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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Kalunga e o direito: a emergência de um direito inspirado na ética afro-brasileira. Por Sérgio São Bernarco

“Gingar é ir de encontro ao outro!
As organizações políticas, comunitárias e tradicionais no continente africano e na diáspora[1] atestam uma forma costumeira e conciliadora de lidar com os conflitos – em relação à natureza e a sociedade – nos influenciando numa dimensão contingencial da experiência civilizatória africana no Brasil e nos dando um caminho de como articular novas bases ético-jurídicas para pensar o direito numa ótica emancipatória. Observamos, logo, de início, que a tentativa aqui, é tanto mais epistemológica tanto quanto de produção cultural e, que, estas perspectivas serão sempre trazidas como um discurso de origem e não de finalidade.
Os Bacongos, aqueles povos do antigo Reino do Congo que, hoje, estão localizados nas regiões onde se encontram os países: Angola, Congo, Brazaville e Gabão, nos apresentam uma narrativa de mundo e uma consciência cósmica extremamente valiosa para interpretação da realidade dos africanos e seus descendentes em todo o mundo. Esta mandala cosmológica ou o cosmograma Bakongo[2] referencia-se na travessia do Kalunga, como uma linha que atravessa oceanos e continentes além das montanhas do Oeste e permite o diálogo entre os mundos dos vivos e mortos além de outras possibilidades simbólicas que delas se extraem.
Cosmograma Bakongo

No mundo dos espíritos Ku mpemba é onde residem diversas forças que determinam as ações humanas. Este pode ser um pressuposto para pensar o comportamento, os modos de resolução de conflitos e os mecanismos que acionamos para respondermos a muitas das nossas questões de verdade e justiça. Esta proto-narrativa civilizatória nos convida a pensarmos questões contemporâneas sobre humanidade, ética, direito e justiça; já que o direito hegemônico, através de suas lógicas e equações, não consegue responder as aspirações dos novos sujeitos subalternizados da sociedade moderna.
É possível afirmar um direito africano ou afro-brasileiro? Existe um repertório comum que informa e unifica este direito? Este direito pode ser universalizável como pressuposto de justiça a outras comunidades não africanas? Estas são as indagações que proponho tematizar para sugerir a possibilidade de um debate nos campos da antropologia jurídica, da filosofia africana e da filosofia do direito.
René David alerta que a experiência africana se assemelha ao processo assimilacionista romano quando teve que elaborar um jus gentium para reconhecer as culturas e valores dos não-romanos. Entretanto, nos países africanos colonizados abriu-se a uma conformação para um direito ocidental formal, importado, quase que, literalmente, dos países de origem.
O congolês Kunzika dá uma elevada amplitude aos usos dos provérbios Kikongo na vida comunitária e institucional do Congo e ainda nos presenteia com suas possibilidades linguísticas em outras línguas, nada diferindo do que sempre foi apresentado como senso comum teórico eurocêntrico respaldado numa liturgia jurisprudencial de base germano-românica e, mais recentemente, reforçado com a doutrina consuetudinária do Common Law do empirismo anglo-saxônico. Este sistema de referência ou repertório tópico possui forte poder sobre os critérios de resolução dos conflitos, ainda, na contemporaneidade.[3]
As expressões: “mfumu ka dianga ngulu a kutu dimosi ko”, assim traduzida para o português: “o chefe não ouve só por um ouvido” tratando do direito ao contraditório e “mvumbi mvula tembo kina kawene kikanatumunanga” – “a morte é como uma chuvada, ela leva o que encontra”, tratando da isonomia para todos, localizam alguns dos pressupostos ético-jurídicos do costumem da lei e da obediência fundado em elementos naturais, religiosos ou tão somente convencionais praticados há séculos naquele continente, e, em especial, no Brasil.  
Como podemos entender as diversas formas de lidar com os costumes originados do processo civilizatório africano em confronto com o direito germano-românico, fenomenológico, positivista e culturalista do direito brasileiro? As comunidades tradicionais e as referências mais ancestralizadas das nossas experiências comunitárias (Candomblé, Capoeira, Quilombo, Comunidades Tradicionais etc.) dão conta de que os valores e noções de justo têm sempre acompanhado as noções de integração e comunhão com a natureza, uso comunitário e coletivo da propriedade, restituição no lugar de retribuição de pena, famílias extensas etc. 
