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terça-feira, 31 de julho de 2018

Kunyaza: Para fazer brotar água sagrada

Estamos em busca de caminhos de descolonizações. 

Descolonização corporal, política, religiosa, alimentar, estética, comunitária 

... Descolonização do pensamento ... 

... Descolonização da medicina ... 

... Descolonização do trato com a natureza que habita no mundo 

e com a natureza que habita em nós ... 

Por muito tempo fomos reféns in.conscientes de manobras de inúmeros sistemas opressores, que nos impediram (e seguem nessa mesma intenção) de nos conectar com maneiras ancestrais de EXISTIR (KALA) e compreender os DINGO-DINGO - processos da existência de indivíduos/sujeitos respeitando o espaço sagrado da NATUREZA.

Os agressivos processos coloniais pelos quais passamos e pelos quais passaram os ancestrais, serviram como dispositivos de prisão corporal e mental.

Dos colonizadores, dentre outras coisas, fomos obrigados a engolir a VIOLÊNCIA da imposição de uma religiāo e a VIOLÊNCIA da imposição de sistemas econômicos baseados na escravidão e no acúmulo de bens.

A roda destes acontecimentos é tão contraditória e feroz ... 

O CORPO HUMANO tornou-se mercadoria com o processo da escravidão e passou a ser SIGNIFICADO como um objeto de PECADO e luxúria.

A Nós, mulheres, nos submeteram às condições OBJETOS . PUTAS . PROCRIADORAS. 

O CORPO FEMININO foi endemoniado e distanciado da própria mulher. 

As mulheres foram jogadas umas contra as outras criando um emaranhado de afetividades feridas, nas raízes da concepção das famílias brasileiras ...

OS CORPOS VIOLENTADOS ... AS AFETIVIDADES FERIDAS ... 

O corpo individual se fragmentou e se perdeu do próprio corpo. O corpo social virou uma colcha de retalhos se desmanchando no ar...

O PRAZER nos foi negado. 

Os caminhos que levam a mulher até o PRAZER foram interrompidos

O sexo SAGRADO passou a ser visto como PECADO SUJEIRA.

Foram camadas e camadas de colonização sobre nossos corpos individuais e sociais. Nos foi negado acesso a conhecimentos e formas ancestrais de experimentar nosso próprio corpo. E o encontro com o corpo do outro.

Assim, quando nos surge a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre tradições de povos que conseguiram manter preciosos conhecimentos ancestrais, é bom estar atento ... 

Por exemplo. Alguns até já ouviram falar do Kama Sutra, um entendimento ancestral do sexo, do corpo, do prazer, do encontro do feminino com o masculino, com origens na Índia.

Mas se nem tantos já ouviram falar do Kama Sutra, muitos menos já ouviram falar em Kunyaza, uma arte secreta do amor, técnica sexual ancestral que leva a mulher a jorrar água sagrada de prazer durante o gozo ...

Mais que uma maneira de compreender o sexo, Kunyaza abre para densas maneiras de acessar cosmovisões surgidas na Áfrika ... outras formas de compreender a existência ...

a ANCESTRALIDADE do sexo.

Em certa região da Áfrika Central, entre os territórios hoje conhecidos como Ruanda, Burundi, leste da República Democrática do Congo, Uganda ocidental e oeste da Tanzânia, Kunyaza tem sido praticada há séculos.

Também chamada de Kachabali (no Burundi), esta verdadeira arte exalta as águas que brotam do prazer do corpo da mulher, alimentando rios, enchendo os lagos e trazendo abundância para a terra.

A mulher ensina o homem, o homem adentra no corpo da mulher, regulando ritmo, intensidade ... 

Kunyaza é feito em muitas posições diferentes. Corpos sentados, deitados, em pé, posições especialmente para o Corpo da mulher Grávida.  Kunyaza é altamente eficaz no desencadeamento do orgasmo feminino. 

Claro que não posso falar de forma determinista sobre um assunto tão delicado, mas parece que no Brasil estes aspecto da importância do ORGASMO DA MULHER está sendo desvalorizado durante as práticas sexuais recorrentes. 

E quando paro para pensar no panorama histórico da invasão do território hoje chamado brasileiro, e nos seguintes séculos de colonização e pós colonização em que nos encontramos nos dias de hoje, a paisagem é desoladora. 

