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terça-feira, 31 de julho de 2018

Kunyaza: Para fazer brotar água sagrada

Estamos em busca de caminhos de descolonizações. 

Descolonização corporal, política, religiosa, alimentar, estética, comunitária 

... Descolonização do pensamento ... 

... Descolonização da medicina ... 

... Descolonização do trato com a natureza que habita no mundo 

e com a natureza que habita em nós ... 

Por muito tempo fomos reféns in.conscientes de manobras de inúmeros sistemas opressores, que nos impediram (e seguem nessa mesma intenção) de nos conectar com maneiras ancestrais de EXISTIR (KALA) e compreender os DINGO-DINGO - processos da existência de indivíduos/sujeitos respeitando o espaço sagrado da NATUREZA.

Os agressivos processos coloniais pelos quais passamos e pelos quais passaram os ancestrais, serviram como dispositivos de prisão corporal e mental.

Dos colonizadores, dentre outras coisas, fomos obrigados a engolir a VIOLÊNCIA da imposição de uma religiāo e a VIOLÊNCIA da imposição de sistemas econômicos baseados na escravidão e no acúmulo de bens.

A roda destes acontecimentos é tão contraditória e feroz ... 

O CORPO HUMANO tornou-se mercadoria com o processo da escravidão e passou a ser SIGNIFICADO como um objeto de PECADO e luxúria.

A Nós, mulheres, nos submeteram às condições OBJETOS . PUTAS . PROCRIADORAS. 

O CORPO FEMININO foi endemoniado e distanciado da própria mulher. 

As mulheres foram jogadas umas contra as outras criando um emaranhado de afetividades feridas, nas raízes da concepção das famílias brasileiras ...

OS CORPOS VIOLENTADOS ... AS AFETIVIDADES FERIDAS ... 

O corpo individual se fragmentou e se perdeu do próprio corpo. O corpo social virou uma colcha de retalhos se desmanchando no ar...

O PRAZER nos foi negado. 

Os caminhos que levam a mulher até o PRAZER foram interrompidos

O sexo SAGRADO passou a ser visto como PECADO SUJEIRA.

Foram camadas e camadas de colonização sobre nossos corpos individuais e sociais. Nos foi negado acesso a conhecimentos e formas ancestrais de experimentar nosso próprio corpo. E o encontro com o corpo do outro.

Assim, quando nos surge a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre tradições de povos que conseguiram manter preciosos conhecimentos ancestrais, é bom estar atento ... 

Por exemplo. Alguns até já ouviram falar do Kama Sutra, um entendimento ancestral do sexo, do corpo, do prazer, do encontro do feminino com o masculino, com origens na Índia.

Mas se nem tantos já ouviram falar do Kama Sutra, muitos menos já ouviram falar em Kunyaza, uma arte secreta do amor, técnica sexual ancestral que leva a mulher a jorrar água sagrada de prazer durante o gozo ...

Mais que uma maneira de compreender o sexo, Kunyaza abre para densas maneiras de acessar cosmovisões surgidas na Áfrika ... outras formas de compreender a existência ...

a ANCESTRALIDADE do sexo.

Em certa região da Áfrika Central, entre os territórios hoje conhecidos como Ruanda, Burundi, leste da República Democrática do Congo, Uganda ocidental e oeste da Tanzânia, Kunyaza tem sido praticada há séculos.

Também chamada de Kachabali (no Burundi), esta verdadeira arte exalta as águas que brotam do prazer do corpo da mulher, alimentando rios, enchendo os lagos e trazendo abundância para a terra.

A mulher ensina o homem, o homem adentra no corpo da mulher, regulando ritmo, intensidade ... 

Kunyaza é feito em muitas posições diferentes. Corpos sentados, deitados, em pé, posições especialmente para o Corpo da mulher Grávida.  Kunyaza é altamente eficaz no desencadeamento do orgasmo feminino. 

