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terça-feira, 20 de março de 2018

A visão Bantu Kongo da sacralidade do Mundo Natural. Por Kimbwandende Kia Bunseki Fu­Kiau. Tradução portuguesa por Valdina O. Pinto

A visão Bakonga do Mundo Natural. Por Bunseki Fu Kiau . Tradução Makota Valdina
O mundo natural para o povo Bântu, é a totalidade de totalidades amarradas acima como um pacote (futu) por Kalunga, a energia superior e mais completa, dentro e em volta de cada coisa no interior do universo ( luyalungunu). Nossa Terra, o “pacote de essências/medicamentos” (futu dia n’kisi) para a vida na Terra, é parte dessa totalidade de totalidades. É vida. É o que é, visível e invisível. É a ligação do todo em um através do processo de vida e viver ( dingo­dingo dia môyo ye zinga). É o que nós somos porque nós somos uma parte disso. É o que mantém cada coisa na Terra e no Universo em seu lugar.
O conceito Bântu­Kôngo da sacralidade do mundo natural é simples e claro. Tem­se que deixá­ los definir o nosso planeta com suas próprias palavras: “Aos olhos do povo Africano, especialmente aqueles em contato com os ensinamentos das antigas escolas Africanas, a Terra, nosso planeta, é futu dia n’kisi diakânga Kalûnga mu diâmbu dia môyo ­ um sachet (pacote) de essências/remédios amarrados por Kalûnga com intenção de vida na Terra. Esse futu ou funda contém cada coisa que a vida precisa para sua sobrevivência: essências/remédios ( n’kisi / bilongo), comida (madia), bebida (ndwînu)”, etc1.
O mundo natural é o que nós vemos, tocamos, sentimos, saboreamos e ouvimos e ainda assim nós não podemos alcançar o significado em sua totalidade. É o mistério de todos os mistérios. É o cerne do que é espiritual e sagrado. É ligar e desligar (Kala ye Zima ) de todas as coisas, i.é., Nkingu Kibeni Wangudi Wa Kinenga mu biobio (a chave princípio de equilíbrio em tudo).
Todas essas coisas, de acordo com o conceito Bântu de sacralidade são seres (Kadi), com ou sem expressão, com ou sem poder de locomoção.
O povo Bântu, Kôngo e Luba, entre eles, aceitam o mundo natural como sagrado em sua totalidade porque, através dele, eles vêem refletida a grandeza de Kalûnga. A energia superior de vida, aquele que é inteiramente completo (lunga) por si próprio. Assim, quando um Mûntu (ser humano) vê um minúsculo cristal (ngêngele) ele/ela vê nele, não só sua sacralidade, mas também a presença divina de Kalûnga.
Além da atenção e admiração dadas a montanhas, vales, ao vento, ao céu e às mudanças do ciclo natural, o Mûntu dá especial atenção ao mundo da floresta porque, como se diz, “Mfinda Kasuka tufukidi”­ nós perecemos se as florestas são extintas. Por causa dessa visão popular entre os Bântu, o próprio ato de entrar na floresta torna­se um ritual sagrado.
Antes de alguém entrar na floresta deve preparar­se ritualmente, porque ir para dentro da floresta é entrar numa das mais ricas e bem documentadas bibliotecas vivas na Terra. Em seu leito e abaixo vivem centenas e centenas de criaturas, grandes e pequenas, visíveis e invisíveis, fracas e poderosas, amigáveis e hostís, conhecidas e desconhecidas. Em seu interior correm, serpenteando, rios dentro dos quais nadam multidões de peixes. E acima de suas folhagens podem­se ouvir sons e melodias de todos os tipos. Todas essas “coisas”, dentro da floresta, constituem assuntos de aprendizagens para Mûntu, das quais ele coleta dados que ele pode “engavetar” em sua memória para uso futuro. Esse é o processo de construir conhecimento ­ nzailu.
Por causa dos aspectos de hostilidade presentes na floresta, o Mûntu deve proteger­se antes de entrar na floresta. Para isso, ele algumas vezes tem que imunizar seu corpo ­kândika nitu antes de deixar a aldeia, especialmente durante a estação de caça.
O processo nkandukulu a nitu­ imunização do corpo consiste em esfregar preparação medicinal no corpo, introduzir algo no corpo através de pequenas incisões na pele ou através da boca. Até mesmo os cães de caça passam por esse processo e são imunizados antes deles serem conduzidos para dentro do mato.
Adentrar uma floresta familiar é percebido como andar nos passos dos ancestrais. É descobrir o que eles conheceram transmitiram para nós, mas também encontrar saída onde eles deixaram fechado de modo que possamos caminhar em direção as mais descobertas para as necessidades de nossas gerações e aquelas das gerações futuras. Porém lá é mais que isso.
Andar na mata durante a iniciação, é revisitar Makulu 2, onde cada coisa é possível de ser encontrada ­ Digamos aqui antes do trecho, que estudiosos Kôngo modernos estão usando este termo, makulu, nas suas conversações para significar biblioteca. Bem, não são as bibliotecas do mundo, coleções, em grandes parte, dos trabalhos dos mortos (bakulu), os ancestrais? Não é humanidade constituída por mais mortos do que vivos?
A revisita de makula tem um grande impacto na mente de ngudi­a­ngânga (mestre iniciadores) e seus seguidores (lândi) intelectualmente bem como espiritualmente. O processo em si mesmo é chamado “Mokina ye bafwa”­ conversar com o morto3.