Muitas são os depoimentos de mulheres que tenho ouvido sobre o desempenho dos homens nos momentos pessoais ... e a grande maioria das histórias refletem o quanto fomos distanciados deste cuidado ancestral que o homem tem com o corpo da mulher na hora de fazer amor. 

CORPO DA MULHER É CORPO NATUREZA. O sexo é ARTE. Toda arte necessita de empenho e dedicação para que aconteça o refinamento das suas técnicas de execução.   

Dentro de 3 a 5 minutos, orgasmos femininos são desencadeados durante Kunyaza. Uma mulher pode chegar ao orgasmo dentro de 3 a 5 minutos, muitas vezes antes que o homem chegue ao orgasmo, impedindo a possibilidade de ejaculação precoce.


"A estimulação do clitóris, que se chama "Rugongo", em Ruanda e Burandi, é considerada indispensável para desencadear o orgasmo feminino. No entanto, há um aspecto de Kunyaza, que sugere que  não está simplesmente desencadeando o que o Ocidente chama de orgasmo no clitóris. Kunyaza, que se traduz em urinar no pênis, está realmente fazendo referências a secreções vaginais. Embora a tradução literal de Kunyaza pareça sugerir que o líquido seja urina, não é urina. Kunyaza é a secreção que emana do chamado Ponto G, no ocidente. Homens relataram que, quando as mulheres alcançam o orgasmo, eles sentem um líquido quente em seu pênis. Líquido incolor e leitoso, inodoro". (http://www.sebadamani.com/blog/kunyaza-an-afrika-sexual-technique)

Kunyaza é cura, é ponte de encontro com a fonte do mistério mais profundo da natureza: a origem do prazer do corpo da mulher. Que é a fonte de origem do prazer do Mundo.

Ativar estas memórias, estas conexões, estas consciências ... é desobstruir caminhos opressores, recuperar as cosmovisões e maneiras afrikanas matriciais de compreender a existência é nos fortalecer enquanto povo e ter força e inspiração para realizar as mudanças que poderão recuperar o mundo e a natureza.

verdadeiro trabalho de restauração ...

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Mo Maiê, 
Mariana, Julho de 2018



                                             



Fontes: 
http://www.sebadamani.com/blog/kunyaza-an-afrika-sexual-technique
http://www.portalbrasil.net/africa_ruanda.htm

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Kwanzaa

kwanzaa
Nestes caminhos tortuosos em busca da auto-descolonização e da descolonização comunitária, quando chegam as tradicionais festas de fim de ano, é um bom momento para questionarmos a maneira como fomos impostos a abraçar estes rituais coloniais e todo o frenesi do capitalismo que gira ao seu redor, na contemporaneidade.
Para mim, sinceramente, não faz mais sentido vivenciar estas festas desta maneira...
Me parece muito mais fértil e potente comemorar o Kwanzaa, uma festa criada para celebrar a herança e identidade cultural africana, um portal para vivermos nossa africanidade numa perspectiva panafricanista.
Kwanzaa foi celebrado pela primeira vez em 26 de dezembro de 1967, proposta por Maulana Karenga, professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia (EUA), em uma época em que houve muitos movimentos anti-racistas naquele país.
Kwanzaa vem da expressão "matunda ya kwanza", que significa "primeiros frutos" em swahili, língua original das mais faladas na Áfraka, baseado nos ideais das colheitas dos primeiros frutos.
O Kwanzaa está centrado em sete princípios, Nguzo Saba, que representam os valores da família, da comunidade e da cultura para os africanos e para os descendentes de africanos. 
Umoja: união. Estar unido como família, comunidade e raça;
Kujichagulia : auto-determinação. Responsabilidade em relação a seu próprio futuro;

Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade. Construir juntos a comunidade e resolver quaisquer problemas como um grupo;

Ujamaa: economia cooperativa. A construção e os ganhos da comunidade através de suas próprias atividades;

Nia: propósito. O objetivo de trabalho em grupo para construir a comunidade e expandir a cultura africana;
Kuumba: criatividade. Usar novas idéias para criar uma comunidade mais bonita e mais bem-sucedida;
Imani: fé. Honrar os ancestrais, as tradições e os líderes africanos e celebrar os triunfos do passado sobre as adversidades.

