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terça-feira, 15 de maio de 2018

O colapso. O Kaos. A Violência. A Contradição Da Palavra Griô

Pintura de Oswaldo Roberto Griot (in memorian)


É ...

Talvez eu seja mesmo encarnação de contradições ... 

É o que muitas vezes sinto.

Sou a encarnação da contradição ...

Vivo num mundo contraditório, num país estruturalmente contraditório ... 

Vivo dentro dum sistema opressor e contraditório. 

Me expresso duma maneira contraditória ... se é linguagem falada ou se é linguagem escrita. 

A linguagem me paralisa num círculo vicioso e limitado, sem o sabor libertário e expansivo do espiral. 

A língua me atrapa, não me deixa alcançar uma plenitude de comunicação. 

A linguagem não me deixa me comunicar. 

Não consigo expressar com linguagem estruturada o que sinto. 

A língua limita meu pensamento. A palavra . A palavra estupra meu pensamento. É assim que me sinto. Como uma mulher estuprada. 

O outro não consegue entender o que eu quero dizer. Uma palavra mal dita e pronto - Lá evém pedrada. 

"A Kalunga é Violenta". Foi o que me disse um amigo.

Assim, ao mesmo tempo que sinto que não consigo me expressar como quero através da palavra, sinto necessidade de falar. Porque não posso mais me calar.

"A Kalunga é Violenta". Ele me disse.

Muitas dúvidas me dilaceram a alma. Foram muitos anos condicionada a ser uma pessoa enjaulada em padrões de pensamentos-desejos, muitos anos obrigada a engolir regras de um sistema que não representava minha essência ... e o pior: um sistema que me alijava da barca que é o meu próprio ser selvagem ... 

Gostei dessa palavra ALIJADA porque tem a ver com o mar. Tentaram me arremessar, me jogar pra fora da barca que sou eu mesma. 

Tentaram me dizer quem eu POSSO ser só por causa de uma palavra mal dita. 

Maldita Palavra. 

Sou a encarnação da contradição. 

É o que muitas vezes sinto.

Sou filha de mãe branca e de pai negro embranquecido.

Sou neta de vô negro silenciado.

Sou neta de filho de sírio refugiado.

Sou bisneta de cabocla.

Sou neta de vó cigana que renega as próprias raízes. 

Me sinto africana mas tudo que fiz foi nascer em Mariana, no frio das montanhas catequisadas  ...  exploradas ...  sacrificadas. 

Tudo que fiz foi nascer nessa Terra colonizada, Que me deu de herança as mazelas e consequências e reticências de colonizações, colisões ... 

Em Mariana nasci e aqui fiquei até que consegui cair no mundo.

Parecia que sempre guiada por um impulso ancestral de reencontrar, de voltar a percorrer caminhos percorridos por meus antigos ...

sim ... Mas então ... por que você tá me contando sua vida? - você pode estar pensando...

Só estou TENTANDO falar da minha própria vida porque nesse exato momento parece ser a única coisa sobre a qual posso TENTAR falar. 

No agora. 

E o pior de tudo: como tamo falando da essência violenta da contradição, a palavra que me fere é ela mesma, a palavra, aquela que me trás a cura. 

como a vacina, que é gerada da alquimia do veneno.

A palavra é minha SINA.

Depois de haver me deixado bloquear por outras pessoas. 

Depois de haver me deixado domar por outras pessoas.

Depois de haver sido censurada. 

Por causa de uma palavra ... 

Depois disso tudo ... é só com outras palavras que eu vou conseguir me redimir e me salvar.

Porque a palavra encarnada tem também encantamento.

É por isso que a palavra se aproxima da música. 

Por causa do Seu Poder de ENCANTAR.

É ...

Talvez eu seja só uma pessoa que não sabe escolher bem palavras e pronto.

...

Griô, por exemplo ... por que essa palavra foi parar na minha língua ? 

... trazendo mais contradição e encruzilhadas ... 

... abrindo espaço para mais violência ... 

como um fardo pesado que a própria pessoa não escolhe, 

mas é obrigada a ir arrastando pelo tempo afora ...

Mas acontece que essa palavra - griô - chegou por causa da música e da ancestralidade, o que eu entendi quando compreendi que meu avô músico, o finado mestre Gegê, era um griô. inclusive hoje é 16 de maio, dia do aniversário dele... quem sabe não esteja me inspirando a colocar tudo isso pra fora com as palavras, mesmo sabendo que as palavras não dão conta...

Enfim ... é por isso que eu ainda respeito, porque a Música é a única língua que consegue transpôr a essência da minha alma.



O que não quer dizer que eu me sinta confortável quando falo essa palavra. 

...

Me lembro que quando caí no mundo, meus pés tocaram caminhos de povos nômades ... 

Até que um dia as águas da Kalunga me levaram até uma Ilha, onde por primeira vez ouvi o som de um instrumento chamado Kora. 

E nunca mais consegui ser a mesma pessoa de antes. E senti forte que precisava voltar ... mas para a terra onde havia nascido nesta vida. 

E foi assim que voltei para Mariana. Pela primeira vez, voltava em busca de ancestralidade, de conexão vital, tentando compreender para onde meus ancestrais olhavam ...

Depois o tempo se passou e outra vez meus pés e a inquietação de meu peito me levaram para terras distantes ...

era a Bahia, por fim ... 

foi lá que tive um sonho ... num terreiro de terra batida, me falou um mestre ... Você precisa tocar uma Kora ... precisa ... sua Alma precisa tocar ...

Mas nem tanta Kora assim tinha na Bahia e aquele sonho seguiu me inquietando por muito tempo ... 

Até que tive que decidir fazer minha própria Kora, para ver se conseguiria assim chegar ... 

aonde precisava ...

Só que ainda não consegui. 

Consegui a cabaça. o couro. as cordas. o ferro. 

Mas fui paralisada por causa dos balanços violentos da Kalunga.

Os balanços violentos da colonização. Tentaram e estão tentando me decepar.

Decepar o impulso de Amor que há em Mim.

Mas enfim ... resulta que quem toca a Kora na Africa Mandengue é o Djeli. Conhecido aqui como o Griô.

Só que Griô é uma palavra contraditória também. 

Essa palavra que venho carregando há anos aqui nesse mesmo blog, onde agora estou plasmando meu sentimento de dor por ser um ser com identidades problemáticas, por ter sido designada pelos balanços da própria vida para resguardar a beleza e força de tanta coisa tão maior que eu, coisa tão imensa que a linguagem não dá nem conta de compreender, que dirá traduzir em palavra...

Assim que a palavra Griô vem da palavra griot, uma palavra aportuguesada, usada pelos franceses para chamar os Djelis, os mestres das tradições orais e do conhecimento ancestral dos povos que falam línguas mande na Áfrika Ocidental ... 

