Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de outubro de 2018

Roda Bakongo no Festeco

Roda Bakongo no Festeco 2018 (Festival de Teatro Comunitario)

                                    
pela libertação da mentalidade escravocrata e colonizada do povo brasileiro ... é preciso reconectar-se com raízes talhadas e interrompidas, com ancestralidade que conecta passado, presente e futuro e por isso é algo que se constrói no aki e no agora, no movimento. É preciso respeitar a sagrada natureza que habita no mundo e em nós mesmos ... Das palavras de Fu Ki.Au: "O mundo natural é o mais seguro e rico laboratório da raça humana. É um laboratório sem paredes, que os Bântu continuam a descobrir desde a sua mais tenra idade. O processo fundamental de aprendizagem para os jovens Bântu tem lugar dentro desses laboratórios sem paredes. As pessoas andam dentro deles silenciosamente, por causa da sua sacralidade, e elas ficam de pé ali assim como diante de monumentos.
O homem do remédio (ngânga), curador da comunidade, gasta maior parte do seu tempo dentro desse templos vivos, bibliotecas e laboratórios para “estudar” e coletar o remédio da comunidade. Para cada remédio ele canta uma cantiga com detalhes de como e quando o remédio é preparado e usado. Da mesma maneira, seus/suas seguidores (as) ­ bâna, literalmente “crianças”, aqueles a tornarem­se futuros ngânga, repetirão ­ kumbu lula aquelas mesmas cantigas de remédio, bem como as suas próprias. Cantar os remédios corretamente e perfeitamente é um método popular para manter a receita do medicamento e é uma das mais importantes responsabilidades de um m’buki ­ curador entre os Bântu. A arte de “cantar os remédios” é vista também como uma rotina diária espiritualmente sagrada do nganga."
atravessando a linha de kalunga, a roda bakongo no Festeco (festival de teatro comunitario).



quinta-feira, 19 de abril de 2018

Joab Jo Malungo



"Tentam diasporar nosso corpo, mas nosso corpo não pode ser diasporado. 
O Corpo não é o corpo. Só não existe. 
O pinote não é só pinote. O pinote é o pinote.
A capoeira não é só pinote. Não é só pulo. A capoeira pensa."
O corpo é o que não nos deixa perder de nos mesmo.
A gente nao perde o corpo nunca.
A colonização tentou nos separar de nosso próprio corpo." (Joab Jo)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lila - Derdeba : Cosmogonia Gnaoua

Os Gnaouas são o povo que descende de negros da África Ocidental, levados para trabalhar como escravos no norte do Sahara, para dar suporte ao Império Almohade, trabalhando no exército e na construção de edifícios e fortificações.

Muitos se instalaram no Marrocos, onde seus descendentes ainda hoje mantêm as tradições gnaoua, que se fundiram com práticas islâmicas sufistas e beribéris, mantendo parte de suas práticas animistas. Essaouira, cidade portuária marroquina possui a mais importante reunião de músicos Gnaouas de todo o Marrocos, com relevante visibilidade artística e agenda cultural; em sua décima quinta edição, também sedia o Festival de Gnaoua e Músicas do Mundo (ver http://www.festival-gnaoua.net/fr/).

Mulher em transe, durante ritual Gnaoua
Os gnaouas possuem um ritual místico de transe (chamado de "Lila" - que em árabe quer dizer noite - ou "Derdeba") onde a música é o principal elemento de união de seus adeptos com suas divindades.

Durante toda a noite, ao som do guembre (baixo acústico de madeira) e dos krakabs  (castanholas de ferro), os músicos cantam e invocam mluks (as entidades sobrenaturais).

A dança de transe , os aromas especiais e o uso da simbologia das cores fazem desse ritual uma sessão terapêutica que cura a alma e o corpo dos participantes.

Uma Derdeba (a LILA) dura uma noite, desde o pôr do sol até o amanhecer. Há lilas de três ou SETE dias, dependendo da intenção do encontro, se é um mussem (peregrinação) ou se a Lila se fará em uma Zaouia ( templo de santo). As lilas de adeptos comuns dura uma noite, e as Lilas de videntes ou mestres (mokdema,  mokdem ou maalems) são mais intensas. É um ritual de transformação, é a passagem da vida pela morte, e a volta pela ressureição.