Karenga organizou a Kwanzaa em torno de 5 atividades fundamentais, comuns às celebrações africanas da colheita das primeiras frutas:

- a reunião da família, amigos e comunidade;
- a reverência ao criador e à criação, destacadamente a ação de graças e a reafirmação dos compromissos de respeitar o ambiente e "curar" o mundo;
- a comemoração do passado, honrando os antepassados, pelo aprendizado de suas lições e seguindo os exemplos das realizações da história;
a renovação dos compromissos com os ideais culturais mais altos da comunidade como a verdade, a justiça, respeito às pessoas e à natureza, o cuidado com os vulneráveis e o respeito aos anciões;
- a celebração do bem da vida, que é o conjunto de luta, realização, família, comunidade e cultura.

OS SETE DIAS DO KWANZAA:

No primeiro dia do Kwanzaa, 26 de dezembro, a pergunta feita é: "Habari gani?" (o que está acontecendo?), à qual se responde com o nome do primeiro princípio: "Umoja".
Este ritual é repetido nos 6 dias que se seguem, o único que muda são as respostas dadas, cada dia vai corresponder a um dos princípios de Kwanzaa. 
A libação é realizada por um dos adultos mais velhos e outra pessoa (geralmente a mais jovem) acende uma vela do Kinara. Todos conversam sobre o princípio do dia e quem se sentir de cantar ou contar uma história relacionada com o princípio pode fazê-lo.

Os presentes não são comprados, mas são feitos e se pode trocá-los a cada dia, ou no último dia.

feliz kwanzaa!


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Fontes: 
https://www.newsday.com/long-island/suffolk/kwanzaa-1.15561927
https://www.livescience.com/61261-what-is-kwanzaa.html
http://correionago.com.br/portal/mas-ja-ouviu-falar-sobre-a-kwanzaa/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Kwanzaa

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mas afinal: o que é a Kalunga?

Diekenga. O cosmograma Bakongo

- Mas o que é a Kalunga? (Cada vez que me encontro com Makota, ela me lança a mesma pergunta.)

- Makota ... é você quem pode me dizer ...

E como uma boa Mestra e conhecedora dos mistérios que muitas vezes não podem ser reverberados em voz alta, ela nada diz ...
...

Assim, venho buscando maneiras de compreender dimensões dizíveis e silenciáveis, visíveis e invisíveis destes movimentos filosóficos e espirituais através dos dingo-dingo - os processos pelos quais atravessamos a cada dia ... 
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Eu sou uma mãe e uma filha, que há anos vem navegando pelas águas de Kalunga, lutando pela sobrevivência dentro deste corpo biológico, familiar, social, político, natural, cósmico ...

A filosofia chegou em minha vida a partir da corporeidade. Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que quebrar vários padrões de pensamento para poder deixar que o ngolo, a força natural do universo, presente também em meu próprio corpo, pudesse circular através de minhas veias e fibras, me ajudando a sobreviver.

Foi esta força inconsciente primordial que me trouxe até a Bahia. Meu corpo precisava se manter vivo, depois de passar por um trauma físico considerável, que foi o parto de minha filha, em que sofri uma cesariana forçada, por violência hospitalar, paralisando.me a roda da vida, me levando a viver um estado de depressão pós parto.  A dureza da faca de Ogum cortando as sete camadas de pele da existência.

Um sopro suave e às vezes uma carcajada eloquente me diziam que era hora de acordar. Hora de entrar neste corpo Kalunga. Cruzar as montanhas de Minas e chegar até Kianda, o mar, a Grande Mãe.

Foi a força da comida baiana e o poder da dança que me ensinava Augusto Omolu que tiraram a paralisia de meu corpo e de minha alma. A força do movimento.

E foi em Salvador, esta grande Kalunga, onde comecei a compor músicas inspiradas pelo mar. E assim, passei a investigar dentro de minhas próprias marés, regiões Abissais e Esquecidas ...

... entre Pinaúnas e Mares Desertos ...