Isso é, sumariamente:

.Reunião com os ancestrais, i.e., com a presença de sua energia (ngolo minienie miâu).

.Viver a experiência do tempo, como hoje é vivida bem como foi vivida no passado e como deve ser vivida no futuro.
.Andar no passado seguindo Kini Kia bakulu (a sombra dos ancestrais).
.Rever o laço da comunidade bio­genética ­ n’sing’a dikânda: como fortificá­lo e como expandir seus ensinamentos.
.É estar em contato espiritualmente bem como intelectualmente com a sabedoria tradicional Africana (kingânga) do passado.
.É entender as condições de vida e viver daquele tempo e de agora.
.Finalmente, é conversar com “bakulu”, ancestrais, numa experiência pessoal, i. É., sentindo sua presença entre nós hoje e amanhã.
Por causa da sacralidade do mundo natural como um real mundo vivo, tão ilustrado pela verdura de plantas e florestas, mawubi/ maghubi, a maioria das reuniões que dão poderes espiritualmente são mantidas em florestas. Por causa de sua importância para a vida e o viver, o mundo natural, e a floresta em particular, é percebido como um templo aberto para todos. As pessoas são conduzidas para dentro desse templo mais espiritualmente sagrado, essa biblioteca viva, para tornar­se de verdade homem/mulher através do processo de iniciação, i. É., Mu bulwa mèso ­ manter­se de olhos abertos. É um processo de aprender como vincular­se com a natureza em unidade com ela. É aprender o que as florestas armazenam (como conhecimento) para nós; o que as plantas são para nosso uso; que criaturas compartilham nosso ecossistema conosco. É descobrir em nosso ambiente o que é comestível ou medicinal e o que não é.
O mundo natural é o mais seguro e rico laboratório da raça humana. É um laboratório sem paredes, que os Bântu continuam a descobrir desde a sua mais tenra idade. O processo fundamental de aprendizagem para os jovens Bântu tem lugar dentro desses laboratórios sem paredes. As pessoas andam dentro deles silenciosamente, por causa da sua sacralidade, e elas ficam de pé ali assim como diante de monumentos.
O homem do remédio (ngânga), curador da comunidade, gasta maior parte do seu tempo dentro desse templos vivos, bibliotecas e laboratórios para “estudar” e coletar o remédio da comunidade. Para cada remédio ele canta uma cantiga com detalhes de como e quando o remédio é preparado e usado. Da mesma maneira, seus/suas seguidores (as) ­ bâna, literalmente “crianças”, aqueles a tornarem­se futuros ngânga, repetirão ­ kumbu lula aquelas mesmas cantigas de remédio, bem como as suas próprias. Cantar os remédios corretamente e perfeitamente é um método popular para manter a receita do medicamento e é uma das mais importantes responsabilidades de um m’buki ­ curador entre os Bântu. A arte de “cantar os remédios” é vista também como uma rotina diária espiritualmente sagrada do nganga.
Os pais Bântu sabem que ninguém pode criar uma família a menos que conheça o caminho que conduz ao trabalho da terra, especialmente na floresta, porque a maior parte dos alimentos são encontrados na floresta. Esses alimentos são os nossos primários e mais importantes remédios. Porque o que nós comemos é ambos: comida e remédio; deve­se ser cuidadoso com a quantidade de comida ingerida. Os alimentos têm que ser cultivados livres de toda contaminação química e mantidos naturalmente frescos.
Sendo as florestas, entre outras coisas, a mais documentada das bibliotecas de vida natural, o ser humano de todos os lugares corre em sua direção para obter comida, remédio, lazer e informação. “Mûntu nzo a binsansa bifuti zaduswa kwa ntôtila”­ “um ser humano é apenas um armazém com prateleiras para serem ocupadas com “a matéria prima coletada”, ensina o Kôngo.
As matérias primas coletadas (ntotila) necessárias para encher as prateleiras do armazém acima têm que vir de fora do armazém onde elas possam ser encontradas. Igualmente, desde o seu nascimento o Mûntu ­ ser humano é apenas um vão do armazém que será constantemente estocado com totwa ­ dados coletados para uso futuro. “Milongi Kasuka Ku mpemba”­ aprendizagem que termina com a morte, insiste o Kôngo ­ em outras palavras, aprendizagem é um dingo­dingo ­ processo de vida longa que termina somente com a morte.
Os Bântu­Kôngo acreditam e ensinam que os seres humanos estão apenas equipados, desde o ponto da concepção, com o poder de colocar dados. Eles não estão equipados com conhecimento (sua inteligência torna­se analiticamente ativa quando dados informativos são colocados dentro). Eles são computadores vivos carregando grandes, poderosos armazéns para serem cheios com dados ou informações. Seus movimentos em todos as direções (para frente, para trás, à direita, à esquerda, para cima, para baixo e para dentro de si) é intencionado essencialmente para coleção de dados. Esses dados ajudam ao Mûntu ­ Ser humano construir o que ele chama nzailu ­ conhecimento.
As escolas Bântu­Kôngo ensinaram que o conhecimento não está em nós. Está fora de nós.4 E como tal, as crianças Bântu em geral e o povo Kôngo em particular, eram ensinados desde a mais tenra idade, a andar no mato/floresta, a mais documentada biblioteca natural, onde eles podiam encontrar informação para sua sobrevivência. Esse processo de aprendizagem era realizado igualmente através de escolas especializadas ou através de grandes iniciações. “Para o Kôngo, a não ser pelas grandes iniciações, todo conhecimento era comunicado por meio de numerosas escolas que cada mestre, ngânga, ou artesão emérito organizava em volta dele próprio”.5