Nessa travessia do Kalunga, a visão cosmogônica e comunitária dos conceitos de lei e crime dos Bacongos estudados por Fukiao deve ser revisitada à luz dessa moderna tendência de um direito que renasce preservando as autoridades tradicionais africanas na África e na diáspora. Na mesma trajetória, analisaremos, à luz de Ramose e Wiredu, os elementos da cosmovisão Ubuntu, as perspectivas de restauração e equilíbrio como comportamento ético vital e sua relação com os processos de consensualidade exaustiva nessas comunidades.  
A positividade formal do direito resulta injusta e iníqua. Como buscaremos novas invenções originais que respondam às nossas perguntas existenciais e práticas? Temos produzido um sem-número de projetos de extra judicialidade como orientadora de acesso ao direito e à justiça refletida nas propostas de mediação de conflitos e suas diversas abordagens. Experiências, as mais variadas, tem tomado conta da agenda dos órgãos estatais (arbitragens, mediações, mutirões conciliatórios, etc.) e das organizações sociais no Brasil afora como saída para um direito dogmático e elitista que muito pouco nos diz através de seus “provérbios” e “modos de fazer” ético-jurídico. Será que esta potencialidade resolutiva em se equacionar os conflitos no interior da comunidade e sem responsabilizar a pessoa isoladamente nem retirá-lo do seu meio, buscando saídas na coletividade, não é uma tradição africana esquecida pelas novas gerações?   
A Convenção 166 da ONU se apresenta nesse contexto o qual critérios hermenêuticos mais complexos e heterogêneos tiveram que ser adotados pelas cortes internacionais e pelos países do sistema para localizar modos de aplicabilidade de resolução de conflitos preservando-se a autonomia e os costumes das comunidades e povos tradicionais. Nesse aspecto, a área penal foi a que mais teve que se acomodar com os métodos de mediação para o tratamento dos conflitos.
Qual lei aplicar em casos de condutas antissociais nos países colonizados, o common law, o sistema latino, as medidas de legislação de cada localidade ou os costumes?
Um exemplo mais próximo da experiência com os indígenas originários da América Latina nos chama para a leitura sempre ampliada das diversas cargas semiológicas que o conceito de etnicidade exige. No caso da América Latina, os repertórios ancestralizados das diversas etnias se valem de um “capital étnico” poderoso para a afirmação de direitos em nome de uma “potência plebeia”[4] na Bolívia. O autor vaticina que “fica bastante claro que, a Bolívia é, a rigor, uma coexistência de várias nacionalidades e culturas regionais sobrepostas ou moderadamente articuladas”. A existência de uma sociedade multiétnica impõe que o modelo de estado e de sua base jurídica seja também pluralista. Esta possibilidade foi materializada através da carta constitucional binacional na Bolívia que adota critérios de autonomia política local, equidade, proporcionalidade, solidariedade etc. O reconhecimento de uma comunidade política multinacional e multicultural pode caracterizar-se enquanto referência bastante proveitosa para os nossos debates e em nome de uma pluralidade jurídica pode ser experimentada, também, no Brasil.
O tema da diversidade étnico-racial no sistema normativo brasileiro é algo novo no debate sobre as juridicidades. Podemos encontrar fontes esparsas, nada muito elaborado ou aprofundado no repertório livresco nas livrarias e bibliotecas. Entre estas poucas obras quero referir-me ao livro Ordem Jurídica e Igualdade Étnico-Racial, organizado por Flávia Piovesan e Douglas Martins (2006), através do Instituto Pro Bono[5] que pode ser considerado um estudo inaugural sobre o direito à igualdade étnico-racial, o confronto a uma suposta norma jurídica neutra e universal e a necessidade de uma cultura jurídica pluri-normativa.
Nesse momento diversas mudanças estão ocorrendo nos países africanos e em especial, no Brasil. Todos se preparam para o futuro e buscam modelos que combinam direito moderno e direito tradicional. Este é o desafio do século XXI para os africanos e a diáspora. A Cosmovisão afro-brasileira proporcionada pelo “mundo da vida” (moralidade, eticidade e juridicidade) embora subalternizada e criminalizada pode inspirar elementos de uma nova juridicidade original emancipatória.
Nessa travessia de avanços e reversibilidades, o cosmograma Bacongo pode nos servir de base para compreendermos nossa realidade afro-brasileira como pressuposto para pensar o direito. Nesse caminho, cabe a construção de uma nova cultura a qual funde uma filosofia jurídica de natureza descolonial, original e emancipatória para, enfim, vislumbrarmos novos caminhos para o Kalunga!
 Sérgio São Bernardo é Professor de Filosofia do Direito da Uneb-Ba, Mestre em Direito-UNB, Doutorando do Programa Difusão do Conhecimento-UFBA.

