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domingo, 21 de outubro de 2018

Mestre Môa do Katendê e as Represas do Tempo

Moa do Katendê

O povo bakongo diz que onde não há mambu (dúvidas, conflitos, problemas) o tempo não está se movendo: assim como não existe moyo (vida). 

Apenas quando os fatos (dunga) acontecem, as “coisas” se movem e o caminho da linha do tempo torna-se clara. 

Mataram Mestre Môa do Katendê!!! Mande tocar Iúna, na boca da mata, que hoje o céu e a terra choram, a Bahia e todos nós choramos, Chora o couro, a cabaça, chora o agogô!

Mataram a mim, mataram você. Mataram nossos avós. Mataram nossos vizinhos. Mataram até a moça que vende pipoca no Jardim. 

Estão nos matando a cada dia. Mulheres, Pretas, Pretos, Homossexuais, Travestis, Idosos, Pobres, Analfabetos, Crianças ... 

E ninguém se atreve a chamar de guerra o que estamos vivendo. 

Enquanto isso, a faca cortou a pele macia do mestre. E foram doze!!! As facadas pelas costas. Coisa de capitão do mato, ecos coloniais que se estendem em nossas vidas até os dias de hoje. 

O Tempo .... 

Era dia de eleição. No Brasil. E era dia da festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Era dia 7 de outubro de 2018. 

Era Mestre Moa do Katendê. Salvador, útero desta nação. Moa Griô, Moa Mestre de Capoeira, Moa Músico, compositor, dançarino, ogã, artesão, educador, fundador do Afoxé Badauê e Amigos do Katendê.

Moa se ancestralizou! Não é qualquer um que morre que se ancestraliza ... o ancestral faz sua passagem através da linha da kalunga e, por haver deixado em vida ações que transformaram não apenas a sua vida, mas a vida de sua comunidade em um lugar mais evoluído, então, um ancestral vai ser sempre lembrado nesta comunidade. 

Mestre Môa se foi assim... Um ser potente, um ser rocha, um baobá, água cristalina. 

Mestre Môa ... mas você assim é perigoso: Tão lindo, tão preto, consciente, criativo, ritmado, mandingueiro, pura arte-medicina em movimento ....

Mestre Môa ... você assim bate de frente com a essência racista do povo brasileiro.

Mestre Môa ... você assim é um risco para os padrões deste Brasil machista xenofóbico, facista, misógeno, um país racista racista!!!! 

Estamos passando por uma crise impressionante na historia deste país. 

São tempos de intensidade e desconforto. Uma eleição cheia de bizarrices, trazendo à tona toda a podridão que está nas bases da formação do povo brasileiro e no inconsciente coletivo ANESTESIADO. 

Esta semana que antecede o segundo turno das eleições nos deixa tristes, amargos, abalados estruturalmente. E ainda não sabemos para onde estamos indo... mas também ... se não sabemos de onde viemos ... como direcionar os nossos passos para um futuro mais promissor?

Mataram Mestre Môa do Katendê. Sua morte foi reverberação das contradições e calamidades pelas quais estamos passando nos últimos séculos e nos últimos anos neste país. 

Reverberação da lama tóxica que destruiu Bento Rodrigues e o Rio Doce, rio sagrado pro povo Krenak e pra tantos ribeirinhos que dele dependiam para a sobrevivência ... 

Reverberação do fogo ardente que destruiu o Museu Nacional do Brasil, quando vimos nossa historia da arte e do cotidiano desaparecer em poucas horas ... 

Reverberação do assassinato de Marielle Franco ...


Museu Nacional em Chamas

Os bakongo concebem o tempo como "O movimento da energia consciente dentro da matéria biológica/corpo, no caminho tanto individual, quanto do ciclo cósmico universal da vida e dos sistemas sociais". 

Falar sobre o tempo é falar sobre suas “REPRESAS DO TEMPO” (nascimentos, guerras, casamentos, funerais, caçadas, colheitas e assim por diante).

Assim, ESTAR NO TEMPO não é APENAS IR ATRAVÉS DELE, mas também experimentar a vida caminhando pelas REPRESAS DO TEMPO. 