Grandes iniciações ou alta aprendizagem era dada por três razões principais:
.Era, biologicamente , um processo social requerido, através do qual se alcançava a posição social de mulher/homem adulta (o) ­ Kimbuta.
.Era, intelectualmente, um processo através do qual deve­se ter os olhos abertos ­ bulwa mèso ­ aos princípios fundamentais de vida e viver ­ nkîngu miangudi mia lutufu lwa môyo ye zingu, especialmente aqueles relacionados às leis naturais ­ n’siku miamena.
.Finalmente era, espiritualmente , um processo através do qual tinha­se que descobrir o círculo de vida ­ dikenga dia môyo ­ e seu centro ­ didi ­ interiormente e exteriormente, a descoberta de sua própria visão de mundo e o poder de levantar­se verticalmente­ telama lwîmba­ngânga ­ nos seus pés antes de andar horizontalmente para encontrar os desafios do mundo ­ ntembe za nza.
Infelizmente, a situação virou de alto a baixo com a invasão dos poderes coloniais. O Mûntu foi, à força, impedido de mover­se no seu próprio ambiente e vizinhanças e perdeu não somente o seu poder de aprendizagem, o poder de coletar e guardar dados, mas também seu criativo poder de cura ­ lendo kiamvângila ye kiambukila. Submetido aos poderosos, o ser humano que construiu impérios, reinos, pirâmides, etc, foi declarado sem inteligência pelo invasor.
No topo disso veio o mais inumano e pecaminoso negócio oposto ao auto­desenvolvimento que tomou lugar em África ­ a escravidão, i. E., o tráfico de seres humanos. Isso tornou­se a mais vergonhosa e desastrosa morte para o ser humano no continente africano. Nós sabemos, pessoas que viajam mais freqüentemente a diferentes partes do mundo, vão a bibliotecas (incluindo as bibliotecas naturais), escutam notícias, lêem jornais e, agora, quem trabalha com cadeia de emissoras no computador sabe mais do que aqueles que não o fazem. Isso é o “poder de engavetar planos, idéias”, a chave para a ativa aprendizagem. Sem ela Mûntu ­ o ser humano torna­se submetido a permanente aprendizagem passiva que é o agente condutor à ignorância. E colonização, escravidão, opressão e prisão têm conduzido muitos nesse vicioso ciclo de vida.
A abolição do tráfico de escravos e descolonização não libertou completamente o povo africano em todas as partes onde eles são encontrados. Cadeias, prisões e projetos de alojamentos incrementados com grande rapidez são feitos não somente para controlar seus movimentos, mas para mantê­los fora das bibliotecas naturais, escolas e empregos. Tudo isso acontece no período que prepara para a entrada da zona criativa ­ lubata wa mvângila, o período de aprendizagem. Agora armas de fogo e drogas estão sendo despejados em toda parte do continente para desestabilizar o processo de aprendizagem que deveria estar tomando o lugar nas comunidades Africanas. Conceitos de valor e sacralidade de vida e mundo estão se deteriorando.
Para os Bântu, o mundo natural é secreto e sagrado. Esses dois insondáveis epítetos para o nosso mundo natural, ampînda ­ secreto e anlôngo ­ sagrado são cuidadosamente passados de geração a geração como o único meio de manter a mãe Terra segura e sadia para continuar a fornecer a vida na Terra. E, por causa de ambos o segredo ­ mpînda/bumpînda e a sacralidade ­nlôngo/bulôngo, é um perigo para toda vida na terra se Mûntu ­ o ser humano devido ao seu conhecimento cuidadosamente não “Longuka bwè mu kanga ye kutula makolo ma n’siku miamena” aprender como codificar e decodificar os segredos das leis naturais. Esses makolo (laços) podem ser qualquer coisa, genes ou elementos químicos.
Nós somos “sagrados” porque nosso mundo natural é sagrado. Nossas moradias e nossos pertences são sagrados, porque são feitos de matérias primas tiradas do mundo natural, do mundo sagrado. Qualquer coisa feita do equilíbrio ­ Kinenga do mais interno do solo é sagrado e nào pode perturbar a vida dentro e em torno de nós. E muito mais, diria um Mûntu, nós somos sagrados porque nosso solo é sagrado e inalienável. Por causa dessa sacralidade e inalienabilidade desse solo (seu mundo natural particular), os Bântu mantinham seu solo, o sustento de todas as vidas , como uma inalienável comunidade. Ninguém podia colocar um preço nele. Era a precaução para evitar abuso e ganância: “o solo não era mercadoria para ser comprada e vendida; o solo era inalienável no sistema tradicional. Cada domínio era ganho por uma certa matrilinearidade (ou patrilinearidade) que podia, de fato, permitir o uso de uma parte dessa área ao parente ou mesmo ao estranho/estrangeiro..., mas isso não significava que dava direito sobre esse solo.6
Reconhecer a sacralidade do mundo natural é o começo de nosso entendimento de ser um com a natureza; ou é ou não é. E dingo­dingo dia kala ye zima, o processo de viver (ser, aparecer, surgir no mundo natural) e morrer (sair, desligar­se do mundo natural) ou seja acender e apagar, ligar e desligar. Um não existe sem o outro.
Nosso mundo natural é sagrado porque ele carrega ambos vida e morte em perfeito equilíbrio para manter toda existência nele em movimento. Destruir esse equilíbrio, sua sacralidade, é causar um fim para ele e para todos nós.