Chegou um momento em que percebi que meu caminho musical me levava às Áfrakas. Eram muitas, muitas..... e fiquei um tempo rodopiando entre confusões de encruzilhadas yorubás, malinkés, gnaoua, bantu... até que percebi que o fio condutor destas pesquisas que vinha fazendo sobre diferentes culturas afrikanas era sua conexão com a Diáspora do Transatlântico Negro. 

Como é que se davam estas conexões traçadas pelos caminhos da diáspora negra, sob o viés da música? Do trânsito, do fluir, da propagação ... com tantas manobras de recriação, substituição, transformação... com tanta faísca que sai entre os pontos de fricções histórico-sócio-culturais?

Assim... como a música está ligada à vida, ao cotidiano, às culturas, à espiritualidade ... as perguntas acabaram me levando a viver a filosofia ... em movimento ...  

Como uma necessidade existencial, estes processos foram acontecendo livremente dentro de mim, em nível intuitivo e solitário - como deve ser o momento da criação para um artista. 

Sem eu nem perceber, de uma maneira informal e orgânica eu levava anos pesquisando e experimentando ao redor do universo da música e dos rituais de transe de distintas regiões afrakanas... Criando métodos experimentais de realizar uma espécie de arqueologia da música afrakana e afro-brasileira, através de buscas por pistas e conexões que perpassavam claves rítmicas, fatos históricos e a materialidade dos próprios instrumentos musicais. 

Inclusive, este processo se acelerou a partir do momento em que começo a confeccionar instrumentos musicais e me vejo em um lugar onde minha relação com a música se transforma em um mergulho na fonte primordial de criação divina dentro das culturas ancestrais. 

No entanto, enquanto o tempo ia passando, vinha também essa consciência de que pensar em fluxos diaspóricos implica pensar em movimentos tectônicos entre pessoas também.

Assim, foi que este trabalho que primeiramente existiu num plano individual foi assumindo presença entre outras rodas de pensamentos e pensadores.  Assim, foi que, recebendo um chamado para uma vivência de filosofia afrikana promovida pela Rede Africanidades, baseada em discussões sobre a Kalunga, fui pela primeira vez ao Kilombo Tenondé, onde um portal se abriu em minha vida, conectando a linha de Kalunga, a Filosofia Bakongo e a Capoeira Angola.

E aqui estou ... todavia buscando compreender como fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. 

Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. 

Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. Re.Aprender a fluir de encontro ao outro para realizarmos juntos a transformação necessária.

A coletividade é uma condição primordial se não em todas, ao menos na grande maioria das culturas afrakanas. A palavra Ubuntu, de origem bantu, traduz esse sentido de pertencimento humanitário e comunitário afrakano, em que o indivíduo afirma que EXISTE PORQUE O OUTRO EXISTE.

Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que renascer para sobreviver. Tive que aprender com a fluidez densa destas águas a sobreviver, a ser um corpo à deriva, mas que não caminha sem rumo, no entanto. 

Corpo que começa a se perceber dentro de um ir e vir de movimentos infindos ao longo da linha de kalunga, que é também a própria linha da vida, onde o sol nasce, cresce, atinge seu auge e se vai ... para renascer no dia seguinte ... como todas as coisas viventes e naturais, que respeitam ciclos perfeitos da existência.

Assim, foi que inspirada por mecanismos de sobrevivência e por estas buscas por um entendimento ampliado acerca das raízes de nossa maneira de perceber a vida, a cultura e a música popular brasileira, comecei a conceber uma vivência que unia filosofia bakongo, música, consciência e descolonização corporal, na senda destes estudos ao redor da cosmovisão do povo Bakongo e do entendimento das múltiplas dimensões desta Kalunga ..

A Roda Bakongo (como se chamou esta experiência) é uma vivência circular, norteada pelo estudo da filosofia do povo Bakongo, reverberando no Corpo, inspirado por claves de ritmos afro-brasileiros, como os ritmos da capoeira, do samba de roda e do maracatu, todos ritmos com ancestralidade Bantu.

A Roda Bakongo busca compartilhar as bases do entendimento da cosmologia e filosofia bakonga a partir de uma perspectiva de tomada de consciência corporal e do resgate de uma memória ancestral e fetal de navegação e sobrevivência.

