida. Com o passar do tempo, os guarda.chuvas foram se transformando em pequenas sombrinhas coloridas.
Junior Viegas, professor no Paço do Frevo e da Escola Municipal de Frevo Maestro Fernando Borges, conta em entrevista realizada pelo "Diário de Pernambuco" que "o início do frevo se confunde com o uso das sombrinhas, antes usadas em tamanho natural durante as evoluções. A sombrinha começou a ser usada pelos 'capoeiras', homens que acompanhavam as saídas das bandas militares no carnaval do Recife no fim do século 19. Esses objetos eram usados como arma de ataque e defesa e o frevo, como dança, surgiu a partir desses homens pobres e taxados de violentos. Os foliões começaram a imitar os movimentos dos capoeiras, que abriam caminho para as bandas e enganavam a polícia com seus passos. Dessa forma, surgiram os princípios do frevo”.
Hoje em dia o frevo é considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade, pela Unesco, tornou-se símbolo da folia pernambucana. 
Mas é muito importante olharmos para suas origens para perceber que nem sempre foi uma dança de pessoas com roupas brilhantes e sombrinhas coloridas. Sua origem foi liminar. Foi resistência e necessidade de extravasar uma vida de exclusão e marginalidade do povo negro, do povo da capoeira.
Capoeira é dança, é luta, é arma de empoderamento e resistência. Sua história se desenhou pelo Brasil afora, contribuindo para transformação e a construção da identidade de cada região do país.
Ainda hoje existem rodas de capoeira e frevo em Pernambuco, um dos estados mais importantes para a capoeiragem brasileira.

O que tocar a gente freva!
            

FONTES:

http://portalcapoeira.com/capoeira/cronicas-da-capoeiragem/festa-capoeira-frevo-e-samba
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2014/11/26/internas_viver,545255/capoeira-se-une-ao-frevo-e-agora-tambem-e-patrimonio-cultural-imaterial-da-humanidade.shtml
http://centroculturaldecapoeiracorpolivre.blogspot.com.br/2014/02/a-relacao-do-frevo-com-capoeira_28.html
http://canalcurta.tv.br/pt/filme/?name=frevo_e_capoeira
http://www.infoescola.com/danca/frevo/
http://portalcapoeira.com/capoeira/publicacoes-e-artigos/capoeira-a-frevo-savate-e-mestre-artur-emidio
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&id=442