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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mas afinal: o que é a Kalunga?

Diekenga. O cosmograma Bakongo

- Mas o que é a Kalunga? (Cada vez que me encontro com Makota, ela me lança a mesma pergunta.)

- Makota ... é você quem pode me dizer ...

E como uma boa Mestra e conhecedora dos mistérios que muitas vezes não podem ser reverberados em voz alta, ela nada diz ...
...

Assim, venho buscando maneiras de compreender dimensões dizíveis e silenciáveis, visíveis e invisíveis destes movimentos filosóficos e espirituais através dos dingo-dingo - os processos pelos quais atravessamos a cada dia ... 
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Eu sou uma mãe e uma filha, que há anos vem navegando pelas águas de Kalunga, lutando pela sobrevivência dentro deste corpo biológico, familiar, social, político, natural, cósmico ...

A filosofia chegou em minha vida a partir da corporeidade. Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que quebrar vários padrões de pensamento para poder deixar que o ngolo, a força natural do universo, presente também em meu próprio corpo, pudesse circular através de minhas veias e fibras, me ajudando a sobreviver.

Foi esta força inconsciente primordial que me trouxe até a Bahia. Meu corpo precisava se manter vivo, depois de passar por um trauma físico considerável, que foi o parto de minha filha, em que sofri uma cesariana forçada, por violência hospitalar, paralisando.me a roda da vida, me levando a viver um estado de depressão pós parto.  A dureza da faca de Ogum cortando as sete camadas de pele da existência.

Um sopro suave e às vezes uma carcajada eloquente me diziam que era hora de acordar. Hora de entrar neste corpo Kalunga. Cruzar as montanhas de Minas e chegar até Kianda, o mar, a Grande Mãe.

Foi a força da comida baiana e o poder da dança que me ensinava Augusto Omolu que tiraram a paralisia de meu corpo e de minha alma. A força do movimento.

E foi em Salvador, esta grande Kalunga, onde comecei a compor músicas inspiradas pelo mar. E assim, passei a investigar dentro de minhas próprias marés, regiões Abissais e Esquecidas ...

... entre Pinaúnas e Mares Desertos ...

Chegou um momento em que percebi que meu caminho musical me levava às Áfrakas. Eram muitas, muitas..... e fiquei um tempo rodopiando entre confusões de encruzilhadas yorubás, malinkés, gnaoua, bantu... até que percebi que o fio condutor destas pesquisas que vinha fazendo sobre diferentes culturas afrikanas era sua conexão com a Diáspora do Transatlântico Negro. 

Como é que se davam estas conexões traçadas pelos caminhos da diáspora negra, sob o viés da música? Do trânsito, do fluir, da propagação ... com tantas manobras de recriação, substituição, transformação... com tanta faísca que sai entre os pontos de fricções histórico-sócio-culturais?

Assim... como a música está ligada à vida, ao cotidiano, às culturas, à espiritualidade ... as perguntas acabaram me levando a viver a filosofia ... em movimento ...  

Como uma necessidade existencial, estes processos foram acontecendo livremente dentro de mim, em nível intuitivo e solitário - como deve ser o momento da criação para um artista. 

Sem eu nem perceber, de uma maneira informal e orgânica eu levava anos pesquisando e experimentando ao redor do universo da música e dos rituais de transe de distintas regiões afrakanas... Criando métodos experimentais de realizar uma espécie de arqueologia da música afrakana e afro-brasileira, através de buscas por pistas e conexões que perpassavam claves rítmicas, fatos históricos e a materialidade dos próprios instrumentos musicais. 

Inclusive, este processo se acelerou a partir do momento em que começo a confeccionar instrumentos musicais e me vejo em um lugar onde minha relação com a música se transforma em um mergulho na fonte primordial de criação divina dentro das culturas ancestrais. 

No entanto, enquanto o tempo ia passando, vinha também essa consciência de que pensar em fluxos diaspóricos implica pensar em movimentos tectônicos entre pessoas também.

Assim, foi que este trabalho que primeiramente existiu num plano individual foi assumindo presença entre outras rodas de pensamentos e pensadores.  Assim, foi que, recebendo um chamado para uma vivência de filosofia afrikana promovida pela Rede Africanidades, baseada em discussões sobre a Kalunga, fui pela primeira vez ao Kilombo Tenondé, onde um portal se abriu em minha vida, conectando a linha de Kalunga, a Filosofia Bakongo e a Capoeira Angola.