Referências
[1] Aqui, nos referimos às grandes civilizações africanas anteriores ao processo colonizatório e que, ainda, influenciam modos peculiares de instituir valores religiosos, morais e éticos no Continente e na diáspora.
[2] Clyde W. Ford nos apresenta pelo menos seis dimensões interpretativas da cosmologia Congo traduzidas na imagem do Kalunga: a primeira um diagrama com uma elipse que se inicia a leste e representa o nascimento, depois ascendência e maturidade ao norte, logo depois ao poente a morte por fim, ao sul a existência no outro mundo, o renascimento. Ao centro da Elipse estão as aguas míticas do Kalunga; que divide as águas do mundo comum (Ntoto) e a terra dos mortos (Mputu). Estas águas tanto simbolizam uma travessia tanto quanto uma barreira; a segunda- lembra o transporte dos negros escravizados através do Atlântico e corresponde à viagem mítica através da montanha do oeste e do herói que retorna ao seu lar; a terceira, o kalunga seria o eixo do mundo, o desenho do mundo no chão, uma mandala onde se encontra o ponto absoluto da eternidade, também, pode ser associada a cruz cristã,  a porta do sol por onde desce a divindade renascida do céu; a quarta, a dimensão feminina, a matriz da criação, o útero cósmico, localizado na parte inferior do desenho e que está associada à morte consagrando a desintegração do círculo sagrado e do Útero Cósmico; a quinta onde o Kalunga é apresentado por pares de opostos, esta é mais conhecida das leituras dicotômicas de leitura do mundo; a sexta, o cosmograma representa linhas de movimento e renascimento de vida e progressão de consciência, a suástica aqui entendida como sinal auspicioso para a busca do divino dentro de si, por fim Ford nos fala da forte presença desses desenhos míticos no Caribe, Cuba, Nova York e na América do Sul, inscritos em vasos rituais (prendas) e em amuletos sagrados. (Clyde Ford, O Herói com Rosto Africano, 1999, pags.268/275).
[3] Ver II Encontro Nacional sobre as Autoridades Tradicionais em Angola, IFAL, Instituto de Formação da Administração Local, X Lex Data: Luanda, 2007.
[4] Ver Àlvaro Garcia Linera e o livro A Potência Plebeia: ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia; organização e prefácio de Pablo Sefanoni, tradução Mousar Benedito e Igor Ojeda- São Paulo: Boitempo, 2010.
[5] Ordem Jurídica e Igualdade Étnico-Racial, organizado por Flávia Piovesan e Douglas Martins, através do Instituto Pro Bono, 2002.
ALTUNA, Raul Ruiz de Asua, Cultura Tradicional Banto, Ed Paulinas, 2006. 
GARCIA LINERA, Álvaro, a Potência Plebeia: ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia; organização e prefácio de Pablo Sefanoni, tradução Mousar Benedito e Igor Ojeda – São Paulo: Boitempo, 2010.
DAVID, René, os grandes sistemas do direito contemporâneo, tradução: Hermínio A. Carvalho, – 4ª ed.-São Paulo: Martins Fontes, 2002. 
FU-KIAU Bunseki, African Cosmology of the Bantu-Kongo: Tying the Spiritual Knot, Principles of Life & Living, Paperback, 2014 
MOGOBE RAMOSE, Globalização e Ubuntu. In: B. S. Santos; M. P. Meneses. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010, p. 211-213.
OLIVEIRA, Eduardo D.A, Ancestralidade na Encruzilhada: dinâmica de uma tradição inventada. Dissertação de Mestrado. Curitiba: UFPR, 2001.
Cosmovisão Africana no Brasil: elementos para uma filosofia afrodescendente. Fortaleza: LCR, 2003.
PIOVESAN, Flávia; MARTINS DE SOUZA, Douglas (Coords.). Ordem jurídica e igualdade étnico-racial. Brasília: Seppir, 2006.
SÃO BERNARDO, Sérgio, Xangô e Thémis – estudos sobre filosofia, direito e racismo. Salvador: J.Andrade, 2016.
SICA, Leonardo, Bases para o modelo brasileiro de Justiça Restaurativa. Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, N. 12, 411-447, 2009.
KWASI, Wiredu, Democracia e consenso na política tradicional africana. Tradução para uso didático de WIREDU, KWasi. Democracy and Consensus in african Politics.A plea for a Non-Party Polity. 
Polylog: Forum for Intercultural Philosophy. (2000), disponível em http://filosofia-africana.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/kwasi_wiredu_democracia_e_consenso_na_pol%C3%ADtica_tradicional_africana.pdf. Por Marcio Moreira Viotti.
KUNZIKA, Emanuel, Dicionário de Provérbios Kikongo traduzidos e explicados em português, francês e inglês. Luanda: Editorial Nzila, 2008.
II Encontro Nacional sobre as Autoridades Tradicionais em Angola, IFAL, Instituto de Formação da Administração Local, X Lex Data: Luanda, 2007.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A dimensão espiritual das relações na etnia Dagara, por Sobonfu Somé. Artigo escrito por Issa Mulumba