Claro que não posso falar de forma determinista sobre um assunto tão delicado, mas parece que no Brasil estes aspecto da importância do ORGASMO DA MULHER está sendo desvalorizado durante as práticas sexuais recorrentes. 

E quando paro para pensar no panorama histórico da invasão do território hoje chamado brasileiro, e nos seguintes séculos de colonização e pós colonização em que nos encontramos nos dias de hoje, a paisagem é desoladora. 

Muitas são os depoimentos de mulheres que tenho ouvido sobre o desempenho dos homens nos momentos pessoais ... e a grande maioria das histórias refletem o quanto fomos distanciados deste cuidado ancestral que o homem tem com o corpo da mulher na hora de fazer amor. 

CORPO DA MULHER É CORPO NATUREZA. O sexo é ARTE. Toda arte necessita de empenho e dedicação para que aconteça o refinamento das suas técnicas de execução.   

Dentro de 3 a 5 minutos, orgasmos femininos são desencadeados durante Kunyaza. Uma mulher pode chegar ao orgasmo dentro de 3 a 5 minutos, muitas vezes antes que o homem chegue ao orgasmo, impedindo a possibilidade de ejaculação precoce.


"A estimulação do clitóris, que se chama "Rugongo", em Ruanda e Burandi, é considerada indispensável para desencadear o orgasmo feminino. No entanto, há um aspecto de Kunyaza, que sugere que  não está simplesmente desencadeando o que o Ocidente chama de orgasmo no clitóris. Kunyaza, que se traduz em urinar no pênis, está realmente fazendo referências a secreções vaginais. Embora a tradução literal de Kunyaza pareça sugerir que o líquido seja urina, não é urina. Kunyaza é a secreção que emana do chamado Ponto G, no ocidente. Homens relataram que, quando as mulheres alcançam o orgasmo, eles sentem um líquido quente em seu pênis. Líquido incolor e leitoso, inodoro". (http://www.sebadamani.com/blog/kunyaza-an-afrika-sexual-technique)

Kunyaza é cura, é ponte de encontro com a fonte do mistério mais profundo da natureza: a origem do prazer do corpo da mulher. Que é a fonte de origem do prazer do Mundo.

Ativar estas memórias, estas conexões, estas consciências ... é desobstruir caminhos opressores, recuperar as cosmovisões e maneiras afrikanas matriciais de compreender a existência é nos fortalecer enquanto povo e ter força e inspiração para realizar as mudanças que poderão recuperar o mundo e a natureza.

verdadeiro trabalho de restauração ...

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Mo Maiê, 
Mariana, Julho de 2018



                                             



Fontes: 
http://www.sebadamani.com/blog/kunyaza-an-afrika-sexual-technique
http://www.portalbrasil.net/africa_ruanda.htm

domingo, 6 de maio de 2018

A magica geometria sagrada dos Chokwe





Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus deu ao Sol uma galinha e disse: "Volte pela manhã antes de partir". 

De manhã, o frango cantou e acordou o sol. Quando o Sol foi para Deus, Deus disse: "Você não comeu o frango que eu lhe dei para o jantar. Você pode ficar com o frango, mas voltar aqui todos os dias." É por isso que o Sol circula a terra e sobe todas as manhãs.

A Lua também foi visitar Deus e recebeu uma galinha. De manhã, o frango cantou e acordou a lua. Mais uma vez, Deus disse: "Você não comeu o frango que eu lhe dei para o jantar. Você pode ficar com o frango, mas voltar aqui a cada vinte e oito dias". É por isso que o ciclo da Lua dura vinte e oito dias.