E aqui estou ... todavia buscando compreender como fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. 

Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. 

Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. Re.Aprender a fluir de encontro ao outro para realizarmos juntos a transformação necessária.

A coletividade é uma condição primordial se não em todas, ao menos na grande maioria das culturas afrakanas. A palavra Ubuntu, de origem bantu, traduz esse sentido de pertencimento humanitário e comunitário afrakano, em que o indivíduo afirma que EXISTE PORQUE O OUTRO EXISTE.

Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que renascer para sobreviver. Tive que aprender com a fluidez densa destas águas a sobreviver, a ser um corpo à deriva, mas que não caminha sem rumo, no entanto. 

Corpo que começa a se perceber dentro de um ir e vir de movimentos infindos ao longo da linha de kalunga, que é também a própria linha da vida, onde o sol nasce, cresce, atinge seu auge e se vai ... para renascer no dia seguinte ... como todas as coisas viventes e naturais, que respeitam ciclos perfeitos da existência.

Assim, foi que inspirada por mecanismos de sobrevivência e por estas buscas por um entendimento ampliado acerca das raízes de nossa maneira de perceber a vida, a cultura e a música popular brasileira, comecei a conceber uma vivência que unia filosofia bakongo, música, consciência e descolonização corporal, na senda destes estudos ao redor da cosmovisão do povo Bakongo e do entendimento das múltiplas dimensões desta Kalunga ..

A Roda Bakongo (como se chamou esta experiência) é uma vivência circular, norteada pelo estudo da filosofia do povo Bakongo, reverberando no Corpo, inspirado por claves de ritmos afro-brasileiros, como os ritmos da capoeira, do samba de roda e do maracatu, todos ritmos com ancestralidade Bantu.

A Roda Bakongo busca compartilhar as bases do entendimento da cosmologia e filosofia bakonga a partir de uma perspectiva de tomada de consciência corporal e do resgate de uma memória ancestral e fetal de navegação e sobrevivência.

Um convite para se abrir e receber inspiração e força em nível consciente individual, de encontro com o insconsciente coletivo, gerando nos participantes mecanismos de resgate da ancestralidade afrikana e de descolonização corporal e mental, a partir da circularidade e do estímulo de sonoridades e pulsos ancestrais afrikanos, já que a presença da música é fundamental nos processos (dingo dingo) e movimentos da vida cotidiana.

Tanto falei, tanto falei, mas afinal: o que é a Kalunga? Me perguntaria Makota ... 

Talvez com Tempo, um dia até começarei a compreender ... 

O tempo ... 

este grande mestre ...

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Mo Maiê, Salvador da Bahia. Dezembro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Processos (Dingo Dingo) de Confecção de Instrumentos Musicais Ancestrais