Um convite para se abrir e receber inspiração e força em nível consciente individual, de encontro com o insconsciente coletivo, gerando nos participantes mecanismos de resgate da ancestralidade afrikana e de descolonização corporal e mental, a partir da circularidade e do estímulo de sonoridades e pulsos ancestrais afrikanos, já que a presença da música é fundamental nos processos (dingo dingo) e movimentos da vida cotidiana.

Tanto falei, tanto falei, mas afinal: o que é a Kalunga? Me perguntaria Makota ... 

Talvez com Tempo, um dia até começarei a compreender ... 

O tempo ... 

este grande mestre ...

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Mo Maiê, Salvador da Bahia. Dezembro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Processos (Dingo Dingo) de Confecção de Instrumentos Musicais Ancestrais

Origem
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Outro dia chegou aqui em casa um pastor daqui de Barra Grande, que também é #luthier de instrumentos musicais. Ele veio curioso, querendo conhecer meu trabalho. Falando sobre seu processo de criação, ele me disse que às vezes se deitava para conversar com Deus e bolar dentro de sua própria cabeça o instrumento, antes de concebê.lo no mundo físico. Como gosto das coisas ditas, eu também lhe expliquei sobre meu próprio processo, que passa por um caminho bem espiritual também, de conexão com a origem do instrumento e com o entorno cultural de onde ele foi criado. 
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O pastor me ouvia em silêncio e, para minha surpresa, sempre encontrava alguma referência na Bíblia que justificava e amparava o que eu mesma estava dizendo.
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Como minha grande paixão são os instrumentos tradicionais afrikanos, eu tenho que reverenciar a Áfrika em meus processos de criação. Outro dia mesmo, me peguei em transe, trançando mais um #xekere. Eu senti profundamente a alma da #cabaça. Ela ainda não estava cortada, então senti que, sempre que cortasse uma cabaça para fazer um instrumento, deveria agir como alguém que mata um animal para fazer uma oferenda espiritual.
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Devo prestar atenção nestes detalhes porque nunca estive presencialmente na #Áfraka Bambara ou Mandengue, onde nasceu a Kora, o Ngoni, os xekeres ... nem ainda estive na Afraka bantu, terra dos arcos musicais afrakanos. Ou seja: eu nunca fui iniciada por um mestre ou uma mestra afrikana para poder trabalhar com estes instrumentos. Essa espécie de missão de realizar este tipo de trabalho chegou para mim através de sonhos. Então eu respeito e honro. Porque, mesmo que isso não seja racionalmente explicado, através dos sonhos os espíritos ancestrais podem se manifestar em nossas vidas se estamos alinhados com nosso próprio caminho.
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Um outro outro dia, conversava com um mestre da arte da luthieria, justamente sobre fazer um instrumento sem conhecer sua cultura na raíz (ou seja, sem nunca haver estado em sua terra natal, no seu entorno original, sem nunca ter tocado com as mãos as ferramentas tradicionais usadas para sua confecção, nem sentido o cheiro da matéria prima normalmente usada ...). Sim, eu lhe comentava como vinha percebendo que um instrumento musical não nasce falando, assim como nós .... vamos tocando cordas, teclas, fazendo ajustes, reajustes, fazendo vibrar a caixa de ressonância, timidamente tirando um som ... e pouco a pouco o canto do instrumento passa a ecoar harmoniozo pela natureza..... num processo dingo.dingo de construção que não termina quando o trabalho mecânico termina. Porque não se trata apenas de uma materialidade mecânica. Se trata de uma organicidade conectada com densa espiritualidade.
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Assim, me vêm à cabeça o cuidado que devemos ter com estes novos movimentos de criação, que surgem tendo como suporte de referência esta Kalunga pós moderna: Digital, como a Internet, onde navegamos através das ondas do WIFI, convidados a nos emanciparmos dos caminhos tradicionais de aprendizado dos saberes tradicionais com mestres e mestras da tradição. Assim, cada vez mais somos encorajados a aprender técnicas e tecnologias ancestrais através de meios digitais e tecnológicos contemporâneos, nos distanciando de sua raíz ancestral numa hipotética linha do tempo.
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Sim, cá estou no Brasil, do outro lado do transatlântico, com a mirada voltada para as terras de onde se originaram estes belos instrumentos musicais que me cercam por todas as partes aqui em casa.
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Me lembrando do tempo em que levas e levas de afrikanos chegaram nas Américas quase sem roupa, sem ferramentas, apenas trazendo dentro de si as sementes dos ritmos, da concepção e execução dos instrumentos... Aqui me vem o pensamento de que somos herdeiros deste caminho de criação. Distanciados na origem, mas sempre tendo que voltar os olhos e os coraçōes para esta mesma origem, a fim de nos conectarmos com estes saberes, ainda que não da maneira natural e orgânica como acontece com uma pessoa que lá está, dentro desta comunidade original.... Transcendendo a imposição das novas formas da criação contemporânea, nunca se esquecendo da importância desta busca pelos ensinamentos do passado. Que talvez encontremos mais facilmente nos sentando embaixo de uma grande árvore, ouvindo o vento ou sentindo as ondas do mar, do que assistindo dez mil horas de video aula, na internet.....
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Um instrumento é também um símbolo, podendo ser uma representação físico-sonora de uma cosmovisão de mundo. Em geral, um instrumento musical faz parte da essência de um povo, de sua espiritualidade e também de aspectos fundamentais de seu cotidiano. Muitas das vezes estes instrumentos musicais ancestrais têm função mágica e abrem pontes entre o mundo dos vivos e dos ancestrais. 