Um Maalem . Djeli . Jeli . Griot . Gnaoua

Geralmente o mestre da cerimônia faz um sacrifício, de um bode preto, ou galinhas: este é o sangue oferecido às entidades. Além do sangue, cada entidade pede uma comida, um elemento, um insenso, uma cor (os adeptos dançam  em transe com suas cabeças cobertas por um tecido da cor correspondente a sua entidade).

Os músicos chegam cedo, tomam chá, conversam, ajudam no sacrifício de um animal (às vezes o sacrifício deve ser feito um dia antes). A vidente toma o primeiro sangue derramado do sacrifício, é um sangue puro e cheio de magia. Depois deste primeiro sangue, tomado pela mokdema (vidente) o resto do sangue é impuro, e pertence à terra.
Há quem prepare a carne do sacrifício para o jantar, e há quem descarta essa carne (normalmente galinhas são descartadas). As cozinheiras preparam o jantar, que é servido entre dez e onze da noite. 
Antes disso, todos cantam, tomam chá com biscoitos, e esperam, esperam, esperam. Até antes do jantar, nada é completamente sagrado, tudo é um pouco profano. Muitos dizem que os espiritos só chegam quando sentem o perfume dos incensos (bror).  

A partir de meia-noite, o Maalem (o mestre) chama os muluks (entidades).

A Lila Gnaoua, ou Derdeba,  está dividida em três partes:

1-    Aada – Os tambores tocam para chamar os espíritos na porta da casa onde se fará a cerimônia. Cantam “ Al Efô”, o canto do sacrifício, do defloramento, da penetraçao.
2-    Uqba- O jogo de maos. Parte feminina, todos batem palmas, e chamam todos os santos. Bater palmas é a representaçao da vida, do início, quando o ferro ainda nao existia. Por esta razao, os musicos utilizam as palmas, e nao os krakabs (castanholas de ferro): unem a mao direita(a vida) e a esquerda(representando a morte) e cantam os 99 nomes de Alla.
3-    Meksa – o ferro, o sacrifício. Os músicos começam entao a utilizar os krakabs, o ferro alquímico do sacrifício. A Lila é um ritual de morte e ressureiçao, onde o adepto passa pela vida, morte, e renascimento. A Lila é a Transformaçao. A Aada é muito especial, na porta da casa, é um convite. É a chamada dos espiritos, é o início. As mulhes seguram velas, que iluminam o início do ritual. O incenso perfuma a rua, e todos os presentes.Todos tomam uma colherada de leite (o sopro da vida, o esperma que fecunda) e comem uma tâmara (representa o sangue, o sacrifício). Os tambores vibram de maneira especial: os corações batem ao ritmo deles!! As pernas tremem, o corpo vibra, algumas pessoas sentem escalafrios. Antes de chamarem as entidades para o transe(mluk), escutamos as canções profanas, de Kuyu, quando os músicos cantam e dançam fazendo acrobacias.

É comum também, após este momento, que um gnaoui comece a invocar a Alla pela saúde dos adeptos, neste momento, cada um que deseje, dá um baraka (uma oferenda, dinheiro) para os músicos. A baraka te dá prosperidade, saúde.

Muitos doentes chegam às Lilas. Para curar-se com o transe, ou apenas para estar presente no ritual, já é uma forma de abençoar-se.

A Lila é terapêutica. A maioria dos adeptos são as mulheres, que vêm em busca um momento de transe, de cura, de fertilidade, de milagres para suas famílias. As mulheres colocam suas melhores roupas, e seguramente investem dinheiro no momento da baraka. Depois deste momento, de doação de dinheiro, de pedir a cura, vem a pausa do café ou chá.
Os músicos entram numa sala preparada só para eles. Quando voltam, acendem a brasa do salaban (um pote com carvão em brasa) e jogam pedras de incenso. Os muluks serão chamados. Há uma sequencia de cores para chamar as entidades, dependendo da cidade ou região do Marrocos.

Quase todos os lugares, começam pelo branco. Existem três cores fundamentais em uma lila: BRANCO: A vida, a espuma, o esperma, a paz, o início. VERMELHO: O sangue, o sacrifício, o casamento, o sexo, a penetração, a violência, o fogo. PRETO: O fim, o vazio, a morte, a escuridão, o tenebroso. Tudo é NEGRO em origem, e se torna branco quando se exterioriza. Sabemos que o branco é a mistura das cores do prisma... 

A Lila segue esta lei, é uma representação cosmogônica, é a dança das sete cores do universo. 

É o início, o meio e o fim.