NOTAS:
FU­ KIAU, 1991: Self Healing Power e Therapy (p.111), Vantage Press, Inc.,N.Y.
O termo makulu significa: a) antiga aldeia, velha cidade, ruínas onde o passado ou história (kikulu) está oculto (a); b) a cidade dos ancestrais, mundo espiritual (Ku mpemba); c) hoje também significa “biblioteca”, então Harvard University Library seria dito “Makulu ma Luyalungunu, lwa Harvard” na língua Kikongo.
É também o título do trabalho de FU­KIAU Mokina ye Bafwa / la conversation avec les morts. Luyalungunu lwa Kûmba ­ nsi, Kûmba, 1991.
Poucas semanas depois de minha palestra sobre um assunto relacionado a esse tópico na 24 Conferência Anual de Ensino do Comportamento Organizacional (OBTC), Case Western Reserve University, Cleveland, OH., em 13 de junho de 1997 um assistente da palestra telefonou­me, no terceiro dia depois do desembarque do Pathfinder em Março e deixou a seguinte mensagem na minha secretária eletrônica: “Dr. Fu­Kiau, seu ensinamento está provado! Nós desembarcamos em Março. Nós estamos agora engavetando dados para o nosso futuro. O conhecimento não está em nós. Obrigado outra vez, Dr. Fu­Kiau.