Em seu sentido original griot era usado para se referir a servos ... 

Enquanto djeli é uma palavra que quer dizer sangue ... 

assim como o sangue leva o fluxo vital para todo o corpo, o djeli esparrama fluxo - comunicação ... sangue memória viva em movimento em sua comunidade e na natureza que lhe arrodeia.

Fluxo. Movimento. 

a palavra é a flecha do djeli. 

e como flechas, os mestres das tradições africanas, os djelis se espalharam pelo mundo afora, se misturando com outros djelis, que em outras línguas tinham diferentes nomes ...

e a palavra griot ficou, impregnada de contradição...

e foi assim que ela chegou aqui no Brasil 

e foi re-contextualizada.  

e virou griô. 

e está sendo, constantemente, ressignificada.

e me lembro que foi em 2012 quando fui morar em Salvador e queria pensar num nome inspirador pra este trabalho de pesquisa ...

e foi assim que veio o terreiro de griôs, por causa do amor pelo som da kora. 

e pelo amor pela memória, pela ancestralidade ...

O mais surreal foi que na semana seguinte que escolhi o nome para este blog, fui morar na rua do passo, 48. 

lá no pelourinho, em salvador.

era um casarão antigo, com um terreiro bonito atrás, que dava pra Bahia de todos os santos ...

e no andar debaixo do nosso, morava um pintor chamado Grióti ...

aí eu senti que no momento, este era o fluxo orgânico de meus caminhos, 

o terreiro de griôs ... 

e aceitei ... 

e com esta palavra, todas as portas que ela me abriu 

e todas as facadas que eu levei por causa dela.

Aonde tudo isso vai dar ainda não sei. 

Mas eu tampouco posso desaparecer fingindo que nada disso aconteceu até agora.

Os movimentos contínuos da Kalunga nos relembram que é tempo de transmutar. É tempo de transformar toda a miséria herdada da escravidão em instrumentos de luta de libertação. E foi exatamente isso o que os ancestrais fizeram. 

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Mo Maiê, Mariana, 16 de Maio de 2018


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Árvore da Memória: Elaine Una


Estamos aqui nessa terra sagrada que é Pernambuco, debaixo de um tamarineiro centenário e estou muito feliz, ao lado de uma mulher muito especial, que vai partilhar com a gente um pouco de suas histórias!


Debaixo de um tamarineiro centenário, fomos ouvir as histórias de Elaine Una

Meu nome é Elaine Una, na verdade meu nome é Elaine Gomes, mas essa coisa do Una veio já dessa busca destas memórias dessa minha relação indígena brasileira ... Eu fui conversando com as pessoas da minha família para tentar entender de onde a gente vinha, porque minha avó fenotipicamente era indígena e essa memória se perdia na minha família e as pessoas não conversavam sobre essa grande diferença que existia entre as feições e os traços dela e do meu avô, que já tinha o fenótipos de branco, português… E as pessoas tratavam com muita naturalidade, chegando até a mim essa mistura eu fiquei interessada em saber … E aí conversando com algumas pessoas da minha família, me diziam "A gente veio de tal região… sua avó veio de tal lugar, sua bisa…." e foi adentrando em Pernambuco, por essa memória, que se traduziu na oralidade para mim e eu fui ter com os parentes Fulni-ô, conversando, passando um tempo com eles ... Consanguinamente eu não consegui chegar nessa arvore geneológica para saber exatamente essas origens, mas nesse mesmo processo eu fui acolhida pelo povo e nesse acolhimento eles perceberam que eu tinha muito a fala das africanidades, que para eles também é um mundo novo e eles sempre me viam muito com essas temáticas … inclusive nas questões fenotípicas, nas questões de convivência, de como eu me mostro ao mundo … e aí as pessoas me chamavam de preta, preta, preta … então me disseram "Vamos dar um nome a você, que diga quem você é, mas não precisa ser na língua que você fala…" E aí foi de onde veio o Una. Una é preto, na língua original brasileira …  por isso que ficou Helayne Una, desde então eu adotei, passei a ter para mim mas também vivo essas experiências agora de saber minhas origens a partir do nome africano, mas vai ser uma caminhada, em processos que também são religiosos. Mas até então, eu deixei de lado meu nome do colonizador e assumi o Helayne Una que foi um presente dos parentes Fulni-ô, daqui de Pernambuco.

Mas essa coisa de ser indígena africana, indígena brasileira, o que ficou bem significativo aqui nessa coisa do ser caboclo, sempre foi essa experiência de estar com os mais velhos, ouvindo, aprendendo, sempre para além de uma conversa, uma simples troca de informação … Sempre ficou para mim como uma troca de vida. 

Minha família aqui em Pernambuco é dessa Zona onde nós estamos, a Zona da Mata … toda a minha família é dessa região … e eles sempre me falaram muito dessas experiências, desse viver em usinas, dessa coisa da cana de açúcar permeando toda a sociabilidade, e consequentemente as culturas, os fazeres … então minha família morou em Engenho, viveu nessa relação casa grande e senzala mesmo … e como isso nos diz quem nós somos… porque minha família inteira é uma família de músicos, mas que não são pessoas que se formaram em música, são pessoas que viviam com a música dentro dos engenhos e que viviam nessa perspectiva: "A nossa festa, a nossa música é lá dentro do mato, e faz parte da colheita da terra, da colheita da cana" e a família inteira tem essa verve musical e depois que saiu do interior e foi ocupando mais o litoral pelas questões trabalhistas, não perdeu essa experiência da música, das danças, de modos de vida mesmo, na minha vida vem aqui na zona da mata, embora eu more em Olinda… então deste encontro, da coisa da música foi aonde eu encontrei o côco de roda aqui na Várzea, onde já é região metropolitana, mas que está dentro da linha que conecta com a Zona da Mata. 

A minha família passou muito tempo na Várzea e lá eles faziam palhoças com côco … as histórias que minha mãe conta, deles dançando côco, com meu avô, e de repente eu me vi no meio de tudo isso e não entendia muito bem como aquilo me tocava tanto, me deslocava, me mobilizava tanto e eu só fui saber depois de velha, conversando com minha família, entendendo como aquilo sempre esteve no seio da minha família, que não era algo novo e eu não tava inventando a roda, mas por motivos vários não se conversava sobre isso. A gente sabia "Seu vô é músico, seu tio é músico, dançava côco, fazia palhoça, tocava o côco…" E o bom é que isso foi uma descoberta para todo mundo, porque quando eu comecei de fato a viver o côco de roda, minha família reencontrou o que eles haviam vivido, pelo deslocamento geográfico também… e aí agora todo mundo se mudou para onde eu moro, para viver juntos, no urbano, mas nos akilombar urbanamente é ter o côco de roda como esse lugar, esse espaço onde esse akilombamento possa aflorar e acontecer.