O humano também foi visitar Deus e recebeu uma galinha. Mas o humano estava com fome depois de uma longa jornada e comeu parte do frango para o jantar. Na manhã seguinte, o Sol já estava alto no céu quando o humano acordou, comeu o resto do frango e correu para ver Deus. Deus disse: "Eu não ouvi o corvo da galinha esta manhã". O humano respondeu com medo: "Eu estava com muita fome e comi". "Está tudo bem", disse Deus, "mas ouça: você sabe que o Sol e a Lua estiveram aqui, mas nenhum deles matou o frango que eu lhes dei. É por isso que eles mesmos nunca morrerão. Mas você matou o seu, e assim você deve morrer como aconteceu. Mas na sua morte você deve retornar aqui ".

E assim é.


desenho shona , cosmograma do surgimento do mundo para os Chokwe (Angola)


O povo Tchokwe habita predominantemente o nordeste de Angola e partes do noroeste da Zâmbia e as áreas adjacentes do sul do Congo. 


Eles são conhecidos por seu trabalho decorativo, incluindo uma variedade de arte e artesanato e particularmente desenhos de areia conhecidos como sona (singular lusona). Esses desenhos de areia fazem parte da tradição oral do Tchokwe. 

Eles servem principalmente como um dispositivo de estímulo da memória na narração de histórias. 

Os meninos aprendem a contar as histórias e os desenhos sona como parte de seus ritos de iniciação. 

Os aprendizes são ensinados por mestres de desenho, chamados akwa kuta sona. 

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FONTE:
http://www.africafederation.net/Tchokwe_Art.htm

Gerdes, P. (1990). On Mathematical Elements in the Tchokwe Sona Tradition. For the Learning of Mathematics


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Donso: Os caçadores do Oeste Afrikano




Tradicionalmente, nos rituais feitos pelos Donso (caçadores) na Afrika Ocidental, o SORA (o cantor) é acompanhado por um ou mais jovens músicos tocando KARIGNAN, um instrumento de percussão feito de metal. 
Na maioria das vezes, tocador de Karignan também é um `NAAMU TIGI`, uma pessoa que responde com uma frase naamu ou outra, o que confirma que o cantor está sendo ouvido com atenção. Naamu também aponta a importância das letras. 
A música dos caçadores malienses, como a música dos griots, é composta de versos, em que a história está incluída, e o coro, que realmente define a música, é repetido por jovens músicos que acompanham o cantor principal. As melodias de donso ngoni, que são tão numerosas como as músicas que lhes são cantadas, são um elemento muito importante desta música.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Luvemba e a Ancestralidade

Hoje é dia primeiro de janeiro de 2018. O último dia de Kwanzaa, quando se celebra Imani. Fé. Honrar os ancestrais, as tradições e os líderes africanos do passado sobre as adversidades do presente. 

Hoje reverencio e honro a este ancestral chamado Bunseki Fu-Kiau, que tem me ensinado outra maneira de perceber e viver o mundo, através de seus escritos, que revelam os fundamentos filosóficos do povo Bakongo. 

Há dois anos minha família vem passando por contínuos ciclos de morte. Para mim o fato mais marcante que vivi neste último ano foi estar de mãos dadas com minha Avó no exato momento em que ela fez sua passagem para as terras de Mpemba Kalunga, as raízes da grande árvore, a terra dos ncestrais.

Devo cá dizer que essa caminhada de aprofundamento nas bases da Filosofia Bakongo tem me ajudado a lidar com estas experiências de morte de uma maneira profunda e transformadora. Vou com estes ensinamentos desprendendo-me das mazelas do pensamento cartesiano cristão que fui obrigada a engolir na infância e na adolescência, que condenou tantas famílias (inclusive à minha própria), entre outras coisas, a encarar a morte com sofrimento e apego.

Como honrar os ancestrais? Como fazer de nossa própria existência testemunho vivo da luta e dos ensinamentos dos ancestrais que fizeram e ainda fazem a diferença na construção da história de nosso povo e poder somar efetivamente para a transformação de nossa realidade biológica, física, pessoal, social, política?

