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Meu Cartão Diamante, por Mestre Cobra Mansa

Ao chegar em casa à noite, encontro um pequeno envelope com meu nome.
Quando o abri, lá estava o tão esperado cartão SMILES DIAMANTE DA GOL!
Imaginem a minha satisfação: depois de anos enfrentando filas de aeroportos nacionais e internacionais, o cartão da Gol Diamante me oferecia prioridade no check in e vários outros benefícios. Com o cartão nas mãos, comecei a me sentir como se fizesse parte de um grupo seleto de cidadãos viajantes! Eu não era mais um simples passageiro, mas um passageiro com o cartão SMILES DIAMANTE DA GOL!
Dentro do cartão, uma cartilha anunciava: “PARABÉNS VOCÊ É UM SMILES DIAMANTE!”, “queremos retribuir com privilégios a sua fidelidade.” Um misto de euforia e curiosidade tomava conta de mim. Com o folheto em mãos, lia os benefícios que me anunciavam e me sentia cada vez mais um cliente especial!


No entanto, quando abri a contra capa me deparei com uma foto de um modelo branco, de olhos azuis, atendendo um celular. Na terceira página, outra foto, dessa vez uma modelo loira com um grande sorriso no rosto e passaportes nas mãos. Na página seguinte, outro modelo branco em primeiro plano e, ao seu lado, uma modelo negra em segundo plano segurando a sua mão. No banco de trás, outra mulher branca lia um pequeno folheto. Fiquei um pouco confuso porque apesar de todos os benefícios que me foram prometidos pelo cartão diamante, eu não me senti representado por nenhuma imagem daquela revista! Todas as seis fotos daquela cartilha eram fotos de pessoas brancas. Apenas uma pessoa era negra!
Cartão Diamante
                               
Comecei a ficar incomodado e já nem prestava mais atenção em meus “benefícios”.
Por que as grandes empresas brasileiras ainda continuam a invisibilizar o negro em sua publicidade, mesmo sabendo que o Brasil é o segundo país com maior população negra no mundo?
Os números não mentem: mais de 80 milhões dos 186 milhões de brasileiros se auto reconhecem como negros – foi o que revelou uma pesquisa realizada em 2004 pelo CONEN – Conselho das Entidades Negras, Instituto Rosa de Luxemburgo e a Fundação Perseu Abramo.
No entanto, apesar de tantas lutas, ainda não conseguimos representatividade e visibilidade social, nem mesmo para nos reconhecermos como clientes de uma empresa.
Durante uma aula do curso de doutorado sobre a representatividade das imagens nas propagandas comerciais, tive a oportunidade de ler o artigo “A CONSTRUÇÃO PUBLICITÁRIA COMO REFORÇO DO PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL”. O texto faz uma crítica à propaganda institucional das Linhas Aéreas GOL sobre as passagens promocionais.
O trecho da propaganda que segue adiante fala de Thiago (representado por um jovem negro), garoto propaganda da tarifa Promocional. O slogan “O Thiago ficou esperto e aproveitou a oportunidade” reforça a impressão de que para ele conseguir viajar foi preciso que surgisse uma oportunidade de desconto financeiro, o que o coloca em posição duplamente inferior aos demais clientes da companhia: pela sutil construção da frase que reforça a ideia de que o negro só consegue alguma coisa na vida se usar de esperteza em detrimento do estudo, profissionalismo e capacidade intelectual e pelo reforço textual que aparece logo abaixo de sua imagem. O texto é o seguinte: “Gol. Aqui todo mundo pode voar”. Ao que se pode deduzir, inclusive um negro. (Silva 2009).
Apesar da crise político-sócio-institucional que vivemos em 2017, podemos dizer que nesse período conseguimos um equilíbrio total de 53% na formação da classe média brasileira, dados do Estudos Vozes da Classe Média da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. Já é possível contar com uma classe média negra Brasileira, embora esse crescimento e esse equilíbrio não signifiquem que as desigualdades raciais no Brasil foram superadas.
Se nos últimos anos passamos a ter maior acesso ao consumo, isso também implica em novas oportunidades de negócios para empresas de todos os portes, porém não resultou em visibilidade e representatividade da população negra na grande mídia.
Embora esse exemplo de minha experiência com a revista informativa da SMILES DIAMANTE DA GOL seja uma singela representação de milhares de revistas de propaganda que invadem os lares de mais de 104 milhões de pessoas da classe média brasileira, das quais 53% são afrodescendentes, esse sentimento de não representatividade não tem atingido somente a mim, mas a toda um segmento que não se vê representado em diversas esferas desta sociedade.
Pode ser que as grandes empresas de marketing ainda estejam se atentando para perceber a potencialidade do povo negro como consumidor. Mas enquanto isso, o negro no Brasil, apesar de pagar impostos e consumir produtos, continua invisibilizado pela mídia em geral, dando a impressão de que não seja de interesse dos grandes detentores de poder que o negro esteja empoderado e consciente de sua própria potência e nem de sua própria história. Assim, a publicidade brasileira vem trabalhando para reforçar a manutenção do status quo de certos grupos sociais conservadores de nossa sociedade, reforçando “estereótipos depreciativos e estimuladores de preconceitos que o racismo cordial brasileiro tão bem consegue diluir.” (Silva 2009).
Não é de se estranhar a falta de representatividade negra na mídia de um país que não reconhece em seus livros pedagógicos e planos de ensino a importância de ícones, heróis e mitos negros para a construção de sua própria história.
O Brasil é um país em que os negros são representados na mídia através de papéis em que se destacam por seus atributos físicos, sensuais, como “sambista/dançarino” ou “jogador de futebol”. Ou seja, mesmo quando se afirma a “superioridade” dos negros, ela se dá em um domínio físico e quase nunca intelectual.