Qualquer que seja, a filosofia africana é um caminho para analisar em sua particularidade aquilo que é bom e aquilo que nem tanto para o projeto de descolonização e busca da afrocentricidade como meio de garantia de existência dos africanos do continente e da diáspora. Podemos analisar de maneira afrocentrada a economia da nossa comunidade e o modo como o dinheiro circula entre os nossos, as oportunidades e capacidade que os negros têm de fazer algo, os aspectos culturais que mantêm as nossas tradições vivas e também as nossas relações interpessoais, de amizade e amor na comunidade.
Certo de que muitas das nossas práticas de vivência em comunidade precisam se manter vivas e cientes também das nossas peculiaridades enquanto africanos da diáspora devemos, se quisermos, problematizar o nível das nossas relações, as possibilidades de envolvimento emocional e como isso está atrelado à nossa ancestralidade e saúde coletiva na comunidade. Quais seriam as perspectivas de relacionamento afetivo entre pessoas negras? A liberdade tão pregada nos moldes de relacionamento de pessoas não negras nos contempla?
Sobonfu Somé, foto: Nut Tmu-ankh

À luz da filosofia Dagara, uma das mais de dez etnias conhecidas de Burkina Faso, a professora e filósofa Sobonfu Somé nos traz as possibilidades de relacionamento de acordo com a espiritualidade africana. Sobonfu, que saiu ainda jovem de sua comunidade para ensinar na Califórnia, nos explica que aqui no ocidente, de algum modo, a espiritualidade não é considerada como participante do relacionamento, e que essa perspectiva de relação baseada na romantização do parceiro pode ser motivo para grande frustração. Para a professora, o relacionamento é um acordo que os espíritos ancestrais já fizeram no plano espiritual antes mesmo de cada pessoa nascer, e cada ser humano veio para uma trajetória ou mais com determinadas pessoas, às vezes cobramos dos nossos parceiros um excesso de romance, uma prova cabal de amor desmedido para que nós possamos nos sentir verdadeiramente amados, a custo de abdicações e privações do parceiro. O alto da colina é definido no livro “O Espírito da Intimidade: Ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar.” como o momento inicial das relações vividas no ocidente, em que, embebidos de grande paixão, os companheiros não tem outro lugar para atingir no relacionamento senão rolar colina abaixo e prematuramente chegar ao fim, sem dar lugar à vontade espiritual que os uniu, para que um relacionamento seja saudável deveria começar de baixo, da base da colina, levando em consideração o tempo e sua força espiritual para condução das relações. Partilhar uma jornada de companheirismo com alguém é convidar essa pessoa para uma jornada espiritual em busca da felicidade, onde objetivos estejam alinhados, onde o respeito, o companheirismo e ajuda mútua na busca dos objetivos devem ser a tônica da relação, proporcionar ao parceiro ou parceira as condições necessárias para alçar os objetivos nessa caminhada juntos, alinhados espiritualmente num acordo que leve em consideração a construção na vida de ambos, algo que parece bem distante nesse ocidente em que estamos não é mesmo?

Sobonfu Some, especialista em rituais da África Ocidental 

Parece encantamento e é; até sermos todos configurados como civilização o mundo sempre foi encantado e o encantamento sempre foi fundamental nas comunidades tradicionais africanas e aqui no Brasil nos povos indígenas, sempre houve a dimensão espiritual na forma de estabelecermos nossas relações, como trazer esses ensinamentos de espiritualidade e ancestralidade para nossas relações afim de que tenhamos também nesse ponto uma postura afrocentrada e voltada a nossos termos enquanto africanos da diáspora? Nem todos nós somos praticantes de religiões afro-brasileiras, mas nós que somos, estamos olhando para o ‘ngunzo’ e ‘asé’ presente nas nossas cabeças e na energia de criação que comungamos com nossos corpos? Sentimos nossa espiritualidade de modo libertador ou aprisionador? Longe de propor uma solução para nossas relações afetivas Sobonfu nos alerta para os possíveis males da modernidade e do ocidente nas nossas relações trazendo a espiritualidade como uma possibilidade de fazermos reflexões e inflexões acerca das nossas jornadas amorosas, um manifesto de leveza contra hipervelocidade com que enxergamos nossos irmãos e irmãs, negros e negras, esquecendo do nosso fundo do fundo de subjetividade.
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Este artigo foi escrito por Issa Mulumba

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Luvemba e a Ancestralidade

Hoje é dia primeiro de janeiro de 2018. O último dia de Kwanzaa, quando se celebra Imani. Fé. Honrar os ancestrais, as tradições e os líderes africanos do passado sobre as adversidades do presente. 

Hoje reverencio e honro a este ancestral chamado Bunseki Fu-Kiau, que tem me ensinado outra maneira de perceber e viver o mundo, através de seus escritos, que revelam os fundamentos filosóficos do povo Bakongo. 

Há dois anos minha família vem passando por contínuos ciclos de morte. Para mim o fato mais marcante que vivi neste último ano foi estar de mãos dadas com minha Avó no exato momento em que ela fez sua passagem para as terras de Mpemba Kalunga, as raízes da grande árvore, a terra dos ncestrais.

Devo cá dizer que essa caminhada de aprofundamento nas bases da Filosofia Bakongo tem me ajudado a lidar com estas experiências de morte de uma maneira profunda e transformadora. Vou com estes ensinamentos desprendendo-me das mazelas do pensamento cartesiano cristão que fui obrigada a engolir na infância e na adolescência, que condenou tantas famílias (inclusive à minha própria), entre outras coisas, a encarar a morte com sofrimento e apego.

Como honrar os ancestrais? Como fazer de nossa própria existência testemunho vivo da luta e dos ensinamentos dos ancestrais que fizeram e ainda fazem a diferença na construção da história de nosso povo e poder somar efetivamente para a transformação de nossa realidade biológica, física, pessoal, social, política?

Quando tocamos o entedimento de que nossa ancestralidade fazemos em vida, através de nossas ações, como este ano me lembrou o amigo e pensador Sérgio São Bernardo (SSA), quando alcançamos este entendimento e assumimos este entendimento em experiência e ação, em movimento, nossa vida se transforma e fica mais fácil caminhar para a transformação e a evolução. Nem que seja no seu próprio interior.

A cada novo dia somos convidados a caminhar, nascer e renascer, porque somos banhados pela luz do sol, que serve como reflexo de nossa mais profunda essência. 

Cada fim é convite para um recomeço. Certa feita ouvi de Mestre Cobra Mansa essa pergunta: "Como você quer ser lembrando quando cruzar a Linha de Kalunga?"


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Uma Linha Reta, N'longa - lukongolo      |      Um círculo Vazio, Mbungi
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Para os Bakongo, no princípio dos tempos só existia o Vazio, Mbungi - uma linha reta com um círculo no meio, o Universo Sem Vida Nem Forma. 

No entanto, onde existe o Vazio e o Nada sempre atuam Forças Desconhecidas e Invisíveis (kwena mwasi ye mpamba kweti sala ngolo zankaza zazimbwa)... 