Quando tocamos o entedimento de que nossa ancestralidade fazemos em vida, através de nossas ações, como este ano me lembrou o amigo e pensador Sérgio São Bernardo (SSA), quando alcançamos este entendimento e assumimos este entendimento em experiência e ação, em movimento, nossa vida se transforma e fica mais fácil caminhar para a transformação e a evolução. Nem que seja no seu próprio interior.

A cada novo dia somos convidados a caminhar, nascer e renascer, porque somos banhados pela luz do sol, que serve como reflexo de nossa mais profunda essência. 

Cada fim é convite para um recomeço. Certa feita ouvi de Mestre Cobra Mansa essa pergunta: "Como você quer ser lembrando quando cruzar a Linha de Kalunga?"


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Uma Linha Reta, N'longa - lukongolo      |      Um círculo Vazio, Mbungi
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Para os Bakongo, no princípio dos tempos só existia o Vazio, Mbungi - uma linha reta com um círculo no meio, o Universo Sem Vida Nem Forma. 

No entanto, onde existe o Vazio e o Nada sempre atuam Forças Desconhecidas e Invisíveis (kwena mwasi ye mpamba kweti sala ngolo zankaza zazimbwa)... 

E foi Assim que, do Ventre deste grande Nada chamado Mbungi, manifestou-se a chispa do fogo da Kalunga, uma força completa por si só, que soprou para cima e para baixo uma tempestade de projéteis de Fogo (kimbwandènde), produzindo uma enorme massa em fusão (Luku lwalâmba Nzâmbi), que explodiu em vários corpos celestes. (FU KIAU, 1969)


deste grande Nada chamado Mbungi manifestou-se a chispa do fogo da Kalunga
Uma destas massas de fogo se resfriou e se solidificou, dando origem à Terra, gerando água, rios, montanhas e, finalmente, os seres viventes.


O mundo (nza) converteu-se em uma realidade física, flutuando nas águas da Kalunga, metade na vida terrestre, metade submergendo-se na vida submarina e no mundo espiritual. 

É muito lindo perceber que, ainda que associada às águas líquidas do grande Oceano, a força da Kalunga também está conectada à explosão do Fogo Primordial que emerge de Mbungi, o círculo vazio, existente antes da criação do universo. 

Como a vida no cosmos passa a acontecer a partir deste momento, acredita-se que a Kalunga seja a fonte da vida original, a força da imensidão, geradora de todos os movimentos e de todos os seres vivos que estão em movimento. 

Por ter sido a força motriz do primeiro movimento dentro de Mbungi, Kalunga é a Vida em sua plenitude, matriz de todas as coisas viventes, que estão em perpétuo movimento.

São os movimentos da Kalunga - os fluxos de suas águas e o calor de seu fogo - que dividem o Diekenga (a mandala bakongo onde estão representados os ciclos da existência do universo) em duas partes iguais e espelhadas, como uma montanha refletida nas águas de um rio. 

Ao nascer, o Muntu (o ser humano, o sol vivo) cruza a "Linha de Kalunga", saindo de Ku Mpemba (o mundo imaterial dos ancestrais, onde o corpo é preparado para existir na matéria) para despontar em Ku Nseke (o mundo físico). 

Diekenga, a mandala da existência para os Bakongo, atravessa quatro ciclos, que correspondem aos movimentos do Sol: 

.Mussoni (etapa inicial invisível, momento de fecundação e concepção);
.Kala (o amanhecer do sol, momento inicial visível, o nascimento);
.Tukula (a trajetória de crescimento do sol, que culmina no ponto chamado Tukula, o auge de seu amadurecimento); 
.Luvemba (momento de maior transformação do sol, a sua morte).

Diekenga, o cosmograma bakongo
Assim, ao ser concebido, o Muntu (o ser humano) passa a existir no ponto Mussoni, o ciclo da fecundação, quando suas impressões digitais são deixadas em seus dedos. 

Despontar para a vida física e social em Kala trás a marca da fala e da escuta, já que é nesta etapa que o ser aprende a ouvir (WA) e a falar, realizando sua missão no plano terrestre, que é aprender. 