Mo: E como vc começou a descobrir e assumir suas raízes de Coquista?

Elaine: Para nós do côco o coquista é aquele que faz o côco, que reproduz, dança, realmente que vive aquilo ali. Quem canta no que tange o fazer do cantar, se chama "Cantador", mas coquista é realmente quem faz o côco, que tem aquilo ali como mote de sua vida. Que bate o côco quando o filho nasce, quando tem um aniversário, quando é segunda feira e não tem nada para fazer, no cortejo fúnebre … bate o côco, né? vive o côco de roda …. Sem determinismo, foi através da questão da memória ancestral mesmo … tudo sempre viveu dentro de mim, mesmo quando minha família não soube, não teve lastro para me dizer "Isso aí que você faz, a gente já fazia"… Eu sempre soube que aquilo estava dentro de mim, ainda que não conseguia sair … Por exemplo, na escola eu sempre fui a figura que movimentava os teatrinhos, a dança, que quando era para fazer um trabalho, eu fazia música, dança ou alguma coisa que expressasse o meu corpo … Desde criança isso sempre me permeou, sempre disse quem eu era. Eu lembro que meu pai brincava comigo … Fenotipicamente falando, meu pai é negro, porque minha mãe é como eu, vem de uma linhagem cabocla, mas meu pai é negro, com traços negróides marcados, eles são músicos também, mas do samba… mas o que a gente chama aqui de samba é um samba diferente da Bahia e diferente do Rio de Janeiro.

Mo: E tem a ver com o côco?

Elaine: Não, o samba daqui pegou muito dos desdobramentos da linhagem do samba do Rio de Janeiro. Em termos de modo de vida, de manifestação se aproxima mais do que acontece no Rio do que com a Bahia…

Então, eu cresci nesse ambiente de muito samba no quintal. Meu pai é sambista, compositor, músico, então ele me contava que quando vinham amigos ele dizia "Essa menina aí, quando eu perguntava a ela o que ela queria ser, ela me dizia "Ah, pai … eu queria ser dançarina das pernas grossas" … (risos) Desde cedo, quando não era uma música mais interiorana da Zona da Mata, era o samba através de meu pai … então eu sempre tive essa veia pulsante que me mobilizava muito e fui crescendo, procurando espaços para aprender. 

Mas as culturas populares enquanto espaço que eu ocupei, passei a ocupar, eu acho que foi a partir dos 16 anos, quando eu passei a fazer parte de um movimento de culturas periféricas e aí eu comecei a fazer dança afro e a partir dali foram só somas, tanto no campo das culturas, das artes, como uma experiência disso no seio de uma comunidade, no seio de uma favela … de como isso pode ser transformador, modificador … principalmente porque vai lhe resgatar o "quem você é". Não é só um resgate social - é um resgate de quem você é, no seu profundo. E a partir de saber quem você é, e estar ao lado de alguém que te dá o braço e te diz "Nós somos isso Juntos", isso se transforma em transformação social. E foi esse o processo. Aí eu conheci muita gente que já era do côco de roda, e aquilo foi me encantando … foi pra primeira sambada e aquilo me encantou de uma forma, porque era um movimento muito democrático, mas não era essa democracia que a gente tá acostumado, de que todo mundo tem uma vez igual … não era isso … era uma democracia em que cada um sabia seu papel, todos se harmonizavam e faziam uma festa acontecer e naquela festa tinha de tudo… alegria, mas muita dor, muita reivindicação, muito sorriso … e tinha muito suor. E tinha colocação de papéis, de lugares. Uma Roda não é simplesmente uma Roda … você não chega numa roda de côco e faz o que você quer … mas isso não acontece por uma questão de não-liberdade, já que você tem uma liberdade tamanha, que você compreende que existem parâmetros e você circula dentro destes parâmetros "Na roda, dance em dupla, não dance em seis, em dez, que é para você não se machucar … para não virar bagunça, para não ter briga e a energia fluir melhor …" Você é o Mundo… é difícil para mim falar do côco sem se emocionar, pelo que eu vivi, vivo, foi muito impactante e aí chegar numa comunidade e ver uma pessoa com um tachão de sopa, fumegando … e depois passar a estar ali também fazendo aquela sopa, a partir da minha casa … um processo de ser … um ritual ...

Os lugares tem a sua magia. O lugar onde estou há mais de 10 anos, mas moro mesmo há cinco anos, que é o tempo que meu filho nasceu e eu decidi que era ali que eu gostaria que ele vivesse a parte da vida dele que eu poderia viver com ele. É um lugar que tem essa memória kilombola indígena, então o côco de roda dentro da comunidade do Amaro Branco é o lugar onde a gente é essas memórias … tem côco de roda em todo lugar, mas por que aqui no Amaro Branco o coco de roda, ele não é um evento, ele é a comunidade? Pra tudo se bate um coco? Tem dia que não tá acontecendo nada, não tem evento, aí de repente … tum tum tunum! é assim que funciona. Por que aqui é tão forte? Por que tem tantos mestres? 

Tem gente bem velha que faz o côco, gente de 80 anos … Coquistas … Ou seja: está enraizado … Foi a formação negra, indígena, a formação geográfica… Está num morro … é um Kilombo Urbano, não é reconhecido pelas instâncias desse poder estruturado que a gente tem no Brasil, mas é um Kilombo Urbano. 

As relações de parentesco são muito forte … você não encontra ninguém lá que não tenha 3 primos que moram lá também, fulano é primo de fulano, que casou com a prima de siclano… é assim que funciona… nessa dinâmica cultural, social … na rua onde acontece o côco, por exemplo, é mágico… tem uma cassimba que nunca seca! A gente tá no meio de Olinda, mas tem uma cassimba que nunca seca. Tá ali a água. Falta água do fornecimento das empresas, todos os dias falta água. Agora a cassimba que sai do solo, onde a gente pisa o coco nunca faltou a água. Então, é realmente um território mágico. 