E foi Assim que, do Ventre deste grande Nada chamado Mbungi, manifestou-se a chispa do fogo da Kalunga, uma força completa por si só, que soprou para cima e para baixo uma tempestade de projéteis de Fogo (kimbwandènde), produzindo uma enorme massa em fusão (Luku lwalâmba Nzâmbi), que explodiu em vários corpos celestes. (FU KIAU, 1969)


deste grande Nada chamado Mbungi manifestou-se a chispa do fogo da Kalunga
Uma destas massas de fogo se resfriou e se solidificou, dando origem à Terra, gerando água, rios, montanhas e, finalmente, os seres viventes.


O mundo (nza) converteu-se em uma realidade física, flutuando nas águas da Kalunga, metade na vida terrestre, metade submergendo-se na vida submarina e no mundo espiritual. 

É muito lindo perceber que, ainda que associada às águas líquidas do grande Oceano, a força da Kalunga também está conectada à explosão do Fogo Primordial que emerge de Mbungi, o círculo vazio, existente antes da criação do universo. 

Como a vida no cosmos passa a acontecer a partir deste momento, acredita-se que a Kalunga seja a fonte da vida original, a força da imensidão, geradora de todos os movimentos e de todos os seres vivos que estão em movimento. 

Por ter sido a força motriz do primeiro movimento dentro de Mbungi, Kalunga é a Vida em sua plenitude, matriz de todas as coisas viventes, que estão em perpétuo movimento.

São os movimentos da Kalunga - os fluxos de suas águas e o calor de seu fogo - que dividem o Diekenga (a mandala bakongo onde estão representados os ciclos da existência do universo) em duas partes iguais e espelhadas, como uma montanha refletida nas águas de um rio. 

Ao nascer, o Muntu (o ser humano, o sol vivo) cruza a "Linha de Kalunga", saindo de Ku Mpemba (o mundo imaterial dos ancestrais, onde o corpo é preparado para existir na matéria) para despontar em Ku Nseke (o mundo físico). 

Diekenga, a mandala da existência para os Bakongo, atravessa quatro ciclos, que correspondem aos movimentos do Sol: 

.Mussoni (etapa inicial invisível, momento de fecundação e concepção);
.Kala (o amanhecer do sol, momento inicial visível, o nascimento);
.Tukula (a trajetória de crescimento do sol, que culmina no ponto chamado Tukula, o auge de seu amadurecimento); 
.Luvemba (momento de maior transformação do sol, a sua morte).

Diekenga, o cosmograma bakongo
Assim, ao ser concebido, o Muntu (o ser humano) passa a existir no ponto Mussoni, o ciclo da fecundação, quando suas impressões digitais são deixadas em seus dedos. 

Despontar para a vida física e social em Kala trás a marca da fala e da escuta, já que é nesta etapa que o ser aprende a ouvir (WA) e a falar, realizando sua missão no plano terrestre, que é aprender. 

"Para os Bantu, especialmente os Congo, viver é um processo emocional, de movimento. Viver é movimentar, e movimentar é aprender". (Fu Ki-Au, 1997)

O Muntu deve mover-se ao longo da Linha de Kalunga para aprender. Aprender dentro da floresta, em contato com a natureza, aprender na comunidade. Se o Muntu não aprende, torna-se enfraquecido e impotente.

Assim como o próprio Muntu, a comunidade também se movimenta ao longo da linha de Kalunga. Então, a Kalunga conecta todas as relações da comunidade e serve de suporte para os processos (dingo dingo) de aprendizagem do Muntu.

Tukula, o ponto da maturidade, exige do Muntu e de qualquer ser vivente ou ciclo cósmico, social ou natural, que seja usada ao máximo a força deste momento-potência para a ação extrema, assim que aquele que não souber aproveitar desta força madura está fadado ao fracasso e ao esquecimento, porque depois de Tukula, vem Luvemba. 

E Luvemba é o ponto onde o Muntu (o Sol Vivo) passa por sua maior transformação e vive o declínio e a Morte, voltando a cruzar a Linha de Kalunga. 

Luvemba.

Na mitologia Bakongo conta-se que é em Luvemba (o quarto e último ciclo do Diekenga), que Maghûngu passa a existir em nosso planeta. 

Um ser andrógino, macho e fêmea, que passa por eras caminhando errante pela Terra, até o momento em que é dividido em dois seres: Lumbu e Muzita (fêmea e macho). 

Conta-se que, para manter a unidade de quando eram um só ser, Lumbu e Muzita decidem permanecer juntos durante a vida e tornam-se marido e mulher. (Fu-Kiau, 1969)

É muito interessante essa maneira de perceber os ciclos da Vida Morte Vida, muito interessante que seja em Luvemba (o ciclo da Morte) que surja o ser humano no Planeta Terra ... E muito lógico, também, já que quando o Muntu nasce, trás consigo o signo da Morte. 


Depois de fazer uma volta completa pelos ciclos que estão em Ku Nseke (o Mundo Material), ao cruzar novamente a linha de Kalunga, o Muntu volta a pisar no Mundo dos Ancestrais ...

Segundo Fu Ki-Au, para os Bantu a Morte não é o fim, porque a Morte é um processo como qualquer outro e por ser um processo, os Bantu vêem a Morte como Música. Assim, nascemos e morremos sob Música, porque dentro de nós temos uma percussão que é o nosso Coração.