Balandier, 6.,1969: Daily Life In Kingdom of Kôngo/From The Sixteenth to the Eighteenth Contury (p.225); Meridian Books, N.Y.
6 Kajsa, E.,1972: Power And Prestige; The Rise And Fall Of The Kongo Kingdom, (p.71); Upp sala,Sweden.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO BANTU – ACBANTU COMUNIDADES ORGANIZADAS DA DIASPORA AFRICANA ­ Rede KÔDYA
Parceira Fome Zero No 067 

*Texto original em Inglês 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A poética da Cabaça

olhar: não é ver . ouvir: não é escutar.

ao passo que refinamos nossos sentidos, adentramos num mergulho sinestésico na natureza mais profunda das coisas do universo.

Cabaça. Este nome (que em árabe - kara bassasa - quer dizer "abóbora lustrosa") designa uma das primeiras plantas a serem cultivadas no mundo, não apenas para uso alimentar, como para uso  doméstico, culinário e também espiritual. 

À primeira vista uma cabaça pode não te dizer nada. Mas para muitas cosmovisões afrikanas e indígenas, a cabaça tem significados reveladores e metafísicos sobre a própria existência humana.

Na mitologia yorubana a cabaça está presente em Ytans de mais diversos orixás, sendo associado à Oduduá, às Ya Mis, a Obaluaê, a Nanã, a Orumilá, a Exu ...

Aqui uma lenda yorubá chamada Igbadu (A Cabaça da Existência), belíssimo texto de Adilson de Oxalá:

(...) Devo lembrar-te de que, se hoje és detentor do poder sobre os 16 destinos, deves a mim este privilégio, ou por acaso te esqueceste da forma como adquiriste este poder? perguntou Exú.
Mais calmo, aceitando a meia cabaça de água que lhe estendia seu interlocutor, Orumilá acomodou-se sobre uma esteira estendida no chão e se pôs a lembrar daquilo que Exú estava se referindo.
... Desde muito jovem, Orumilá ansiava pelo saber e foi informado de que, para obtê-lo, deveria conquistar os favores de uma musa chamada Sabedoria, que se encontrava encarcerada em algum lugar na imensidão do Orun.
... Partiu sozinho, numa aventura cujas consequências não podia avaliar. De concreto, sabia apenas que muitos outros já haviam partido com a mesma intenção e que jamais haviam retornado.
... Depois de já haver caminhado por dias, encontrou um mendigo que, estendendo-lhe a mão pediu um pouco de comida.
Metendo a mão em seu embornal, dele retirou um pouco de farinha de inhame e, de uma pequena cabaça que levava na cintura, um pouco de dendê, misturando tudo e dividindo com o mendigo, comendo, ele mesmo, uma pequena parte do alimento.
Depois de alimentar-se, o mendigo, sem revelar seu nome, ofereceu ao jovem, em sinal de agradecimento, o bastão de marfim entalhado, dizendo - Bem sei o motivo pelo qual penetraste nesta floresta. Segue somente tua intuição, deixa-te guiar pela vontade de vencer e, em breve, irás deparar-te com uma enorme construção de pedra na qual entrarás com muita facilidade. Os perigos com os quais irás te defrontar estão em seu interior, portanto preste a atenção no que agora vou te dizer. Com este bastão de marfim, denominado Irofá deverás bater em cada uma das portas dos 16 quartos, pois só assim elas abrirão. Do interior de cada porta ouvirás uma voz que te perguntará: "Quem bate?" e tu te identificarás, dizendo que és Ifá, O Senhor do Irofa. 
A voz lhe perguntará então o que estás procurando, e tu dirás, estando longe da porta do primeiro quarto, que desejas conhecer a vida e que queres conquistá-la em nome de EJIOGBÉ. A porta então se abrirá e conhecerás os mistérios da vida que pertencem a Ejiogbe, o primeiro dos 16 Odus de Ifá.
No segundo... depois de haveres te identificado como da forma anterior, dirás que desejas conhecer IKU, a Morte e que desejas dominá-lo. A porta se abrirá e conhecerás a Morte, seus horrores e mistérios, que pertencem a Oveku Meji, o segundo Odu de Ifá. Se não demonstrares medo em sua presença, haverás de adquirir domínio absoluto sobre ele ...
Na terceira porta encontrarás um guardião denominado Iwori Meji, que depois de reverenciado, te colocará diante dos olhos e mistérios da vida espiritual e dos nove Oruns, onde habitam os Deuses, demônios e todas as classes de espíritos que irás conhecer de forma íntima, descobrindo seus gostos e maneira correta de apaziguá-los.
Na quarta porta, reclamarás por conhecer o jugo da matéria sobre o espírito, e o guardião desta porta, ODI MEJI, a quem deverás mostrar respeito e submissão, te ensinará tudo o que for concernente a questão, é necessário que não te deixes encantar pelas maravilhas e pelos prazeres que se descortinarão diante dos teus olhos, pois podem escravizar-te para sempre, interrompendo a tua busca. Lembra-te ainda que a matéria que sequer foi criada dominará o universo.
Já na quinta porta, quando fores indagado, dirás que procuras pelo domínio do homem pelos seus semelhantes, pelo uso da força e da violência, da tortura, do derramamento de sangue. Aprenda tudo que Irosumen Meji ... tem para te ensinar. Mas não utilizes as técnicas ali reveladas, para não te tornares, tu mesmo, vítima delas. Aí tomarás conhecimento dos planos de Olorun em relação à criação de um ser dotado de corpo material.
Na sexta porta ... um gigante do sexo feminino te saudarás pelo nome de Oworin Meji, e a quem solicitarás ensinamentos relativos ao equilíbrio que deve existir no Universo, e então compreenderás o valor da Vida e a necessidade da Morte. O mistério que envolve a existência das montanhas e das rochas. Ali serás tentado pela possibilidade de obter riquezas, mulheres, filhos e bens inenarráveis. Resiste a essas tentações ou verás tua vida reduzida a uns poucos dias de luxúria.
Diante da sétima porta. O habitante deste quarto chama-se OBARA MEJI, é velho e de aparência bonachona. Poderá te ensinar prodígios de cura e soluções para seus problemas mais intrincados. Dará a ti a possibilidade de realizar todos os anseios e os desejos de realizações humanas. Toma cuidado, no entanto, pois os domínios destes conhecimentos pode conduzir-te à prática da mentira, à falta de escrúpulos e à loucura total