Origem
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Outro dia chegou aqui em casa um pastor daqui de Barra Grande, que também é #luthier de instrumentos musicais. Ele veio curioso, querendo conhecer meu trabalho. Falando sobre seu processo de criação, ele me disse que às vezes se deitava para conversar com Deus e bolar dentro de sua própria cabeça o instrumento, antes de concebê.lo no mundo físico. Como gosto das coisas ditas, eu também lhe expliquei sobre meu próprio processo, que passa por um caminho bem espiritual também, de conexão com a origem do instrumento e com o entorno cultural de onde ele foi criado. 
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O pastor me ouvia em silêncio e, para minha surpresa, sempre encontrava alguma referência na Bíblia que justificava e amparava o que eu mesma estava dizendo.
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Como minha grande paixão são os instrumentos tradicionais afrikanos, eu tenho que reverenciar a Áfrika em meus processos de criação. Outro dia mesmo, me peguei em transe, trançando mais um #xekere. Eu senti profundamente a alma da #cabaça. Ela ainda não estava cortada, então senti que, sempre que cortasse uma cabaça para fazer um instrumento, deveria agir como alguém que mata um animal para fazer uma oferenda espiritual.
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Devo prestar atenção nestes detalhes porque nunca estive presencialmente na #Áfraka Bambara ou Mandengue, onde nasceu a Kora, o Ngoni, os xekeres ... nem ainda estive na Afraka bantu, terra dos arcos musicais afrakanos. Ou seja: eu nunca fui iniciada por um mestre ou uma mestra afrikana para poder trabalhar com estes instrumentos. Essa espécie de missão de realizar este tipo de trabalho chegou para mim através de sonhos. Então eu respeito e honro. Porque, mesmo que isso não seja racionalmente explicado, através dos sonhos os espíritos ancestrais podem se manifestar em nossas vidas se estamos alinhados com nosso próprio caminho.
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Um outro outro dia, conversava com um mestre da arte da luthieria, justamente sobre fazer um instrumento sem conhecer sua cultura na raíz (ou seja, sem nunca haver estado em sua terra natal, no seu entorno original, sem nunca ter tocado com as mãos as ferramentas tradicionais usadas para sua confecção, nem sentido o cheiro da matéria prima normalmente usada ...). Sim, eu lhe comentava como vinha percebendo que um instrumento musical não nasce falando, assim como nós .... vamos tocando cordas, teclas, fazendo ajustes, reajustes, fazendo vibrar a caixa de ressonância, timidamente tirando um som ... e pouco a pouco o canto do instrumento passa a ecoar harmoniozo pela natureza..... num processo dingo.dingo de construção que não termina quando o trabalho mecânico termina. Porque não se trata apenas de uma materialidade mecânica. Se trata de uma organicidade conectada com densa espiritualidade.
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Assim, me vêm à cabeça o cuidado que devemos ter com estes novos movimentos de criação, que surgem tendo como suporte de referência esta Kalunga pós moderna: Digital, como a Internet, onde navegamos através das ondas do WIFI, convidados a nos emanciparmos dos caminhos tradicionais de aprendizado dos saberes tradicionais com mestres e mestras da tradição. Assim, cada vez mais somos encorajados a aprender técnicas e tecnologias ancestrais através de meios digitais e tecnológicos contemporâneos, nos distanciando de sua raíz ancestral numa hipotética linha do tempo.
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Sim, cá estou no Brasil, do outro lado do transatlântico, com a mirada voltada para as terras de onde se originaram estes belos instrumentos musicais que me cercam por todas as partes aqui em casa.
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Me lembrando do tempo em que levas e levas de afrikanos chegaram nas Américas quase sem roupa, sem ferramentas, apenas trazendo dentro de si as sementes dos ritmos, da concepção e execução dos instrumentos... Aqui me vem o pensamento de que somos herdeiros deste caminho de criação. Distanciados na origem, mas sempre tendo que voltar os olhos e os coraçōes para esta mesma origem, a fim de nos conectarmos com estes saberes, ainda que não da maneira natural e orgânica como acontece com uma pessoa que lá está, dentro desta comunidade original.... Transcendendo a imposição das novas formas da criação contemporânea, nunca se esquecendo da importância desta busca pelos ensinamentos do passado. Que talvez encontremos mais facilmente nos sentando embaixo de uma grande árvore, ouvindo o vento ou sentindo as ondas do mar, do que assistindo dez mil horas de video aula, na internet.....
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Um instrumento é também um símbolo, podendo ser uma representação físico-sonora de uma cosmovisão de mundo. Em geral, um instrumento musical faz parte da essência de um povo, de sua espiritualidade e também de aspectos fundamentais de seu cotidiano. Muitas das vezes estes instrumentos musicais ancestrais têm função mágica e abrem pontes entre o mundo dos vivos e dos ancestrais. 



confeccionar um instrumento ancestral me conecta com sua origem
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Em várias sociedades originárias (na Afrika Bakongo, por exemplo), uma comunidade é formada pelos vivos e pelos ancestrais. Nos momentos de grande tensão ou de resolver algum problema na tribo, os ancestrais serão acessados, porque fazem parte da sociedade, tanto quanto as pessoas vivas, na condição da atemporalidade. E a vibração dos instrumentos musicais fazem esta conexão, servem de meio, de ponte, entre o mundo físico e o mundo imaterial. 
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Um atabaque faz os pés de um nkise encarnado dançar, assim como as cordas vibrantes de um ngoni podem materializar a opinião de um ancestral sobre uma desavença na comunidade. 
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Assim, que aqui ainda estou, buscando compreender o que fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. 
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Sei que preciso, cada vez mais, fazer uma viagem real à Afraka, a fim de amparar estas pesquisas e criaçōes, revisitando sua fonte primordial original.
Pouco a pouco vou abrindo meus sentidos e minhas percepçōes ultra-sensoriais para ouvir esse sopro dos ensinamentos dos ancestrais para pisar neste solo sagrado que é o lugar da criação, que pressupōe caminhar por sendas invisíveis entre estes mundos sagrados.
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Mo Maiê, Barra Grande de Itaparica, outubro de 2017