Na Vida, nos diz este grande ancestral, "Você precisa encontrar (conhecer) as pessoas vivas e as pessoas mortas. Esse conceito não é muito conhecido no Ocidente e por isso que o Ocidente não entendeu muito bem a cultura africana. Nós aprendemos mais com os mortos do que com os vivos. Isto é muito comum dentro do povo africano. Isto é ilustrado na maneira como os africanos respeitam os mortos. E é verdade também... mas eles não enxergam, não percebem nessa (ordem). Se você for em qualquer livraria, você vai ver mais livros escritos por mortos do que escritos por vivos. E os bantu falam: nós escutamos e aprendemos mais dos mortos. É por isso que os bantu falam: escutem mais os mortos que os vivos, porque os mortos se tornaram pedras, e os vivos são capim. Eles podem ser facilmente pisados, enquanto os mortos, que são pedras, não podem ser destruídos tão facilmente. (Fu-Kiau, 1997)

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Mo Maiê, Mariana, Janeiro de 2018
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Fontes:
Fu-Kiau, K. K. B. (1991). Self Healing Power and Therapy: Old Teachings From Africa. 
Fu-Kiau, K. K. B. (1994). Ntangu-Tandu-Kolo: The Bantu-Kongo Concepts of Time. In J. Adjaye (Ed.), Time in the Black Experience (pp. 17-34). Westport, CT: Greenwood Press.
Fu-Kiau, K. K. B. (1969). Tying the Spiritual Knot: African Cosmology of the Bantu Kongo. Principles of Life and Living. 
Fu-Kiau, K. K. B. e  A.M. Lukondo-Wamba  (2000) . Kindezi. The Kongo Art of BabySitting
Palestra do Dr. Fu Ki-Au (Salvador, 1997): capoeira e Cultura Ancestral Bantu

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Permangola 2018: Capoeira Angola, Permacultura, Cultura Popular, Filosofia Africana

                               

Em sua 12§ edição, o Permangola 2018 reunirá Mestres e especialistas da Capoeira Angola, permacultura, filosofia africana, medicinas naturais e cultura popular, conectando ancestralidade e uma perspectiva futurista de respeito e cuidado com a terra e com o próprio ser humano.

A proposta de reunir em um único encontro os fundamentos e filosofia da Capoeira Angola e os princípios da Permacultura, fazem do Permangola um evento único e uma referência no mundo da capoeira.

Acredito cada vez mais que o mundo precisa integrar o homem e a natureza em uma coisa só. - Diz o Mestre Cobra Mansa, um dos idealizadores do Permangola: Nós estamos com um déficit com a mãe-terra, a gente tem destruído muito a terra... a gente está com essa dívida e a gente tem que começar a pagar antes que a terra venha cobrar da gente. (...) A gente quer que isso aqui seja um modelo tanto de bio-construção, quanto de sustentabilidade”.

O Kilombo Tenondé, localidade onde o evento acontece anualmente, é um centro de atividades agropercológicas (agricultura, pecuária, ecologia e capoeira angola), que busca resgatar a filosofia e a importância histórica dos kilombos brasileiros, tendo como maior objetivo estimular a criatividade, o pensamento construtivo e os valores de convivência humana e harmonia com a natureza, sendo o local perfeito para sediar este encontro, que busca partilhar sementes e gerar intercâmbios para a transformação do indivíduo e do capoeirista em seus múltiplos aspectos, sempre em comunhão e respeito com a natureza, abrindo novas perspectivas para o entendimento da própria Capoeira Angola e da vida em comunidade.

Assim, aqueles que sentirem o chamado para partilhar deste encontro e se abrir para o infindo aprendizado de cuidar da terra, de si e do outro, que venham preparados com sementes para as trocas, barraca, lençóis, cobertores, repelentes, cobertores, lanternas, roupas e ferramentas de trabalho (botas, calça comprida, camisas de manga longa) e boas vibrações!

Aqui estão alguns dos convidados que participarão do Permangola 2018:
- Mestre Leninho: Mestre de capoeira angola , artesão , especialista em fabricação de caxixi e berimbau.
- Treinel Fabricio: Capoeirista, artesão, especialista em madeira e construção de móveis rústicos.

- Mestre Valmir: Mestre de capoeira angola, artesão, especialista em fabricação de caxixi e berimbau.

- Sergio São Bernardo: Doutorando na UFBA, Professor da UNEB e membro do instituto Pedra do Raio.
- Sr Brasilino: Líder da comunidade do Kilombo tenonde ,especialista em plantas medicinais , árvores da mata atlântica e mestre da casa de farinha.
- Yaia Floresta: Especialista no Sagrado feminino e do Temascal (Sauna Sagrada) 
- Mo Maie: Pesquisadora nas áreas de música e dança africana e afro-ameríndia brasileira.
- Sheila: Especialista em ervas medicinais, fabricação de tinturas, pomadas, remédios caseiros, etc...
- Re Floresta: especialista em Agrofloresta, reflorestamento, fabricação de remédios e florais. 
- Mestre Lua (A confirmar): Mestre de capoeira angola, especialista em agrofloresta de altura, Bioconstrução, escultura em madeira, etc….
- Mestre Naldinho: Mestre de capoeira, especialista em orquídeas, peixes ornamentais, etc.. 
- Mestre Rene (ACANNE): Mestre de capoeira, trabalhos com educação e africanidades.
- Gonzalo Hidalco: Mestre em Permacultura, sistema agroflorestal, sistema de irrigação e Sauna sagrada.
- Mestra Gegê: Mestra de capoeira angola, trabalho com crianças, yoga, etc...
- Rayluz: capoeirista, trabalho trança em palha de coqueiro. 
- Contra Mestre Guaxini do Mar: mestre de capoeira angola. 
- Bruninha: especialista em trabalho educativo com Compostagem e reciclagem, etc...
- Dó: Pemacultor, especialista em sistema de agrofloresta, poda, enxertia, clonagem, técnico agricola .
- Dr Eduardo Oliveira: especialista em filosofia africana, capoeirista, antropólogo, professor da UFBA. 
- Rede Africanidade: Grupo de estudo africanos da UFBA.  
- Prof. Geraldo: Professor da UFBA, especialista em PNCS (Plantas alimentícias não convencionais).
- Tiago: especialista em ervas (herbário,UFBA).
- Maíra: gastronomia , especialista em PANCS.
- Juliana (ufba)
- Sr Dadu: Mestre das plantas, PNCS, agricultor.
- Norval Cruz : Especialista em nutrição, alimentação natural, trilhas da lua.