Dentro dos movimentos do tempo, estamos vivendo o que o povo bakongo chama de "REPRESA DO TEMPO" ("n´kama mia ntangu"), momento que é um marco. 

E desta vez, um marco que transcende apenas a vida de uma pessoa, em seus rituais vitais essenciais. 

Estamos vivendo um marco para todas as pessoas de um país e ouso dizer do mundo também, já que estamos todos conectados pelas ondas da globalização ..

Como estamos vivendo estes tempos? Estas represas do tempo? 

Estamos presentes no próprio tempo? Estamos "Afinados com o fluir da energia viva, compartilhando sua melodia?" (FUKIAU) "Estou no tempo presente a fim de entender o enrolar o desenrolar do pergaminho do tempo".

Se aprendemos que o tempo é sentido, concebido e entendido apenas através destas represas e acontecimentos do tempo, que ocorrem no caminho de uma linha de tempo sequencialmente visível apenas em nossas mentes (ntona), estamos trabalhando com as “represas do tempo” ou tentando controlá-las? 

Através do rolar e desenrolar do pergaminho do tempo, o passado vai e volta para nós no tempo presente; através do desenrolar do pergaminho do tempo, nós descobrimos o futuro, o passado do amanhã. 

Os bakongo dizem que "através do enrolar e desenrolar do pergaminho do tempo, o futuro vem até nós". 

Através dos processos diários da vida, o homem pode trazer para si mesmo, no tempo presente, o melhor e o pior tanto do passado quanto do futuro. 

Em outras palavras, viver (zinga) e estar (kala) no tempo é ser capaz de se mover livremente pra frente e pra trás no desenrolar do tempo.

Um novo ciclo do tempo vai se movimentar até que outra colisão lhe interrompa, para realizar um novo começo, para que um novo movimento do tempo se inicie. 

"Isso começa no tempo e testemunha as marcas de suas “represas” e fatos, um processo que também pode diminuir ou aumentar nosso poder de cura.

Estar no tempo e com o tempo, isso é, respondendo à ocorrência de suas “represas”, é ao mesmo tempo um processo de regeneração de energia e um processo de cura, uma caminhada mental pelo caminho cósmico do Dikenga." (FU KI.AU) 

Significa também marcar e experimentar as represas do tempo na linha perpétua do tempo, especialmente quando “na vertical” (telama lwimba-nganga) em seus quatro principais pontos de marcação: musoni, kala, tukula e luvemba. 

Esses são os pontos das grandes colisões, não apenas nos processos de transformação planetária, mas também na vida biológica dos indivíduos, um processo que é necessário para a transformação (nsobolo) acontecer.

Para o povo Bantu, não existe algo como estar “atrasado” (ao menos que aconteça da pessoa ter sido educada fora da África). Deve-se aprender a ser paciente. 

“Mvula kasukina mu matuti, n´kaku” – “se a chuva não alcança o solo (terra)” diz o Kongo, “deve haver alguma barreira”. 

Um entendimento dessas REPRESAS (n´kaku) é central para o real entendimento do conceito do tempo e suas funções entre o povo Bantu, porque o tempo por si próprio é inútil, mas suas represas não o são (Ka ntangu kibeni ko kansi n´kama miandi mivwidi lukumu). 

"Rolar e desenrolar o pergaminho do tempo, ou seja, entender e interpretar o presente, desenrolando e revisando parte do pergaminho que contem a experiência do aprendizado e se posicionar para prever o futuro (o passado do amanhã) enrolando ou revelando as partes escondidas do pergaminho no qual n´kama miampa mia ntangu (novas represas do tempo) serão impressas pelo ser humano ou pela natureza".

Como estamos agindo? Que impressões estamos deixando nos seres vivos e na natureza?

O Tempo é cíclico, assim como a vida e todas as suas ramificações, que fazem com que as mudanças sejam possíveis através dos processos que deixam marcas nas “represas do tempo”.

Ma´kwenda! Ma´kwiza – “o que está acontecendo (agora) voltará (depois)” – o que flui através de movimentos cíclicos seguirá movendo-se. 

Está na hora de mudarmos os caminhos do tempo dentro de nós e nas comunidade em que vivemos. 