confeccionar um instrumento ancestral me conecta com sua origem
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Em várias sociedades originárias (na Afrika Bakongo, por exemplo), uma comunidade é formada pelos vivos e pelos ancestrais. Nos momentos de grande tensão ou de resolver algum problema na tribo, os ancestrais serão acessados, porque fazem parte da sociedade, tanto quanto as pessoas vivas, na condição da atemporalidade. E a vibração dos instrumentos musicais fazem esta conexão, servem de meio, de ponte, entre o mundo físico e o mundo imaterial. 
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Um atabaque faz os pés de um nkise encarnado dançar, assim como as cordas vibrantes de um ngoni podem materializar a opinião de um ancestral sobre uma desavença na comunidade. 
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Assim, que aqui ainda estou, buscando compreender o que fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. 
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Sei que preciso, cada vez mais, fazer uma viagem real à Afraka, a fim de amparar estas pesquisas e criaçōes, revisitando sua fonte primordial original.
Pouco a pouco vou abrindo meus sentidos e minhas percepçōes ultra-sensoriais para ouvir esse sopro dos ensinamentos dos ancestrais para pisar neste solo sagrado que é o lugar da criação, que pressupōe caminhar por sendas invisíveis entre estes mundos sagrados.
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Mo Maiê, Barra Grande de Itaparica, outubro de 2017

sábado, 7 de setembro de 2013

a dança do transe gnaoua

os espíritos que iluminam a noite, os espíritos que sopram através do vento, os espíritos que caminham pelas florestas e desertos, os espíritos que fazem tremer montanhas, Os espíritos que enfrentam a tempestade, um cavalo de vento que reina sobre o mar e sobre as espumas do oceano ... somos escravos da pele recém-marcada. seja testemunhas destas marcas, que nunca vão se apagar ºº Canto gnaoui


os gnaouas
Este ano participei do projeto Dança Afro: Corpo em Estudo. Uma proposta super interessante, em que tivemos vivências com várias mestras e mestres de distintas modalidades de dança afro em Salvador e, ao final da experiência - que durou quase um mês, cada participante concebeu uma proposta de aula de dança.

Em minha proposta escolhi trabalhar a dança, o corpo e o transe, inspirada nas experiências de iniciação nos rituais da comunidade gnaoua, no Marrocos, que vivi em 2008, me havendo marcado profundamente.

Por estar na Bahia, a idéia foi conectar as influências dos caminhos do transe gnaoua com o transe do candomblé afro-brasileiro, através do estímulo de sonoridades e cores, que são os caminhos que norteiam as cerimônias gnaouas.

Sobre Os gnaouas
O essencial da Confraria Gnaoua é um rito de possessão chamado “Derdeba”, em que se misturam elementos africanos, sufis e árabo-beriberes, onde a dança, o canto e a execução de alguns instrumentos musicais contribuem para a criação de um clima hipnótico e sinestésico, que gera o transe nos adeptos com a intenção de realizar a cura corporal e espiritual da comunidade ou de algum enfermo específico.