e muito mais, em breve a confirmar ……

Permangola 2018


Para maiores informações:
kilombotenonde@yahoo.com.br
cobramansa@hotmail.com

http://www.kilombotenonde.com/kilombo-tenonde/


Como chegar ao Kilombo:
Vindo de Salvador, pegue o Ferry Boat até Bom Despacho e de lá pegue um ônibus até a cidade de Valença.
Desça na rodoviária e pegue outro ônibus até o Povoado de Bonfim e peça ao motorista para descer no Kilombo, do mestre Cobra Mansa.
Caso você precise esperar muito pelo ônibus na rodoviária de Valença, outra opção é pegar uma Kombi  (3 reais)
na Feira de Valença que passe no Povoado do Bonfim. A Feira de Valença está a 15 minutos caminhando da rodoviária.
Se você chegar depois das 17:20 e não encontrar nem ônibus e nem Kombi, você pode pegar um taxi até o Povoado de Bonfim.
Contamos com o apoio de Nelson, mestre de capoeira e taxista (contato: (75) 3611-2663 ou (75) 9147-1895). É só dizer que está indo pro Kilombo Tenonde que ele cobrará apenas 50 reais pela corrida até o Kilombo. Normalmente, custa mais caro, pois são 20Km até lá.

Os horários do ônibus Valença-Povoado de Bonfim (média de 2,65 reais) são:
Empresa Cidade do Sol: 05:45, 07:50, 10:10, 12:20, 14:30, 17:00
Empresa Santana: 05:30, 07:10, 09:30, 12:00, 15:10, 17:20 (Domingo 07:10, 12:00, 15:10, 16:10, 17:20)

Empresa Camurugipe: 05:30, 7:00 e 11:30
Se não quiser ir de Ferry Boat, outra opção é pegar um ônibus que sai de Salvador e vai direto até Valença.
Tem um ônibus da Águia Branca, somente na segunda-feira e sexta-feira, que sai de Salvador às 06:20, chega em Valença às 10:25 da manhã, e custa 34,76 reais.

Você pode comprar a passagem pela internet:
https://www.aguiabranca.com.br/cgi-bin/br5.cgi

Se você vier de carro pela BR 101, você entra no entroncamento com a BA 542, o Kilombo está a mais ou menos 10Km.
Você verá a placa do Kilombo do seu lado direito. A aproximadamente 100m você verá a casa principal do Kilombo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mas afinal: o que é a Kalunga?

Diekenga. O cosmograma Bakongo

- Mas o que é a Kalunga? (Cada vez que me encontro com Makota, ela me lança a mesma pergunta.)

- Makota ... é você quem pode me dizer ...

E como uma boa Mestra e conhecedora dos mistérios que muitas vezes não podem ser reverberados em voz alta, ela nada diz ...
...

Assim, venho buscando maneiras de compreender dimensões dizíveis e silenciáveis, visíveis e invisíveis destes movimentos filosóficos e espirituais através dos dingo-dingo - os processos pelos quais atravessamos a cada dia ... 
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Eu sou uma mãe e uma filha, que há anos vem navegando pelas águas de Kalunga, lutando pela sobrevivência dentro deste corpo biológico, familiar, social, político, natural, cósmico ...

A filosofia chegou em minha vida a partir da corporeidade. Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que quebrar vários padrões de pensamento para poder deixar que o ngolo, a força natural do universo, presente também em meu próprio corpo, pudesse circular através de minhas veias e fibras, me ajudando a sobreviver.

Foi esta força inconsciente primordial que me trouxe até a Bahia. Meu corpo precisava se manter vivo, depois de passar por um trauma físico considerável, que foi o parto de minha filha, em que sofri uma cesariana forçada, por violência hospitalar, paralisando.me a roda da vida, me levando a viver um estado de depressão pós parto.  A dureza da faca de Ogum cortando as sete camadas de pele da existência.

Um sopro suave e às vezes uma carcajada eloquente me diziam que era hora de acordar. Hora de entrar neste corpo Kalunga. Cruzar as montanhas de Minas e chegar até Kianda, o mar, a Grande Mãe.

Foi a força da comida baiana e o poder da dança que me ensinava Augusto Omolu que tiraram a paralisia de meu corpo e de minha alma. A força do movimento.

E foi em Salvador, esta grande Kalunga, onde comecei a compor músicas inspiradas pelo mar. E assim, passei a investigar dentro de minhas próprias marés, regiões Abissais e Esquecidas ...