Ou uma represa do tempo se romperá mais um vez levando lama tóxica pelos rios do mundo. E outra. E mais outra. E outra mais. 

E isso continuará se repetindo perpetuamente, até que muitas pessoas juntas decidam realizar dentro delas mesmas a transformação que elas esperam viver no mundo. 

E aí sim ... quando essa outra represa volte a explodir, vai explodir para instaurar a tão esperada transformação que a natureza que habita no mundo e em nós tanto precisa.

Mataram o Nego mas não vão nos calar!!!
É possível saber quantas sementes há em uma maçã . Mas não quantas maçãs cabem numa semente ...








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Mo Maiê, Mariana, outubro de 2018


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Fonte: 
Ntandu Tandu kolo: O Conceito Bantu-Kongo do Tempo. Bunseki Fu Ki-Au

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Árvores e Portas da Memória e do Esquecimento

baobá, a árvore da memória ancestral
A travessia da #kalunga é a travessia da própria linha da vida. Renascer, crescer e mergulhar no desconhecido mundo das forças invisíveis com consciência é permitir-se retomar a própria historia, reconectar com as raízes da ancestralidade, reconectar-se com elos perdidos pelos movimentos do tempo e dos fluxos de dominação a que os antepassados foram submetidos e que nós mesmos estamos sendo submetidos, novos processos com roupagem nova, mas com a mesma essência de escravidão e miséria humana . Somos chamados a nos libertar! 

Somos convidados a nos relembrar. Ativar a memória de nossos cromossomos. De nossos átomos. Ativar nossa memória mineral. Nossa memória pré-fetal. Nossa memória vegetal.

No Brasil, no estado de Pernambuco, existe uma cidadezinha chamada "Porto de Galinhas". Para esta cidade vieram muitos afrikanos escravizados, que chegaram para serem vendidos clandestinamente no Brasil. Vinham escondidos embaixo de engradados de galinhas d'angola. 

Por ser em uma época onde, teoricamente, o tráfico negreiro já havia sido proibido, os traficantes usavam como código a senha "Tem Galinha Nova No Porto" para anunciar um novo carregamento de humanos traficados. Por causa disso, essa cidade que outrora se chamava "Porto Rico" (devido à abundância de pau Brasil), ficou conhecida por "Porto de Galinhas".

Tempos depois, esta cidade virou um pólo turístico onde os principais monumentos são estátuas de galinhas de variadas cores e tamanhos.

Não existe nesta cidade um único monumento público em memória a todas as levas de afrakanos que chegaram para serem vendidos como seres escravizados na nova terra.

Perto desta vila, no entanto, existe uma pequena cidade chamada Conceição do Ó, onde na praça principal ainda está de pé uma enorme e centenária Baobá. 

Esta árvore, que é considerada a mais sagrada das árvores em vários países afrikanos, é reverenciada como morada dos espíritos ilustres dos ancestrais e considerada um altar natural nas cosmovisões de várias religiões de matriz afrikanas, trazendo consigo também o simbolismo da manutenção da memória primordial.

Conta-se que estas mágicas árvores eram usadas como portais para o esquecimento do povo afrikano. Tanto lá quanto aqui. Os escravizados eram obrigados a dar sete voltas (no caso de serem homens) ou nove voltas (no caso de serem mulheres) ao redor das baobás para se esquecerem de todas as suas raízes, de toda sua ancestralidade e se tornarem humanos mais maleáveis às exigências dos colonizadores e traficantes.

Na Áfrika, além das árvores, eram também utilizados grandes portais para as mesmas manobras.

Estas portas eram conhecidas como "Portas do Não-Retorno", pois se dizia que quem através delas passavam, jamais voltariam a pisar nos solos da mãe Afrika.

Existe uma "Porta do Não-Retorno" em Senegal, na Ilha de Goré, com o nome de Casa dos Escravos. 

Casa dos Escravos, em Senegal. Ao fundo, a Porta do Não Retorno
Também existe uma "Porta do Não-Retorno" em Ouidah, no Benin, onde se pode ler em uma placa: "Simboliza a última etapa da maior deportação jamais conhecida na humanidade - o comércio negreiro". 