O transe dentro da concepção geral da cerimônia é uma espécie de manifestação “catártica”, mas com grande valor espiritual. É só no meio da noite, no momento de sonhar, que começa o rito de posse chamado “Derdeba” ou LILA (que, em árabe significa “noite”).
A celebração pode durar uma noite inteira, desde o pôr do sol até o amanhecer, mas dependendo da intenção, podem durar de três a sete dias. As “Lilas” de videntes (Mokdema ou Mokdem) ou mestres (Maalems) são mais intensas e podem durar até 7 dias. Existem ainda rituais com a exclusiva participação de mulheres (as Haddarate), realizados nos espaços fechados de alguns santuários e de acesso muito restrito, durante os quais as vozes femininas elevam a Alá litanias e cânticos secretos.

As “Lilas” tem maior ocorrência no mês lunar do “Chaâbane” (período que precede o mês do Ramadam, quando os muçulmanos celebram a revelação do “Alcorão” aos homens e jejuam durante um mês). Durante o “Chaabane”, os “Djines” ou espíritos são “acorrentados”. Os “servos” fazem inúmeras “Lilas” em mausoléus de santos Gnaoua e devem sacrificar um galo azul (se pobres) ou um touro negro (se ricos).

Transe. Mo Maie, A dança para o Orixá Omolu, o Senhor da Terra. Marrocos, 2012

O transe

Do latim transire – «atravessar», a palavra transe veicula a ideia de limiar, conduto ou canal. Desde o século V, a palavra transe é utilizada para designar a passagem da vida para a morte e foi no século XIV que toma o sentido particular de estado psíquico.
Transe é catarse. É deixar-se atravessar. Canalizar. Passar. Abrir caminho e pedir passagem.
O transe é um caminho. Um caminho pelo qual o próprio corpo atravessa. Um caminho que conecta o ser humano com o divino, diretamente. Conecta o homem com o “axé”, a “baraka”, o “prana” - um presente da vida espiritual que pode ser usado na vida prática.
A busca pessoal pelo movimento de repetição que vai gerar seu transe e o mais importante: abrir-se para seu próprio transe.
O transe gnaoua é um convite a atravessar durante uma noite (Lila, que em árabe quer dizer noite) por uma representação da própria vida e da morte a fim de chegar ao renascimento. Através do caminho da “Lila gnaoua”, vamos atravessar por sete portais, passar pela vida, pela morte e pelo renascimento. A fim de nos transformarmos. Mesmo que inconscientemente.
A proposta da dinâmica que fizemos começa com uma roda, em sentido anti-horário. Aqui respiramos e sentimos a respiração, o ar tocar todo o corpo, acionar o corpo. A roda se fecha e as pessoas encostam as palmas das mãos umas nas outras. Todos se sentam com as mãos conectadas, sentindo a respiração pessoal e a respiração do grupo.
Uqba- O jogo de mãos. Parte feminina, todos batem palmas, e chamam os espíritos ancestrais. 
Bater palmas é a representação da vida, do início, quando o ferro ainda não existia. Por esta razão, os músicos utilizam as palmas, e não os krakabs (castanholas de ferro): unem a mão direita (a vida) e a esquerda (representando a morte) e cantam os 99 nomes de Alla. 
Depois deste momento Uqba, vem o momento “Meksa”, que representa o ferro e o sacrifício. Os músicos começam então a utilizar os krakabs, o ferro alquímico do sacrifício.
E logo que os krakrabs começam a soar pelos ares, começa a Derdaba – o ritual dos cantos e danças evocando as entidades encantadas (Mlouks).
É a Dardaba que nos leva a atravessar pelos três portais.
Cada portal está associado a uma cor. E cada cor corresponde a uma entidade, como os orixás do candomblé brasileiro.
Nas “Lilas” comuns, os músicos entoam seu canto e sua música, enquanto mulheres invisíveis dançam o transe para incorporar os “Mluks”, os espíritos de diferentes cores, também chamados “Djines” ou “demônios”. 
A sensualidade tão comum e natural nos corpos africanos aqui deve ser tapada por véus coloridos durante a LILA Gnaoua (influências de costumes muçulmanos, quando a mulher deve ser tapada socialmente). O corpo da mulher que dança o transe vai se desumanizando, tornando-se impessoal. Passa a estar diretamente relacionado a uma divindade e, por extensão, aos elementos da natureza a ele associados, levado pelo comando das músicas. O transe torna-se a forma de contato entre os deuses ou espíritos da natureza e a comunidade religiosa.
Da mesma maneira acontece nos cultos do candomblé, quando a música e a dança geram a possibilidade de cura e superação de crises do cotidiano, através da “suspensão” da identidade cotidiana e da abertura de espaço àquela do Orixá. Durante o fenômeno do transe, o corpo da filha/filho de santo se torna o próprio Orixá. A música, então, desenvolve o papel de organizadora da desordem do exterior e do interior e a dança expressa o equilíbrio e a ordem alcançada. Para o participante ocasional de uma LILA ou de uma cerimônia de candomblé ou umbanda, todo o conjunto do ritual (como os gestos, o cheiro do insenso, as roupas, os cantos, os ritmos, as danças) pode parecer elementos de um verdadeiro show, mas aquilo que se faz público é também extremamente misterioso e dotado de simbologias que transcendem aquilo que os sentidos percebem. A chegada do orixá entre os mortais é assinalada por cantigas de saudação apropriadas, todas numa seqüência lógica. Da mesma maneira, há uma seqüência lógica e ritualística também nas práticas gnaouas, mas aqui são os “Mluks”, os “Djines” representados pelas cores.