... entre Pinaúnas e Mares Desertos ...

Chegou um momento em que percebi que meu caminho musical me levava às Áfrakas. Eram muitas, muitas..... e fiquei um tempo rodopiando entre confusões de encruzilhadas yorubás, malinkés, gnaoua, bantu... até que percebi que o fio condutor destas pesquisas que vinha fazendo sobre diferentes culturas afrikanas era sua conexão com a Diáspora do Transatlântico Negro. 

Como é que se davam estas conexões traçadas pelos caminhos da diáspora negra, sob o viés da música? Do trânsito, do fluir, da propagação ... com tantas manobras de recriação, substituição, transformação... com tanta faísca que sai entre os pontos de fricções histórico-sócio-culturais?

Assim... como a música está ligada à vida, ao cotidiano, às culturas, à espiritualidade ... as perguntas acabaram me levando a viver a filosofia ... em movimento ...  

Como uma necessidade existencial, estes processos foram acontecendo livremente dentro de mim, em nível intuitivo e solitário - como deve ser o momento da criação para um artista. 

Sem eu nem perceber, de uma maneira informal e orgânica eu levava anos pesquisando e experimentando ao redor do universo da música e dos rituais de transe de distintas regiões afrakanas... Criando métodos experimentais de realizar uma espécie de arqueologia da música afrakana e afro-brasileira, através de buscas por pistas e conexões que perpassavam claves rítmicas, fatos históricos e a materialidade dos próprios instrumentos musicais. 

Inclusive, este processo se acelerou a partir do momento em que começo a confeccionar instrumentos musicais e me vejo em um lugar onde minha relação com a música se transforma em um mergulho na fonte primordial de criação divina dentro das culturas ancestrais. 

No entanto, enquanto o tempo ia passando, vinha também essa consciência de que pensar em fluxos diaspóricos implica pensar em movimentos tectônicos entre pessoas também.

Assim, foi que este trabalho que primeiramente existiu num plano individual foi assumindo presença entre outras rodas de pensamentos e pensadores.  Assim, foi que, recebendo um chamado para uma vivência de filosofia afrikana promovida pela Rede Africanidades, baseada em discussões sobre a Kalunga, fui pela primeira vez ao Kilombo Tenondé, onde um portal se abriu em minha vida, conectando a linha de Kalunga, a Filosofia Bakongo e a Capoeira Angola.

E aqui estou ... todavia buscando compreender como fazer para tecer esta rede de fios, ossos e histórias de maré. 

Encontros entre o presente em busca deste lugar.devir ancestral. Vida, Morte Vida. 

Sei que nunca conseguirei escrever sozinha esta história e a cada passo pelos ciclos desta mandala da existência, esta parece ser a grande mensagem que se manifesta. Re.Aprender a fluir de encontro ao outro para realizarmos juntos a transformação necessária.

A coletividade é uma condição primordial se não em todas, ao menos na grande maioria das culturas afrakanas. A palavra Ubuntu, de origem bantu, traduz esse sentido de pertencimento humanitário e comunitário afrakano, em que o indivíduo afirma que EXISTE PORQUE O OUTRO EXISTE.

Sempre tive inclinação para o pensamento. Justamente por isso tive que renascer para sobreviver. Tive que aprender com a fluidez densa destas águas a sobreviver, a ser um corpo à deriva, mas que não caminha sem rumo, no entanto. 

Corpo que começa a se perceber dentro de um ir e vir de movimentos infindos ao longo da linha de kalunga, que é também a própria linha da vida, onde o sol nasce, cresce, atinge seu auge e se vai ... para renascer no dia seguinte ... como todas as coisas viventes e naturais, que respeitam ciclos perfeitos da existência.

Assim, foi que inspirada por mecanismos de sobrevivência e por estas buscas por um entendimento ampliado acerca das raízes de nossa maneira de perceber a vida, a cultura e a música popular brasileira, comecei a conceber uma vivência que unia filosofia bakongo, música, consciência e descolonização corporal, na senda destes estudos ao redor da cosmovisão do povo Bakongo e do entendimento das múltiplas dimensões desta Kalunga ..

A Roda Bakongo (como se chamou esta experiência) é uma vivência circular, norteada pelo estudo da filosofia do povo Bakongo, reverberando no Corpo, inspirado por claves de ritmos afro-brasileiros, como os ritmos da capoeira, do samba de roda e do maracatu, todos ritmos com ancestralidade Bantu.

A Roda Bakongo busca compartilhar as bases do entendimento da cosmologia e filosofia bakonga a partir de uma perspectiva de tomada de consciência corporal e do resgate de uma memória ancestral e fetal de navegação e sobrevivência.

Um convite para se abrir e receber inspiração e força em nível consciente individual, de encontro com o insconsciente coletivo, gerando nos participantes mecanismos de resgate da ancestralidade afrikana e de descolonização corporal e mental, a partir da circularidade e do estímulo de sonoridades e pulsos ancestrais afrikanos, já que a presença da música é fundamental nos processos (dingo dingo) e movimentos da vida cotidiana.

Tanto falei, tanto falei, mas afinal: o que é a Kalunga? Me perguntaria Makota ... 

Talvez com Tempo, um dia até começarei a compreender ... 

O tempo ... 

este grande mestre ...

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Mo Maiê, Salvador da Bahia. Dezembro de 2017