Aí eu passei a conviver mesmo, a ser vizinha dos mestres, das mestras de ter relação mesmo, meu filho ser cuidado, criado na casa de uma das mestras de lá e ter esse respeito … claro, ne? Eu sou de outro tempo, outra geração, tenho um outro conhecimento, que não é melhor nem pior, mas é diverso, né? Então nessas relações assim, a gente tenta dar um pouco do que a gente tem e nessa relação cronológica dessa vida, a gente tenta dar, porque a gente tem sim o que oferecer a esses mestres e também receber deles também. Mas nem sempre é harmônico, justamente porque os tempos são diferentes, então por exemplo, às vezes eu quero conversar com eles sobre como o côco pode nos fundar, de como ele é nossa raíz, de como a gente pode agarrar nele, pra falar sobre formas sustentáveis de vida, pra repensar o jeito como a gente vive, mas ao mesmo tempo tem outras instâncias de poder que estão falando pros mestres sobre seu cachê, sobre o seu show, mercantilizando … eu não os culpo por se sentir atraído por estas perspectivas, são processos, pessoas que dizem "você não tem nada, e a partir disso você pode ter tudo… mas o que é nada? Para um mestre poder viver na casa própria e ter a autonomia de uma cassimba é tudo, um exemplo… mas as pessoas estão dizendo que aquilo que ele vive é pobreza, uma inversão de valores, porque o que é ser pobre? o que é ser rico? o que é ter? é ter o que?  então, claro… são muitas invasões mesmo, do espaço, do território, da vida destes mestres que trazem outras concepções, e que dentro dessas concepções as pessoas que sabem falar melhor, que sabem dizer para eles melhor, deles mesmos.. e eles vão assimilando e aí infelizmente criando distorções no modo de pensar a brincadeira, o brinquedo, mas enfim… enquanto a gente puder estar lá, dialogando, e tentando ao máximo que o côco de roda não é que ele vai morrer ou não vai morrer,  ele é, ele não tem como morrer, ele é … por mais que a gente continue tentando enxergá-lo da mesma maneira, que essas coisas que vem de fora passem por nós como experiência, mas que não nos fundamente como coquistas, brincadores, sambadores ...

Mo: E nesse processo que você tá falando sobre esse contato com a mercantilização da cultura popular, como você percebe os processos de transmissão dos conhecimentos dos mais velhos pros mais novos que tem uma ligação consanguínea mesmo? Como essa linhagem que antes era uma coisa natural, na sua visão como isso esta acontecendo na comunidade onde você mora?

Elaine: Eu acho que é um processo não igual, mas com as mesmas tangentes … eu acho que está se transformando, mas não é diferente a partir de uma mudança nossa … das nossas próprias convicções, é uma mudança do mundo mesmo, a partir da colonização, e das colonizações que estão acontecendo no mundo … todos os dias a colonização tá aí ... O que me toca na sua fala é pensar nas questões trabalhistas, porque o que geralmente tem modificado esses processos é uma fala que traduz um sentimento, uma perspectiva "Ah… você vai bater côco, que nem o seu pai? Mas seu pai não tem nada! você tem que ir pra escola, pra universidade, estudar e ser alguém na vida." Parece uma fala de antigamente, mas é uma fala de hoje, então essa inversão dos valores a partir dessa coisa do trabalho, do oficio … os ofícios tradicionais em determinado momento da nossa história passaram a ser ofícios de pessoas que não sabiam, que não tinham conhecimento formal. Então essa coisa de bater o côco, que esta intimamente ligado na comunidade sobre ser pescador, quando se disassociou a pesca como um fazer que tinha valor, valor de vida, valor ético, valor de construção de ofício, de produção, de subsistência, quando se distanciou a pesca do côco, porque a pesca passou a ser uma profissão, um trabalho de quem não tinha conhecimento … então quando houve esse distanciamento … o que é viver bem? o que é ter um trabalho com qualidade? Não é melhor fazer uma coisa que você sub-existe, com aquilo ali você existe, você vive, você pesca, você canta… é o que você é … então quando houve esse distanciamento, também houve esse distanciamento da consciência de que o côco era uma forma de vida, um lugar de vida. E aí a partir disso, claro… já não há mais aquele incentivo "Olha, eu posso lhe ensinar dois, três côcos, mas não vá ser coquista não… Porque o mundo tá exigindo que a gente seja outra coisa: ser coquista é ruim… não dá pra ter dinheiro, pra morar numa casa grande, ter máquina de lavar, televisão, carro, não sei o que …" Então é uma coisa que não se disasossia de outras colonizações… 

A gente ainda tem a grande maioria dos núcleos aonde o côco é vivido … Ainda tem sim: a mestra, o mestre que geralmente aprendeu com o pai … 

Pelas minhas contas, do que a memória alcança, no Amaro Branco a gente tá na quinta geração de coquistas que entende aquilo que era feito lá na senzala como côco… a gente consegue observar que existe uma diferença de uma geração e outra, em quantidade mesma de quem era coquista e de como vê o coco de roda, como vive o coco de roda. Essa geração agora que esta na faixa de 10, 11 anos, nesse repasse griô, principalmente familiar mesmo, consanguíneo, já vê o coco de uma outra forma, de uma maneira mais estanque, de uma maneira mais eventualizada … vai bater um coco aqui, aí tem um grupo que se apresenta, um grupo de criança, mas por exemplo, eles já não são as crianças que frequentam a sambada, que vivem o coco, que tão ali, que cortam a verdura que vai pro fogo, já não é mais esse processo, então alem da quantidade mesmo de gente que vai diminuindo (antigamente uma mulher tinha 10 filhos, e de repente 9 estavam naquele meio) … era a vida, era o cotidiano… e hoje não. Hoje vc tem 10 filhos, tem 3 filhos, um que batem um bombo, os outros não estão nem mais lá. Então além da quantidade, tem essa forma de se relacionar com o Amaro Branco. Mudou, é uma outra relação. Mas ainda é forte, não vai morrer. Vai se re-transformar, se modificar, vai perder muitas coisas, mas vai ganhar outras. Mas ainda é muito forte! Eu que consanguinamente não estou ligada a essas pessoas, mas ancestralmente, eu existo ali, o meu filho já vive isso. Então, até nós que não nascemos ali … ( apesar de que é engraçado, eu nasci ali, porque lá tem uma maternidade. A comunidade é alta, mas a maternidade é embaixo e eu nasci naquela maternidade sem morar lá .. é engraçado … ) E aí meu filho já vive esse processo, ele já está lá. Ele tem cinco anos e tem outras crianças também que estão lá, que vão pras sambadas, que entende o côco, que bate o côco, que são ninados pra dormir com côco de roda … então isso não vai morrer, não vai acabar… Mas acho que tudo que a gente tem vivido agora é porque a gente precisa voltar … a gente não tem mais como caminhar pra frente e se sentir parte,  se sentir fazendo a coisa certa, e se sentir não-adoecido, se a gente não voltar … cada um vai ter seu tempo pra voltar… mas eu não vejo outra coisa … a gente precisa voltar, repensar o que é oficio, o que é trabalho … Ser pescador é menos do que ser médico? Por quê? E como a gente faz pra ser pescador e viver bem, com uma casa confortável… Eu não tô falando que ninguém tem que viver em misérias… Mas também o que é viver bem? Qual a posse que me diz que aquilo ali é saudável pra mim? Quem foi que disse que saudável pra mim era ter cinco televisões? Quem foi? A gente tem que voltar todas as casinhas em tudo pra se recuperar. E claro, nossa referência está na África, porque a referência da África também está na África… Existem vários problemas contemporâneos na África. Mas a pá de problema da África, a solução tá lá e aqui. A pá de problema do Brasil está aqui e esta lá na Africa também… 

Mo: Então já que a gente chegou na África, eu queria saber como você trabalha buscando entender o griô ... o griô brasileiro. Eu pessoalmente já tive muita crise relacionada ao uso dessa palavra … eu queria que você falasse um pouco sobre o que você pensa sobre e também nos contasse um pouco de sua experiência como griô aprendiz.