"Para os Bantu, especialmente os Congo, viver é um processo emocional, de movimento. Viver é movimentar, e movimentar é aprender". (Fu Ki-Au, 1997)

O Muntu deve mover-se ao longo da Linha de Kalunga para aprender. Aprender dentro da floresta, em contato com a natureza, aprender na comunidade. Se o Muntu não aprende, torna-se enfraquecido e impotente.

Assim como o próprio Muntu, a comunidade também se movimenta ao longo da linha de Kalunga. Então, a Kalunga conecta todas as relações da comunidade e serve de suporte para os processos (dingo dingo) de aprendizagem do Muntu.

Tukula, o ponto da maturidade, exige do Muntu e de qualquer ser vivente ou ciclo cósmico, social ou natural, que seja usada ao máximo a força deste momento-potência para a ação extrema, assim que aquele que não souber aproveitar desta força madura está fadado ao fracasso e ao esquecimento, porque depois de Tukula, vem Luvemba. 

E Luvemba é o ponto onde o Muntu (o Sol Vivo) passa por sua maior transformação e vive o declínio e a Morte, voltando a cruzar a Linha de Kalunga. 

Luvemba.

Na mitologia Bakongo conta-se que é em Luvemba (o quarto e último ciclo do Diekenga), que Maghûngu passa a existir em nosso planeta. 

Um ser andrógino, macho e fêmea, que passa por eras caminhando errante pela Terra, até o momento em que é dividido em dois seres: Lumbu e Muzita (fêmea e macho). 

Conta-se que, para manter a unidade de quando eram um só ser, Lumbu e Muzita decidem permanecer juntos durante a vida e tornam-se marido e mulher. (Fu-Kiau, 1969)

É muito interessante essa maneira de perceber os ciclos da Vida Morte Vida, muito interessante que seja em Luvemba (o ciclo da Morte) que surja o ser humano no Planeta Terra ... E muito lógico, também, já que quando o Muntu nasce, trás consigo o signo da Morte. 


Depois de fazer uma volta completa pelos ciclos que estão em Ku Nseke (o Mundo Material), ao cruzar novamente a linha de Kalunga, o Muntu volta a pisar no Mundo dos Ancestrais ...

Segundo Fu Ki-Au, para os Bantu a Morte não é o fim, porque a Morte é um processo como qualquer outro e por ser um processo, os Bantu vêem a Morte como Música. Assim, nascemos e morremos sob Música, porque dentro de nós temos uma percussão que é o nosso Coração.

Na Vida, nos diz este grande ancestral, "Você precisa encontrar (conhecer) as pessoas vivas e as pessoas mortas. Esse conceito não é muito conhecido no Ocidente e por isso que o Ocidente não entendeu muito bem a cultura africana. Nós aprendemos mais com os mortos do que com os vivos. Isto é muito comum dentro do povo africano. Isto é ilustrado na maneira como os africanos respeitam os mortos. E é verdade também... mas eles não enxergam, não percebem nessa (ordem). Se você for em qualquer livraria, você vai ver mais livros escritos por mortos do que escritos por vivos. E os bantu falam: nós escutamos e aprendemos mais dos mortos. É por isso que os bantu falam: escutem mais os mortos que os vivos, porque os mortos se tornaram pedras, e os vivos são capim. Eles podem ser facilmente pisados, enquanto os mortos, que são pedras, não podem ser destruídos tão facilmente. (Fu-Kiau, 1997)