Típica propaganda machista e racista
Vivemos numa sociedade que não quer incluir o negro. Quando folheamos um livro de história do Brasil ou uma revista de moda e não nos encontramos, quando assistimos aos comerciais de televisão, às novelas e não conseguimos nos enxergar, é como se fossemos um estrangeiro em nossa própria terra natal. Vem um sentimento de estar sempre vivendo no ambiente que é do outro e não pode ser nosso.
Quando estamos de frente aos veículos de comunicação em massa no Brasil não vemos a cara do Brasil verdadeiro. Poderíamos pensar que estamos na Europa. E é possível que na Europa e nos USA se possa ver mais negros representados de forma positiva do que aqui no Brasil, onde somos a maior população negra fora da África.
Nesse momento de reflexão com um cartão diamante em mãos, procurando por respostas, sinto que nunca foi de interesse das grandes empresas publicitárias, nem das grandes mídias brasileiras, dar visibilidade ao negro no Brasil.
Visibilidade pode gerar igualdade, igualdade gera unicidade e se transforma em poder individual e coletivo. Então como sempre esbarramos nas relações de poder entre os segmentos da sociedade de classes que vivemos. Os publicitários e a mídia em geral já sabem muito bem a quem estão servindo.
Enquanto estiverem muito bem pagos vão continuar a desempenhar seu papel de apagar toda uma parcela da população, impedindo seu avanço.
O cartão diamante é um simples reflexo de uma sociedade que sempre ouviu o branco apenas, e nessa de “o cliente tem sempre razão” só o considerou em detrimento dos demais grupos étnicos e raciais .
Se educar em dinâmica racial é fundamental para o negro conhecer as artimanhas do sistema e reivindicar seu lugar como cidadão, exigir visibilidade na mídia e em todos os espaços onde a sociedade brasileira se fizer representar.
Isso certamente vai se traduzir em empoderamento e unidade do povo negro.
Cinézio Feliciano Peçanha – Mestre Cobra Mansa
Mestre de Capoeira Angola formado por Mestre Moraes (GCAP)
Presidente /fundador da FICA( Fundação Internacional de Capoeira Angola )
Presidente /fundador do Kilombo Tenonde . http://www.kilombotenonde.com
Doutorando -DMMDC-UFBA
FACEBOOK: Cobra Mansa

Bibliografía consultada:
Silva, Márcio David Marcedo da. CONSTRUÇÃO PUBLICITÁRIA COMO REFORÇO DO PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL

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