Elaine: Na verdade eu também tenho várias crises com essa palavra … eu a utilizo muito por hábito de ficar ouvindo as pessoas dizerem "Você é griô" … Como eu me sinto, na verdade é que eu vivo com essas pessoas … eu tento falar griô ou aprendiz, para que as pessoas entendam o lugar mas para mim eu não sou griô ou aprendiz … Eu vivo e aprendo com essas pessoas … Eu me sinto vivendo e convivendo com eles num processo constante de troca, de procurar entender justamente a ancestralidade que está ali naquele mais velho, mas também que a relação seja dialógica a ponto dele entender que existe um ancestral em mim também e que a nossa troca saudável, que meu tempo, meu conhecimento do meu tempo toca ele, assim como o tempo dele me toca e algumas pessoas me criticam por essa minha postura de eu achar (para mim é uma certeza, embora todas as certezas possam cair)  que tenho muito, sim, que contribuir junto a eles e vice versa. Não é uma relação de mão única nem tem como ser. Então, a minha relação com esses mestres parte muito dessa relação cotidiana mesmo ... de viver cotidianamente. Eles são pra mim, meus avós, meus pais e eu sou pra eles uma filha. É uma relação comum, de cotidiano, de precisar de levar ao médico ... é essa relação do cuidado. E nisso, nessa relação do cuidado, do conviver, tem toda a relação da transmissão do conhecimento, pelas conversas … de repente a gente tá almoçando e vem aquela memória do Mestre Galo Preto de como era o côco no tempo do Kilombo em Garanhuns e como ele chegou aqui, e como isso modificou ele como pessoa, dele falar das dores dele, de ter sido reprimido, de ter sofrido preconceito porque ele é preto retinto e no meio disso tudo ele tirar uma embolada que já fala daquele processo dele. E de alguém falar "Mestre, me ensine a tocar um pandeiro" e ele falar "Não tenho como ensinar. Você olha e sinta, observe, deguste e o som vai sair da sua mão…" Muito mais do que eu dizer "A B C D" … que é uma forma de aprendizado também … Mas "Sinta, deguste, observe o Som, pratique, se empenhe…" Essa coisa do griô me chama muito atenção … (óbvio que não sei tudo o que essa palavra pode trazer) mas do que eu sei me chama muita atenção justamente por isso: você precisa olhar pra pessoa enquanto ela tá te ensinando algo. Porque ela não tá te dando uma técnica. Ela tá te dando vida. Então quando você olha, você observa a feição da pessoa, você olha o olho, você precisa olhar a boca daquele mestre, precisa observar o dedo, a mão, então você presta atenção no corpo da pessoa, porque ela não tá te dizendo "Bata A, Bata B", ela tá fazendo! Que coisa mais profunda é aprender tendo que observar o outro! 

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Sítio Malokambo, Tracunhaém . Março de 2018
Encontro de Filosofia Africana em Terra de Cabôco: Do Outro Lado de Cá

segunda-feira, 5 de março de 2018

Reflexão sobre o RedBull paranauê, por Mestre Cobra Mansa

 
Estamos simplesmente replicando o pensamento opressor?

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. ( Paulo Freire ).

Poderíamos facilmente trocar a palavra educação por capoeira, ao almejar ocupar o lugar do opressor, inconscientemente o indivíduo deseja a manutenção da estrutura social ampla na qual ele hoje se sente oprimido, na esperança que um dia seja ele a oprimir. Estaria a mentalidade colonial tão incutida dentro de nós que não conseguimos nem mais refletir quem fomos, o que somos ou o que estamos fazendo para as futuras gerações? Estamos simplesmente replicando o pensamento opressor?

Como lutar por uma decoloneidade corporal, mental e social quando convertemos os nossos símbolos de resistência em simples eventos, espetáculos, porque quando isso acontece converte-se também o que era originalmente perigoso em algo limpo seguro e domesticado, pois retiramos o seu poder de rebeldia.
Nós capoeiristas estamos lutando por um projeto decolonial, com a intenção de provocar um posicionamento contínuo de transgredir e insurgir?  
Um projeto decolonial implicar em uma luta contínua. A dimensão estética da capoeira quando é apropriada e controlada pela indústria cultural massificante nos leva a um processo de alienação da nossa própria cultura ancestral.
Então este reconhecimento estético/cultural reduzido ao exotismo espetacular realmente nos interessa ?
Mesmo assim, alguns capoeiristas bem ou mal intencionados acreditam que, mesmo com a dominação das mega indústrias criativas capitalistas, poderemos conseguir trazer algum benefício para a capoeira.

Ou satisfazem apenas as vaidades pessoais e as imposições do sistema opressor, racista, machista e colocam a capoeira dentro da lógica da espetacularização, do show, do entretenimento, da competição que caracteriza a sociedade contemporânea, capitalista, patriarcal, heteronormativa, colonizadora …


A Capoeira perde a sua função de resistência e ser tornar vulnerável, tombada (caída), domesticada, colonizada. Por que temos que continuar com essas competições em que somos obrigados a competir entre nós simplesmente para divertir os outros e distrair a atenção para os verdadeiros problemas sociais que atingem a capoeira e a nossa sociedade atual? Os defensores desses mega espetáculos argumentam que a capoeira finalmente tem um apoio que merece, ou seja, temos uma grande empresa multinacional para se fazer um trabalho com tamanha desenvoltura. Não estariam eles simplesmente surfando na onda da capoeira que, com suor, sangue e lágrimas conseguiu depois de séculos sendo discriminada, trilhar seus próprios caminhos ?

Acredito que Red Bull oferece uma plataforma para que aqueles que querem fazer um espetáculo. 

A questão que gostaria de refletir com os organizadores é: até quando vamos continuar fazendo espetáculos só pra divertir, sem consciência?
Fica uma pergunta: se essas grandes empresas realmente gostariam de fazer um trabalho em que a capoeira pudesse mostrar todo o seu potencial, poderíamos tentar alguma proposta diferente como eleger com prêmios e patrocínios o melhor trabalho social de capoeira, o trabalho mais completo de capoeira com educação? A escola ou grupo mais completo em trabalhos sociais, para o desenvolvimento da capoeira de forma integral? Uma bolsa de estudos integral para os estudantes de capoeira da periferia que mais se destacarem nos estudos dentro da capoeira e na escola pública?