A cada ano, no dia 10 de janeiro, desde 1992, o povo beninense comemora uma grande festa de culto Vodum em memória a todos aqueles que partiram e nunca mais voltaram.

Porta do Não Retorno, no Benin. Ouidah
No entanto, a trajetória dos "retornados" - Agudás (Benin), do povo Tabom (Gana) e dos Brasileiros (Nigéria) - demonstram que a história acontece através de movimentos contínuos-intermináveis, dialéticos e, a menudo, surpreendentes

Assim, as mesmas portas do "Não-Retorno" tiveram que se abrir para os "Retornados".

Os "retornados" foram afrikanos ou afro-descendentes já nascidos nos novos territórios da diáspora que voltaram ao continente, mesmo que nem sempre para o seu lugar de origem. Estes caminhos de volta eram comuns entre as comunidades afrodescendentes dos Estados Unidos e do Reino Unido e, sobretudo a partir de 1840, no Brasil também começou a ser uma prática recorrente.

No Vai e Vem das águas de #Kalunga, o destino destes #retornados foram os locais que mais haviam fornecido mão de obra escrava ao Brasil: as cidades portuárias do Golfo da Guiné, onde hoje estão Gana, Benin e Nigéria.

Em Gana ficaram conhecidos como "Tabons", porque quando lá chegaram, para quase tudo o que lhes perguntavam respondiam "Tá Bom", por não dominarem as línguas africanas locais. 

No Benim, foram chamados de "Agudás"

Na Nigéria, os retornados ficaram conhecidos como "Brasileiros".

De volta ao continente mãe, em sua re-inserção social, os "retornados" obviamente passaram por vários processos de exclusão social e crises identitárias - já que nos territórios afrikanos não eram mais considerados afrikanos, e sim afro-americanos ... 

Com o passar do tempo, no entanto, foram sendo aceitos e, afinal firmaram-se socialmente como exímios artesãos, comerciantes, construtores e arquitetos.

Os números não nos deixam cair na ilusão. Estima-se que cerca de 14 milhões de afrikanos foram levados para as Américas e outros tantos milhões foram levados ao Oriente.

"Só nas Américas, o número de afro-descendentes ultrapassa 200 milhões e muitos deles vivem sob terríveis circunstâncias. Estão frequentemente entre os mais afetados pela pobreza, desemprego e condições precárias de vida. Este não é um mero acidente do destino. Precisamos reconhecer que na raíz desta deplorável realidade está a discriminação estrutural, que teve origem em lugares como a ilha de Gorée." (http://unicrio.org.br/o-legado-da-porta-sem-retorno/)

Somos convidados a dar voltas de libertação ao redor das árvores sagradas, escrever e re-escrever nossa própria história. 

Assim ... Plantemos nossas Baobás, invoquemos a ativação de nossa memória coletiva ancestral para que as "Portas do Não Retorno" não obedeçam às leis do "Eterno Retorno" e possamos nos Relembrar. 

Possamos escrever juntos uma nova história pan-africanista, que não vai funcionar apenas na Afrika, que demanda conexão e trans-diálogo entre todos os territórios envolvidos na diáspora negra. Nos reconhecermos lá para nos conhecermos aqui. Nos conhecermos aqui para nos reconhecermos lá.

Apenas assim vamos conseguir reunir de volta as peças espalhadas deste grande quebra-cabeças. Apenas assim vamos realizar a cura destas mazelas ancestrais.

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Mo Maiê, Mariana (MG), dezembro de 2017.

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#cosmovisão #cosmopercepção #bakongo #bantu #Kala#mussoni #tukula #luvemba #kianda #filosofiaAfricana #capoeiraAngola#descolonização #capoeira #ancestralidade #roots 
. fontes:
Alcione M. Amos, « Afro-Brazilians in Togo », Cahiers d’études africaines [En ligne], 162 | 2001, mis en ligne le 12 juin 2004, consulté le 28 décembre 2013. http://etudesafricaines.revues.org/88
http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/11-lugares-de-memoria-da-escravidao-na-africa-e-no-caribe/
http://unicrio.org.br/o-legado-da-porta-sem-retorno/