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Mo Maiê, Mariana, Janeiro de 2018
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Fontes:
Fu-Kiau, K. K. B. (1991). Self Healing Power and Therapy: Old Teachings From Africa. 
Fu-Kiau, K. K. B. (1994). Ntangu-Tandu-Kolo: The Bantu-Kongo Concepts of Time. In J. Adjaye (Ed.), Time in the Black Experience (pp. 17-34). Westport, CT: Greenwood Press.
Fu-Kiau, K. K. B. (1969). Tying the Spiritual Knot: African Cosmology of the Bantu Kongo. Principles of Life and Living. 
Fu-Kiau, K. K. B. e  A.M. Lukondo-Wamba  (2000) . Kindezi. The Kongo Art of BabySitting
Palestra do Dr. Fu Ki-Au (Salvador, 1997): capoeira e Cultura Ancestral Bantu

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O tambor e a Ancestralidade


Tamani, tambor falante. Marcado pelas formas de uma ampulheta do tempo

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Conta-se que para o povo Malinké, antes de cortar uma árvore para fazer um Djambé, é necessário pedir licença para o espírito daquela árvore. 
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Se a licença for permitida, aquele Djambé Foulá (tocador de Djembé) será protegido por este mesmo espírito, cada vez que for tocar aquele Djambé.
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Tambor nasce da força da terra e da seiva que mora na árvore. Tambor nasce do espírito de uma árvore. Nasce da força do animal que deu seu couro para ser tocado. Nasce como nasce um #muntu - um ser vivente. Nasce para ser coração encarnado.

Para o povo Bakongo, a árvore está conectada com o Tempo. As raízes são moradas onde descansam os ancestrais. O tronco e os galhos representam nosso próprio Tempo, o Mundo Material. 
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O Tronco conecta a Semente lá no Profundo da Terra (na posição do #Diekenga chamada #Mussoni) ao galho mais alto (na posição #Tukula). Tambor Transmite Mensagens dos Céus Pra Terra. E da Terra Pros Céus. 
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Dos instrumentos mais antigos do mundo, Tambor nos faz lembrar de que Somos Carne, Madeira, Folha. Somos Casa Morada dos Olhos de Tempo. O Tambor nos Conecta com o Tempo e com a Memória do Tempo. E com o Tempo e com a Memória Do Tempo que Habita em Nós. 
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Quando ressoa em determinadas frequências e cadências, ele Ativa Memórias no corpo humano e leva a estados alterados de consciência, em que o ser se funde com o próprio cosmos, sem que haja limites de forma ou de espaço. 
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Se Somos Seiva, Carne, Folha e Madeira, quando Ressoa um Tambor é bem provável que nos faça Lembrar de essências e Memórias Perdidas, Arrasadas, Inundadas em meio à Liquidez das Informações na Contemporaneidade.
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re.Ativação de Memória Sócio.Corporal. Atômica.Intracelular. re.Ativação de Memórias de Constelações Familiares e Comunitárias Ancestrais, Ligadas por Linhas de Tempos Flutuando pela Linha de Kalunga, que também é Nosso Próprio Cordaão Umbilical.
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           dançaMusica    .      corpoTambor
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Se o próprio corpo nosso é CorpoTambor ! mas talvez SEM a consciência consciente de que É CorpoTambor! - MUNTU KALA NGOMA - 
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se BatucarDançar é medicina espiritual.

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se 3 diz respeito a uma união familiar. três tambores juntos ressoam nas celebrações, tanto na própria Áfrika quanto em territórios da diáspora negra.
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Na tentativa de me libertar, meu corpo e alma tiveram (e ainda tem) que passar por momentos em que danço e me relaxo ao som de tambores para acessar elos perdidos de conexão com ramas de minha ancestralidade, que foram renegadas por processos de colonização. 
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Quando eu Ouvi os Tambores foi que os Tambores me Lembraram de minha Essência. Foram as Frequências Sonoras dos Tambores que despertaram os Totens Guardiões da Memória Ancestral de Minhas Linhagens Familiares e dos Lugares do Mundo por Onde Caminhei. 
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Um Mandengue não só Toca Um Tambor. Ele conta histórias que saltam da pele do instrumento e se movimentam com a natureza e com os tempos do passado, do presente e do futuro.
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O pensador Congolês Fu kiau aponta a música percussiva como parte fundamental do nascimento do #Muntu. ele afirma que para os #Bakongo, os instrumentos que se fazem fora do corpo são iguais à percussão do coração.
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O som que emite o TAMBOR é portador de energia vital que estabelece a comunicação com a força dos ancestrais e a própria natureza. Em muitos rituais ancestrais, os tambores eram tocados para os elementos, para as Águas, o Fogo, o Ar, a Terra, a Chuva, o Vulcão, para o Éter.