A capoeira durante toda a sua trajetória tem demonstrado um histórico diferente das outras modalidades marciais. O capoeirista, tanto do presente como do passado, procurou mostrar que a capoeira é uma arte multidisciplinar. O histórico da capoeira já provou que por mais que essa sociedade não queira, que não cabemos dentro das pequenas caixas impostas por essa sociedade moderna. Depois de tantas lutas e sacrifícios de nossos ancestrais acredito que está na hora de nós, capoeiristas, mostrarmos quem somos e o que queremos, buscando apoio e aliança daqueles que querem estar conosco nessa luta de forma integral.
Como queremos ser lembrados? Qual é o legado que deixaremos para as futuras gerações de capoeiristas? Estamos cumprindo os desejos de nossos ancestrais? Como estamos construindo a nossa ancestralidade dentro e fora da capoeira? 
Já paramos pra pensar que capoeira nós estamos ensinando para nossas futuras gerações?

Ao invés de unir contra uma exploração social, cultural será que estamos por livre e espontânea vontade entregando a capoeira ao sistema capitalista?

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Este artigo foi escrito por Mestre Cobra Mansa

Mestre de Capoeira Angola
Doutorando do DMMDC - UFBA e membro da Rede Africanidades - BA

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Cartografia Afetiva do Samba de Roda na Ilha de Itaparica


A Diáspora africana criou densos cordões umbilicais unindo África e Américas, gerando o nascimento de fusōes musicais, espirituais, políticas, culturais e corporais.

Em plena harmonia com suas raízes africanas, o samba de roda nasce dos cantos, lamentos e toques de trabalho de regiões do interior do estado da Bahia, na beira-mar ou nas plantações de cana de açúcar e tabaco, ao longo do Recôncavo baiano, entre vilarejos e quilombos, estando intimamente conectada com a capoeira e com a espiritualidade matricial africana.
Ilha de Itaparica: Terra de Samba de Roda

Mais que um estilo musical, o samba de roda é uma manifestação cultural que envolve música, dança, poesia e espiritualidade. Assim como o congado e a capoeira, estima-se que o samba de roda tenha se originado em ambientes com presença expressiva de africanos de origem Bantu.

Durante os rituais conhecidos como rodas de samba, as mulheres dançam miudinho ao som dos instrumentos musicais tocados por homens, ainda que esta historia vem se transformando, sendo cada vez mais comum a presença de mulheres tocando instrumentos musicais durante os rituais do samba de roda, como é o caso de Dona Aurinda, mãe de santo e mestra tocadora de Prato nas rodas de samba, sambadera da Ilhota, comunidade quilombola da Ilha de Itaparica.

Situada na Bahia de Todos os Santos, a ilha de Itaparica faz parte da região metropolitana de Salvador, mas mantem características do interior, sendo conhecida pela beleza de suas paisagens e por sua importância na construção da história político-cultural do povo baiano. Assim, esta Ilha faz parte do território geográfico estrutural-sentimental tanto da origem quanto da continuidade do samba de roda na Bahia. Em suas características particulares, a execução e poética do samba de roda na ilha foi bastante influenciado pela mariscagem, pela pesca da baleia e pelos cultos às entidades mestiças do candomblé, como caboclos, marujos e boiadeiros.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Árvore da Memória: Xan Marçall ... Poéticas e Encantarias de uma Parauára

Xan Marçal: Poéticas, Encantarias e Ancestralidade de um Parauára
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Mo: Estamos aqui na Rádio Ki.Anda, invadindo a casa do multi-artista Xan Marçall (paraense radicado na Bahia) e eu nem sei por onde começar, porque Xan Marçall nos trás tantas histórias ..

Xan: Eu sou Xan Marçall, sou Parauára, de Belém do Pará. Nasci dia 28 de fevereiro de 1986, sou pisciana e filha de Alda Barros de Oliveira e Pedro Paulo Pires Moura. 

Sou do Pará e tenho toda uma ligação mística com a história do nascer, porque acho que as pessoas antes de nascer já escolheram nascer nesse lugar. Então ... antes da gente encarnar a gente já tinha consciência de todo trajeto que a gente queria percorrer nessa vida. É como se fosse uma espécie de Déja Vu, sabe? Não sei se estou falando loucura, sabe? Mas é como se a gente já tivesse visto tudo o que ia acontecer … na verdade, existem também as possibilidades de tu escreveres o teu caminho a partir de uma coisa que já foi vista, entendeu? Mas eu tenho impressão de que a gente é o total, então a gente já viu tudo, todas as possibilidades, só que a gente não tem consciência disso. Eu acho que a gente tem esse insight espiritual, essa visão espiritual de que a gente tem a visão de todas as possibilidades que a gente pode assumir na vida, só que quando a gente tá aqui nesse momento carne, osso, físico, nessa fisicalidade a gente não tem mais essa consciência, então a gente acha que o fato da gente ter escolhido um caminho foi também algo que tivesse fora de um acontecimento que a gente tivesse ciência, entendeu? Eu acho que a gente é muito desatento, descuidado … Nem sei porquê eu to falando tudo isso…

Mo: Tem a ver, porque tudo isso se conecta com o ponto inicial do nosso encontro, que é a questão da ancestralidade. Parece que tudo volta a esse ponto…

Xan: Exato. Parece que histórias de familiares se repetem na nossa vida. Tipo de traumas que nossos avós, bisavós, pais, mães não conseguiram resolver e que reverbera de alguma forma na nossa vida também. Aí tem gente que vai falar que é memória e que isso também tá na memória do dna também, que a gente acaba incorporando. Então todas essas impressões, percepções, experiências que nossos ancestrais passaram estão também na nossa história agora, estão no nosso sangue, estão nas informações genéticas, moleculares, na nossa vida.

Mo: Quais são as suas maiores inquietações existenciais?

Xan: Minhas inquietações são várias. Por exemplo, me inquietam as histórias que não foram contadas para uma grande parcela da sociedade e que eu tenho acesso, então eu quero contar essas histórias porque eu quero que as pessoas conheçam essa outra lógica, este outro imaginário, outra forma de se relacionar com o mundo, de convívio, que seria uma forma de vida mais democrática, mais respeituosa, sabe? Eu também tô nesse processo de entendimento, sabe? De respeito à natureza, de cultuar, respeitar a natureza, respeitar mais as pessoas … acho que essa é uma das coisas que eu tenho vontade de falar. 