São três portais, que vêm depois do Kuwu:

- O portal dos Jilala::: a vida, a paz, o início
- Jilala – O ar, respiração, paz, a alma estática, a vida, o esperma, a espuma.
- Mluks da terra – Obaluaê.
- Mluks da floresta – Oxóssi – Verde: A natureza, as plantas.
- Mluks do céu e do mar – Sid Moussa, Samaoy, Yemanjá.

- Baba Hamou – Yansã: o fogo, o sangue, a penetração, a morte.

- A portal dos Gnaoua::: o preto, o fim, a morte, o vazio

- Aysha Kandisha Hamduchia: metade mulher, Aysha chega antes do amanhecer.

- Lala Mimouna: a fecundidade, o espírito africano feminino, a morte, o mistério, o medo.

Nanã: A LAMA.

- O portal das mulheres árabes:::

- Lala Mira – Oxum
O tesouro da vida, o ouro, o sol, a vida, o renascimento.


RESPIRAÇÃO

Os xamanes utilizam sistematicamente a música e particularmente os ritmos para produzir estados de transe. Frequentemente, as danças acompanham os rituais e por vezes, utilizam certas plantas para contribuir a estes estados. Mas, este tipo de mecanismo pode ser encontrado em muitas tradições posteriores que praticavam o transe. Os sufis, por exemplo, utilizam danças e músicas para entrar em contacto com o sagrado. As tradições animistas africanas ou religiões vudu produzem também estados de transe por danças e músicas. A prática oriental dos mantras, também recorre a uma noção de ritmo, bem mais importante que o sentido dos próprios mantras.

Grau de Dificuldade – Havendo disposição e energia física não haverá dificuldades em ao menos tentar começar a dançar. O que será mais difícil é dançar com liberdade e por tempo suficiente até que o transe comece a ser formado, pois isso pode levar desde alguns minutos até muitas horas.
Para quem nunca experimentou esse tipo de situação, ela poderá ser despertada a partir de trabalhos rituais e terapêuticos específicos envolvendo técnicas com danças, como a biodança e as danças sagradas circulares.

O giro sufi::::: fazer uma pergunta e começar a girar:

O corpo é o veículo de todas as sensações inclusivé da sensação de ausência de corpo. E isso tem a ver com leveza. A sensação nasce sempre no seio de um corpo-cérebro. Só um corpo bem enraizado experiencia plenamente sensações de flutuabilidade. Eu diria até que a maioria das pessoas vive todos os dias completamente dissociada do seu corpo, sem qualquer consciência do corpo no espaço, no tempo e em si mesmo. Amar o corpo é fundamental. A alma move-se por entre a pele traçando no corpo e no gesto partículas da personalidade e singularidade de cada um. A atitude do corpo no seu todo aparece como espelho da alma como expressão global da pessoa

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Mo Maiê, Alto da Sereia, setembro de 2013