No oitavo aposento deverás solicitar permissão a OKARAN MEJI para conheceres o poder da fala Humana, que infelizmente será sempre muito mais usada na prática do Mal do que do Bem. Este guardião te falarás em muitas línguas e de sua boca só ouvirás  queixas e lamentações. Aprende depressa e foge deste local, onde impera a falsidade e a traição.
Diante da nona ... guardião OGUNDÁ MEJI, para conheceres a corrupção e a decadência, que podem levar o ser humano aos mais baixos níveis da existência. Naquele quarto, conhecerás todos os vícios que assolarão a humanidade e que a escravizarão em correntes inquebrantáveis. Verás o assassinato, a ganância, a traição, a violência, a covardia e a miséria humana, brincando de mãos dadas, com muitos infelizes que se tornaram seus servidores.
No décimo aposento, deverás apresentar reverências a uma poderosa feiticeira, cujo nome é OSÁ MEJI. Ela vai ensinar-te o poder que a mulher exerce sobre o homem e o porquê deste poder. Conhecerás seres portentosos que funcionam na prática do Mal. Todos os demônios denominados Ajés se curvarão diante de ti e te oferecerão seus serviços maléficos que, caso aceites, farão de ti o ser mais poderoso e odiado sobre a face da Terra. Aprenderás a dominar o Fogo e a utilizar o poder dos atros sobre o que acontece no Mundo, principalmente a influência da Lua sobre os seres vivos. Cuida para que estes conhecimentos não te transformem num bruxo maldito.
Na décima primeira porta, seu guardião IKÁ MEJI, o gigante em forma de serpente, te fará estremecer. Saúda-o respeitosamente e solicita dele permissão para descortinar o mistério que envolve a reencarnação, o domínio sobre os espíritos ABIKU, que nascerão para morrer imediatamente. Aprende a dominar estes espíritos e, desta forma, poderás livrar muitas famílias do luto e da dor.
A décima segunda ... seu guardião se chama OTURUKPON MEJI, é do sexo feminino e possui forma arredondada, mais se parecendo com uma bola de carne. Poderá revelar-te todos os segredos que envolvem a criação da terra, além de ensinar-te como obter riquezas impensáveis. Aprende com ele o segredo da gestação humana e a maneira de como evitar abortos e partos prematuros.
Décima terceira, bate com cuidado e respeito. Neste aposento reside um gigante que costuma comunicar-se ... com a Deusa da criação do mundo. Aprende agora como é possível separar as coisas. Domina o mistério de dissociar os átomos, adquirindo assim, pleno poder sobre  a matéria. Aprende também a utilizar a força mágica que existirá nos sons da fala humana, mas usa esta força terrível com muita sabedoria. Este gigante chama-se OTURA MEJI.
Décima quarta porta, irás defrontar-se com IRETE MEJI, que nada mais é que o Ilê, a Terra. Faz com que te revele os seus mais íntimos segredos. Agrada-o, presta-lhe permanentemente reverência e sacrifício. Contata por seu intermédio, os espíritos da terra e transforma-os em seus aliados. Conhece os segredos de Sakpata, o Vodu da peste que mata e cura da forma que melhor lhe aprouver. Aprende com ele o poder da cura, já que matar é tão mais fácil.
Na décima quinta, serás recepcionado por Ose Meji, que irá falar-te de degeneração, decomposição, putrefação, doenças e perdas. Aprende a sanar estes males e sai dali o mais depressa possível, para não seres também vitimado por tanta negatividade, que foi gerada em uma relação incestuosa.
Finalmente, a décima sexta porta ... Aí reside OFUN MEJI, o mais velho e terrível dos 16 gênios guardiões. Saúda com terror gritando Hêpa Babá! Só assim poderás aplacar sua ira. Contempla-o com respeito, mas não o encares de frente. Observa que ele não é um gênio como os que conhecestes nas 15 portas que precediam esta. Este é OFUN MEJI, aquele que gerou os demais, que nele habitam e que dele se dissociam apenas de forma ilusória. Conhecê-lo é conhecer todo o Segredo do Universo. É isto que buscava, Oh Orumilá! Domina e resgata para ti a bela donzela chamada Sabedoria!


FONTES:
Livro Igbadu, a Cabaça da Existência, de Adilson de Oxalá

https://angicoesuaslendas.blogspot.com.br/2016/03/cabaca.html
http://asombradosobreiro.blogspot.com.br/2013/11/lenda-da-cabaca-dos-bijagos.html
http://filhosdeantoniotosun.blogspot.com.br/2011/08/lendas-de-igbadu-cabaca-da-existencia.html
https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/86937/bastos_mab_me_ia.pdf?sequence=1
https://angicoesuaslendas.blogspot.com.br/2017/01/beneficios-cabaca.html
https://www.editoraareiadourada.com.br/produto/as-cabacas-do-akpalo-autor-josue-g-de-araujo-edmagazine-gibi.html

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