Outras inquietações perpassam pelo imaginário, de psicologia, de arquétipo, por exemplo, tem coisas que fazem sentido para mim agora justamente porque eu acessei histórias que não permitiram que eu tivesse contato, mas que em algum momento da minha vida eu acessei. Por exemplo: quando eu era criança e me via uma criança totalmente diferente das outras crianças ou dos outros menininhos. Eu não era diferente porque eu era especial. Eu era diferente porque eu não era o mesmo modelo de todos os meus amigos e era uma merda. Enfim, vários intercruzamentos que passaram em minha vida e essa coisa do nome também é interessante. Porque eu comecei a pensar que o nome que alguém te dá é o nome como essa pessoa construiu que tu fosses. É o nome que seus pais ou seus avós construíram essa imagem dessa pessoa. Então acho que é interessante que a gente passe por algum batismo em algum momento de nossa vida que a gente re-signifique a nossa existência e dê um outro nome pra gente.

Mo: E você passou por isso, né? Você quer falar um pouco sobre seu nome?

Xan: A história do Xan Marçall foi uma coisa que eu fui exercitando aos poucos. Primeiramente, a partir de assinar uns trabalhos de ilustração como Xan Marçall. Fazendo referência a uma cantora, que tem uma grafia totalmente diferente da grafia que eu escrevo, que mais se aproxima daquilo que seria uma fonética indígena, apesar de que eu não sei se eu poderia usar essa palavra. Aí eu descobri que Xan é o nome de um pássaro, o pica pau, que é conhecido como "Xan Xan". Que cruzamento! Me encontrei com este encantado pássaro e antes disso eu tinha entendido que meu totem é uma arara vermelha, uma ave. 

Mo: Como você descobriu o seu totem?

Xan: Primeiro, foi num sonho. Não sei também se é uma imagem arquetípica, mas a imagem era de que meu corpo estava morto e tinha uma ave me picando e era uma arara. E era uma arara que eu via há muito tempo em Belém. Porque em Belém no bosque e no Museu da Residência viviam araras soltas, vermelhas vermelhas vermelhas, e super dóceis. Aí essa imagem me acompanha. Pode ser tudo invenção, mas é uma imagem que me acompanha. Eu não sei se é exatamente um totem, mas é um animal que me acompanha, um animal de poder. 

Depois que eu fui pro México eu descobri um pássaro também ligado a divindades sagradas, a ritos sagrados. E em várias etnias do Brasil, da América do Norte até a América do Sul, a arara vermelha tá ligada a rituais de morte e renascimento. As penas vermelhas delas serviam para afastar toda a energia negativa e eu pensei: "Veado! Tá tudo se conectando!" 

Mo: Você tem um trabalho profundo de investigação sobre a  morte, né?

Xan: Pois é. Eu já pesquisava esses caminhos da morte e fui descobrir essas coisas sobre as araras … aí mana, todas as coisas começaram a fazer sentido pra mim. Eu me lembro que quando tinha 16 anos eu comprei um cocar em Belém, de arara vermelha e um cordão com penas de arara vermelha e sementes de mará mará. Incrível, porque foi antes de eu começar a ter todas essas informações … Eu adoraria ter uma arara vermelha … Depois fui descobrindo várias coisas sobre as araras. Na umbanda, na encantaria, a arara é a representação de uma entidade, uma mulher que se transforma em uma arara. Então as coisas estão se conectando … Tem gente que pode  falar "A bicha tá muito mística", mas são conexões que eu vou fazendo e vai fazendo sentido na minha vida. 

Mo: Vai fazendo sentido porque você é um caboclo, né, Xan Marçal?

Xan: Mana, eu sou, porque eu sou neto de caboclo, bisneto de caboclo, então eu acho que eu tenho assumido cada vez mais isso, só que ainda é muito estranho eu falar sobre isso, sobretudo porque existe um imaginário sobre o que é ser caboclo, que foi difundido e, pelas questões que a gente tem debatido na contemporaneidade sobre a afirmação da raça, da etnia, do gênero, então … eu sou mestiço e o caboclo é, sobretudo, um mestiço. 

Mo: Ontem eu estava com você quando alguém te falou que para você ser índio, você tem que ter uns pontos de melanina a mais na pele. Essa fala talvez reflita um pouco isso que você esta falando … como você tem trabalhado isso? 

Xan: Então, segundo algumas leituras de antropólogos que vão lá na origem da palavra caboclo, alguns defendem que caboclo vem de ka'á bok, aquele que vem do mato, em tupi. Então, esse termo designava a priori as pessoas que viviam em uma região não urbana, que naquela época, eram pessoas indígenas que viviam ao redor da cidade. Eu tô pegando a experiência do Pará, da Amazônia, de um texto que eu li. Segundo estes antropólogos, algumas etnias designavam outras etnias como ka'á bok, aquele que vem do mato. Só que outros autores foram falar que caboclo queria dizer a miscigenação do branco com o nativo, os ancestros de Pindorama, enfim … não sei se essas são as palavras certas, mas pelo menos, são palavras que eu tento me aproximar melhor, enfim … 

Mo: E no seu próprio conceito?

Xan: Para mim os dois são interessantes, porque de fato eu venho de uma ancestralidade paterna que eu estou re-significando agora porque tem uma relação de afeto estranha, distante e de histórias de violências e violações dentro desta família e eu acho que e tudo uma questão de não reconhecimento de sua história ancestral, de sua força, seu potencial… então acho que  Ka'á bok me dá uma ideia interessante, já que parte da minha ancestralidade paterna veio do mato, nativos. Claro que tem portugueses também na família do meu pai. Mas tem indígenas numa escala de ancestralidade ascendente muito próximas, que não tá há 400 anos … mas que tá há 100, 80 anos atrás. Então é muito novo. E o caboclo me interessa porque eu tenho a pele clara, mas eu sou descendente de nativos da Amazônia. Então, eu posso entender que eu faço parte de uma linhagem de caboclos, também. Ou de uma linhagem de nativos da Amazônia porque a história da minha família é muito recente. Na verdade, eu tenho esse elo que ainda não se perdeu. 

Mo: E sua família tem essa consciência?

Xan: Tem a consciência, mas é uma consciência … Meu avô Macaco, se tu visse meu avô … ele tinha uma cara de um pajezão … tinha uma carrancona … e claro que ele tinha essa consciência. Eu ouvia ele dizer "É caboclo! Num sei quem é caboclo!" Tem esse linguajar muito próprio em Belém, de alguns senhores, mais velhos, a galera mais nova está perdendo "Ê caboclo! Eu sou caboclo, me respeite!" . Eu ouvi isso! Do meu avô, dos meus tios mais velhos, uns cabocão assim, sabe? E aí tem a família da minha mãe, também, mas a linhagem da família da minha mãe é mais uma coisa portuguesa.  Eu tenho a impressão de que tem gente que veio do oriente. Que eu acho necessário também eu falar dessa parte da minha mãe, que quase que eu não falo, sabe? Minha avó fala que minha bisavó Aurea falava com os desencarnados … Então, toda a minha trajetória de vida e a trajetória de meus antepassados tem essa experiência do místico, do sacro, do simbólico, do representativo, do sensível. Da cosmopercepção, só que o cotidiano, a contemporaneidade, com o que acontece na vida na cidade, as coisas vão se perdendo, e vão se perdendo cada vez mais. Na minha infância, na década de 90, eu ainda era uma pessoa muito curiosa por saber coisas da minha avó e dos meus tios, mas às vezes eu percebo que as crianças hoje não estão mais interessadas em saber histórias antigas. 