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Tambor trás Ritual e Jogo de Corpo. Ritual e Jogo de Corpo são portais que liberam acessos a determinadas informações ANCESTRAIS preservadas pelos próprios Rituais, por terem sido CODIFICADAS através de movimentos, gestos, sentidos, claves de ritmos. Assim, quando toco ou escuto o som de um tambor, abre-se um portal de restauração de memórias passadas dos ancestrais dentro deste instante já, no aqui agora da contemporaneidade.
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Sérgio São Bernardo, em mini curso ministrado no V Congresso de Filosofia da Libertação (BA, 2017), nos diz que a Ancestralidade é produção de cultura, de pensamento, de histórias, de ferramentas. Ele nos está dizendo que a Ancestralidade também é algo concebido no momento Presente e não algo apenas condicionado a um lugar imóvel no Passado. 
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Neste INSTANTE-JÁ nós estamos concebendo a nossa própria Ancestralidade - o legado hereditário que deixaremos para os nossos filhos, filhos de nossos filhos e para nossa comunidade.  
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Como é que queremos ser lembrados por nossa família, por nossa comunidade quando atravessarmos a linha de Kalunga, quando partirmos deste plano e voltarmos para as raízes da árvore do Tempo, morada dos ancestrais? 
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. Qual o nosso legado? 
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Não sei se ainda estou pronta para responder esta pergunta. Mas sei que Quero ser tambor. Quero fazer de meu Corpo Tambor. 
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Quero assumir que, cada vez que minhas mãos fazem ressoar um tambor, a natureza se desperta e o legado do que eu mesma venho deixando para as comunidades onde vivo se nutre pela vibração do SOM. 
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Tambor. Instrumento de convocação ritualística para o nascimento, as festas e a guerra.
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Força Propulsora do Impulso que faz o Remo Remar o Barco e Atravessar o Mar.

Guardião de linhagens ancestrais e da memória da comunidade e de um povo.
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Mo Maiê, Barra Grande de Itaparica da Bahia, novembro de 2017.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O mundo e os movimentos da Kalunga . Laboratório Corpo Cabaça



A Mulher e a Cabaça

Corpo Cabaça propōe um mergulho dentro do próprio corpo, a partir de exercícios de respiração, cantos ancestrais e movimentos corporais com cabaças e xekeres, a fim de acessar memórias primordiais bloqueadas ou esquecidas.

MúsicaDança nos convida a gingar entre duas realidade e fazer girar a própria roda da vida.


Cabaças e Xekeres representam uma conexão muito antiga com a Ancestralidade Feminina. 

Na Afrika, o Xekere está conectado com tudo o que diz respeito aos ciclos das águas, ao domínio das chuvas e  fertilidade dos campos. Para os Bakongo a fronteira entre os mundos dos vivos e dos ancestrais é considerado como um corpo de água, seja um rio (Nzadi, o grande rio) ou o mar (M'bu), o início e o fim da existência.

Neste laboratório, alguns mitos afrikanos que envolvem a cabaça e o xekere tornam-se ponte entre os corpos dos participantes e os fundamentos da filosofia bakongo e sua cosmovisão, propondo experimentar a filosofia a partir da corporeidade e da música.


domingo, 12 de novembro de 2017

elos perdidos . africa brasil


elos perdidos . africa brasil



trata.se de perpassar e proteger rotas da memória, portais e elos perdidos do tempo.

                               todas estas informações que chegam e nos invadem