Mo: E você é um contador de histórias, né? Como você faz essa ponte entre as encantarias, as suas influências e raízes e as histórias que você conta?

Xan: A minha vida são minhas histórias. Para mim as coisas só fazem sentido enquanto coisas que me atravessam, filmes, literaturas, imagens … se tenho algum sentimento com aquilo que tá sendo falado, sendo lido. Mas eu preciso exercitá-las na ação. Acho que isso tem muito a ver também com o fato de eu ser uma pessoa que antes de fazer teatro, sempre quis vivenciar possibilidades de existência. Desde que estas possibilidades de existências me permitissem um exercício de liberdade e transbordamento. Voltando a esta palavra TRANS, daquilo que me foi imposto enquanto pessoa, enquanto ser no mundo, então por que eu não posso usar um lenço na cabeça se eu sou mulher? Por que eu não posso ser mulher ? Por que eu não posso ser bicha? Por que eu não posso ser um tatu bola? Uma arara vermelha? Uma arara piranga quando eu quiser ser? Por que eu não posso adornar o meu corpo? Por que eu não posso dar um sentido estético pra minha vida, pro meu corpo?  Então, acho que as coisas vão também se encontrando com essas minhas querências, sabe? E elas fazem sentido pra mim. Eu acredito que estou numa fase de transbordamento daquilo que se compreende enquanto um gênero binário, entre ser homem e ser mulher. E quando eu paro para pensar isso sempre me acompanhou, sempre. Mas por alguns motivos de acessibildade eu acessei um gênero que talvez correspondesse mais a uma norma que tivesse mais a ver com o meu orgão genital e aquilo que foi criado e imaginado de papel masculino que eu deveria desenvolver. Mas eu me senti muitas vezes extremamente reprimido quando eu era criança e essas coisas fazem muito mais sentido para mim agora porque a gente tá falando mais disso. E as bichas estão se degladiando por coisas bobas e segregado cada vez mais e isso tem me irritado tanto … não são só as bichas, são os movimentos todos, sabe? De periferia, de lugares considerados marginais. A gente tá se degladiando por questões tão bestas, sabe? A gente tá no mesmo corre e nos mesmos enfrentamentos. Cada um com suas dores e suas frequências de loucuras, de entrega pra vida, pra existência, mas nós somos as fudidas e os inimigos são outros. E as bichas muitas que eu conheço nesses corres de Salvador, de Belém, tão cada uma se querendo se degladiar, porque quer fazer a melhor performance … Não é, gente! é a vida! Vamos nos ajudar umas às outras. Eu acho que isso é o mais importante. É o momento que eu estou acessando porque essa literatura me foi possibilitada, por pessoas que estudaram isso e difundiram e reverberaram esse discurso, que chegou para mim só agora, aos 31 anos, enquanto americano latino, sul americano, Nortista, Parauára, Amazônida, agora nordestina. Então de fato as informações que chegam no Rio, São Paulo, não são as mesmas informações que chegam ao mesmo tempo aqui em Salvador, em Belem, ou no Acre… em comunidades que vivem na fronteira entre o Brasil e a Colombia. Quando a gente vai ver essas historias dos mitos … Hermes e Afrodite, do ciborgue, do andrógeno, os mitos de algumas etnias indígenas, a gente vai ver que estas historias sempre existiram e eles não nos deixaram ter acesso e se a gente tivesse acesso desde que éramos crianças, talvez eu não tinha sido uma criança que sofresse tanto bullyng por ser uma criança diferente. Eu não era uma criança que me travestia, mas eu era uma criança que tinha uma fala que era diferente dos outros amigos, eu tinha uma gestualidade, uma corporeidade diferente dos meus amigos que eram considerados machos dentro de um padrão do que é ser macho, do que é ser homem. Eu era a bichinha, mulherzinha … minha mãe ate me falou: "Eu nunca soube disso". E eu falei "Claro, mãe, eu nunca quis te falar sobre isso … essas coisas eu resolvia na escola". E eu ainda passava por esse tipo de coisa dentro de casa, porque meu pai foi um opressor nesse sentido também. Independente de todas as conquistas e toda a trajetória dele enquanto um rapaz negro, de periferia, filho de caboclo, neto de índio, então ele reproduziu esse sistema machista patriarcal comigo e quando meus pais separaram foi o momento de maior liberdade da minha vida. Porque eu pude, dentro dos meus condicionamente (porque eu tava condicionado) vivenciar minha liberdade. Por exemplo: eu fui transar com 19 anos porque eu tava condicionado a muitas questões sobre o sexo, sobretudo porque eu era o primeiro filho, que devia ser comportado dentro de uma lógica machista heteronormativa. E quando eu comecei a fazer teatro me ajudou bastante e comecei a entender que existe um gesto social para tudo. Então, existe uma gestualidade para demarcar também esses espaços do feminino, do masculino, do trans, do underground… do bizarro, do grotesco, e são coisas que a gente pode vivência na nossa vida, sabe? porque o ser é apenas a possibilidade das coisas. o Ser é possibilidade e eu acho que a gente tá vivendo esse momento, mas é também um momento que a gente deve ter muito cuidado para não segregar mais as manas que tão num processo de entendimento, que não se encaixam, não se vêem encaixadas nesses padrões do que a gente compreende de literatura transgênero. Eu acho que é o caminho das possibilidades, entendeu? eu gosto muito do termo não binário, assim como eu gosto do termo travestilidade. Mas eu acho que a gente é o que a gente é e só temos esse corpo, essa matéria, para exercitar todas as nossas possibilidades mesmo de existir. E eu tô nesse momento que essa mitologia, essa representação, imagens da loba, da cobra, da sereia, do boto, da vampira, da encantaria tem feito muito sentido na minha vida, na minha existência. Mas eu também certos lugares neste corpo que agora nesse momento eu não quero transbordar, transgredir e isso é super natural também. Me pergunto sempre ate que ponto esses discursos de transgredir esse corpo matéria é um discurso de liberdade. Aí eu volto à história do HIV: esse corpo que depende de hormônios, de fármacos, é um corpo que está sempre dependente. E isso é horrível, porque e no dia que não tiver? No dia que eles quiserem boicotar? No dia que eles quiserem não dar acesso? Quantas psicoses vão haver, quantas loucuras vão aparecer na vida? Enfim … é isso!  
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Fevereiro de 2018. 
Salvador da Bahia, Brasil
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